Apóstolos segundo o Evangelho (Dom Alfredo Ancel)

Acharão a seguir a digitação do Livro do Pe. Ancel “Apóstolo segundo o Evangelho”.

É um livro excelente, mais fácil para descobrir a espiritualidade do Padre Chevrier do que o Verdadeiro Discípulo. Não se encontra mais.

Acharão no início um índice. Se fizer ctrl + clic sobre uma linha, vai chegar diretamente ao parágrafo correspondente.

Tradução: Amadeo Rosa – Multinova, União Livreira e Cultural, S.A., Av Santa Joana Princesa, 12-E – 1700 Lisboa – Depósito legal: 20806 / 88

Índice

Abreviaturas

Biografias

(Ch.)    Chanoine Chambost, Vie Nouvelle du Vénérable Père Chevrier, Vitte, Lyon, 1920 (Vida Nova do Venerável Padre Chevrier)

(W.)    Henriette Waltz, Un pauvre parmi nous, L’Abeille, Lyon, 1942 (Um pobre no meio de nós)

(S.)      Jean-François Six, Un prêtre Antoine Chevrier, fondateur du Prado, Le Seuil, Paris, 1965. (Um padre, Antoine Chevrier, Fundador do Prado)

(B.)      Pierre Berthelon, Antoine Chevrier, Lyon, 1976.

Obras diversas

(V.D.) Antônio Chevrier, O « Verdadeiro Discípulo », Prado, Lyon.

(E.V.)  Chanoine Chambost, L’Esprit et les Vertus, du P. Chevrier, Vitte, Lyon, 1926. (O espírito e as virtudes)

(C.)      Cartas do Padre Chevrier, Prado, Lyon.

Textos Xerox

(P.)                  Processo de Beatificação, volumes 1, 2, 3, 4

(R.)      Regulamentos, Prado, Lyon.

(Ms.)   Manuscritos I até XIII, Prado, Limonest.

Revista do Prado

(P.P.F.)           Padres do Prado, séria francesa

(P.P.I.)                        Padres do Prado, séria internacional.

Textos Conciliares
  • (L.G.): Constituição sobre a Igreja (Lumen Gentium)
  • (D.V.): Constituição sobre a Revelação (Dei Verbum)
  • (G.S.): Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo (Gaudium et Spes)
  • (P.O.): Decreto sobre o ministério e a vida dos Padres (Presbiterorum Ordinis)
  • (A.G.): Decreto sobre a atividade missionária da Igreja (Ad Gentes)
Documentos Pontifícios:
  • (P.P.): Encíclica Populorum Progressio
  • (E.N.): Exortação Apostólica Evengelii Nunciandi
Obras do Pe Ancel:
  • C.L.C.): Pour une lecture chrétienne de la lutte des classes (Para uma leitura cristã da Luta das Classes)
  • (C.R.J.C.): Croire aujourd’hui – La rencontre de Jésus Christ (Acreditar hoje – O encontro com Jesus Cristo)
  • (D.E.V.): Dialogue en vérité (Dialogo na verdade)

O Pe Ancel

O Pe. Ancel nasceu, em Lyon, em 1898. Ordenado sacerdote, em 1923, entra em 1925 para o Prado que era nesse tempo uma pequena sociedade de padres diocesanos, fundada, em Lyon, no século XIX, pelo Padre Antônio Chevrier, para a evangelização dos pobres.

Entre 1923 e 1942, foi professor e reitor do seminário maior do Prado em Limonest, perto de Lyon.

Em 1942, foi eleito Superior Geral do Prado, cargo que ocupou até 1971. Durante este longo período, a Associação dos Padres do Prado desenvolveu-se, bastante, em França e em diversas regiões do mundo.

Bispo Auxiliar de Lyon, desde 1947, o Pe. Ancel viveu, intensamente, a preocupação da evangelização do mundo operário. Em 1954, quando Roma proibiu os padres operários, tornou-se ainda mais próximo dos trabalhadores: para isso, foi habitar no bairro popular de Gerland, e, na sua casa, na medida do que lhe era permitido, por Roma, trabalhava, manualmente, há meio tempo. Situação que durou até 1959.

Foi membro da Comissão Episcopal do Mundo Operário desde a sua fundação, em 1950 e mais tarde presidente, de 1964 a 1970.

Durante o Concílio, participou, de modo especial, na elaboração da Constituição sobre “a Igreja no Mundo Contemporâneo”.

Respondendo a múltiplos convites, empreendeu várias viagens através do mundo, como superior geral do Prado: Itália, Espanha, África, Antilhas, América Latina, Japão, Vietnam, Índia, etc.

Além de todas estas atividades, nunca parou de escrever artigos, opúsculos e livros sobre as questões do mundo operário, a evangelização dos meios mais desfavorecidos e espiritualidade sacerdotal.

O Pe. Ancel faleceu em Lyon, no dia 11 de setembro de 1984, com 86 anos de idade.

Introdução

Por que apresentar um estudo sobre a espiritualidade apostólica do Padre Chevrier?

Sabemos até que ponto a situação do mundo de hoje é desumana. Não é possível deixar de pensar em centenas de milhões de homens que passam fome; sem cessar, estamos confrontados com as diversas formas de violência: violência da repressão, de revolta; violência da guerra; agressões de toda a espécie. Perguntamo-nos até, se um gesto de loucura não provocará, qualquer dia, uma guerra nuclear e a destruição da humanidade. Também, conhecemos os esforços admiráveis que têm sido realizados, por homens e mulheres que, sem violência e, às vezes, arriscando a vida, têm levado a cabo um verdadeiro combate pela paz, pela justiça e por uma verdadeira fraternidade entre os homens. Mas estas generosidades admiráveis que dignificam a humanidade, não têm sido suficientes para afastar os perigos que nos ameaçam.

Por isso, em todos os níveis, procuram-se as reformas de estruturas necessárias para que os esforços individuais não continuem ineficazes. Estas reformas são indispensáveis, mas penso que elas estão, intrinsecamente, marcadas por uma insuficiência radical.

É por isso que queria proclamar, bem alto, uma convicção profunda: nunca chegaremos a construir um mundo, verdadeiramente, humano se, na sua construção, não pusermos em prática o espírito das bem-aventuranças, o espírito do Evangelho.

Isto tem sido dito, muitas vezes, mas as palavras não chegam. Muitas vezes o temos pedido na oração (é necessário), mas a oração não chega. Para que a humanidade consiga realizar a sua própria construção é necessário que verdadeiros cristãos tomem a sério a radicalidade do Evangelho. Não só na sua vida individual, familiar e profissional, mas também na sua vida social e política. Já, durante o Concílio, Joseph Foliet sublinhou, diante dos bispos, a necessidade da pobreza evangélica para a resolução dos problemas econômicos internacionais.

Não é só no aspeto humano que o mundo está, profundamente, perturbado e tem a própria existência ameaçada, mas também no aspeto religioso.

Realmente, apesar de todos os esforços que têm sido realizados para a evangelização, estamos sendo invadidos pela secularização e indiferença religiosa, pela moral permissiva, pela imoralidade, pelo ateísmo e pela descrença.

Claro que não se trata de abandonar os esforços feitos, até agora, para a evangelização dos homens, nossos irmãos; mas talvez não tenhamos acentuado o essencial, aquilo que o próprio Jesus afirmou desde o início da sua própria pregação: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho.” (Mc 1,15) Claro que o ensino religioso e moral são indispensáveis, os movimentos e organizações apostólicas são insubstituíveis e nós sabemos que a oração é necessária. Mas se não vamos bastante longe ao esforço de conversão pessoal e coletiva, se não nos damos inteiramente a Cristo, tornando a nossa vida conforme com a dele, não poderemos fazer parar o movimento de degradação religiosa e moral que nos invade, cada vez mais, sem provocar uma larga renovação da vida cristã. Também, neste ponto, quero proclamar a minha convicção: não basta serem bons cristãos, praticantes e perfeitos; é necessário seguir Jesus Cristo, mais de perto, numa vida, segundo o Evangelho.

Trata-se de viver o Evangelho de tal maneira que, ao olhar a vida dos cristãos, se possa ver neles o próprio Cristo. Para viver, verdadeiramente, segundo o Evangelho, não basta que o cristão impregne de espírito evangélico as suas atividades individuais, as suas relações familiares e sociais e a sua presença ativa nas estruturas. Sobretudo, é necessário contemplar Jesus Cristo, escutar a sua palavra e pô-la em prática, tal como Ele nô-la ensinou, fazendo o que Ele faria no nosso lugar. Então os homens, nossos irmãos, verão Jesus Cristo em nós mesmos. Atualmente, se queremos a sério uma renovação na Igreja, se queremos que os descrentes cheguem a pôr-se o problema de Deus, é necessário que toda a nossa vida seja reveladora de Jesus Cristo.

O que acabo de dizer não se opõe, em nada, àquilo que de belo e de grande se faz no mundo e na Igreja. Antes, pelo contrário. As reformas das estruturas e a renovação dos projetos apostólicos devem ser consideradas como indispensáveis. O Evangelho só exclui o que não está conforme com as exigências do Reino.

Mas as exigências do Reino levam muito longe. Lembremo-nos do que Jesus ensinou sobre o dinheiro, o poder, a sexualidade. Lembremo-nos, sobretudo, do seu mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Viver, segundo o Evangelho, é introduzir, no mundo, uma verdadeira revolução de Amor, começando por si mesmo.

Este convite para viver a vida cristã, verdadeiramente, segundo o Evangelho ainda não foi sentido pela maior parte dos cristãos. No entanto, são cada vez mais numerosos aqueles que se põem, a si mesmos, a questão de uma vida segundo o Evangelho.

Já falei disto, por ocasião do centenário da morte do Padre Chevrier, na homilia que fiz na Igreja de Santo André de Lyon, no dia 14 de outubro de 1979 e fiquei admirado pelo impacto que tiveram então as minhas palavras.

E hoje, volto a dizê-lo: o testemunho evangélico dos padres e dos religiosos já não é suficiente; o mundo tem necessidade de encontrar, também nos leigos, o testemunho de Cristo vivo na sua Igreja. Na verdade, a situação religiosa, no nosso país, e não só nos meios operários, sempre se tem degradado, cada vez mais, de um século para cá.

No tempo do Padre Chevrier, o problema era a indiferença religiosa e o anticlericalismo, mas apesar duma grande ignorância, subsistia certo grau de fé e encontrava-se, por toda a parte, como que um húmus cristão: era uma reminiscência quase geral dos tempos de cristandade.

Esta situação modificou-se, profundamente. Sem dúvida que entre nós ainda há reminiscências de cristandade. Conhecemo-las através das sondagens sobre a fé e a prática religiosa. Mas é necessário que estes fatos evidentes não nos escondam outra realidade: a saber, o desaparecimento da fé e mesmo do húmus cristão, em camadas cada vez mais importantes da população francesa, especialmente entre os jovens.

Na sua época, o Padre Chevrier tinha-se apercebido da necessidade, para os padres, duma conversão, segundo o Evangelho. Infelizmente, não deram a importância devida ao que ele dizia. Mas hoje, isso já não é suficiente. Não basta que haja padres que vivam, segundo o Evangelho, para que os descrentes despertem e se tornem disponíveis a ouvir a palavra de Deus. É necessário que haja também cristãos leigos que se convertam e se entreguem, totalmente, a Jesus Cristo para segui-lo de perto em conformidade com o Evangelho.

A nossa época exige, de certo modo, que haja leigos que se comprometam, permanecendo leigos, a seguir os caminhos da perfeição evangélica. O nosso mundo tem necessidade de ver um grande número de cristãos leigos partilharem, com todos, a vida de casados, o trabalho profissional e a sua presença ativa nas estruturas, vivendo, verdadeiramente, segundo o espírito das bem-aventuranças e manifestando Jesus Cristo através de toda a sua vida.

Mas como é que os cristãos podem comprometer-se e perseverar no caminho do Evangelho se os padres e os religiosos não se comprometem também nesse caminho? É que nós não somos padres ou religiosos para nós mesmos, mas para o serviço do Homem e da Igreja, no mundo. Os homens têm direito a nosso respeito. Isto não se pode demonstrar; é algo que se sente. Como é que podemos ter coragem de pedir aos leigos cristãos que sigam Jesus Cristo, mais de perto, na sua pobreza de Belém, na sua Paixão e na sua Cruz e no dom de si mesmo na Eucaristia, se nós mesmos nos recusamos a entrar, decididamente, por esta via?

De fato, no decorrer dos séculos, Deus suscitou, continuamente, na sua Igreja, testemunhas vivas do seu filho Jesus. Poderíamos evocar Santo Antão que realizou a sua vida, segundo o Evangelho, retirando-se para o deserto; São Francisco de Assis de quem celebramos este ano o oitavo centenário; mais perto de nós, o Pe. Foucauld e o Padre Chevrier; e há ainda muitos outros.

Com efeito, temos necessidade de modelos concretos que reproduzam, de algum modo, ao nosso alcance, a fisionomia de Jesus e dos seus apóstolos[1].

Temos necessidade de ser sacudidos, na nossa preguiça, na nossa falta de confiança. Ao vê-los, podemos dizer: por que não faço eu também aquilo que ele fez?

O Padre Chevrier dizia a Jesus Cristo: “Se tendes necessidade de um pobre, eis-me aqui; se tendes necessidade de um louco, eis-me aqui; Eis-me aqui, ó meu Deus, para fazer a vossa vontade”. Por que não fazemos como ele? Cabe a cada um de nós escolher o modelo que será o seu guia para ajudá-lo a seguir, mais de perto, o único Mestre, Jesus Cristo.

Quanto a mim, escolhi o Padre Chevrier; deveria antes dizer: fui seduzido pelo Padre Chevrier. De fato, pelas minhas origens sociais e pela minha cultura, eu era muito diferente dele e cheguei mesmo a pensar, durante algum tempo, que Antônio Chevrier tinha pouca envergadura. Mas este padre seduziu-me porque era verdadeiro. Tomou o Evangelho a sério. E para ele, o Evangelho não era só um ensino comparável a outros; o Evangelho era Jesus Cristo, o filho de Deus, o Salvador dos homens.

Antônio Chevrier entregou-se totalmente a Jesus Cristo, queria segui-lo mais de perto, tornando-se semelhante a Ele. E queria levar consigo, pelo mesmo caminho, os padres que aceitassem juntar-se a ele. Quis isto tudo porque Deus lho tinha pedido e também porque era isso que os trabalhadores da sua paróquia esperavam do padre. Nele, eles queriam ver Jesus.

Ao mesmo tempo em que me seduzia, o Padre Chevrier foi sempre para mim como uma acusação viva, porque se ele havia conseguido ser verdadeiro, eu não conseguia ser verdadeiro como ele. Não só eu sentia as resistências do meu ser, frente às exigências do Evangelho, mas tinha também, mais ou menos, a impressão de representar uma farsa, quando tentava viver como ele. Digo-vos tudo isto porque não queria dissimular nem a sedução que o Padre Chevrier sempre exerceu sobre mim, nem as convicções que se impuseram, a mim, graças a ele, nem as dificuldades concretas que encontrei para segui-lo. Em todo o caso, tê-lo encontrado foi para mim uma grande felicidade, e uma das maiores graças da minha vida. O que acabo de vos dizer com certeza que o descobrireis ao ler este livro. Prefiro dizê-lo, francamente, desde já.

Gostaria também de dizer a outros o essencial do que descobri no Padre Chevrier. Uma vez que o apelo a seguir Jesus Cristo, mais de perto, é hoje dirigido a todos, se bem que de maneira diferente, segundo a vida de cada um, dirijo-me a todos os meus irmãos e irmãs na Igreja de Deus, bispos e padres, religiosos e religiosas, leigos e cristãos. Peço-vos que leais este livro, deixando-vos interpelar Prado Cristo, cada um na sua situação e segundo a graça que recebeu de Deus.

A vós, leigos cristãos que, segundo os princípios do Concílio, tendes o encargo de “gerir as coisas temporais” (L.G. 9.31), eu vos digo com toda a simplicidade: não procureis copiar os padres ou os religiosos; porque há na vossa vida de leigos, em família, no trabalho profissional e nas atividades em que vos empenhais, que sois chamados a revelar Jesus Cristo seguindo-o mais de perto.

Sem dúvida, Jesus não se casou, deixou o seu trabalho profissional quando começou a evangelizar as ovelhas perdidas da casa de Israel e nunca tomou um compromisso político, no sentido estrito da palavra. Mas ao pedir aos padres e aos religiosos que o sigam no celibato, e se consagrem totalmente como Ele, ao serviço do Reino. Ele os põe ao vosso serviço para vos ajudar a cumprir bem, segundo o Evangelho, a vossa missão de leigos, que é insubstituível. Portanto, não busqueis copiar os padres e os religiosos: a vossa missão é realizar a vossa vida de leigos segundo o Evangelho.

Por isso, ao ler a vida do Padre Chevrier, que era sacerdote, distingais bem, como ele, o interior e o exterior. Claro que tereis também que viver a pobreza não só interior, mas também exteriormente, vós também sois chamados à renúncia evangélica e ao dom total de vós mesmos ao serviço dos outros; estas realizações exteriores são, de certo modo, essenciais para a vida Evangélica, mas tereis que as descobrir por vós mesmos em referência ao Evangelho e à vossa vida. Quanto mais cada um assimilar o que é interior na espiritualidade do Padre Chevrier, mais facilmente pode descobrir o modo mais conveniente de realizá-lo exteriormente. Neste sentido, tudo o que eu vou dizer sobre a conversão do Padre Chevrier, sobre as suas convicções fundamentais, sobre o Presépio, o Calvário e o Tabernáculo, sobre o apostolado e a vida em comunidade, vale também para vós.

De certo modo, através das realizações exteriores propostas aos padres, vós sereis interpelados a procurar, por vós mesmos, como podereis manifestar exteriormente, na vossa vida, o nosso único mestre e modelo, o nosso único salvador, Jesus Cristo.

A vós, meus irmãos padres, também não digo que copieis literalmente o que Jesus fez no seu templo; também não vos digo que copieis o que fez o Padre Chevrier, há um século, pois que a situação do padre hoje, não é a mesma; mas podemos, como padres, inspirar-nos no que o Padre Chevrier realizou para reproduzir, em nós, a vida de Jesus Cristo. Como ele, seremos fiéis ao nosso celibato pelo reino dos céus. Se, pelas exigências do Reino, somos chamados a exercer um trabalho profissional, como professores ou operários, por exemplo, fá-lo-emos como o próprio Jesus o faria no nosso lugar; e até se, num caso concreto, for necessário tomar um compromisso de caráter temporal, também aí atuaremos, segundo o espírito do nosso sacerdócio, como Jesus faria no nosso lugar. Não quis introduzir, no texto deste livro, aplicações concretas, porque, para mim, trata-se de evocar o Padre Chevrier tal qual ele viveu, há um século; também hoje, não podemos fazer batota em relação ao Evangelho e é só Jesus Cristo que devemos revelar na nossa vida.

Finalmente, a vós, meus irmãos e irmãs religiosos e religiosas, este livro poderá recordar, de uma maneira especial, o grande princípio que o Vaticano II proclamou com a regra suprema de todos os Institutos: “Seguir Jesus Cristo segundo os ensinamentos do Evangelho, é a principal norma da vida religiosa” (P.C. 2; a). Evidentemente, que é magnífico o trabalho que tendes realizado para renovar as vossas regras e constituições, segundo as orientações do Vaticano II, na linha própria dos vossos diversos institutos, mas esta renovação, nos textos, só terá eficácia e valor significativo na medida em que for vivida, segundo o Evangelho. Sem dúvida que tendes as vossas próprias fontes, mas todos os servidores de Deus são animados pelo mesmo espírito que é o Espírito de Jesus Cristo. É por isso que podemos ir à fonte do grande tesouro da Igreja, sem medo de sermos desviados da nossa linha particular. Na medida em que procurardes no Padre Chevrier o seu amor pelo Evangelho e por Cristo Jesus, podeis estar seguros de que, cada vez mais, sereis aquilo que o vosso Instituto e a Igreja inteira esperam de vós.

Quanto a vós, que são os membros da família do Prado, enquanto padres, irmãos e irmãs do Prado ou enquanto leigos consagrados no Instituto Feminino do Prado, evidentemente que não me esqueci de vós. Até pensei em vós de um modo especial. Apesar dos nossos limites, das nossas misérias e infidelidades, temos, na Igreja, a responsabilidade da herança do Padre Chevrier.

Sem pretensões! O que seria lamentável da nossa parte. Somos somente um pequenino instrumento que o Senhor pôs ao serviço da sua Igreja. Não faremos melhor que o Padre Chevrier; quanto mais o freqüentamos mais pequeninos nos sentimos e mais tomamos consciência das nossas deficiências. Mas a Igreja de Deus tem alguns direitos a nosso respeito e, no nosso pequeno lugar, devemos sentir ainda mais o apelo à conversão.

Disse-vos que queria apresentar-vos o essencial da mensagem do Padre Chevrier. Não é, pois minha intenção fazer uma nova biografia dele. Já há algumas e muito boas. No início deste trabalho, vou limitar-me a referir, para aqueles que não conhecem as principais etapas da sua vida e alguns traços da sua fisionomia.

Quis fazer ressaltar, da vida e dos escritos do Padre Chevrier, como que uma síntese da sua espiritualidade apostólica. Foi voluntariamente que escolhi estas duas palavras. Trata-se de uma espiritualidade e não simplesmente de um projeto de apostolado; mas esta espiritualidade é apostólica, quer dizer, completamente orientada para o apostolado. Antônio Chevrier quis ser, ao mesmo tempo e num mesmo movimento, um discípulo e um apóstolo de Jesus Cristo. Ao falar da sua conversão, dizia: “Decidi-me a seguir Jesus Cristo, mais de perto, para me tornar mais capaz de trabalhar eficazmente para a salvação das almas”.

Estou chegando ao fim da minha vida e quis escrever este livro como se fosse um testamento espiritual. Este estudo do Padre Chevrier foi muito útil para mim. Pensava que o conhecia; acabei por conhecê-lo ainda mais. O meu maior desejo é que, ao ler este trabalho, possais aproveitar mais profundamente a mensagem que ele nos transmitiu da parte de Deus.

Com sinceridade, o que desejo a todos é que chegueis a ser verdadeiros discípulos de Jesus Cristo. Que a Virgem Maria, seu perfeito discípulo, vos alcance o amor por Deus e pelos homens que há-de fazer de vós outro Jesus Cristo o serviço de vossos irmãos.

Quão admirável é Jesus Cristo! E quão admirável uma vida segundo o Evangelho!

Alfredo ANCEL

Capítulo Primeiro
Algumas etapas da vida do Padre Chevrier

1. Principais etapas da sua vida

Nascido em 1826, Antônio Chevrier era de origem popular, mas os seus pais não eram proletários. O seu pai era agente dos impostos e sua mãe possuía uma pequena oficina na indústria da seda[2].

Desde a idade de 11 anos, Antônio orientou-se para o sacerdócio. Não era um aluno brilhante; era um aluno médio, a dizer a verdade, um bom seminarista que não se fazia notar. Tinha pensado ir para as Missões, mas renunciou a este projeto[3].

Ao ser ordenado padre, em 1850, foi nomeado vigário de Santo André da Guillotière e ficou contente com esta nomeação, que o vai pôr a serviço do proletariado operário que, nessa altura, aumentava, rapidamente, nos arredores de Lyon[4].

Vigário em Santo André (1850-1857)

Foi em Santo André que Deus preparou Antônio Chevrier para seguir Jesus Cristo mais de perto. Graças a alguns testemunhos e algumas passagens das suas homilias, não sabemos até que ponto Antônio Chevrier estava preocupado, até mesmo angustiado, pela situação humana e religiosa do seu povo.

Primeiramente, estava como que obcecado pela tão grande miséria em que vivia nesse tempo o proletariado da Guillotière[5]. Numa homilia acerca do amor pelos pobres, falava “do espectáculo cada vez mais atemorizante da miséria humana que aumenta; dir-se-ia que, na medida em que os grandes da terra enriquecem, e na medida em que as riquezas se concentram em algumas mãos ávidas que as apanham, a pobreza aumenta, o trabalho diminui os salários não são pagos. Vemos pobres operários trabalhar desde madrugada até à noite fechada e nem sequer ganham o seu pão e o dos seus filhos” [6].

A propósito do trabalho das crianças, há palavras particularmente dolorosas: – “Dir-se-ia que não há outro destino senão o das máquinas à volta das quais eles se movem ou então, como alguém disse, são máquinas de trabalho, feitas para enriquecer os seus patrões” [7].

As enchentes do Rôdano[8], em 1856 foram para o Padre Chevrier uma ocasião de entrar ainda mais em contato com as famílias dos sinistrados e constatar, de mais perto, a sua situação miserável[9]. Ao mesmo tempo, sentia-se invadido por esta miséria e incapaz de aliviá-la.

Mais tarde, virá a falar da “compaixão” que apanha cá por dentro todo o nosso ser, ao ver os que estão na infelicidade[10]. Emprega sempre o termo compaixão em sentido forte: sofrer com aqueles que sofrem. Isto causava-lhe sofrimento. E o que o fazia sofrer, mais ainda, era a impossibilidade de encontrar remédio para estes homens que ele tanto amava. Dizia ele a este propósito: “Conheço muitas misérias, mas para um padre é doloroso não as poder remediar” [11].

Ao mesmo tempo, vivia, profundamente, angustiado pela miséria religiosa daquele proletariado. Naquela época, mesmo em meio operário, a maior parte das pessoas ainda tinha certa fé em Deus. As crianças eram batizadas e toda a gente queria que elas fizessem a primeira comunhão, que se fizesse o casamento na Igreja e também o enterro religioso. Mas a prática regular era cada vez mais rara e a ignorância religiosa ia sempre aumentando. Antônio Chevrier dá-se conta que a maior parte das crianças nunca vinha para a missa ou para se confessar[12]. Além disso, desde que tenham feito a primeira comunhão “afastam-se de nós” [13].

No entanto, não condena os operários como se fossem eles os responsáveis do seu comportamento religioso. Estabelece claramente a relação entre as condições de trabalho e a descristianização do mundo operário, e diz: “Nas oficinas, o trabalho absorve totalmente os operários que deixam de frequentar a Igreja, que esqueceram a doutrina religiosa visto que a fábrica, a oficina, a mecânica, os obriga a um trabalho de todos os dias e de todas as horas, sob pena de lhes faltar o pão” [14].

O Padre Chevrier não é homem para se contentar com análises. Não se pode resignar a este afastamento dos operários em relação à Igreja. Vê que os pobres não são evangelizados e não pode aceitar tal situação.

Humanamente falando, Antônio Chevrier havia feito tudo o que estava ao seu alcance, em relação a esta miséria humana e espiritual. Era um padre muito dedicado e, no plano espiritual, muito bom padre; alguns já diziam que era um padre santo; no entanto, não via resultados, sentia-se ultrapassado.

A conversão: Natal 1856

É neste contexto que se situa a “conversão” de Antônio Chevrier. É esta a palavra que ele mesmo emprega para exprimir o que se tinha passado, em si mesmo, durante a noite de Natal de 1856.

Nunca descreveu, à maneira duma Santa Teresa de Ávila, as graças que havia recebido, portanto não sabemos nada do “modo como”, mas ele próprio falou, várias vezes, deste fato. Escolhi apenas três testemunhos.

João-Maria Laffay relatou uma conversa do Padre Chevrier com os seus seminaristas. Dizia-lhes que havia sido “ao meditar sobre a Encarnação diante do Presépio do Menino Jesus que ele havia decidido entregar-se a Deus” e continuava: “Eu dizia a mim mesmo: o filho de Deus veio à terra para salvar os homens e converter os pecadores. E, no entanto, que vemos nós? Quantos pecadores por esse mundo! Os homens continuam a condenar-se. Então, decidi-me a seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, mais de perto, para me tornar mais capaz de trabalhar, eficazmente, pela salvação das almas e o meu desejo é que vós próprios também sigais, de perto, Nosso Senhor[15]”.

Eis também o testemunho da Irmã Verônica. Relata-nos uma afirmação do Padre Chevrier: “Foi em Santo André que nasceu o Prado. Foi ao meditar, na noite de Natal, sobre a pobreza de Nosso Senhor e a sua humildade entre os homens que tomei a resolução de viver o mais pobremente possível”… É, finalmente, o testemunho da Irmã Maria: “Ele dava como data da sua conversão a Festa de Natal de 1856, em que recebeu luzes muito especiais para formar padres pobres” [16].

Estes testemunhos mostram claramente o caráter apostólico da conversão do Padre Chevrier: se decidiu a seguir Jesus Cristo, mais de perto, foi para ser capaz de trabalhar, eficazmente, para a salvação dos homens. Mostram também o seu caráter comunitário: sozinho nada se pode fazer em face de tal situação: o Padre Chevrier sentiu, desde o Natal de 1856, que o Senhor lhe pedira para associar a si outros padres, e por isso devia formá-los. O testemunho da Irmã Maria é claro. De fato, o Padre Chevrier, apesar de todas as hesitações que, por vezes, o assaltaram, sempre esteve persuadido de que o Senhor lhe pedira que formasse sacerdotes pobres.

À primeira vista, os testemunhos que acabamos de citar parecem fazer alusão, não à situação miserável do proletariado da Guillotière, mas só à sua descristianização. Na realidade, os dois aspectos fundem-se num só, no apelo do Natal de 1856. Com efeito, foi a partir do próprio mistério da Encarnação e da contemplação da Pobreza de Jesus Cristo que o Padre Chevrier compreendeu que não basta ter compaixão pelos pobres e procurar aliviar a sua miséria. Se os queremos evangelizar temos que fazer aquilo que Jesus fez: temos que partilhar da sua vida e tornar-nos pobres como eles.

Veremos tudo isto melhor, mais adiante. É que estes testemunhos, apesar de seu valor, não chegam para explicar plenamente a conversão do Padre Chevrier e as exigências desta mesma conversão. As fórmulas que empregou, “seguir Jesus Cristo, mais de perto” ou “viver o mais pobremente possível” são imprecisas.

Portanto, se queremos, verdadeiramente, compreender o que foi a graça do Natal de 1856, é necessário, como diz justamente o Padre Six, estudar todas as consequências que o Padre Chevrier daí tirou para a sua vida[17].

É necessário servir-nos também dos seus escritos. Com efeito, nos seus escritos, sobretudo no Verdadeiro Discípulo e nas suas Cartas, Antônio Chevrier exprimiu plenamente o que significava a sua decisão de seguir Jesus Cristo, mais de perto.

Além disso, os escritos do Padre Chevrier permitem-nos conhecer melhor o significado dessa decisão. Se o Padre Chevrier nunca quis dizer, explicitamente, que graças tinha recebido, algumas vezes, chegou a exprimir, de uma maneira impessoal, aquilo que, à luz de Deus, ele mesmo tinha sentido.

O Natal de 1856 é para Antônio Chevrier uma referência fundamental. A sua vida ficou “definida a partir deste dia” [18].

Apesar de todas as dificuldades que virá a encontrar, nunca duvidará da origem divina da sua vocação especial.

Para ele, o Prado é obra de Deus.

Realizações sucessivas

Chamado a seguir Jesus Cristo, mais de perto, especialmente, na sua pobreza, Antônio Chevrier quer começar imediatamente. Gostaria de ter começado onde estava, mas encontrou a oposição dos seus colegas[19]. Por isso, ofereceu-se para substituir o capelão da “Cidade do Menino Jesus”, assim se chamava a obra fundada por Camilo Rambaud. Aí, poderá viver pobre e estar a serviço dos pobres; mas se está de acordo com Camilo Rambaud, no que diz respeito à pobreza e à evangelização dos pobres, não se sente chamado a colaborar com ele na sua ação social, especialmente, no que diz respeito à obra das casas para operários[20]. Acabou finalmente por se separar (1860).

Na mesma época, Antônio Chevrier havia entrado em contato com o Cura de Aristeu de quem apreciou, especialmente, o espírito de oração, a maneira de ensinar e a pobreza. Disse várias vezes, que o Cura de Aristeu o havia encorajado em relação aos seus projetos. Mas sendo padre na Guillotière, Antônio Chevrier não podia imitar um pároco de aldeia, por muito santo que fosse. A diferença torna-se visível, especialmente, no que toca à ornamentação das igrejas[21].

Uma vez que não podia continuar com Camilo Rambaud, o Padre Chevrier foi conduzido, pelas circunstâncias, a fundar, no dia 10 de dezembro de 1860, na Guillotière, uma obra para a primeira comunhão, numa antiga sala de baile, chamada o Prado.

Nunca devemos esquecer que o essencial do seu projeto é juntar a si outros padres que aceitem ser pobres, vivendo no meio dos pobres e evangelizar os pobres[22]. No entanto, não devemos minimizar a importância desta Obra do Catecismo para as crianças. Para ele, ela está em relação direta com o Evangelho. Jesus não se contentou em propor as crianças como modelos a imitar, mas pede-nos, também, que os acolhamos. Na sua época as crianças dos meios operários eram os mais pobres entre os pobres e, para algumas dentre elas, uma estadia gratuita, numa obra que as acolhesse, seria o meio mais eficaz para catequizá-las bem e prepará-las para a primeira comunhão. O Padre Chevrier via também na catequese das crianças uma boa preparação para a pregação em plena vida que ele queria incutir aos seus padres[23].

Foi aqui no Prado, que o Padre Chevrier começou a realizar a sua obra principal: formação de Padres pobres para o serviço dos pobres.

Apesar de toda a apreensão que ele sentia ao pensar que era incapaz de realizar o que Deus lhe pedia, apesar de todas as incompreensões que encontrava, apesar de todas as dificuldades, com que se deparava, mesmo com os seus seminaristas, apesar dos fracassos e das provações, perseverou nos seus esforços. Esta perseverança é um dos fatos que mais impressionam na sua vida, a par dos dois aspetos complementares: a certeza de ser chamado por Deus para realizar esta obra e a fidelidade em responder ao apelo do Senhor.

Desde o início da sua instalação, no Prado, entra em relação com alguns seminaristas e alguns padres[24]. Alguns vêm ajudá-lo, mas nenhum fica, definitivamente com ele, aceitando plenamente a sua orientação[25]. Sofre por isto, mas não desanima. Então se vê obrigado a formar ele mesmo os padres que quer juntar a si. Em 1865, dá início à escola clerical do Prado que será um verdadeiro Seminário menor.

De 1865 a 1879, ao mesmo tempo em que continua com a obra da primeira comunhão e que exerce o seu apostolado junto dos pobres na capela do Prado, ocupa-se da formação dos futuros padres, primeiro no Prado e depois os acompanhando de perto quando passavam para o Seminário Maior.

Aproveita também os poucos membros livres e, às vezes, retira-se para longe do Prado a fim de redigir o seu Verdadeiro Discípulo que será a regra de vida daqueles que, com ele, quererão ser padres, segundo o Evangelho, procurando seguir Jesus Cristo mais de perto, especialmente, imitando a sua pobreza e pondo-se a serviço dos pobres[26].

Veremos, mais adiante, os diversos elementos desta formação, mas eu quero, desde já, assinalar os aspetos mais característicos da maneira de atuar do Padre Chevrier. Tudo o que ele faz tanto para as crianças da primeira comunhão como para os alunos da escola clerical, é sempre gratuito. Não pede nada àqueles que quer formar. Além disto, evita todos os meios humanos que habitualmente são utilizados para conseguir dinheiro. Não quer pedir nada a ninguém. E defende sempre esta maneira de proceder. Para ele é um sinal de que Deus quer a obra que está levando a cabo; e é também um apelo a realizá-la segundo o Espírito de Deus. Assim só podemos contar com Deus.

A esta orientação fundamental estão ligadas duas iniciativas muito importantes, em sua opinião; por um lado, o ter tomado o encargo da paróquia de Moulin à Vent (1867-1871) [27] e, por outro, enviar os quatro primeiros diáconos para Roma, a fim de terminar a preparação para o sacerdócio ‘1876-1877). Ele mesmo vai passar dois meses, em Roma, para trabalhar na sua formação (14 de março – 26 de maio de 1877).

Em sua opinião, é necessária uma formação especial para formar padres, segundo o Evangelho[28].

O Padre Chevrier morreu aos 53 anos, gasto pelo trabalho e pela doença. Durante a sua vida, várias vezes foi apoiado pelos seus arcebispos e teve verdadeiros amigos. Mas, principalmente, no início, deparou-se com uma dolorosa incompreensão da parte de alguns cristãos, sobretudo do clero. Sem dúvida que os operários da Guillotière sempre o consideraram como um “amigo do povo pobre” [29], mas não era habitual ver os senhores padres proceder como ele. No entanto, mesmo aqueles que o não tinham compreendido, pouco a pouco, reconheceram que era um homem de Deus e que, no Prado, se realizava a obra de Deus. É certo que nem tudo era compreendido, mas sentia-se que o Espírito de Deus estava presente.

O seu enterro foi muito significativo. Participaram trezentos padres e calculou-se em dez mil o número de pessoas que iam ao acompanhamento[30]. Também se calculou em cinqüenta mil as pessoas que estavam presentes na passagem do cortejo[31]. Toda a Guillotière estava presente.

2. Um pequeno que veio a ser grande

Afinal, quem é este homem que durante a sua vida, apesar de grandes obstáculos e com pouco sucesso aparente, foi capaz de realizar uma iniciativa, verdadeiramente, diferente em relação à mentalidade e à maneira de proceder dos padres do seu tempo?[32]

Já o dissemos. Antônio Chevrier não foi brilhante nos seus estudos; é certo que era inteligente, mas, mais próximo da sabedoria popular que da cultura intelectual de tipo universitário. Sob o ponto de vista temperamental, é alguém que hesita, que teme aventurar-se e não gosta “daquilo que provoca a oposição ou a contrariedade pela parte da autoridade” [33]. Antes, pensa que a sua vocação é ficar, no seu pequeno canto, ignorado e fazer o seu trabalho conforme ele aparece sem ir muito além[34]. Seguramente que não é um ambicioso; até nos podermos perguntar se ele tinha bastante confiança em si mesmo. Confessa que é “bastante ignorante” e que não conhece os “autores que trataram as grandes questões da vida religiosa e sacerdotal” [35].

No entanto, não podemos exagerar muito as deficiências de temperamento do Padre Chevrier. Se hesitava antes de tomar uma decisão importante, era perseverante, uma vez que a tinha tomado. É certo que não é muito dado à especulação, mas, na vida concreta, vê com clareza, tanto para compreender as pessoas como os problemas que há de resolver. De fato, realizou bem o seu apostolado. Quanto às hesitações do Padre Chevrier, explicam-se também, pelo menos em parte e especialmente no que diz respeito à fundação do Prado, porque ele era suficientemente inteligente para se aperceber das dificuldades que viria a encontrar.

Não convém, portanto, sob pretexto de dar valor à graça de Deus, dominar o valor humano do Padre Chevrier. Não é um valor excepcional; mas é um valor que ressalta, nitidamente, através de sua vida. Perguntei a mim mesmo se as minhas primeiras reações espontâneas, em relação ao temperamento do Padre Chevrier, não viriam da minha formação e da minha origem social; eu não sabia reconhecer o verdadeiro valor da riqueza da sabedoria popular.

Em qualquer das hipóteses, penso que o Padre Chevrier não poderia ter realizado o que fez se não estivesse convencido que a obra que fundava era querida por Deus e se não tivesse posto em Deus toda a sua confiança.

De fato, Antônio Chevrier está certo de que Deus lhe pede que se torne pessoalmente um verdadeiro discípulo de Seu Filho Jesus Cristo, e, ao mesmo tempo, que associe a si outros padres que aceitem avançar pela mesma via que ele.

Apesar desta certeza, sofreu, durante muito tempo, uma verdadeira luta interior: estava convencido de que Deus o chamava para esta obra e, ao mesmo tempo, sentia-se incapaz de realizá-la, tanto sob o ponto de vista humano como sob o ponto de vista espiritual.

“Um dia, conta a Irmã Antoninha, uma das primeiras irmãs do Prado, atormentado por estes pensamentos, retirou-se para um bosque, ficou lá um dia inteiro e rezou: foi nesse momento, diz ele, que, vencido por uma voz interior, disse a Deus: se tendes necessidades de um pobre, eis-me aqui, se tendes necessidade de um louco, eis-me aqui.

Desde esse dia, deixou de hesitar e continuou, resolutamente, aquilo que Deus queria dele, a sua obra que começava e que encontrava tantas dificuldades. Ele mesmo nos disse isto várias vezes: eu vi todos os sofrimentos que teria de suportar “[36].

Este testemunho que data da época da fundação do Prado ajuda-nos a compreender melhor o comportamento do Padre Chevrier. Humanamente, podia ter desanimado, mas a sua fé em Deus tornou-se para ele fonte de luz e de força. Apoiado em Deus, vai, pouco a pouco, sendo capaz de avançar. No entanto, continuava com o seu temperamento e, às vezes, diante das dificuldades e dos fracassos, tinha “a tentação de se meter na sua pequena cela e de não aparecer mais[37]. Mas sabia que era uma tentação e continuava na sua caminhada. A sua disponibilidade, para com Deus, foi a força para permanecer firme até o fim; e no seu testamento espiritual, tudo é ação de graças. Agradece a Deus por tê-lo escolhido para realizar a sua obra e acrescenta: “Eis a prova de que, na verdade, Deus escolhe o que há, de menor e de menor importância para realizar as suas obras. Eu, tão pobre em ciência e virtude, e ter sido chamado para realizar esta obra do Bom Deus que deve dar grandes frutos nas almas e na Igreja!”[38]

Graças às suas qualidades humanas e à sua fidelidade total, e apesar dos seus limites, Antônio Chevrier tornou-se uma verdadeira personalidade.

Quanto mais estudo os seus escritos mais riqueza descubro nele, sob todos os pontos de vista. Este pequeno tornou-se grande, graças ao Evangelho.

Capítulo Segundo
A conversão segundo o Evangelho

O Padre Chevrier não é um teólogo e não encontraremos nos seus escritos nenhuma definição da conversão a uma vida, segundo Evangelho. No entanto, quer ajudar os padres que Deus chama a entrar neste caminho, a compreenderem o que a caracteriza. Por isso, emprega certo número de expressões que nos permitem situá-la bem. Antônio Chevrier pode dar a impressão de fazer julgamentos de valor acerca do modo de vida, comportamento apostólico ou mentalidade dos “bons padres” do seu tempo. Mas não, ele não pretende julgá-los; ao evocar o que, na maneira de atuar deles, não está conforme com o Evangelho, pode, mais facilmente, explicar o que Cristo espera daqueles que chama a segui-lo mais de perto.

O Padre Chevrier empregou, muitas vezes, a palavra conversão para dizer o que foi para ele a noite de Natal de 1856. Porém, até o fim da sua vida, como se pode ver, em especial nas suas cartas, continuou a pedir que rezassem pela sua conversão.

1. Diversas expressões do Padre Chevrier

Eis, portanto, algumas expressões que o Padre Chevrier empregou para designar aquilo que o Senhor esperava dele. Procurarei precisar o sentido delas, servindo-me das explicações dadas por ele próprio.

Viver segundo o Evangelho

O Padre Chevrier propôs dois títulos para o seu texto fundamental: O Padre, segundo o Evangelho ou o Verdadeiro Discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele sabe bem que todos os cristãos se devem inspirar, no Evangelho, para a sua vida individual, para a sua vida de família, para a sua vida profissional e para toda a sua vida social; mas, para ele, inspirar-se no Evangelho não basta; quer tornar-se conforme, o mais literalmente possível, com a vida de Jesus Cristo e aquilo que Ele ensinou; viver, segundo o Evangelho, não é só impregnar todas as suas atividades humanas do espírito do Evangelho, é imitar Jesus Cristo em tudo o que Ele fez, é pôr em prática tudo aquilo que Ele disse. É, portanto, tornar-se conforme com Ele, até mesmo na maneira de viver; é aceitar as suas orientações, mesmo se Ele as não impõe como um mandamento. Por exemplo, Jesus não se casou e viveu pobre; falou do celibato por causa do Reino dos Céus e os seus apóstolos deixaram tudo para seguir. É quanto basta para o Padre Chevrier: viverá pobremente, mesmo se não houvesse uma lei sobre o celibato dos padres, ele optaria livremente pelo celibato, por causa de Jesus e do Evangelho. É sempre neste sentido que o Padre Chevrier fala duma vida, segundo o Evangelho.

Esta maneira rigorosa de se tornar conforme Cristo e de pôr em prática aquilo que Ele ensinou, levanta, necessariamente, objeções e provoca certa resistência no nosso ser, mas diz-nos o Padre Chevrier: “Aquele que quer viver segundo o Evangelho não se deixa prender, nem por raciocínios, nem pelas paixões que se revoltam. O Mestre fala. Não têm outros pensamentos, nem outros desejos senão compreender aquilo que Ele quer e de o por em prática” [39]. E não diz: “Isto é difícil, isto é impossível; isto vai contra a prudência, contra a forma de trabalhar, nada disso. O Mestre falou, o Mestre disse, é quanto basta” [40]. A vida, segundo o Evangelho, supõe, portanto, não só uma conformidade segundo o espírito, mas também uma conformidade efetiva e total com os exemplos e aquilo que Jesus ensinou.

O verdadeiro discípulo

Esta expressão, no pensamento do Padre Chevrier, tem o mesmo sentido que a precedente, mas sublinha mais o pertencer a Cristo e a dependência total em relação a Ele, por amor. Com efeito, o verdadeiro discípulo é aquele que se entregou inteiramente, a Jesus Cristo, para se tornar conforme os seus exemplos e àquilo que Ele ensinou, dependendo do seu Espírito, para trabalhar com Ele pela salvação dos homens. O Padre Chevrier dizia: “O verdadeiro discípulo de Jesus Cristo é um homem que está cheio do Espírito de seu Mestre, que pensa como o seu Mestre, que age como o seu Mestre, que o segue em tudo e por toda a parte”[41].

A palavra “verdadeiro” tem um sentido muito forte, para Antônio Chevrier. Ser verdadeiro não é contentar-se com generosas intenções, não é ter ilusões. Se alguém quiser ser verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, deverá segui-lo por toda a parte. No Verdadeiro Discípulo, o estudo dedicado a discípulo termina assim: “Tomar a sua cruz é aceitar o sofrimento causado pela pobreza, pela renúncia às criaturas, pela renúncia a si mesmo. É aceitar as perseguições que um discípulo de Jesus Cristo terá que esperar. Quem não quiser levar a sua cruz e seguir-me, não pode ser DISCÍPULO!”[42]. A palavra “discípulo”, no manuscrito, foi destacada do texto como se fosse uma assinatura.

Também aqui, o Padre Chevrier relembra as dificuldades que, obrigatoriamente, alguém encontra quando, para ser um verdadeiro discípulo, se decide a seguir Jesus Cristo, deixando-se conduzir pelo seu Espírito. A sua maneira de falar pode parecer dura e até mesmo exagerada. É o resultado de uma experiência; “Este espírito é pouco conhecido, pouco saboreado, pouco compreendido, mesmo entre aqueles que o deviam possuir e compreender; os hábitos, os costumes, as idéias que forjamos, os raciocínios que fazemos, os exemplos exteriores, arrastam o mundo e até os padres a viver, segundo o espírito do mundo e não segundo o Espírito de Deus. De tal maneira que, se queremos viver segundo o Espírito de Deus, é necessário lutar muito contra as idéias, os costumes, as maneiras dos outros, e é também por isso que os santos, que tinham o Espírito de Deus, tiveram que sofrer tanto, mesmo por parte dos seus irmãos” [43].

Seguir Jesus Cristo mais de perto

Com esta expressão, o Padre Chevrier insiste sobre a realização efetiva e total da conformidade com Jesus Cristo e com os seus ensinamentos; seguimos Jesus Cristo, mais de perto, quando decidimos tornar-nos conformes com Ele, não só afetiva, mas efetivamente, não só num ou noutro aspeto da sua vida, mas na sua totalidade. Podemos dizer que Antônio Chevrier não escolhe, toma tudo; quer seguir Jesus Cristo na sua pobreza efetiva, na sua humildade, e na sua predileção pelos pobres, e, ainda, também no seu sofrimento, na sua morte na cruz e no dom total de si mesmo, até se tornar alimento dos homens. É o Presépio, o Calvário e o Tabernáculo, nos quais o Padre Chevrier resume toda a sua vida de Cristo[44]. Seguir Jesus Cristo, mais de perto, é também segui-Lo no seu jejum e na sua oração, na sua mansidão e na sua humildade, na sua pobreza e no seu amor pelos homens, na sua pregação e nos seus combates, nas suas perseguições, no seu sofrimento e na sua morte; então poderemos segui-lo na sua glória[45].

Esta expressão poderia significar também o caráter progressivo da realização de uma vida segundo o Evangelho: queremos seguir Jesus Cristo, mais de perto, que o seguíamos até aqui. Claro que o Padre Chevrier admite, para ele e para os outros, este caráter progressivo que é, na verdade, um dos aspetos da conversão, segundo o Evangelho. Mas, tanto quanto posso saber, ele nunca empregou esta expressão nesse sentido. Para ele, seguir Jesus Cristo de perto, de muito perto, ou mais de perto, designa, sempre, o caráter absoluto da escolha que se fez. Queremos tornar-nos conformes, efetiva e totalmente, a Cristo e àquilo que Ele nos ensinou. É nisto que consiste, para ele, a perfeição evangélica. É, também, neste sentido, que falará de padres bons e perfeitos.

Ao usar estas três expressões, o Padre Chevrier situa-se, claramente, na continuação de São Francisco de Assis, “o homem todo evangélico”. Na verdade, o “Altíssimo” havia revelado a Francisco que devia “viver segundo a forma do Santo Evangelho”. Ele queria praticar o Evangelho “à letra e sem interpretações”. “Não fazia nenhuma escolha entre as palavras de Jesus, mas propunha-se praticá-las todas, sem omitir ou transgredir uma só letra; queria, simplesmente, observar o Evangelho, integral, sem interpretações, com todo o rigor, à letra e ao mesmo tempo segundo o espírito” [46].

O Padre um outro Jesus Cristo

O Padre Chevrier gostava desta expressão de um modo especial. Colocou-a no lugar central do seu « Quadro de Saint Fons » e junta-lhe, sempre, um texto do Evangelho que, para ele, resume claramente o chamamento de Jesus Cristo: “Dei-vos o exemplo para que assim como eu fiz, vós façais também” (Jo 13,13).

O Padre Chevrier sabe que o padre participa de uma maneira que lhe é própria, do sacerdócio de Cristo, em razão da sua ordenação, dos seus poderes e da sua missão; mas não quer contentar-se com ser outro Jesus Cristo só pelos poderes; quer sê-lo na totalidade da sua vida. Pode parecer um pouco rude, mas o seu pensamento é claro: “Há, diz ele, duas maneiras de ser outro Jesus Cristo: pelos poderes e pelas virtudes. Aquele que é semelhante a Jesus Cristo só pelos poderes não passa de um homem máquina, inútil, sem fruto, que mostra o caminho, e não vai, que salva os outros e não se salva. É como um marco que indica o caminho, mas cujas letras estão apagadas, um tambor que faz barulho, um canal que leva a água e não a guarda.

“É necessário ser semelhante a Jesus Cristo, pelas virtudes, para poder ser verdadeiramente outro Cristo. É nisto que consiste a verdadeira semelhança entre o padre e Jesus Cristo. Portanto, é muito importante, para nós, estudar a vida e as virtudes de Jesus Cristo para conformarmos com Ele a nossa vida, aquilo que ensinamos, as nossas palavras e as nossas obras” [47].

Notemos mais uma vez as palavras “verdadeiro” e “verdadeiramente”. O Padre Chevrier não nega que o padre seja outro Cristo pela sua ordenação, pelos seus poderes e pela sua missão; mas já que por isso o padre é outro Cristo, ele sente-se chamado a tornar-se semelhante a Jesus Cristo, também na sua maneira de pensar, naquilo que diz e na sua maneira de proceder. Então é que ele será “verdadeiramente” outro Cristo.

Além disto, pelo comentário que faz desta expressão, vemos até que ponto o Padre Chevrier está dominado pelo desejo de se tornar, efetiva e totalmente, conforme com Jesus Cristo: “Tudo o que Jesus Cristo disse de si mesmo, o sacerdote deve também poder dizê-lo de si próprio. A nossa união com Jesus Cristo deve ser tão íntima, tão visível e tão perfeita que os homens acabem por dizer: eis outro Jesus Cristo. Devemos reproduzir, no interior e no exterior, as virtudes de Jesus Cristo, a sua pobreza, os seus sofrimentos, a sua oração, a sua caridade. Devemos representar Jesus Cristo pobre no seu presépio, Jesus Cristo sofredor na sua paixão, Jesus Cristo deixando-se comer na Santa Eucaristia” [48].

Assim, descobrimos o “estilo” do Padre Chevrier. Não rejeita o sentido tradicional que no seu tempo, tinha a fórmula: “O sacerdote é outro Jesus Cristo”, mas no Evangelho descobriu Jesus que é “o sacerdote, por excelência, o sacerdote verdadeiro, o bem-amado do Pai”. Então, para ser verdadeiro, toma-o como modelo, quer imitá-lo e conclui: “Ser semelhante a Jesus Cristo, eis o nosso trabalho contínuo, a atenção contínua do nosso espírito e o desejo sincero do nosso coração” [49]

Padres bons e padres perfeitos

O Padre Chevrier faz uma distinção entre os padres bons e os padres perfeitos. Não critica os padres bons: “aqueles que cumprem o seu dever de padre, não temos nada a dizer contra o modo como se conduzem. São até edificantes” [50], mas, continua ele, “há uma grande diferença entre os padres bons e aqueles que procuram ser perfeitos”. É que estes procuram unicamente Jesus Cristo. Põem sempre Jesus Cristo em primeiro lugar.

O Padre Chevrier, referindo-se à sua experiência e àquilo que notava nos seus colegas, pensava que a perfeição evangélica está, necessariamente, ligada a uma conformidade, o mais literal possível com a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo. Situava-se na linha de São Francisco de Assis. Mas se insiste sempre sobre a realização efetiva do Evangelho, sublinha ao mesmo tempo o aspeto interior da perfeição evangélica. Eis como fala dos padres “perfeitos”: “Os perfeitos, ou melhor, os que estão a caminho da perfeição são os padres que procuram seguir Nosso Senhor, mais de perto, que desejam trabalhar para a glória de Jesus Cristo e que sentem, em si mesmos, o seu amor e o desejam imitar na sua pobreza, na sua mansidão, na sua caridade, no seu zelo pelas almas, nos seus sofrimentos, na sua cruz. Há uma grande diferença entre os padres bons e aqueles que procuram ser perfeitos; os bons ficam neste estado e não procuram seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, de perto, imitá-lo a sério; até afastam de si a pobreza, a dedicação e o sacrifício; cuidam muito da sua pessoa e não querem contrariar o mundo e os gostos dos seus colegas; enquanto que aquele que procura a perfeição olha só para Jesus Cristo, ama Jesus Cristo e põe Jesus Cristo em primeiro lugar. Ama e procura imitar, o mais fielmente possível, aquele a quem ama. É, pois, para a perfeição que Jesus Cristo nos chama e não para um estado somente bom, que é o estado da maior parte” [51].

Esta maneira de falar pode chocar-nos. É que hoje, ninguém aceita situar-se acima dos outros, nem tão pouco ser colocado abaixo dos outros. Quis, no entanto, citar este texto porque mostra, apesar das suas deficiências, até que ponto o Padre Chevrier tinha a convicção de apresentar uma nova via que exigia o dom total de si mesmo a Cristo e, ao mesmo tempo, a realização efetiva e o mais literal possível de todo o Evangelho. Portanto, só por uma conversão é que podemos entrar nesta nova via. Trata-se de uma verdadeira mudança, interior e exterior, em relação à vida que se levava até então.

2. Uma conversão apostólica

O Padre Chevrier quer viver, segundo o Evangelho, como verdadeiro discípulo; quer seguir Jesus Cristo, mais de perto, até o manifestar pela sua própria vida, tornando-se outro Jesus Cristo; mas tudo isto, ele o quer “para se tornar mais capaz de trabalhar eficazmente para a salvação das almas”. Ele mesmo exprimiu esta finalidade da sua conversão, quando contou aos seus seminaristas o que se tinha passado e que já citei mais atrás[52]. Poderíamos quase dizer que a santidade pessoal, considerada em si mesma, como um bem individual, não lhe interessa. Fala sempre da santidade em relação a Deus e em relação aos homens, e é pela salvação dos homens que procura a glória de Deus (Jo 15,8). A propósito, pode ler-se a carta aos seus seminaristas com data de 24 de janeiro de 1872. Eis algumas passagens: “Um santo é um homem que está unido a Deus, em profunda unidade com Ele, que pede a Deus, que fala com Deus e a quem Deus obedece. É um homem que tem todos os poderes de Deus, na sua mão, é um homem que faz mover o universo quando está bem em união com o Mestre que governa todas as coisas. Os santos são os homens mais poderosos da terra; atraem tudo a eles porque tem a caridade, a luz de Deus, a fecundidade do Espírito Santo” [53].

Nas cartas aos seus seminaristas, o apelo a tornar-se um verdadeiro discípulo e o apelo a evangelizar os pobres resume-se na mesma coisa[54].

Sem dúvida que, de uma forma explícita, ele insiste mais sobre o primeiro ponto, mas o segundo está sempre presente, pelo menos implicitamente. Quer padres pobres para evangelizar os pobres.

No entanto, será bom não confundir a orientação apostólica da sua conversão, dimensão que lhe é essencial, com os diversos aspetos humanos da ação apostólica. Trata-se de níveis diferentes.

Durante a noite de Natal de 1856, o Padre Chevrier talvez tenha perguntado ao Senhor o que devia fazer para aliviar a miséria da Guillotière e evangelizar os trabalhadores, mas a resposta foi-lhe dada em nível do ser. Foi convidado a seguir Jesus Cristo, mais de perto, para trabalhar, mais eficazmente, para a salvação do seu povo. Não se trata de separar nem de opor o ser e o fazer, mas o mais importante, para o Padre Chevrier, é viver segundo o Evangelho, ser um verdadeiro discípulo e seguir Jesus Cristo, mais de perto. Aqui está o que é primordial e essencial, seja qual for a ação a que nos dedicamos.

O Padre Chevrier apresenta esta hierarquia de valores, de uma forma concreta e à sua maneira, numa carta que envia aos seus seminaristas. Estes haviam-lhe perguntado se podiam participar de reuniões organizadas pelos seus colegas para procurar, em conjunto, meios adaptados ao apostolado dos jovens. “Não me oponho de maneira nenhuma a que vos junteis a esses bons jovens camaradas, que promoveram uma pequena reunião para falar entre si sobre os meios de trabalhar para a salvação dos jovens nas paróquias. Podemos nós opor-nos àquilo que pode contribuir para a glória de Deus e para a salvação das almas? Estas pequenas reuniões contribuem para desenvolver, em nós, o zelo e o amor de Nosso Senhor; mas lembrem-se de que o grande meio é ser santo e estar cheio do Espírito Santo; se o Espírito Santo está conosco, teremos bons resultados em tudo o que fizermos. Procurai, na vossa reunião, examinar como fez Nosso Senhor e, imitando-o, não vos enganareis e caminhareis pelo bom caminho. (…) Uni-vos, pois, a estes bons jovens, e fazei florescer no, seu coração, os mistérios da vida de Nosso Senhor; ponde neles a devoção ao Espírito Santo, ao Rosário e à Via-sacra; e dizei-lhes que, pondo nas almas o amor a Nosso Senhor, convertemo-las e ganhamo-las para Deus” [55].

Nesta época, não se falava, como hoje, nem de métodos nem de técnicas apostólicas; mas no apostolado era necessário recorrer a meios humanos. O Padre Chevrier servia-se de quadros grandes para ensinamento do catecismo às crianças, mas dando a estes meios uma importância relativa. Têm certa eficácia, enquanto meios, mas não são eles que convertem e fazem crescer na vida divina. Esta eficácia vem de Deus e Deus comunica-a ao apóstolo, na medida em que este está em íntima união com Ele. Neste sentido, dizia o Padre Chevrier: “Um sacerdote santo faz mais bem que cem sacramentos que sejam apenas bons” [56]. Quando fala da eficácia, é sempre sob este ponto de vista que ele se coloca. É isto o que o Senhor lhe tinha pedido.

Assim, a conversão, segundo o Evangelho, na linha do Padre Chevrier, não tem somente uma orientação apostólica; assegura, por si mesma, a eficácia apostólica; preside à escolha dos meios a empregar e anima-os por dentro[57]. No pensamento do Padre Chevrier, não existe dualismo: de um lado, a vida interior e a santificação do padre, do outro lado, a ação apostólica. Tudo isto é uma só coisa quando, no nosso apostolado, procuramos, verdadeiramente, seguir Jesus Cristo, mais de perto[58].

O interior e o exterior

Segundo o Padre Chevrier, a conversão é, ao mesmo tempo, interior e exterior. Já sublinhei nele a vontade de se tornar efetivamente conforme com Jesus Cristo e com os seus ensinamentos e também a importância que dá ao dom total a Cristo, por amor; disse ele a propósito do Verdadeiro Discípulo: “O que guia é o amor e não outra coisa” [59].

O que é primordial para o Padre Chevrier é, sempre o interior[60]. Estaria enganado quem reduzisse a conversão a uma mudança do estilo de vida do padre e à prioridade dada aos pobres. É certo que o Padre Chevrier sempre apresentou a pobreza e o serviço aos pobres como o sinal da sua conversão e da conversão que ele pede aos seus padres, mas esta pobreza e esta orientação, em direção dos pobres, só são verdadeiras na medida em que nascem do conhecimento e do amor por Jesus Cristo. Eis como ele próprio se exprime: “Só pode permanecer o que tem fundamento em Jesus Cristo. O que está assentado, noutro fundamento, não pode durar nem ser sólido. Assim, todos os atos exteriores de obediência, de humildade, de caridade, de mortificação, não são nada se não nascerem do conhecimento de Jesus Cristo e se Jesus Cristo não é a sua origem. Estas coisas exteriores brotam, naturalmente, quando aí está a vida de Jesus Cristo; ao contrário, não passam de atos ilusórios, forçados e hipócritas, quando não nascem deste princípio que é Jesus Cristo[61].

No entanto, não se pode menosprezar o exterior. Falar da conversão do Padre Chevrier sem ir até a mudança do estilo de vida e até a partilha da vida dos pobres, seria não a compreender. Não basta realizar a conformidade com Jesus Cristo no interior do coração. É necessário realizá-la, mesmo no próprio modo de proceder. Aliás, se o exterior não aparece é, sem dúvida, sinal de que o interior também não está realizado. A propósito da pobreza e do sofrimento, escrevia o Padre Chevrier: “Nosso Senhor manifestou exteriormente o caráter da pobreza e do sofrimento; aqueles que o possuem só interiormente correm o risco de não possuir mesmo nada” [62].

Portanto, a conversão, segundo o Evangelho, é primeiramente interior; é um dom de si mesmo a Cristo. Mas, se é autêntica, exprime-se necessariamente por mudanças exteriores. Quando alguém pertence a Jesus Cristo, deve transformar o seu comportamento e também trabalhar com Ele para a salvação dos homens empregando meios adaptados. Assim, uma conversão, segundo o Evangelho, não é uma conversão puramente espiritual. Ao contrário, manifesta a sua autenticidade nas transformações visíveis que ela opera e nas atividades que ela provoca. Lembremo-nos de que Jesus dizia: “Pelos frutos se conhece a árvore” (Mt 7,15-20).

Por outro lado, a conformidade interior com Jesus Cristo impõe-se ao Padre Chevrier, também em nome do apostolado. Mais que uma vez ele ouviu trabalhadores que, duma forma ou doutra, diziam mais ou menos assim: “Estamos de acordo com Jesus, mas não estamos de acordo com os padres. Pregam o Evangelho, mas não o põem em prática”. Aquilo de que acusavam os padres do seu tempo não era de anunciar Jesus Cristo; era, sim, de não viverem como Ele. Diante desta objeção, Antônio Chevrier não discute não procura justificar-se, não condena os seus colegas, mas compromete-se inteiramente na via do Evangelho e diz: “É necessário que vejam Jesus Cristo em todo o nosso exterior… Todo o nosso ser deve revelar Jesus Cristo” [63].

Assim, o exterior tem para o Padre Chevrier um duplo valor significativo. Significa a autenticidade da conversão interior e, ao mesmo tempo, significa o próprio Cristo. O Padre Chevrier queria assemelhar-se de tal modo a Cristo que desejava ser como que uma transparência dele: “É necessário que vejam Jesus Cristo em todo o nosso exterior” [64].

Finalmente, o exterior prepara e condiciona o interior. O Padre Chevrier estava persuadido de que “a pobreza efetiva ajuda muito a praticar a pobreza interior” [65]. Dizia assim: “Quando não se pode praticar a perfeição exterior, podemos chegar até a perfeição exterior através da indiferença do espírito em relação a todas as coisas; é muito mais difícil porque quando temos a pobreza diante dos olhos, com o seu incômodo e as suas privações, é mais fácil imitar Nosso Senhor e beijar estes muros grosseiros e estas ruas cheias de buracos que nos tornam presente o presépio de Belém. Então, amamos só a Jesus, pois não há senão Ele que se apresente aos nossos olhos e nada para os desviar” [66]. É por isso que, querendo preparar os jovens para entrarem plenamente na via da pobreza evangélica, não se contentava em orientá-los para a contemplação de Jesus Cristo pobre, mas propunha-lhes uma vida semelhante à dos pobres. No regulamento da escola clerical do Prado, havia práticas de pobreza muito concretas: “Ir buscar restos de carvão para se aquecer no inverno; ir juntar pano velho para comprar pão, etc.” [67] Do mesmo modo, “à quarta-feira, que habitualmente é o dia fixado para ir passear, fica sendo dia de trabalho para todos, ou para alguns, quando for necessário trabalhar. É preciso habituar as crianças a trabalhar e não a passear. O trabalho serve de passeio e de exercício para o corpo” [68].

Há, portanto, para o Padre Chevrier, uma estreita ligação entre o interior e o exterior. A pobreza exterior prepara o espírito e o coração para compreender a bem-aventurança dos pobres, segundo o Evangelho; e, à medida que o amor da pobreza cresce, nasce em nós como que a necessidade duma pobreza ainda maior. Além disso, ao dar-nos conta de como vivem os pobres, podemos dizer: “Há tantos pobres que não têm tanto como eu, tantos pobres que sofrem e a quem falta o necessário; e que direito tenho eu então de estar mais bem alojado, melhor alimentado, mais bem vestido que estes pobres do Bom Deus?” [69]

A conversão evangélica. Mudança nas relações com Deus e com os irmãos.

A palavra conversão tem sentidos muito diferentes, mas em qualquer dos casos, quando nos convertemos, de verdade, entramos em novas relações com Deus. Assim, o descrente converte-se quando adere a Deus pela fé; o pecador converte-se quando renuncia ao pecado para tornar a sua vontade conforme com a vontade de Deus. O Padre Chevrier era, com certeza, um bom padre, era irrepreensível, tanto na fidelidade aos seus exercícios de piedade como na dedicação com que exercia o seu ministério: mas converteu-se, dando-se, por amor, inteiramente a Jesus Cristo, esforçando-se por se deixar guiar unicamente pelo seu Espírito e tornando-se, o mais possível, interior e exteriormente, conforme com os seus exemplos e os seus ensinamentos. Era realmente uma vida nova que começava.

A conversão evangélica modificou também as suas relações com os outros padres. Até o Natal de 1856, o Padre Chevrier levava um gênero de vida semelhante ao dos seus colegas e exercia o seu apostolado como eles. A partir da sua conversão, foi, por assim dizer, obrigado a certo não-conformismo com os outros padres, não só no seu modo de vida, mas também na maneira de exercer o ministério.

Quando lemos, em J.F. Six, a descrição do clero da época de Antônio Chevrier[70], vemos até que ponto ele devia parecer estranho aos seus colegas e compreendemos também porque é que finalmente teve que deixar a paróquia de Santo André.

Ao mesmo tempo, é até pelo fato da sua conversão, o Padre Chevrier sentiu-se chamado a amar ainda mais os seus colegas sacerdotes e a entrar mais profundamente em comunhão com eles. De fato, Antônio Chevrier nunca criticou pessoalmente os seus colegas; amava-os verdadeiramente e facilmente lhes prestava serviço, quando lho pediam. Apesar de tudo, não podia pensar, falar e agir em tudo como os outros. Doutro modo, não poderia ter sido fiel à sua vocação.

Porém, há que não exagerar. Apesar da sua “originalidade” evangélica, o Padre Chevrier nunca foi um padre marginalizado; no entanto, se bem que realizando os mesmos atos do ministério que os seus colegas, tinha a sua maneira própria e esta causava espanto; às vezes, até chocava. Com efeito, com o seu modo de proceder, não fazia referência à “boa maneira” de se comportar entre o clero, mas à maneira de falar e de agir do próprio Cristo. O que chocava mais era não só a sua pobreza, mas também a sua maneira de agir com os pobres. Por outro lado, os padres do seu tempo constituíam um corpo social que dificilmente aceitava os não-conformistas. Com certeza, não se queriam opor àqueles que desejavam realizar a perfeição evangélica; mas pensavam que o lugar deles era numa sociedade religiosa. Ora, o Padre Chevrier quis permanecer padre secular. As dificuldades eram, portanto, inevitáveis[71].

O Padre Chevrier preparava os seus seminaristas para esta situação inconfortável. Dizia-lhes: “Hão de apresentar-vos belos raciocínios, meus filhos; hão de fazer-vos longos discursos a fim de vos atrair para uma via diferente; hão de avançar muitos argumentos; hão de fazer valer tais ou tais vantagens, temer tais ou tais inconvenientes, porque eu sei que grande número não pensa como eu, mas eu vos digo: permanecei fiéis ao apelo de Nosso Senhor. Ele vai à frente e convida-vos a segui-lo. Sofri tanto por ficar tempo só e incompreendido! Ó, meu Deus, gritava eu, às vezes, para mim mesmo, será que nunca me enviarás alguém para me ajudar, alguém que queira aceitar viver este modo de vida e seguir-vos de olhos fechados? Como ficarei contente, queridos filhos, quando vos vir totalmente entregues a Nosso Senhor. Pudésseis vós todos ser um dia pequenas cópias vivas de Jesus Cristo na Terra! É tão belo um sacerdote segundo o Evangelho!” [72]

Este texto exprime bem os dois aspectos da conversão, segundo o Evangelho: por um lado, é preciso não se deixar vencer pelas incompreensões e pelas oposições.

Por que o Padre Chevrier nunca quis ser religioso? Tratarei, diretamente, desta questão, no capítulo 7; será mais fácil expor as razões que motivaram esta decisão, quando tiver percorrido os diversos aspetos da vida sacerdotal, tal como o Padre Chevrier a desejava. Aqui falarei somente da relação entre esta decisão e a sua conversão.

Antônio Chevrier decidiu-se a seguir Jesus Cristo, mais de perto, para se tornar mais capaz de trabalhar, eficazmente, pela salvação dos trabalhadores da Guillotière. Ora, na sua época, tornar-se religioso era renunciar a este apostolado de presença junto dos trabalhadores tal como ele desejava. Então, sem fazer uma teoria especial, reivindica simplesmente, para os padres seculares, o direito de viver, segundo o Evangelho.

“Existem, para o padre como para os fiéis, dizia ele, duas vias para ir para o céu, para Deus e cumprir a missão que lhes foi confiada: a via dos preceitos e a via dos conselhos. Os religiosos observam os conselhos evangélicos, por que é que os padres seculares não os observarão também? Será que a perfeição não é também para eles, assim como para os outros? Será que, no ministério, os padres seculares não devem aproximar-se de Jesus Cristo, tanto como os outros? Não o devem eles, ainda mais, eles que estão no meio do mundo e que devem levar, por toda a parte, o bom odor de Jesus Cristo e ser a luz viva que deve brilhar no meio dos homens?

“Os religiosos estão nos seus claustros, mas o padre é feito para viver no meio dos homens e ele, mais que os outros, deve ser mais santo e mais perfeito, pois é chamado a fazer mais bem, uma vez que está, necessariamente, em relação com os fiéis; e nós devemos ultrapassar os religiosos com esta luz, auréola de glória e de santidade, que deve brilhar nos padres que estão no ministério.

“Em todo o caso, aqueles a quem Deus concede a graça de seguir Jesus Cristo, nos seus conselhos, não devem menosprezar aqueles que observam só os preceitos.

“Cada um dará contas a Deus pelas graças que tiver recebido. Não devemos gloriar-nos de nada e procurar não dizer nenhuma palavra contrária à caridade para com o próximo; devemos pôr a render a graça de Deus e não julgar ninguém” [73]

Uma graça especial de Deus

O Padre Chevrier nunca pretendeu que todos os padres deviam seguir aquilo que ele mesmo procurava. É um homem de Igreja e sabem, bem, que a Igreja nunca impôs, aos padres seculares, a prática efetiva da pobreza evangélica. Por isso, fala de uma “graça especial” [74] para designar o apelo a viver o sacerdócio, segundo o Evangelho.

Para ele, este apelo, esta graça especial, situa-se no próprio interior da vocação sacerdotal. Se eu bem compreendi o seu pensamento, poderia exprimi-lo deste modo: “Assim como a vida religiosa é proposta aos batizados como um aperfeiçoamento e um desabrochar completo da graça batismal, também a vida, segundo o Evangelho, é proposta aos padres como um aperfeiçoamento e um desabrochar completo da consagração sacerdotal”. A graça especial de que fala não conduz a outro sacerdócio, mas a uma maneira especial de realizar o ministério e a vida sacerdotal.

Trata-se, portanto de um carisma que Deus concede a quem Ele quer, para o bem de todos (1 Cor 12,4-7). Os que receberam este carisma não têm o direito de se considerarem melhores que os outros, mas o Senhor pede-lhes que sejam fiéis. É o bem da Igreja e de toda a humanidade que está em causa: “É necessário pôr a render a graça de Deus e não julgar ninguém” [75].

Trata-se de uma graça especial e não de uma graça extraordinária. O caso do Padre Chevrier é um caso excepcional. Deus quis, pela graça do Natal de 1856, fazer dele um fundador. Não é necessário receber tal graça para se decidir a seguir Jesus Cristo, mais de perto. Basta ter compreendido o que é uma vida, segundo o Evangelho, e decidir-se a avançar por esta via. A graça exprime-se através da luz necessária para compreender e através da força necessária para se decidir.

De fato, é nesta perspectiva que o Padre Chevrier fala aos jovens ou aos padres simpatizantes do Prado. A sua maneira de proceder, com os jovens da escola clerical, mostra bem que, para ele, esta graça especial é concedida, habitualmente, àqueles que aceitam, segundo a sua idade e as suas possibilidades, deixar-se conduzir por esta via. Respeitava a liberdade dos seus seminaristas, mas, ao mesmo tempo, exortava-os vivente a avançar por esta via.

Aceitava começos humildes. Por exemplo: “Se descobrirmos uma pequenina luz, se nos sentirmos, por pouco que seja, atraídos para Jesus Cristo, cultivemos esta atração, façamo-la crescer pela oração, pela meditação, pelo estudo, para que se torne grande e produza frutos” [76]. Uma vez que a graça que nos leva a seguir Jesus Cristo, mais de perto, é uma graça especial e não extraordinária, podemos pedi-la para nós e para os outros. E esta graça não é necessária, somente, no princípio de uma vida, segundo o Evangelho, mas continuará sempre a ser necessária.

Por aqui, se compreende por que é que o Padre Chevrier rezava muito e pedia tanto que rezassem por ele e por todos aqueles que queria formar no sentido de uma vida sacerdotal, segundo o Evangelho. As suas cartas estão cheias deste pedido. E não era uma formalidade para o Padre Chevrier. Era uma convicção que se lhe impunha. Dizia ele, referindo-se ao exemplo de Cristo: “Não nos devemos admirar se vemos que Nosso Senhor rezava muitas vezes, muito tempo, e muitas vezes se retirava para rezar…, é que a prática das virtudes evangélicas é muito difícil para a nossa natureza… é preciso grandes graças para consegui-la” [77].

Uma resposta progressiva

Tanto nas cartas do Padre Chevrier, como no Verdadeiro Discípulo, vemos que insiste, ao mesmo tempo, sobre o estudo de Jesus Cristo e sobre a realização progressiva de uma vida, segundo o Evangelho. Gostaria de fazer notar, sobretudo o caráter progressivo da resposta ao apelo de Deus.

É neste sentido que se devem entender as cartas e aquilo que dizia aos seus seminaristas. Estes tinham boa vontade, mas ainda não tinham compreendido tudo e estavam ainda longe de uma realização perfeita. Dizia-lhes, por exemplo: “Pedirei a Nosso Senhor que o conheçais bem, que o ameis bastante até o seguirdes, muito de perto” [78]. E também: “Possais vós trabalhar, de todo o vosso coração, para seguirdes este bom Mestre, não de longe, mais de perto, como Ele deseja, a fim de que deis frutos e frutos abundantes” [79].

Quanto ao estudo de Jesus Cristo, adaptava-o à idade e às possibilidades dos jovens. Aos principiantes, ensinava-lhes, muito simplesmente, os mistérios do Rosário para ajudá-los a descobrir Jesus Cristo; em seguida, ajudava-os a meditar os ensinamentos de Jesus Cristo durante a sua vida pública; finalmente, é que os introduzia no seu Verdadeiro Discípulo, especialmente, por ocasião de retiros que ele mesmo pregava. Queria assim conduzi-los, progressivamente, a darem-se, por amor, inteiramente, a Jesus Cristo.

No entanto, dar-se a Jesus Cristo só é verdade, na medida em que se realiza, efetivamente, o que Jesus Cristo fez e ensinou.

É, sobretudo, nisto que se vai manifestar o caráter progressivo da realização de uma vida, segundo o Evangelho. Queria evitar todas as pressões: pensava que aquilo que é fruto de conselhos muito insistentes não é duradouro. Queria que os jovens descobrissem por si mesmo o que é que Cristo faria em seu lugar. Tinha em conta, não só a liberdade, mas também a maturidade. Com efeito, há entusiasmo de jovens que, apesar de sua sinceridade, não correspondem a uma real possibilidade[80].

Obstáculos no caminho

Desde já, queria assinalar dois obstáculos que se opõem à própria decisão de uma conversão, segundo o Evangelho: trata-se dos raciocínios e do medo. O Padre Chevrier denunciou, vigorosamente, tanto um como o outro.

Vejamos, primeiro, como fala dos raciocínios. Fala em nome de Cristo. “Se vos conduzis pelos raciocínios humanos, se consultais os vossos raciocínios, o mundo, a vossa idéia, as vossas paixões, nunca escutareis a minha palavra e nunca chegareis a pô-la em prática, porque as minhas palavras vêm do alto e os vossos raciocínios são cá de baixo. Eu sou do alto e vós sois cá de baixo”. E o Padre Chevrier junta o seu comentário: “Portanto, se Ele é do alto, deixai-vos conduzir simplesmente e não procureis pôr-vos ao nível dele, pois que Ele está acima de nós, nem rebaixar a sua doutrina com os nossos pequenos raciocínios. É o raciocínio que mata o Evangelho e tira à alma o dinamismo que nos levaria ao Senhor Jesus Cristo e a imitá-lo na sua beleza evangélica. Os santos não raciocinam tanto. E é Porque há tantos raciocinadores que há tão poucos santos!” [81]

Fala bastante, menos do medo. É que, quanto ao medo, não há explicações a dar: trata-se de vencê-lo pela fé e pelo amor. Diz unicamente: “Não tenhamos medo”, nolite timere, sou eu. E, quando fosse necessário caminhar, sobre o mar como Pedro, não seria preciso ir a Jesus, se Ele nos dissesse como a Pedro: ‘Vem’!”“?[82].

Entretanto, poderia ter analisado a origem do nosso medo, frente às exigências evangélicas. De fato, nós temos medo porque conhecemos os nossos limites, as nossas deficiências e as nossas infidelidades passadas! Temos medo porque não sabemos se, tendo perdido a vida por Cristo, a encontraremos realmente! Temos medo porque devemos morrer para nós mesmos e ainda não estamos seguros de realmente ressuscitar. Temos medo de não perseverar e ser como aquele que quis construir uma torre e não conseguiu. O Padre Chevrier não se ocupa do medo mais que dos raciocínios. Remete-nos para Jesus Cristo. A sua resposta parece-nos dura, mas é libertadora: “De que é que tendes medo? Tendes medo de ter fome, de ser perseguidos, desprezados, rejeitados? Aquele que ama Jesus Cristo, poderá ter medo de alguma coisa?” [83]

Abrir a porta

É o próprio Padre Chevrier que vai apresentar a conclusão deste capítulo: “O Espírito Santo diz, em certa parte, que está à porta e bate; diz mais ainda: diz que empurra a porta para entrar, “ecce sto ad ostium et pulso”. O nosso coração é, pois, como uma porta à qual o Mestre bate e pela qual ele procura entrar.

Ora, uma porta pode estar em várias posições. E quando alguém bate a esta porta e alguém vem ver para abrir, pode-se deixá-la fechada e não deixar entrar de modo nenhum, pode-se entreabri-la, apenas, e deixar à porta os que vêm, finalmente, pode-se abri-la, completamente, e deixar entrar os que batem. É também o que podemos fazer a Jesus Cristo, nosso Mestre, essa relação à porta do nosso coração, quando ele procura entrar.

Aquele que não abre a sua porta é o que recusa deixar entrar o Mestre, e que recusa inteiramente receber o seu Mestre para segui-lo, o que prefere seguir as suas idéias, as suas paixões, o mundo. Aquele que não abre senão metade é o que escuta sem deixar entrar inteiramente o Mestre em sua casa, permanece dono da sua casa e do seu coração. Ele escuta, mas toma só o que quer, faz disso o que quer, pega no que lhe convém e deixa o resto que não lhe agrada. Recebe o Mestre, com reserva e prudência, e escuta mais a sua razão, as suas pequenas paixões que são os seus mestres, do que o Mestre verdadeiro que quer entrar, desconfia, tem medo, não abre o seu coração, senão pela metade. E o Mestre não pode entrar para dispor como o deveria fazer.

O último abre a sua porta, completamente, e deixa entrar em sua casa o Mestre que bate. Está feliz por recebê-lo e dar-lhe um lugar de honra, escuta com prazer e não tem senão um desejo, o de compreender o que ele diz e pô-lo em prática. Não discute antes procura como poderá praticar o que ouve. Coloca-se em espírito, aos pés do seu Mestre, como Maria e não se deixa apanhar, nem pelo raciocínio, nem pelas paixões que se revoltam. O Mestre fala, ele não tem outros pensamentos, outros desejos senão compreender o que ouve e pô-lo em prática, alimentar dele a sua alma. É o amor que o guia e nenhuma outra coisa. Ele quer entrar no reino dos céus, este é todo o seu desejo. Ele calca aos pés tudo o que a razão e as paixões lhe podem dizer. Não tem senão Jesus Cristo como Mestre e não quer seguir senão a ele.

Alma submissa e generosa, não diz: isso é difícil, isso é impossível, isso é oposto à prudência, ao que é comum fazer, nada disso; o Mestre falou, o Mestre disse-o, isso me basta.

Capítulo Terceiro
Duas convicções fundamentais

Para o Padre Chevrier, viver, segundo o Evangelho, ser um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, segui-lo, mais de perto, até vir a ser outro Jesus Cristo, tal é a perfeição evangélica que nunca será realizada, mas para a qual devemos tender sem cessar, a fim de nos tornarmos mais capazes de trabalhar eficazmente para a salvação dos homens.

Viver, segundo o Evangelho, comporta dois aspetos: um interior e outro exterior. Neste capítulo, falarei especialmente do aspeto interior desta conversão, falando do conhecimento de Jesus Cristo e da dependência em relação ao Espírito Santo; no capítulo seguinte, apresentarei a realização exterior da conversão, segundo o Evangelho, ao falar do Presépio, do Calvário e do Tabernáculo. No entanto, se há uma distinção nítida entre o interior e o exterior, esta distinção nunca deverá tornar-se separação. O conhecimento de Jesus Cristo e a ação do Espírito Santo encaminham-nos para uma transformação total do nosso ser, mentalidade e comportamento; por outro lado, a conformidade exterior com Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, preparação e sinal de que interiormente nos vamos tornando, cada vez mais, iguais a Ele. Os dois aspetos são, portanto, complementares e essenciais, tanto um como outro, cada um no seu lugar.

O Padre Chevrier deu sempre prioridade ao interior, por isso, vou falar primeiro das duas convicções fundamentais sobre as quais assenta, de certa maneira, a vida, segundo o Evangelho. O Padre Chevrier formulou-as assim: “Conhecer Jesus Cristo é tudo” [84]; “Ter o Espírito de Deus é tudo” [85]. Desenvolveu, sobretudo a primeira, sem nunca a separar da segunda; é que, na realidade, estas duas convicções fazem um todo.

Quanto aos meios preconizados, pelo Padre Chevrier, para conseguir o conhecimento de Jesus Cristo e para ter o seu Espírito, são meios clássicos: a oração, o estudo do Evangelho, a renúncia completa, a si mesmo e a qualquer criatura. Mas o Padre Chevrier tem a sua maneira própria de os exprimir.

1. Conhecer Jesus Cristo é tudo

Antônio Chevrier colocava o conhecimento de Jesus Cristo acima de tudo e dizia: “Tudo está contido no conhecimento de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo” [86]. Dizendo isto, referia-se à palavra de Jesus: “A vida eterna é que eles te conheçam, a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3).

Para compreender o Padre Chevrier, quando fala do conhecimento de Jesus Cristo, devemos referir-nos à linguagem da Bíblia. Segundo esta linguagem, o conhecimento não se situa direitamente ao nível do saber.

Poderíamos seguir tudo acerca de Jesus Cristo, no plano histórico e de exegese, no plano da teologia e da espiritualidade, sem o conhecer no sentido bíblico da palavra. É que este conhecimento situa-se ao nível de uma experiência espiritual, dum encontro com Deus em Jesus Cristo. Nesta experiência espiritual, o conhecimento e o amor são a mesma realidade. Encontramos Jesus Cristo e entregamo-nos a ele, por amor. Antônio Chevrier dizia: “O conhecimento de Jesus Cristo produz necessariamente o amor” [87].

Para o Padre Chevrier, este encontro de Cristo pelo conhecimento e o amor, tem tanto valor que “o resto não é nada” [88]. Também aqui nos devemos referir à linguagem bíblica. Na Bíblia, não podemos situar Deus por comparação com o homem, nem com o universo. Só Deus é, o resto não é nada. Isto não quer dizer que o homem considerado, em si mesmo, não tenha valor. Aliás, Deus sente admiração pelo universo que criou e especialmente pelo homem feito à sua imagem e semelhança (Gen. 1,25-35). Mas, rigorosamente, falando, não os podemos comparar: situam-se em planos diferentes.

O mesmo se passa com quem encontrou Jesus Cristo pela fé. Ao encontrá-lo, “encontrou o maior tesouro… encontrou tudo”. E, em relação com este encontro de Jesus Cristo, “o resto não é nada”. Antônio Chevrier dizia a propósito do conhecimento de Jesus Cristo: “Nenhuma ciência, nenhum estudo deve ser preferido a este. É o mais necessário, o mais útil, o mais importante. Sobretudo, para aquele que quer ser sacerdote, seu discípulo, porque só este conhecimento pode formar sacerdotes. Os outros são acessórios e de circunstância” [89].

Quer dizer: este conhecimento é como que um encontro com Jesus Cristo. O filho de Deus, Salvador dos homens, tornou-se alguém para nós[90]. Somos chamados a dar-nos a Ele e sentimos a necessidade de nos converter por causa dele. Aliás, é este o único critério de um verdadeiro encontro com Jesus Cristo, pois a ilusão é possível. Há, na realidade, certo conhecimento de Jesus Cristo que pode causar, em nós, admiração para com Ele ou até uma emoção religiosa, mais ou menos intensa, mas enquanto não houver, pelo menos, certo esforço de conversão, não podemos saber se o encontro com Jesus Cristo foi autêntico.

Falar de uma experiência espiritual de Jesus Cristo, de um encontro com Jesus Cristo, é colocar-se num plano místico, porque só o Espírito Santo pode ajudar-nos a encontrar Jesus Cristo deste modo. A linguagem bíblica é, ao mesmo tempo, uma linguagem mística.

No tempo do Padre Chevrier, a palavra místico estava geralmente reservada para os fenômenos extraordinários da vida mística (êxtases ou revelações). Por isso, Padre Chevrier não a emprega[91]. E dizia, claramente, que não devemos desejar graças extraordinárias[92]. No entanto, é preciso dizer, em linguagem moderna, que o conhecimento de Jesus Cristo e a dependência do Espírito Santo, tais como Padre Chevrier os apresenta, pertencem ao plano místico. Não se trata de fenômenos extraordinários reservados a uma elite de privilegiados. O conhecimento místico, enquanto experiência espiritual, é normalmente proposta a todos os batizados. Embora o Padre Chevrier nunca tenha falado de mística, é certo que viveu o conhecimento de Jesus Cristo de uma maneira mística. Aliás, não se pode apresentar o que ele disse sobre os efeitos do conhecimento de Jesus Cristo, sem recorrer a explicações que supõem um verdadeiro encontro com Ele. Além disso, não emprega a expressão: encontrar Jesus Cristo; mas sim fala daqueles que “descobriram” Jesus Cristo!

Por outro lado, se bem que o Padre Chevrier nunca tenha feito confidências sobre as graças que tinha recebido, deixou-se trair pelas palavras, mais de uma vez. Notaremos isto, especialmente, quando tivermos de citar a sua oração “Ó Verbo, Ó Cristo”, ou quando falarmos da ação do Espírito Santo.

Quem é Jesus Cristo

No Padre Chevrier, não encontraremos uma cristologia original, mas encontramos, na sua vida e nos seus escritos, um desejo apaixonado de progredir, ele mesmo, e fazer progredir os outros, no conhecimento de Jesus Cristo. É que, para ele, conhecer Jesus Cristo é tudo[93].

Para ele, o que é primordial é que Jesus Cristo, sendo o filho de Deus, se tenha feito, voluntariamente, um homem como nós; o que é, ao mesmo tempo a sua grandeza e a sua pequenez. A sua oração a Cristo começa por estas duas palavras: “Ó Verbo, Ó Cristo!” Dirige-se ao filho de Deus, igual ao Pai, uno com Ele; mas, imediatamente, o vê humilhando-se a si mesmo para ser nosso salvador.

O Padre Chevrier nunca se demora a contemplar Jesus, no seu comportamento humano, sem se lembrar, ao mesmo tempo, que ele é o filho de Deus e o salvador dos homens. É por isso que deu tanta importância ao estudo da sua divindade e dos seus títulos. Uma vez que não posso citar tudo, reproduzo, aqui, apenas o resumo dos títulos e das grandezas de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Jesus Cristo é o Verbo Eterno. O Verbo de Deus que existe em Deus desde o princípio e que, gerado pelo Pai, é eterno como o Pai e também Deus como Ele. É por Ele que todas as coisas foram feitas e nada foi feito sem Ele. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. Veio a Terra para alumiar o mundo com a sua divina Luz; é a verdadeira luz”.

“Porque ele mesmo é o sol do Alto, o brilho e a luz eterna, o esplendor do Pai, a aparência da sua substância infinita, a imagem do Deus invisível, a sabedoria eterna, a beleza infinita do céu que se tornou visível sobre a terra. É o espelho no qual Deus se contempla e se vê a si mesmo reproduzido. É esta luz divina que nos abre os olhos para a verdadeira luz, para nos levar a conhecer a Deus e nos levar a amá-lo”.

“Foi-nos dado, para saber a nossa sabedoria, a nossa justiça, a nossa santificação, a nossa redenção. Ele é o caminho, a verdade, a vida. É ele o nosso rei, o nosso mestre, o nosso chefe, o nosso modelo”.

“Ele é o princípio de todas as coisas, o fundamento sobre o qual tudo deve assentar a raiz donde devemos tirar a seiva que nos dará a vida, o centro para o qual tudo deve convergir, o fim para onde tudo se deve dirigir. Enfim, ele é a ressurreição e a vida. Eis Jesus Cristo!” [94]

Podemos compreender melhor a “maneira” do Padre Chevrier. Se juntarmos aos seus escritos os testemunhos para o processo de beatificação. Eis um que parece traduzir bem a reação profunda de Antônio Chevrier em face do mistério da Encarnação. Dizia ele aos seus seminaristas: “Ó, meus filhos, Jesus Cristo, o verbo encarnado é a carta viva que Deus enviou ao mundo, e o mundo não sabe, e o mundo não a lê, não a quer ler! É necessário lê-la de joelhos, com muito respeito, vós meus filhos; é preciso apreender a conhecer Jesus Cristo e amá-lo. Ah! Se vós o soubésseis!” A pessoa que apresenta este testemunho acrescenta: “É impossível explicar o que ele sentia, quando pensava ou falava da encarnação. Lembro-me de ter visto lágrimas de amor, nos seus olhos, quando nos falava deste mistério e das humilhações do homem-Deus” [95]. Entre os títulos de Jesus Cristo, o Padre Chevrier escolheu especialmente os de Mestre e de Modelo. Mestre é aquele que nos ensina, vindo da parte do Pai. “Ninguém jamais viu a Deus, é o Filho que nô-lo dá a conhecer” (Jo 1,18). Ao citar este texto de São João, o Padre Chevrier lembra-nos como Deus nos falou. Desde o princípio do mundo e, muitas vezes, pelos profetas. Mas, “o que Ele tinha feito antigamente, passando, por assim dizer, à pressa, fê-lo nestes últimos tempos duma maneira muito sensível e duradoura. Ele próprio tomou a forma de homem, a fim de habitar conosco e ter tempo de nos falar e nos dizer tudo o que o Pai queria ensinar-nos por Ele” [96].

Jesus Cristo é o tempo, o Modelo. “É a imagem de Deus, o esplendor da sua glória… Quem me vê, vê o Pai. Portanto, ao vê-lo, nós vemos o Deus invisível, com todas as suas perfeições. Imitando-o, temos a certeza de agir com sabedoria” [97].

Se Jesus Cristo é o Mestre, nós devemos escutá-lo, se é o nosso Modelo, devemos ser semelhantes a Ele. A contemplação do Padre Chevrier é, ao mesmo tempo, um convite a que nós próprios nos transformemos.

Ó Verbo, Ó Cristo

Esta oração pela qual o Padre Chevrier parece ter-nos dado a compreender o fundo do seu coração, apesar da discrição que sempre guardava, contém os dois aspetos da sua oração contemplativa: uma admiração amorosa, e ao mesmo tempo, o louvor e a disponibilidade total à ação de Deus que toma posse da alma.

O Padre Chevrier deixou duas fórmulas que se completam uma à outra[98]. A seguir, reproduzo integralmente a primeira:

Ó Verbo! Ó Cristo! Como sois belo! Como sois grande! Quem será capaz de vos conhecer? Quem vos poderá compreender? Fazei, ó Cristo, que eu vos conheça e vos ame. Pois que sois a luz, deixai vir um raio desta divina luz sobre a minha pobre alma, a fim de que eu vos possa ver e compreender. Ponde em mim uma grande fé em vós, a fim de que todas as vossas palavras sejam, para mim, outras tantas luzes que me iluminem e me façam ir a vós e vos seguir em todos os caminhos da justiça e da verdade.

Ó Cristo! Ó Verbo! Vós sois meu… e meu só e único Mestre. Falai, eu quero escutar-vos e pôr em prática a vossa palavra. Quero escutar a vossa divina palavra, porque sei que ela vem do céu. Quero escutá-la, meditá-la, pô-la em prática, porque, na vossa palavra, está a vida, a alegria, a paz e a felicidade. Falai, vós sois meu Senhor e meu Mestre e não quero escutar senão a vós.

A primeira parte desta oração é, ao mesmo tempo, admiração, amor e súplica. Aquele que reza sente-se ultrapassado: “Quem será capaz de vos conhecer? Quem vos poderá compreender?” Mas sente uma imensa necessidade de conhecer ainda mais: “Pois que sois a luz, deixai vir um raio desta divina luz sobre a minha pobre alma, a fim de que eu vos possa ver e compreender”. No segundo texto, Antônio Chevrier chega a empregar esta fórmula ousada: “Deixai-me lançar um olhar sobre vós, ó beleza infinita” [99].

A segunda parte da oração, a mais longa, está orientada para a transformação do discípulo em conformidade com a palavra do seu Mestre, mas não se pode compreender, senão em relação com a primeira parte, que é uma contemplação gratuita. É porque encontrou, verdadeiramente, em Jesus Cristo, o Verbo de Deus, em todo o esplendor da sua luz que o discípulo pede que as palavras de Cristo se tornem luzes e que seja também uma força que o façam avançar em todos os caminhos da justiça e da verdade”.

Finalmente, porque sabe que ele vem do céu, o discípulo sabe também que encontrará na palavra do “Seu único Mestre… a vida, a alegria, a paz e a felicidade”.

Amar e seguir Jesus Cristo

Este conhecimento de Jesus Cristo, cultivado pelo estudo e pela oração “produz, necessariamente, o amor e quanto mais conhecemos Jesus Cristo, a sua beleza, a sua grandeza, a sua riqueza, mais o nosso amor cresce para com Ele” [100]. Este amor não é um amor sentimental que busca satisfação afetiva; trata-se de um amor que faz sair de si mesmo e que nos entrega inteiramente a Cristo. É um amor que é esquecimento e dom de si mesmo. É um amor que permite, ao verdadeiro discípulo, vencer todas as resistências e todos os obstáculos, venham donde vierem. É um amor que orienta e anima toda a sua vida. Já citamos esta palavra de Antônio Chevrier que diz do Verdadeiro Discípulo: “É o amor que o guia, e nada mais” [101]. Finalmente, é a partir deste amor que o conhecimento de Jesus Cristo chega a ser transformador e apostólico. É o amor que nos empurra a tornar-nos semelhantes a Ele e a agir, com Ele, para a salvação de nossos irmãos.

Antônio Chevrier dizia assim: “Quando amamos alguém, sinceramente, somos felizes em segui-lo, em caminhar pelas passadas. Gostamos de o ver, de ouvi-lo, e fazemos tudo para imitá-lo” [102]. Por isso, a decisão de querer vir a ser um verdadeiro discípulo, tornando-se conforme a Cristo e obedecendo aos seus ensinamentos, não se impõe como uma regra jurídica; transforma-se numa necessidade. Sentimos necessidade de nos tornarmos semelhantes a Ele porque o amamos e nos sentimos felizes em nos deixarmos guiar pelo seu ensinamento. O próprio Jesus tinha dito: “Aquele que conhece os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama” (Jo 14,21). É no mesmo sentido que se deve compreender esta afirmação de Antônio Chevrier: “Imitar Jesus, eis o meu único objetivo, a finalidade de todos os meus pensamentos e ações, o objeto de todos os meus desejos e aspirações” [103]. É a santidade vivida concretamente em todas as ocupações do sacerdote.

Imitar Jesus Cristo não é copiá-lo literalmente. É como explicava o Padre Chevrier, realizar, pelas nossas palavras e pelos nossos atos, aquilo que Ele próprio diria e faria se estivesse na mesma situação[104]. Encontraremos a mesma orientação quando falarmos da dependência em relação ao Espírito Santo[105]. Já citei, a este propósito, um texto fundamental: “Todos os atos exteriores de obediência, humildade, caridade, mortificação exterior, não servem para nada se não nascem do conhecimento de Jesus Cristo e se não é Jesus Cristo o seu princípio. Estas coisas exteriores surgem naturalmente, quando nelas está a vida de Jesus Cristo; ao contrário, não passam de atos ilusórios, forçados ou hipócritas, quando não brotam deste princípio, que é Jesus Cristo” [106].

Conhecer Jesus Cristo é dá-lo a conhecer

O Padre Chevrier sempre estabeleceu uma unidade profunda entre o conhecimento e o anúncio de Jesus Cristo. Escrevia ele à irmã Verônica: “Não estamos aqui para isto e para isto somente: conhecer Jesus Cristo e seu Pai e dá-los a conhecer aos outros? Não é isto tão belo e não temos aqui de que nos ocupar toda a vida sem ir procurar, noutro lado, com que ocupar o nosso espírito? Todo o meu desejo é ter Irmãos e Irmãs catequistas. Eu próprio trabalho, nesse sentido, com alegria e felicidade; a nossa vida e o nosso amor está em saber falar de Deus e dá-lo a conhecer aos pobres e aos ignorantes” [107]. E se isto é válido para os irmãos e as irmãs do Prado, com mais razão vale para os padres. Repete-o, continuamente, nas suas cartas, aos padres e aos seminaristas. No Verdadeiro Discípulo, depois de ter contemplado Jesus e os apóstolos, na sua pregação, o Padre Chevrier tira uma conclusão: “Pregar é a grande missão do padre” [108].

Ao mesmo tempo, estabelece uma interligação recíproca entre o conhecimento e o anúncio de Jesus Cristo. Por um lado, se alguém conhece Jesus Cristo e se o ama, verdadeiramente, sentirá o desejo de anunciá-lo. Não será só discípulo, mas quererá ser também testemunha. É precisamente isto que impressionava os que ouviam o Padre Chevrier. Ele falava de Jesus Cristo como de alguém que conhecia de verdade e com quem vivia. Dizia: “O padre deve estar sempre pronto a falar de Nosso Senhor” [109]. Quanto à sua preparação, esta “consistia, sobretudo, na sua união habitual com Deus, no seu espírito de oração, na meditação contínua dos mistérios e das verdades evangélicas” [110].

Por outro lado, encontrando-se em face da ignorância religiosa do seu tempo, o Padre Chevrier sentia-se chamado a ser um bom catequista, pregando como o próprio Nosso Senhor tinha feito, de uma maneira simples e adaptada. Jesus falava-nos daquilo que tinha ouvido do Pai “de tal modo que ouvindo Jesus Cristo é o Pai que nós ouvimos” [111]. O Padre Chevrier queria assim que, ouvindo-o, se ouvisse Jesus Cristo[112].

Apaixonado por Jesus Cristo

Antônio Chevrier é, antes de tudo, um apaixonado por Jesus Cristo. Encontrou Jesus Cristo e, para ele, Jesus Cristo é tudo. Ficou a ser a sua vida e vive para Ele: “Eu vivo para Jesus Cristo: como quem vive para a terra, para os filhos, para a esposa, para os amigos. Vivo para Jesus Cristo, é a ocupação da minha vida, o meu pensamento habitual, o objetivo da minha existência. Força que faz andar” [113]. Há palavras que vêm, frequentemente, quando escreve: amor, desejo, ardor, loucura. Para ele, a perfeição do discípulo está ligada à intensidade do amor: “O degrau mais ou menos elevado de Fé e amor que nós temos para com Ele fará com que sejamos mais ou menos apaixonados por Ele e fará de nós discípulos mais ou menos perfeitos” [114].

Em Jesus Cristo, o Padre Chevrier vê, antes de tudo, o nosso Deus, o nosso Salvador, o nosso Mestre, o nosso Modelo: devemos “recebê-lo como nosso Deus, amá-lo como Salvador e segui-lo como nosso modelo” [115]. Antônio Chevrier entregou-se inteiramente a Jesus Cristo sabendo que ele “não quer homens a meias, quer-nos na totalidade da nossa pessoa” [116]. Para ele, “todas as palavras de Jesus Cristo são preceitos” [117]. Sim, “é o amor que o guia e nada mais” [118]. Tudo o que deseja é ser um só com o seu Mestre bem amado.

Em o Verdadeiro Discípulo, ao escrever os efeitos que produz o conhecimento de Jesus Cristo, deixa transparecer o que ele próprio sentia: “Aquele que encontrou Jesus Cristo, não aprecia nada mais que Jesus Cristo; deixa tudo para possuir Jesus Cristo[119]. Não quer agradar senão a Jesus Cristo, e nem sequer tem medo de passar por louco por amor de Jesus Cristo[120]. Nada o pode separar de Jesus Cristo”; toda a sua felicidade está em seguir Jesus Cristo “ [121]. Finalmente, “não vive senão para Jesus Cristo” [122]. É então que toma consciência de ter “encontrado o maior dos tesouros. O resto não é nada “[123].

Penso que cada uma destas afirmações representa a sua experiência pessoal. No entanto, não se apóia nesta experiência, mas apoia-se na palavra de Deus. É por isso que, no que escreveu, encontramos, sobretudo, textos da Escritura; mas, para daí tirar, verdadeiramente, proveito, é necessário lê-los como Antônio Chevrier os lia, como uma palavra que Deus lhe dirigia, pessoalmente, e que para ele se transformava em luz e vida.

Há somente algumas palavras de comentário e também estas palavras é preciso lê-las como ele próprio as escreveu, como que uma reação que brotava de si mesmo, em eco a palavra de Deus. Por exemplo, depois de ter dito que aquele que encontrou Jesus Cristo “não aprecia nada mais que Jesus Cristo”, diz simplesmente: “Porque Jesus Cristo é tudo para ele”. Esta frase pode parecer banal, mas, sendo vivida, é formidável. Pois é evidente que, se verdadeiramente Jesus Cristo é tudo para nós, nós não podemos apreciar nada mais que Jesus Cristo. Então, Antônio Chevrier cita São Paulo que “exprime muito bem” uma experiência semelhante à sua[124]. Igualmente, aquele que encontrou Jesus Cristo “deixa tudo para alcançar Jesus Cristo porque, para ele, Jesus Cristo é tudo” [125]. Aqui, não estamos no campo do raciocínio, mas na presença de uma luz e uma força que arrastam; então Antônio Chevrier cita os apóstolos: “Quando encontraram Jesus abandonaram as redes e os seus familiares e seguiram-no” (Mc 1,38) [126].

Só podemos compreender estas páginas, se ligarmos, intimamente as palavras da escritura e a experiência pessoal vivida pelo Padre Chevrier. Daí a força de algumas afirmações: “Que o mundo pense o que quiser, pouco me importa; que me considere como um louco, pouco me importa; eu pertenço a Jesus Cristo. Sigo-o. Cominho pelas suas passadas” [127]. Portanto, não nos podemos contentar com “percorrer” estas linhas, é necessário deixar-se embeber por elas. Que densidade tinha para o Padre Chevrier esta expressão tão simples: “Eu pertenço a Jesus Cristo”! Para ele, tratava-se de pertencer, verdadeiramente, sem limites. É com a mesma atenção que devemos ler esta frase: “Aquele que encontrou Jesus Cristo, encontrou a sabedoria, a luz, a vida, a paz, a alegria, a felicidade, na terra e no céu, o fundamento sobre o qual pode construir o perdão, a graça; encontrou tudo” [128].

Poderemos então compreender melhor a sua formula: “Conhecer Jesus é tudo, o resto não é nada” [129].

2. Ter o Espírito de Deus é tudo

Antônio Chevrier que tinha dito: “Conhecer Jesus Cristo é tudo” [130], afirma também: “Ter o Espírito de Deus é tudo” e precisa: “É tudo para si mesmo, é tudo para uma comunidade” [131]. Há, portanto, uma estreita relação entre estas duas convicções fundamentais. De fato, se tivermos encontrado Jesus Cristo, experimentamos a necessidade, não só de nos entregarmos a Ele, mas também de sermos guiados pelo Espírito. Igualmente, só podemos ter a certeza de ser guiados pelo Espírito de Deus, se conhecemos Jesus Cristo, suficientemente, para falar e agir como Ele faria em nosso lugar e se o amamos bastante para renunciar ao nosso espírito, a fim de sermos conduzidos por Ele.

Ao ler os escritos do Padre Chevrier, especialmente as suas cartas, vemos até que ponto conhecer Jesus Cristo e ter o Espírito de Deus são uma e a mesma coisa. O verdadeiro discípulo é aquele que conhece Jesus Cristo, que o ama e faz tudo para imitá-lo; é também aquele que não se conduz pelo seu próprio espírito, mas pelo Espírito de Deus.

Ilusões e falsas pistas

Quando o Padre Chevrier pergunta a si mesmo onde está o bom espírito, não se coloca num ponto de vista de análise teológica; sabe que o Espírito Santo age em todas as pessoas e em todos os grupos humanos; por toda a parte podemos encontrar sinais do Espírito Santo. Mas pensa direitamente na maneira de agir dos cristãos e nos argumentos que inventam para se justificarem. E tem em vista não só os fiéis, mas também os padres e as religiosas que podem também ter ilusões e enveredar por caminhos errados.

No seu tempo, muitos tinham toda a confiança na ciência: “O bom espírito não está na ciência, nem no gênio”. Comenta ele: “Quantos sábios que, infelizmente, não têm o Espírito de Deus! Ele não está no gênio, no raciocínio, porque os pensamentos dos homens são vãos e nós não somos capazes, por nós próprios, de ter um bom pensamento. Pode-se ser sábio, saber bonitos raciocínios, ser grande filósofo, grande matemático, saber todas as ciências e não ter o Espírito Santo” [132]. E junta uma observação, a partir do Evangelho: “A prova que o Espírito Santo não está, forçosamente, na ciência, nem nos sábios é que Jesus Cristo escolheu os seus apóstolos entre os pobres e os humildes para realizar a sua grande Obra” [133].

“O Espírito de Deus também não está, diz o Padre Chevrier, no sábio, no filósofo, no teólogo, apesar de que estas ciências vêm do Espírito Santo; podemos possuir estas ciências sem ter o espírito que é o Espírito de Deus; não vemos, tantas vezes, os maiores teólogos cair no erro e abandonar a verdade? A ciência e o raciocínio, muitas vezes, matam e destroem a simplicidade e o bom senso que vêm diretamente de Deus e do Espírito Santo”.

A partir da sua experiência, menciona os “pequenos” que têm o Espírito de Deus mais que certos teólogos e diz: “Há almas que sentem a verdade, naturalmente, e que a aceitam com alegria e felicidade, assim que a veem; estas almas têm mais o Espírito de Deus que os grandes sábios teólogos que não conseguem chegar lá senão por raciocínios e deduções que nunca mais acabam. Deus pôs, em algumas almas, um sentido espiritual e prático que contém melhor senso e Espírito de Deus que o que existe na cabeça dos maiores sábios. Como prova disso, alguns bons camponeses, alguns bons operários, algumas boas operárias, mulheres que compreendem logo as coisas de Deus e sabem explicá-las melhor que muitos outros” [134].

Outros pensam que basta ter “títulos, lugares, dignidades e honras” para ter o Espírito de Deus. A resposta do Padre Chevrier aparece como uma chicotada: “Pode-se ser padre, cônego, bispo, superior, religioso e não ter o Espírito de Deus, porque o Espírito de Deus não está agarrado aos títulos, às honras, às dignidades; elas supõem-no, mas não o dão” [135]. Poderá pensar-se talvez: “Mas, para Antônio Chevrier, em que é que fica a autoridade hierárquica na Igreja? Em que é que fica a obediência aos superiores?” Tratarei, diretamente, destes problemas, mais adiante, mas posso dizer, desde já que, para o Padre Chevrier, não havia problema. Ele sabia que se deve obedecer aos bispos, na fé e que é também, na fé, que se deve obedecer aos superiores, numa comunidade. E afirma que deve amar aos seus superiores e obedecer-lhes com confiança. Para ele, o problema não se põe diretamente ao nível daqueles que obedecem, mas ao nível daqueles que têm a autoridade: “Devemos pensar, caridosamente, diz ele, que aqueles que têm uma dignidade, um hábito santo, ou um posto elevado, têm o Espírito de Deus; mas aqueles que ocupam essa dignidade devem supor que o não tem e empregar todos os meios para o adquirir” [136].

O Padre Chevrier denuncia, de uma maneira particularmente vigorosa, o caminho errado que nos conduz a dar a prioridade ao exterior. Não se trata de desleixar o exterior, ele é necessário, mas desde que se lhe dá a prioridade, pomos obstáculos ao Espírito de Deus.

Ele fala, a este propósito, dos métodos pedagógicos do seu tempo e para explicar o seu pensamento, apresenta a comparação entre uma árvore artificial e uma árvore natural. A árvore artificial pode parecer-se, perfeitamente, com a árvore natural, mas “não tem vida nenhuma, é morta; só tem vida artificial, uma aparência de vida. Foi o homem que a fez. Deus não juntou nada de si mesmo… Na árvore natural, ao contrário, o homem fez pouca coisa; o homem plantou, podou, regou, mas foi Deus que a fez crescer… Por mais bonita que seja a árvore artificial, será sempre uma árvore morta e, a outra, uma árvore de vida” [137].

O exterior é também, para ele, certo número de meios apostólicos recomendados na sua época. Fala das grandes igrejas que se constroem, com muito dinheiro, e diz: “Havia mais cristãos sólidos nas catacumbas que nas nossas belas igrejas. Há alguns que se preocupam demais com os meios exteriores para chamar a atenção e pensam converter. Como se enganam e estão em contradição com o Evangelho!” [138]

A referência a Cristo

Para encontrar o Espírito Santo, não nos devemos, pois deixar ir por caminhos errados. Temos que nos pôr em referência com Jesus Cristo. É Ele o caminho. É Ele também o nosso modelo. Seguindo este caminho, tornando-nos conformes a este modelo, apreenderemos a viver na dependência do Espírito Santo.

O Evangelho diz: “O Espírito Santo está nele, repousa sobre Ele, Ele recebeu-o sem medidas” [139] (Jo 3,34). “Porque está nele, Ele não faz nada por si mesmo; todas as suas palavras e as suas ações estão conformes ao pensamento e à vontade do Pai, sendo ditadas pelo Espírito Santo que é a união destas duas pessoas” [140]. “Ouvindo Jesus Cristo e o seu Pai, há um só Espírito, uma só maneira de pensar e de agir; é o mesmo Espírito que pensa e julga; o mesmo Espírito que age sempre em união com o Pai e o Filho. De maneira que, ouvindo Jesus Cristo, é o Pai que nós ouvimos; Ele fala a linguagem de Deus, diz São João” [141].

Já que são estas relações de Jesus com o Espírito Santo, o Padre Chevrier tem um só desejo: realizar em si próprio a mesma atitude de Jesus Cristo. “Aquele que tem o Espírito de Deus não diz nada por si mesmo, não faz nada por si mesmo. Tudo o que diz tudo o que faz assenta numa palavra ou numa ação de Jesus Cristo que tomou por fundamento da sua vida. Jesus é sua vida, o seu fundamento, o seu fim. ‘Não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim’ (Gal 2,29)” [142].

Este texto de São Paulo manifesta dois aspetos complementares, na atitude do discípulo. O verdadeiro discípulo renunciou ao seu próprio espírito, com todos os defeitos que o marcam e, em particular, a sua independência espontânea em relação a Deus[143]; vive, portanto, com um espírito novo que é o Espírito de Cristo, o Espírito Santo[144].

Falaremos mais tarde da renúncia ao próprio espírito, mas era necessário dizer, desde já, que só se pode viver sob a influência do Espírito Santo, na medida em que se tenha renunciado ao seu próprio espírito: é uma vida nova que começa toda ela marcada pelo mistério pascal e pela infância espiritual.

Jesus falou a Nicodemos de um novo nascimento, o que vem do alto, e de uma vida nova que vem do Espírito (Jo 3,36). Antônio Chevrier cita estas palavras[145] e junta-as ao texto de Mateus sobre a infância espiritual: “Se não voltardes a ser como criança, não entrareis no Reino de Deus” (MT 18,3) [146].

Esta nova vida está toda ela marcada pelo amor: “Eis o princípio de todas as nossas ações: a caridade, o amor, a vida de Deus. O Espírito de Jesus Cristo está na caridade: aí está o princípio de vida que vem do Espírito Santo, que é amor por essência” [147].

Teremos, realmente, entrado, nesta nova vida, quando as nossas palavras e os nossos atos chegarem a estar em conformidade com os de Jesus Cristo. Por isso, o Padre Chevrier nos pede que “estudemos Nosso Senhor, escutemos a sua palavra, examinemos as suas ações, a fim de nos tornarmos conformes a Ele e nos enchermos do Espírito Santo” e continua: “Já que tudo o que Jesus Cristo disse, tudo o que Ele fez, foi feito inspirado pelo Espírito Santo, é preciso, pois, estudar as suas palavras e os seus atos, e conformar a nossa vida e as nossas palavras, àquilo que Ele diz, àquilo que Ele fez, e então agiremos e falaremos segundo o Espírito Santo. Aqui temos uma regra certa e segura para nos encher do Espírito Santo e pensar e agir segundo Ele” [148].

Vemos, por aqui, até que ponto o conhecimento transformador de que falamos está, intimamente, relacionado com a dependência do Espírito Santo. E esta nova vida, em tudo igual à de Jesus Cristo, em tudo dependente do Espírito de Deus, será, necessariamente, uma vida apostólica. Aliás, só o fato de na nossa vida reproduzirmos a vida de Jesus Cristo pela ação do Espírito Santo, já é uma evangelização: “É preciso que nos mostremos, em espetáculo, ao mundo, morando num estábulo, vivendo sobre a Cruz, deixando-se consumir, todos os dias, como Jesus Cristo. Então converteremos o mundo” [149].

Como intervém o Espírito Santo

Antônio Chevrier afirma, explicitamente, que “a ação do Espírito Santo é desconhecida e independente da ação humana” [150]; no entanto, se bem que reconhecendo o aspeto transcendente da ação do Espírito e a sua absoluta liberdade, em relação aos nossos esforços humanos, o Padre Chevrier, pela sua experiência pessoal, sabe bem que, por vezes, a ação do Espírito Santo é mais ou menos apercebida em nível da consciência. Já vos falei da sua grande reserva em relação às graças místicas. É por isso que devemos estar muito atentos quando ele fala das intervenções do Espírito Santo. Não há que temer nele, nem a inflação verbal nem a inflação sentimental.

Fala do assunto, primeiro no nível da oração e do conhecimento de Jesus Cristo: “É preciso que seja o próprio Deus que nos leve a compreender a sua palavra e o que Ele próprio diz. Porque ninguém sabe o que existe em Deus, senão o Espírito de Deus”… “É preciso que seja o Espírito Santo que nos mostre o sentido das coisas espirituais e divinas e que nos descubra, sobretudo, um coração para sentir e nos atrair para Ele; e se sentimos ou compreendemos alguma coisa, saibamos que todo o bom sentimento, todo o bom pensamento de fé e amor vêm do próprio Deus e agradecer-lhe por isso” [151].

Aqui não se trata de intervenções extraordinárias, mas, no entanto, fala de uma “graça especial” [152]. Esta graça começa a agir, muito humildemente, mesmo nos principiantes e ele diz-lhes: “Sentis nascer em vós esta graça? Quer dizer, sentis uma atração interior que vos empurre para Jesus Cristo? Um sentimento interior que é cheio de admiração por Jesus Cristo, pela sua beleza, pela sua grandeza, pela sua bondade infinita que o leva a vir a nós, sentimento que nos toca e nos leva a dar-nos a Ele. Um pequeno sopro divino, que nos impulsiona, que vem de cima, ex alto, uma pequena luz, sobrenatural, que nos ilumina e nos faz ver um pouco Jesus Cristo e a sua beleza infinita. Se sentimos, em nós, este sopro divino, se nós percebemos uma pequenina luz, se nos sentimos atraídos, por pouco que seja, por Jesus Cristo, ah!, cultivemos esta atração, façamo-la crescer com a súplica, a oração, o estudo, a fim de que cresça e dê frutos.” [153]

Não é só na oração que o Espírito Santo se manifesta. Devemos estar sempre prontos a receber as suas intervenções: “Ouve-se este som, mas não se sabe donde vem, nem para onde vai, sopra onde quer. Vem, até nós, no momento em que menos esperamos. Quando o procuramos, não o encontramos; quando não o procuramos, encontramo-lo; é independente da nossa vontade, do momento, do tempo e da hora; vem quando quer, a nós compete recebê-lo quando vem. Ele tem a liberdade de ação e é independente de nós, mas se comunica a nós quando menos pensamos; não está no raciocínio nem no estudo, nem nas teorias, nem nas regras; é o fogo divino que mexe sempre, que se eleva ao alto de modo irregular, se manifesta e desaparece como a chama do madeiro; importa apreendê-lo e alegrar-nos com ele quando se manifesta… e conservá-lo todas as vezes que se nos comunica.” [154]

Para o Padre Chevrier, estas intervenções do Espírito Santo não parecem extraordinárias; supõem, entretanto, que nos tenhamos “libertado da vida natural que nos prende e nos absorve” e isto não se consegue de um dia para o outro. “É preciso lutar muito tempo contra os defeitos, espirituais e carnais, é preciso ter estudado muito tempo o santo Evangelho, é preciso ter rezado muito tempo, para pedi-lo. Como são raros aqueles que preenchem todas estas condições” [155]. Antônio Chevrier insiste também sobre o silêncio e a disponibilidade. “É difícil ser bastante dócil, bastante silencioso, para poder sempre receber bem e seguir estas inspirações. As suas inspirações são tão tênues, tão delicadas, tão imperceptíveis, por vezes, para não dizer sempre, que é muito difícil captá-las, compreendê-las e aceitá-las” [156].

Estes textos conduzem-nos ao aspeto místico de Antônio Chevrier. Não é só na contemplação de Cristo que ele é um místico; é-o também pelo seu comportamento pessoal, pelo seu comportamento apostólico. Em todo o caso, é o Espírito Santo que conduz, é Ele que “nos dá a conhecer Jesus Cristo” [157] e “que produz Jesus Cristo em nós” [158]. É Ele que nos faz compreender aquilo que espera de nós.

Não haverá, nesta maneira de agir, certo riso de iluminismo? Com certeza; mas Antônio Chevrier tem dois pontos de referência que lhe permitem proteger-se disso. Primeiro, refere-se, constantemente, ao Evangelho. Não são as suas idéias ou as suas teorias que o comandam, mas a sua referência a Cristo. Por outro lado, refere-se à Igreja e muito especialmente ao Papa e aos bispos. Nunca se separa de Jesus Cristo e da Igreja. Aliás, Antônio Chevrier exprime, claramente, o seu pensamento no Verdadeiro Discípulo e o texto que vou citar encontra-se na mesma página em que fala das intervenções do Espírito Santo. Lembrando o exemplo dos santos que, por fidelidade ao Espírito Santo, encontraram dificuldades na sua vida e ação, dizia: “Não é a isso que devemos dar atenção; é preciso apoiarmo-nos em Jesus Cristo e na sua palavra; é este fundamento inabalável e sólido em que nos podemos apoiar tranquilamente: Jesus Cristo e a Igreja. Apoiado sobre estas duas bases pode avançar em absoluta segurança, apesar das contrariedades, dos combates, das lutas e das perseguições” [159].

3. Como conhecer Jesus Cristo e como ter o Espírito de Deus

Há conversões que se realizam sem nenhuma preparação, pelo menos aparente. Por exemplo, a conversão de São Paulo. Normalmente, devemos prepararmo-nos para receber o dom de Deus e cooperar com Deus na obra da nossa conversão. Depois de reconhecer que o Espírito de Deus é raro, o Padre Chevrier afirma que depende só de nós o poder recebê-lo, enchendo-nos do Evangelho, pondo-o em prática[160]. Com efeito, “os que têm o Espírito de Deus são aqueles que rezaram muito, e que o pediram durante muito tempo. São aqueles que estudaram durante muito tempo o santo Evangelho, as palavras e ações de Nosso Senhor, que viram como os santos atuavam, e como eles conformavam a sua vida à de Jesus Cristo, que trabalharam muito tempo a reformar, em si mesmos, o que é contrário ao Espírito de Nosso Senhor” [161]. São também “aqueles que não se deixam conduzir pela ciência nem pelos raciocínios, mas pela fé e pelo Espírito Santo” [162]. Finalmente, são aqueles que sabem aceitar a incompreensão, o desprezo e, às vezes, a perseguição. Com efeito, a maior parte das pessoas consideram o Evangelho impossível de praticar, exagerado, utopia, coisa do outro mundo. É assim que muitos lutam contra o Espírito de Deus, às vezes, mesmo bons padres; gostamos mais de seguir a rotina, o hábito, o que é ordinário: não gostamos da perseguição “[163].

Os pontos em que o Padre Chevrier insistiu mais, são, portanto, a oração, o estudo do Evangelho, a renúncia a si mesmo. A cada passo, o Padre Chevrier insiste também sobre a perseverança no esforço: é preciso rezar muito e pedir durante muito tempo; é preciso ter estudado durante muito tempo o santo Evangelho; é preciso ter trabalhado durante muito tempo para reformar-se. Estas expressões parecem-me capitais. Não basta decidir-se, de uma vez para sempre. Não, isto não é suficiente. Foi até o fim da sua vida que Padre Chevrier rezou, estudou o Evangelho e trabalhou para a sua conversão[164].

Pedir o Espírito de Deus

No tempo do Padre Chevrier, não se punha em causa o valor da oração de súplica e, segundo as orientações da Escola Francesa, pedia-se a graça de conhecer Jesus Cristo e de ser guiado pelo seu Espírito, mas, se assim se pode dizer, muitas vezes faltava audácia na oração. Não se chegava a pedir uma verdadeira conversão, segundo o Evangelho.

Para compreender o ensino do Padre Chevrier sobre a oração, será necessário situarmo-nos, como ele, na perspectiva de uma vida interior e exteriormente, em conformidade com Jesus Cristo e na perspectiva de uma dependência total em relação ao Espírito Santo.

Claro que ele não põe de parte os pequeninos começos, mas, persuadido de que é necessária “uma graça especial” para conhecer Jesus Cristo e se entregar totalmente a Ele, sabendo que “só o Espírito Santo nos dá o sentido das coisas espirituais e divinas”, exorta a todos aqueles que querem encontrar Jesus Cristo a “exercer, sobre si, certa violência, rezar, pedir, fazer penitência” [165]. É que, quando se quer, realmente, obter a graça de uma vida, segundo o Evangelho, a oração é absolutamente necessária. É deste modo que Antônio Chevrier fala do assunto, para ele mesmo e para os outros.

Insiste, particularmente, na oração, quando se trata de viver, segundo o Espírito de Deus: têm o Espírito de Deus “aqueles que rezaram muito e o pediram durante muito tempo” [166]. Aconselha que se repita, muitas vezes, esta invocação: “Meu Deus, concedei-me o vosso Espírito” [167]. Ele gostaria que esta invocação fosse uma oração permanente, a cada momento. É que o Espírito de Deus é tudo “[168].

No Evangelho, ele entendeu o que Jesus dizia sobre a oração: “É preciso orar sempre, sem nunca desanimar” (Lc 18,1). Antônio Chevrier exorta-nos, portanto, a rezar sempre, continuamente, a cada momento. Contempla também o exemplo extraordinário da oração de Jesus e reflete sobre este exemplo: “Não devemos estranhar ao ver Nosso Senhor Jesus Cristo rezar tão freqüentemente, tanto tempo e retirar-se tantas vezes para orar e dar-nos o exemplo de uma oração tão assídua; é porque a virtude sobrenatural é tão grande e a prática das virtudes evangélicas tão difíceis para a nossa natureza, que nós temos necessidade de tantas graças para praticá-las; e, como veremos a propósito das virtudes sublimes da mansidão, da humildade, da caridade, da pobreza, são necessárias grandes graças para consegui-las” [169].

Ao mesmo tempo, insiste, sem cessar e de muitos modos, sobre a necessidade da oração, especialmente para aqueles que querem vir a ser verdadeiros discípulos, põe claramente uma condição fundamental para se ser atendido; é a disponibilidade para com Deus: “É preciso pedir o Espírito de Deus com a intenção real de recebê-lo, com vontade de fazer todo o possível para consegui-lo, com a vontade de fazer todos os sacrifícios possíveis para o possuir e o receber; doutro modo, não o poderemos receber e Deus não no-lo poderá dar” [170]. Assim, a oração de pedido, sem, de modo nenhum, suprimir a responsabilidade humana e o esforço pessoal, exige de nós que avancemos pelo caminho exato que pedimos. Viver, segundo o Evangelho, é esperar tudo de Deus, mas este esperar não é passivo; é um esperar que nos obriga, por respeito para com Deus e para com a nossa dignidade humana, a fazer tudo o que depende de nós[171].

Estudar o Evangelho

Quando sabemos o que foi a vida de Antônio Chevrier, perguntamo-nos como é que este homem, que sempre esteve tão ocupado, conseguiu encontrar o tempo necessário para estudar o Evangelho da maneira como o fez. Ninguém, penso eu, tentou contar as citações do Evangelho e dos Escritos Apostólicos que se encontram nos seus manuscritos; ele aproveitava até mesmo as doenças e os tempos de convalescença para se dedicar ao estudo. Era, verdadeiramente, um homem do Evangelho. Transformou em regra para todos os pradosianos aquilo que fazia. A questão: “Como podemos adquirir o Espírito de Deus?”, responde ele: “Estudando o Santo Evangelho, e rezando muito. É preciso, primeiro, ler e reler o Santo Evangelho, embeber-se dele, estudá-lo, conhecê-lo de cor, estudar cada palavra, cada ação, para compreender o seu sentido e fazê-lo passar para os próprios pensamentos e as próprias ações. É na oração de cada dia que é necessário fazer este estudo e que é necessário fazer entrar Jesus Cristo na própria vida. Recitar o Rosário, fazer a Via Sacra, estudar os ensinamentos de Nosso Senhor, é nisto que encontraremos, cada dia, alguma luz do Espírito Santo e chegaremos, pouco a pouco, a tornar a nossa vida, conforme com a vida de Jesus Cristo” [172].

Nunca separava o estudo do Evangelho da oração. O estudo do Evangelho, tal como nô-lo propõe, não é um estudo exegético; também não é um estudo teológico. Corresponde, sim, à palavra de Jesus: “Felizes aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28). É essencialmente um estar à escuta de Deus: “Abri os meus ouvidos à vossa divina palavra, a fim de que eu possa ouvir a vossa voz e meditar os vossos ensinamentos, abri o meu espírito e a minha inteligência, a fim de que a vossa palavra possa entrar no meu coração e eu a possa saborear e compreender. Ó Verbo, ó meu Mestre, ó meu Chefe e meu Rei! Falai, eu quero escutar a vossa divina palavra, quero escutá-la, meditá-la e pô-la em prática porque, nesta palavra, há a vida, a alegria e a felicidade” [173].

Deste modo, o Evangelho não é um livro que se possa estudar, em si mesmo, sem referência a Deus que, pelo seu Espírito, nos faz entrar na verdade total (Jo 16,15). O Evangelho é Jesus que nós contemplamos e escutamos.

Entretanto, não basta olhar para Jesus Cristo, o seu ensinamento, é preciso pôr em prática, quer dizer, realizar, na própria vida, uma verdadeira conformidade com os exemplos e os ensinamentos de Jesus Cristo. Neste sentido, é que o Padre Chevrier dizia: “É na oração de cada dia que temos que fazer este estudo e temos que fazer entrar Jesus Cristo na nossa própria vida” [174].

“Aquele que escuta a palavra de Deus e não a põe em prática, dizia Jesus, é semelhante a um homem insensato que construiu a sua casa em cima da areia. Caiu à chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa e ela desmoronou-se; e grande foi a sua ruína!” (Mt 7,26-27).

É nesta atitude contemplativa e nesta vontade de conformidade com Jesus Cristo que nós devemos prestar atenção ao filho de Deus, nosso Mestre e nosso Modelo, e a todos os aspetos concretos da sua vida humana: “O Espírito de Deus encontra-se no Santo Evangelho, a palavra de Deus; eis onde se encontra o Espírito de Deus, a verdade. Nos pequenos pormenores da vida de Nosso Senhor, nas suas palavras, nas suas ações; é principalmente aqui que encontramos o Espírito de Deus” [175]. “Para conhecer uma casa é preciso entrar nela e utilizar as divisões que a compõem. Para conhecer o Evangelho é preciso entrar nele e ver os pormenores e pôr em prática aquilo que lá encontramos; basta entrar um pouco, estudar os seus pormenores para compreender, logo de início, como esta casa é bela, grande, perfeita. É, verdadeiramente, a casa da Sabedoria. No estudo do Evangelho, descobrimos Nosso Senhor, a verdadeira luz; aí encontramos o regulamento para a nossa vida já feito, bem preparado, com todos os pormenores; só que é necessário procurá-lo e encontrá-lo aí” [176].

Esta atenção aos pormenores é característica do estudo do Evangelho à maneira do Padre Chevrier. Não tem por objetivo procurar no Evangelho a justificação das nossas próprias idéias; também não nos desvia da atenção o significado global duma ação ou dum ensinamento; mas a partir do concreto da vida e das palavras de Cristo, quer levar-nos a compreender as riquezas da sua Encarnação e conduzir-nos a tornarmo-nos semelhantes a Ele, mesmo nos pormenores da nossa vida quotidiana, até podermos dizer como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim” [177]. Portanto, não se trata de copiar, literalmente, o que Jesus fez num outro contexto histórico e cultural, mas trata-se sim de nos impregnarmos de todo o seu comportamento, de tal modo que possamos hoje falar e agir, concretamente, como Ele falaria e agiria em nosso lugar[178].

A este propósito, poderá ler-se o Anexo II do Verdadeiro Discípulo: Conhecer o Evangelho[179]. Este texto começa assim: “Na vida de Nosso Senhor, encontram-se a sabedoria e a luz. É nestes pequenos detalhes que encontramos toda a regra de conduta e que encontramos a perfeição e um ensinamento seguro e segundo Deus, pois que é o próprio Deus que se manifesta a nós. Para que serve o Evangelho se não se o estuda? Para bem conhecer o Evangelho, é necessário entrar nos pequenos detalhes de cada fato, de cada ação; é aí que encontramos a sabedoria”. Não nos pede que meditemos sobre cada pormenor, mas que nos deixemos impregnar por estes pormenores, como se estivéssemos presentes em cada ação de Cristo, como se estivéssemos ouvindo cada uma das suas palavras. É uma presença concretizada, junto de Jesus, pela fé. Sim, estudar o Evangelho, à sua maneira, é colher do mistério da Encarnação o maior fruto possível. Então poderemos dizer como ele: “Ó Verbo, Ó Cristo, como sois belo, como sois grande… que todas as vossas palavras sejam, para mim, outras tantas luzes que me iluminem e me façam ir para junto de vós e seguir-vos por todos os caminhos da justiça e da verdade” [180].

É, pois, necessário unir oração, estudo e esforço de conformidade com Cristo, nas nossas palavras como nas nossas ações. Tudo isto constitui uma só coisa. E quando anunciarmos o Evangelho, ainda então, será em referência àquilo que tivermos estudado e vivido. Ser discípulo de Jesus Cristo, testemunha do Evangelho, pregador do Evangelho, é uma e a mesma coisa. Até porque é o mesmo Espírito que nos dá a conhecer Jesus Cristo, que “realiza Jesus Cristo em nós” [181] e nos leva a anunciar Jesus Cristo.

Renunciar a si mesmo

Na época atual, encontramos não só uma oposição generalizada a tudo o que é renúncia e abnegação, mas, também, uma incompreensão fundamental em relação a tudo o que possa parecer um obstáculo à realização pessoal e coletiva do homem. No tempo do Padre Chevrier, a renúncia e a abnegação não eram rejeitadas por princípio, mas dizia-se, simplesmente, que não havia necessidade de ir tão longe; os pontos de referência estavam no que era permitido ou proibido. O Padre Chevrier quis ultrapassar esta concepção moralista e viver, segundo o Evangelho.

Para ele, é claro que não podemos ser, totalmente, de Jesus Cristo e ser conduzidos pelo seu Espírito, se não aceitamos renunciar a nós mesmos e às criaturas, ou se, sob pretexto de viver com os outros, nos queremos identificar totalmente com eles. Evidentemente que não apresenta a renúncia e o não conformismo como uma finalidade. A única finalidade é entregar-se, inteiramente, a Jesus Cristo e deixar-se conduzir pelo seu Espírito. Mas não se pode atingir esta finalidade sem aceitar as exigências da abnegação e da renúncia evangélica. Igualmente, não podemos seguir Jesus Cristo, mais de perto, se nos deixamos conduzir por comportamentos coletivos, estranhos ao Espírito do Evangelho. Não é possível conhecer, verdadeiramente, Jesus Cristo, identificar-se com Ele e deixar-se conduzir pelo Seu Espírito, se não se aceita renunciar a si mesmo, perder a própria vida,[182] seguindo as fórmulas utilizadas pelo próprio Jesus Cristo (Lc 9,23-24).

O Padre Chevrier pede-nos, sobretudo, que renunciemos, completamente, ao nosso próprio espírito para acolher, verdadeiramente, a palavra de Deus. Doutro modo, não poderemos conhecer Jesus Cristo e não o poderemos seguir no seu exemplo e nos seus ensinamentos, porque Deus se revela somente aos pequeninos (Mt 11,25). É por isso que o Padre Chevrier nos pede que “recebamos a palavra de Deus como uma criança recebe a palavra do seu mestre[183]. A propósito deste aspeto, Antônio Chevrier é bastante duro nas suas afirmações. Diz, por exemplo: “Que havemos de discutir com Jesus Cristo, o divino Mestre? Ou quereis ser perfeitos, ou não? Se não o quereis, dizei simplesmente: não quero seguir este caminho, mas ficar no caminho inferior e acabou-se “[184]. Ele sabe quanto é preciso lutar para guardar esta simplicidade de criança e diz-nos: “A palavra de Deus é tão elevada, tão pura, tão celestial, tão superior a nós, que quando a ouvimos, as nossas mil pequeninas paixões se levantam e se revoltam contra ela, porque se situam em oposição a esta mesma palavra que as condena e as destrói”.

“O nosso coração e o nosso espírito gritam. A nossa avareza, a nossa negligência, o amor do bem-estar e do conforto, o orgulho, a busca de si mesmo e das suas satisfações, tudo isto se levanta, ao mesmo tempo, contra esta palavra divina e considera que é exagerada, impossível, que o Evangelho é uma loucura e que não é possível pô-lo em prática.”

“Então, dizemos que não queremos ser exagerados, que é preciso ter certa prudência, que o Evangelho é bom só para um pequenino número, só para os santos, que é difícil demais chegar até lá. E então, ouve-se com precaução e reserva e, sob pretexto de prudência, deixa-se o Evangelho para seguir a sua pequena razão. Isto, se observa todos os dias no que diz respeito à pobreza, à penitência, ao sacrifício, à generosidade, às virtudes, verdadeiramente, evangélicas” [185].

Sim, Jesus Cristo é admirável; é magnífico deixar-se conduzir pelo seu Espírito, mas se queremos avançar, nesta via, é necessário ter confiança em Deus que nos chama a aceitar a sua palavra, tal qual ela é. Para o Padre Chevrier há uma evidência que se impõe: não se pode ser sacerdote, segundo o Evangelho, se não se aceita deixar-se guiar por Jesus Cristo, sem estar com raciocínios, nem discussões. É necessário ter confiança em Jesus Cristo que nos chama.

Antônio Chevrier é, ao mesmo tempo, um realista e um homem de Fé. Sabe bem que só se pode viver, em amor total, se renunciar a si mesmo. Amar – dar-se, esquecendo-se de si mesmo. Quando alguém quer entregar-se totalmente, é necessário que a renúncia seja total: “Jesus quer que renunciemos a tudo para sermos dele. Não quer homens a meias. Quer-nos, mas a pessoa toda, completa” [186]. Dizia também: “Como seguir um homem que vai tão depressa e que sobe tão alto… se não estamos nós próprios desempecilhados de tudo o que possa impedir a caminhada” [187]. Além disto, no Padre Chevrier, a renúncia aparece sempre ligada ao amor. Depois de lembrar as exigências de Jesus, quanto à renúncia, à família e ao mundo, a si mesmo e aos bens da terra, o Padre Chevrier continua: “A caridade é o sinal distintivo do verdadeiro discípulo de Jesus Cristo e é para chegar até esta caridade que Nosso Senhor exige todas estas condições, sem o cumprimento das quais, não há caridade perfeita nem verdadeiros discípulos. Pois, como é que poderemos amar a Deus e ao próximo se estamos agarrados às criaturas? Como é que poderemos amar a Deus e ao próximo se nos amamos a nós mesmos? Como é que poderemos amar a Deus e ao próximo se estamos agarrados aos bens da terra?” [188]

O Padre Chevrier insiste também na necessidade de ser livre, se quiser seguir Jesus Cristo, mais de perto, deixando-se guiar pelo Espírito de Deus. Ora, sem renúncia não se chega à verdadeira liberdade; tornamo-nos escravos do dinheiro, do bem-estar, das próprias ambições e do próprio egoísmo. Ao contrário, aquele que renunciou a si mesmo não se perturba com nada; não presta atenção às injúrias, aos desprezos, aos abandonos, a todas estas misérias que perturbam tanto uma alma que está cheia de si mesma. Também, não se deixa afetar pelos louvores, pelas honras e pelos elogios. É indiferente a tudo isto e conserva sempre a paz, a tranqüilidade de espírito e do coração. Não se prende a nada, nem a si mesmo, nem às criaturas, nem aos bens da terra. Vive em completa liberdade de espírito em relação a tudo e possui a total liberdade dos filhos de Deus. “Onde está o Espírito de Deus, aí está a liberdade.” (Cor 3,17) [189]. Falando do padre que renunciou aos bens da terra, Antônio Chevrier diz assim: “Que liberdade, que poder dá ao padre esta santa e bela pobreza de Jesus Cristo” [190].

O verdadeiro discípulo deve viver de tal modo que todo o seu ser seja revelador de Jesus Cristo. Portanto, somos obrigados a corrigir os nossos defeitos, precisamente, por causa do testemunho que devemos dar. O Padre Chevrier fala deste esforço que se nos impõe, a propósito dos defeitos exteriores, especialmente para os padres, as religiosas e os religiosos, porque, diz ele, “pela sua vocação, devem glorificar Jesus Cristo em si mesmos e manifestá-lo em todo o seu exterior” [191]. E a seguir, acrescenta com finura: “Até porque os nossos defeitos exteriores são sempre expressão dos nossos defeitos interiores e procurando corrigir estes últimos, corrigiremos, ao mesmo tempo, os outros” [192]. Por estas citações, vemos ainda, até que ponto o Padre Chevrier tinha a preocupação de dar a conhecer Jesus Cristo. Nesta perspectiva, a correção de um defeito não é um assunto simplesmente pessoal, mas toma uma dimensão apostólica.

O não-conformismo é uma conseqüência necessária do conhecimento de Jesus Cristo; é também uma condição que se impõe a todos os que querem seguir Jesus Cristo, mais de perto e deixar-se conduzir pelo Espírito Santo. O Padre Chevrier não possuía um temperamento que o levasse a evidenciar-se; mas, desde que o amor intervém na sua vida, então é capaz de fazer coisas extraordinárias. Isto pôde notar-se já por ocasião das inundações de 1856, durante as quais chegou a arriscar a vida para acudir em socorro das vítimas. Quando se age por generosidade é-se bem visto; mas quando é por fidelidade ao Evangelho, que se vai adiante, rapidamente se é criticado. De fato, acusaram-no de querer criticar os colegas e de não defender bem a dignidade do padre. Apesar de tudo, nunca abandonou a decisão de seguir Jesus Cristo, mais de perto. Dizia: “Um verdadeiro discípulo não tem medo de desagradar aos homens e ao mundo para agradar a Jesus Cristo” [193]. Aliás, era assim que faziam os santos: “Porque eram conduzidos pelo Espírito de Deus, muitas vezes faziam coisas admiráveis que os homens não compreendessem e, muitas vezes, tornavam-se objeto dos desprezos e dos insultos dos homens, porque o homem carnal não entende o que vem de Deus e necessitaria de uma luz sobrenatural para compreender. Era no amor infinito de Deus que eles iam buscar todas as suas inspirações e todos os seus pensamentos. Deus caritas est, no presépio, no calvário e no tabernáculo, que são os tais grandes luzeiros, à luz dos quais um verdadeiro discípulo se deve guiar” [194].

Este não conformismo sempre foi para o Padre Chevrier um sofrimento, mas não hesitou. Para ele, era uma questão de fidelidade a Jesus Cristo que o tinha chamado a viver, segundo o Evangelho. Além disso, o não conformismo não era para ele uma finalidade; era uma necessidade que se lhe impunha. Quando alguém diz, com sinceridade: “Conhecer Jesus Cristo é tudo”, aceita, ao mesmo tempo, as condições e as consequências daquilo que passou a ser o essencial para a sua vida.

No entanto, e precisamente porque quer conduzir-se, segundo o Espírito de Cristo, o Padre Chevrier não apresenta a renúncia evangélica como uma regra imposta do exterior, mas como uma exigência de amor que se vai revelando progressivamente[195]. A renúncia e o não conformismo também devem ser guiados pela inspiração do Espírito Santo. Antônio Chevrier dizia: “Como é necessário possuir o Espírito de Jesus Cristo para não fazer guerra contra ele, em vez de fazê-la a favor dele!” [196]. Sobretudo, com os outros, é necessário proceder com “delicadeza e mansidão: não se vai pôr um remendo novo em pano velho, nem vinho novo em vasilhas velhas” [197].

É, sobretudo nisto que se descobre a “maneira” própria do Padre Chevrier. Ele apresenta o ideal a atingir, sem nenhuma reserva. Apresenta-o primeiro na sua própria vida: “É necessário que eu seja outro Jesus Cristo sobre a terra, a fim de que os que vierem aqui sejam, também eles, outros Jesus Cristo vivos; só isto é que pode converter as almas” [198]. O Padre Chevrier apresenta também, integralmente, as exigências da renúncia a si mesmo[199], é com espanto que vemos a força das exigências evangélicas que transcreve textualmente[200].

Mas quando se trata de passar à prática, ele sabe bem que o Evangelho não é regulamento jurídico. É uma maneira de viver que é proposta à nossa decisão livre. O Padre Chevrier gostava de repetir estas duas fórmulas que pertencem à tradição do Prado: “Tudo por amor, nada por imposição”. “O que é aceite à força de conselhos não é duradouro” [201]. Claro que há esforços a fazer; claro que há uma luta a travar, mas o Reino de Jesus Cristo não é deste mundo. É muito mais exigente que todas as leis terrenas; situa-se numa ordem diferente. Jesus dizia: “Vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis alívio para as vossas almas; porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve” (Mt 11,28-30). O Padre Chevrier intitulou um dos capítulos do seu “Verdadeiro Discípulo”: “Segui-me na minha mansidão” [202].

Para melhor ajudar a compreender o pensamento do Padre Chevrier sobre o caráter progressivo da renúncia eis as orientações que ele deu a propósito das férias dos futuros padres do Prado: “Podemos permitir que passem férias com os seus pais até o curso de Filosofia ou de Retórica, porque o conhecimento de Jesus Cristo não é suficiente nestas almas jovens, para que façam inteiramente o sacrifício da família; mas em Retórica ou em Filosofia, devem começar a compreender as grandes máximas de Jesus Cristo e pô-las em prática; então já não é a afeição que deve conduzir as almas, mas, sim, o dever: é Jesus Cristo que deve começar a ser o Mestre destas almas. Ou, então, se não forem capazes de seguir os seus preceitos, não poderão ir mais além” [203].

Este texto manifesta bem a linha do seu pensamento. Jesus Cristo é a referência fundamental. É Ele a nossa regra[204]. Deixou a sua mãe em Nazaré e entregou-se à sua missão. Os seus apóstolos deixaram a família para segui-lo. Mas não se pode impor uma renúncia que não nasça do conhecimento de Jesus Cristo. É, pois, necessário saber esperar. Há, entretanto, um momento em que se impõe um discernimento. Se alguém se recusa a uma renúncia, claramente indicada no Evangelho, é sinal de que não é capaz de ir mais além, no sentido da conformidade com Jesus Cristo[205].

Com Maria, mãe das Dores

Maria, a mãe de Jesus, não ocupa o primeiro lugar na vida espiritual de Antônio Chevrier. Toda a sua pessoa está centrada em Jesus; mas centrado em Jesus, encontra a sua mãe. Têm-se realmente, a impressão de que Ela está sempre presente, mas discretamente. Estou a pensar na sua presença em Caná: “A mãe de Jesus estava lá” (Jo 2,1); penso também na sua presença no Calvário: “Junto da cruz estava a sua mãe” (Jo 19,25); São Lucas se refere também a sua presença, no Cenáculo, depois da Ascensão de Jesus: “Os apóstolos eram assíduos à oração, juntamente com algumas mulheres, entre as quais, Maria, a mãe de Jesus” (At 1,14). Em Caná, a sua intervenção é discreta, mas clara. Diz a Jesus: “Não tem vinho” e aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. O Evangelho nem sequer nos diz se alguém pensou em agradecer-lhe. No Calvário, nem uma palavra; e no Cenáculo, nem uma palavra. No entanto, a sua presença é profundamente eficaz, em união com Cristo, que morre por nós, em união com os apóstolos, que vão receber o Espírito de Deus.

É assim que eu entendo a presença de Maria na vida do Padre Chevrier. Na sua pregação, nos mistérios do Rosário e na meditação da Via Sacra, evocava todas as passagens do Evangelho que falam de Maria. Ela está presente, sempre ativa, mas discretamente.

Jesus é o modelo de todos os cristãos e especialmente do sacerdote. Quanto a Maria, ela é o perfeito discípulo de Jesus; e por isso é também o nosso modelo. É assim que o Padre Chevrier gosta de nô-la apresentar nos mistérios do Rosário ou nas estações da Via Sacra. Há uma passagem que parece muito característica da sensibilidade do Padre Chevrier. Trata-se do mistério da Anunciação. Antônio Chevrier contempla primeiro como Maria reage em relação ao projeto de Deus e depois convida-nos a fazer como ela em relação a Deus, que chama cada um de nós, segundo a sua vontade: “O que há de particular neste mistério é que Deus tenha escolhido Maria para que ela fosse à mãe de Deus. Deus escolhe Maria pela sua humildade e pela sua pobreza. Maria responde a esta escolha dizendo: “Eis-me aqui, eu sou a serva do Senhor…” Como Maria, Deus chama-nos para a santidade, para a íntima comunhão e talvez para uma vocação particular… É o primeiro ato de Deus em relação a cada um de nós. Pertence a cada um responder com a nossa boa vontade e a nossa obediência ao seu chamamento. Que infelicidade não responder ao apelo de Deus! ”[206].

Creio que a expressão, “Maria Medianeira de Todas as Graças,” nunca foi usada pelo Padre Chevrier; mas ele viveu esta realidade[207]. Com efeito, é a partir de Maria que o Padre Chevrier inicia o conhecimento de Jesus Cristo, por meio dos mistérios do Rosário. É recitando sete Ave Marias depois do “Veni Creator” que pede os dons do Espírito Santo. Todo o dia recitava também, com a comunidade, sete Ave Marias em honra das sete dores da Virgem Maria, e para apresentar a Deus, por sua intercessão, as intenções que lhe tinham sido confiadas.

A Virgem Maria intervém, portanto, nesta oração assídua, sem a qual, não é possível entrar verdadeiramente no conhecimento de Jesus Cristo nem na dependência em relação ao Espírito Santo. Graças à oração de Maria, podemos assimilar o conhecimento de Jesus Cristo que se nos manifesta através dos mistérios do Rosário; e é também pela ajuda da sua oração que pediremos, cada dia, os dons do Espírito Santo. Era sempre por meio dela que ele se dirigia a Deus para lhe apresentar, tanto em comunidade como de uma maneira mais pessoal, as intenções que lhe tinham sido recomendadas ou que para ele eram mais importantes.

Há um fato que chama muito a nossa atenção: o valor que o Padre Chevrier dava à invocação a Maria, Mãe das Dores. A capela do Prado estava dedicada a este nome e ele fazia questão nisso. Uma benfeitora do Prado prometeu-lhe uma grande quantia de dinheiro se ele aceitasse mudar o nome da capela dedicando-a a Nossa Senhora dos Anjos. O Padre Chevrier não aceitou. Dava muita preferência ao título de Maria Mãe das Dores. Não nos deixou a explicação desta preferência, e, portanto, só podemos avançar algumas hipóteses fundadas naquilo que conhecemos da sua pessoa. Sabemos quanta importância dava à meditação da Paixão de Jesus. Era, pois, natural que contemplasse Maria especialmente em relação com os sofrimentos de seu Filho.

Ele próprio sofreu muito e com certeza desejaria, junto de si, a presença daquela que, silenciosa e plena de amor, estava junto à cruz de Jesus. Além disso, estava convencido da fecundidade do sofrimento quando este é oferecido em união com o sofrimento de Jesus. Dizia ele: “Instruímos as almas pela palavra, mas salvamo-las pelo sofrimento” [208].

Esta devoção a Maria, Mãe das Dores, deve ligar-se também à condição humana e religiosa do povo, no meio do qual ele vivia. Os sofrimentos do seu povo faziam-nos sofrer, também a ele e provocavam-lhe sofrimento, sentimentos de incapacidade. Então, sentia o desejo de confiá-los a alguém que os compreendesse. Maria sabia, por experiência própria, o que é o sofrimento; mais que ninguém, ela era capaz de se compadecer. A ela se podiam confiar todos os homens e mulheres que sofrem no próprio corpo e no próprio coração.

Finalmente, o Padre Chevrier tinha sempre, à sua frente, a ignorância religiosa e o abandono espiritual em que vivia o seu povo. Todos os dias, de manhã e à noite, rezava pela conversão dos pecadores. Evidentemente, que não julgava os trabalhadores; mas sofria ao vê-los sem relações aparentes com Deus, porque o não conheciam. Então confiava a Maria, Mãe das Dores, todo o seu apostolado junto dos pobres. Também, aqui, ele se sentia incapaz. Tinha necessidade de se apoiar na oração de Maria, de pé, junto da Cruz de Jesus.

É verdade que Maria é Rainha dos Anjos e sabemos que Antônio Chevrier amava os anjos e “falava neles muitas vezes” [209]. Mas de fato, e na linha da fundação do Prado, ele não podia mudar o nome da sua capela. Eram muitos sofrimentos do proletariado da Guillotière. E este proletariado, a bem dizer, ainda não estava evangelizado. Tinha necessidade de uma mãe que soubesse sofrer com ele e rezasse por ele, a fim de que pudesse, pouco a pouco, vir a conhecer Jesus, seu Salvador e seu Deus.

Tudo isto, é somente uma hipótese, mas que me parece possível[210].


Capítulo Quatro:
Os três sinais da perfeição evangélica:
o Presépio, o Calvário, o Tabernáculo

Dirigindo-se aos seus quatro diáconos, na véspera da ordenação sacerdotal, Antônio Chevrier dizia-lhes: “Lembrai-vos que deveis representar o Presépio, o Calvário e o Sacrário, que estes três sinais devem ser como estigmas que deveis levar continuamente convosco” [211]. O Padre Chevrier põe sempre o interior em primeiro lugar; mas quer que cheguemos até as realizações exteriores. É neste plano que fala de “sinais” e de “estigmas”. A conformidade com Jesus Cristo não é perfeita, se é puramente interior, pois corre o risco de não ser verdadeira. Há sinais que revelam o discípulo como há sinais que revelam o Salvador[212]

No capítulo precedente, insisti sobretudo, no aspecto interior da perfeição, segundo o Evangelho. Neste capítulo, vou continuar a referir-me ao “interior”, mas acentuando a realização da perfeição evangélica pela pobreza e humildade, pelo sofrimento e pelo dom, título de si mesmo aos outros. Para Antônio Chevrier, o interior e o exterior fazem um todo, pelo desejo de nos tornarmos conformes com Jesus Cristo. Escrevia ele ao Pe. Gourdon: “Em toda a nossa vida devemos reproduzir a vida de Jesus Cristo, nosso modelo: ser pobre como Ele, no Presépio, ser crucificado, como Ele, na Cruz, pela salvação dos pecadores e ser alimento, como Ele, na Eucaristia. O sacerdote é como Cristo, um homem despojado, um homem crucificado, um homem que é alimento” [213]. Já falei do caráter progressivo da perfeição evangélica; não se trata de ser perfeito desde o início, trata-se de tender para a perfeição. Este caráter progressivo aplica-se, também, à realização exterior da perfeição evangélica: o Presépio, o Calvário, e o Tabernáculo não são, estritamente falando, etapas sucessivas; significam, no entanto, ao longo da vida espiritual, certa prioridade e certa predominância. Às vezes, explicava assim esta graduação ascendente: “A perfeição está contida, na sua totalidade, nestas três fases da vida de Nosso Senhor: o Presépio, pelo despojamento e espírito de pobreza; o Calvário, renúncia a tudo o que é deste mundo, imolação; o Tabernáculo, consumação da santidade no amor perfeito” e acrescentava: “nem todos conseguem o segundo grau e muito poucos se elevam até ao terceiro” [214].

Não vou apresentar de forma exaustiva o ensino do Padre Chevrier sobre a pobreza e a humildade, sobre o sofrimento e a caridade. Escolhi apenas alguns pontos que me parecem mais significativos. Há outros. Podeis encontrá-los amplamente desenvolvidos, no Verdadeiro Discípulo.

I. O presépio

Sob este título, falarei ao mesmo tempo, dos pobres, da pobreza evangélica e da humildade, sem esquecer a orientação apostólica do Padre Chevrier. Esta orientação está sempre presente, implícita ou explicitamente. No próximo capítulo, falarei do que mais diretamente se refere ao apostolado, segundo o Evangelho.

A opção pelos pobres

Esta opção, característica do Padre Chevrier, é nitidamente evangélica. Já falamos do assunto a propósito da sua conversão. O Padre Chevrier estava muito atento aos sofrimentos do proletariado da Guillotière e, ao mesmo tempo, muito preocupado pelo seu afastamento da Igreja. Para ele, era um escândalo que os pobres não fossem evangelizados.

Recordemos também que, no Natal de 1856, não só se sentiu chamado a seguir Jesus Cristo, mas de perto, mas também a formar padres pobres para estarem ao serviço dos pobres.

Muitas vezes, lembrou aos seus seminaristas esta opção pelos pobres que os devia caracterizar. Na audiência que Pio IX lhes concedeu, estes tiveram a alegria de receber dele uma bênção especial para os pobres. “Benedictio pauperibus”, tinha dito o Papa. Eis o comentário de Padre Chevrier: “Estou muito contente por saber que tivestes a felicidade de ver o nosso Santo Padre, o Papa Pio IX, que ele vos abençoou que em vossas pessoas abençoou os pobres, os pobres que deveis evangelizar, instruir, e que, em vós, todos nós fomos abençoados por ele. “Benedictio pauperibus”. Como a palavra do Vigário de Cristo concorda com a palavra do Mestre: “Bem-aventurados os pobres”! Sim, sejamos sempre os pobres do Bom Deus, permaneçamos sempre pobres, trabalhemos para os pobres. Que a pobreza e a simplicidade sejam sempre o caráter distintivo da nossa vida e teremos a bênção de Deus e do nosso Santo Padre. Como é bom trabalhar com os pobres! Sentimos que eles são os amigos de Deus e que não é em vão que trabalhamos pelas suas almas. Portanto, amai muito os pobres, os pequenos; não trabalheis para vos engrandecer e vos elevar, mas trabalhai para vos tornardes pequenos e de tal modo pequenos que sejais iguais aos pobres, para estar com eles, viver com eles, morrer com eles; e não tenhais medo das acusações que os judeus faziam a Nosso Senhor: o vosso Mestre anda sempre com os pobres, os publicanos e as pessoas de má fama. É uma acusação que nos deve honrar em vez de nos humilhar; Nosso Senhor veio ao encontro dos pobres. “Misit me evangelizare pauperibus”. Aprendei, portanto, a amar muito os pobres e que esta bênção de Pio IX, o nosso chefe visível e verdadeiro representante de Jesus Cristo, seja para vós de bom augúrio, vos leve a amar os pobres e a permanecer sempre na santa pobreza “[215].

Este texto realça muito a dignidade dos pobres que são, a um título especial, os amigos de Deus e realça ao mesmo tempo a atitude que se deve ter para com eles. Esta atitude exclui, evidentemente, qualquer desprezo pelos pobres e pelos pequenos e também qualquer paternalismo. Antônio Chevrier nunca foi alguém que “tem dó” dos pobres. Dá como regra aos seus seminaristas tornarem-se pequenos para serem iguais aos pobres.

E partilhar totalmente a vida deles, até sofrer com eles e morrer com eles. Ao orientar assim os seus seminaristas, ele entra na perspectiva da Encarnação: o Filho do Homem despojou-se, a si mesmo, para partilhar a nossa vida humana até nos nossos sofrimentos e na nossa morte. Salvas as devidas proporções, o sacerdote que quer evangelizar os pobres deve renunciar a qualquer notabilidade social; é chamado a ser para com os pobres um verdadeiro irmão[216].

Ao ser um irmão para os pobres, o Padre Chevrier mais facilmente podia ter estima por eles, não só pelo seu valor espiritual, como herdeiro do Reino (Ti 2,5), mas também pelos seus valores humanos. É conhecido que se comportava com eles do mesmo modo que com os benfeitores do Prado. Considerava-os como irmãos e queria, tanto quanto possível, partilhar tudo com eles[217].

A opção do Padre Chevrier, pelos pobres, impunha-se a ele mesmo, na lógica da sua decisão de seguir Jesus Cristo, mais de perto. Esta opção observa-a ele em Jesus Cristo que quis viver pobre, no meio dos pobres. Opção que nunca foi exclusiva. Fazia referência a Jesus Cristo que não rejeitou Nicodemos, nem Zaqueu, mas que, pelo contrário, acolheu Nicodemos e se fez convidar por Zaqueu. Apesar de tudo, a predileção de Jesus Cristo pelos pobres é bem clara. Precisamente, neste sentido, o Padre Chevrier dizia aos seus Seminaristas: “A vossa vocação é a pobreza e o serviço dos pobres, dos pequenos, dos pecadores… Para se ocupar dos ricos, não faltam padres; quanto a nós, nós temos o encargo especial de evangelizar os pobres” [218].

A palavra “pobre” não tem hoje, exatamente, o mesmo sentido que no tempo do Padre Chevrier. Para ele, os pobres eram em primeiro lugar, os operários da Guillotière, desenraizados do meio rural e submetidos a condições desumanas de vida e de trabalho, com salários, geralmente, insuficientes mesmo em relação ao mínimo vital, sem previdência social e sem férias pagas. Hoje, dificilmente, fazemos idéia do que era, há um século, a condição dos trabalhadores em França. Para compreender, seria necessário ver do que se passa nalguns países do Terceiro Mundo, por exemplo, na América Latina. Ao mesmo tempo, os pobres, na época do Padre Chevrier, eram os desempregados, sem indenização prevista pela lei; eram os diminuídos fisicamente, dos quais, no Prado, o P. Pacalet ficou para sempre como testemunha privilegiada; eram, finalmente, todos os que, pelos motivos mais diversos, viviam sem o necessário e na miséria. E os que roubavam eram considerados por ele, antes de tudo, como pobres. Também, neles, via Jesus que disse: “Estive na prisão” (Mt 25,36-43). Não devemos, pois, atribuir ao Padre Chevrier aquilo que se chama hoje uma opção de classe. Não parece que tenha conhecido Karl Marx, apesar de ser seu contemporâneo. Mas conhecia a condição operária e era considerado como um amigo do povo pobre[219]. Nunca falou de luta de classes, mas notava bem a injustiça que pesava sobre o povo trabalhador e, sem acusar pessoas, denunciava os responsáveis por tal situação. Dizia ele, por exemplo: “É contra a sabedoria e a bondade de Deus que uns tenham em abundância e que os outros sofram. Não é Deus, mas sim o rico que deve ser acusado de ser injusto” [220].

A ação do Padre Chevrier, a serviço dos pobres, não foi, portanto, uma ação política, nem uma ação social à maneira de Camille Rambaud; foi, antes de tudo, uma conversão do sacerdote que se torna, pela sua vida, um irmão dos pobres. Constituiu, também, numa série de serviços individuais, que poderíamos chamar hoje ajudas pontuais, na medida das suas possibilidades e num espírito de partilha. O que caracteriza o Padre Chevrier é o espírito que anima todo o seu estar com os pobres e o caráter efetivo da partilha com eles. Eis o que dizia da atitude do Prado para com os pobres: “Somos unicamente os seus inquilinos e se não os servíssemos bem, eles teriam o direito e até o dever de nos envergonhar e de nos despedir. Somos os seus humildes servidores” [221].

A pobreza evangélica

O Padre Chevrier descobriu, no Evangelho, a opção pelo pobre e, ao mesmo tempo, a pobreza evangélica. Ele que denunciava a injusta repartição dos bens e que se tinha decidido a partilhar a vida dos pobres, para melhor os compreender e melhor os servir, foi também alguém que se comprometeu, a fundo, na realização efetiva da pobreza, por amor ao Senhor e por amor aos homens.

Podemos dizer, com segurança, que o Padre Chevrier quis ser pobre porque amava os pobres e quis viver como eles. Neste sentido, é realmente o amor pelos pobres que explica a sua pobreza pessoal. Mas isso não basta. No Padre Chevrier não existe somente o desejo de partilhar a vida dos pobres, aceitando a sua pobreza; existe um verdadeiro amor pela pobreza e uma forma amorosa de pô-la em prática. Para explicar este amor, temos que nos referir, principalmente, ao seu amor pelo Senhor Jesus. Dizia-se dele que “Amava a pobreza como as pessoas do mundo amam e procuram as riquezas. Conservava-a com mais cuidado que um avarento guarda o seu tesouro” [222]. O P. Bruno, religioso capuchinho, deu acerca dele o seguinte testemunho: “Penso que não haverá um religioso com voto de pobreza que a tenha praticado melhor que ele, efetiva e, afetivamente; e, no entanto, ele não estava comprometido por nenhum voto, era só a força da graça que o fazia avançar por esta via” [223].

A pobreza evangélica não é considerada, por ele, como privação, mas como uma riqueza[224]. Por isso, pede com fervor: “Ó pobreza, como és bela, Jesus Cristo, o meu Mestre, achou-te tão bela que te tomou por esposa ao descer do céu, te escolheu como companheira da sua vida e quis morrer em tua companhia sobre a cruz. Concedei-me, ó Mestre, esta bela pobreza. Que eu a procure com afã, a receba com alegria, a abrace com amor para que ela seja a companheira de toda a minha vida e venha a morrer com ela, sobre um pedaço de madeira como o meu Mestre” [225].

Este amor apaixonado, pela pobreza, nasce da contemplação e da oração. Antônio Chevrier contempla Jesus que quis ser pobre. Eis as palavras que põe na sua boca: “Aquilo que vos peço, eu mesmo o pus em prática. Quis ser pobre, escolhi pais pobres, nasci como um pobre. A pobreza foi o meu sinal e caráter distintivo. Vivi como um pobre, trabalhei como um pobre, escolheu a condição dos pobres. Sofri como um pobre, suportei tudo como um pobre, faltou-me casa como a um pobre (exílio), comportei-me como um pobre, humilhei-me como um pobre. Tive sede como um pobre, estive nu como um pobre, morri como um pobre. E tudo isto por minha vontade. Assim como o Pai me mandou fazer, assim fiz” [226].

Para compreender a maneira de agir do Padre Chevrier, é preciso fazer referência, antes de mais nada, ao conhecimento de Jesus Cristo que produz o amor e, ao mesmo tempo, uma necessidade intensa de se identificar com aquele a quem se ama[227]. É neste sentido que ele dizia: “Quanto mais uma casa for parecida com o curral de Belém, melhor aí encontramos Jesus” [228]. Sem referência, não podemos compreender as orientações minuciosas que ele dá para as casas do Prado[229]. O que desejava era “que as nossas casas e as nossas celas sejam parecidas com o estábulo de Belém” [230]. É neste mesmo desejo de conformidade com o Evangelho, que apresenta a realização efetiva da pobreza, quanto à alimentação e ao vestuário[231]. Queria que todo o exterior da vida do sacerdote, obrigue, por assim dizer, a pensar em Jesus pobre e que revelemos Jesus Cristo através de toda a nossa vida[232].

O principal, na prática efetiva da pobreza evangélica é, portanto, o amor por Jesus Cristo e a necessidade de levar uma vida em conformidade com a dele. Ao mesmo tempo, há um modo de olhar os pobres, que é um olhar de fé e de amor. Ao prestar atenção aos pobres, vê neles Jesus Cristo, pobre, e quer identificar-se com eles. Ao mesmo tempo, é obrigado a reconhecer que não consegue ser tão pobre como eles: “É preciso lembrar-se bem que a pobreza, voluntariamente escolhida, não é igual à pobreza concreta dos pobres da terra, das mães de família, dos operários sem trabalho, dos pobres sem alimento e sem casa… e que nunca um religioso, voluntariamente pobre, sofrerá tanto como os pobres do mundo. É por isso que São Francisco de Assis, que amava, verdadeiramente, a pobreza, invejava a sorte dos pobres e se esforçava por tornar-se semelhante a eles” [233].

Observando Jesus Cristo e os pobres, o Padre Chevrier tentou descrever a vida do verdadeiro pobre, quer dizer “daquele que escolheu a pobreza por amor de Nosso Senhor” [234]. Eis uma descrição que ele nos propõe: “Contenta-se com pouco (Tm 6,7); não deixa estragar nada (Jo 6,12); recebe tudo com agradecimento (Lc 10,7-8); tem grande respeito por tudo o que lhe é dado, respeito pela esmola; não se queixa de nada (Fil 4,11); trabalha para ganhar a sua vida, não tem empregada doméstica, não tem ninguém ao seu serviço, faz ele mesmo o trabalho da casa, não chama operário senão em caso de necessidade. Não tem medo de fazer as coisas mais humildes e pobres, as mais inferiores, tem horror de tudo o que cheira a grandeza, a luxo, a vaidade (burguês), presta serviço a toda a gente, cuida bem daquilo que tem, evita ter coisas, a mais, e esbanjar, não faz despesas inúteis, economiza sem avareza” [235].

O Padre Chevrier propõe-nos, pois, dois pontos de referência para praticar a pobreza evangélica; esta dupla referência unifica-se em Jesus Cristo. Propõe-nos também um princípio que nos deve guiar na nossa prática e que exprime assim: “Ter o necessário e saber contentar-se com isso” [236]. Não é fácil seguir este princípio e ele diz francamente: “Começa-se bem pela pobreza, mas, pouco a pouco, acha-se que não é muito cômodo, que não é o suficiente, que não é muito sólido, que não está muito limpo… que não dura bastante e mil e uma outra razões ilusórias: então, acrescenta-se, muda-se, adorna-se, acha-se que é mais conveniente, que dura mais e, pouco a pouco, acaba-se por ter um quarto cômodo, confortável, onde nada falta; por ter uma mesa confortável, onde se encontra mais que o necessário; por ter vestuário conveniente, que dura mais tempo, que é mais sólido e mais, segundo os gostos do mundo; de mudança em mudança, acaba-se por fazer como toda a gente e perder o espírito de pobreza” [237].

Antônio Chevrier propõe então dois critérios complementares: o critério do despojamento progressivo e o critério do sofrimento: “Aquele que tem o espírito de pobreza tem sempre coisas a mais, tem sempre tendência a reduzir; aquele que tem o espírito do mundo nunca tem o suficiente, nunca está contente, precisa sempre de qualquer coisa mais” [238]. E acrescenta: “Quando não há um pouco de sofrimento não há verdadeira pobreza… A verdadeira pobreza é um sofrimento” [239]. Volta ainda, mais uma vez, à sua dupla referência fundada no amor: “Aquele que tem o espírito de pobreza diz consigo mesmo: ainda tenho muito mais que o necessário, há tantos pobres que não têm tanto como eu, tantos pobres que sofrem e a quem falta o necessário; e eu, que direito tenho de estar mais bem alojado, melhor alimentado, melhor vestido que os pobres do Bom Deus?” [240]. E ainda: “O discípulo não é mais do que o Mestre. Que direito tenho eu de estar mais bem tratado, melhor alojado, melhor alimentado que Jesus Cristo, que os apóstolos, que os próprios pobres? O pobre que trabalha não é para nós motivo de vergonha? Pois então! Nós comemos o melhor bocado e os outros terão só o pão negro; que direito tendes vós? Os outros terão que trabalhar todo o dia, duramente, e vós não fazeis nada; que direito tendes vós diante de Deus?” [241].

Os motivos apostólicos, que levam Antônio Chevrier a ser pobre, estão intimamente ligados com o amor por Jesus pobre e com o amor pelos pobres. Na verdade, ele sabe bem até que ponto a riqueza, ou até mesmo a simples aparência de riqueza, afasta os pobres do sacerdote. Pensando nas revoluções que despojaram a Igreja dos seus bens, diz o seguinte: “Muitas vezes, não será para castigar a nossa avareza e o nosso apego aos bens terrestres que Deus envia revoluções e nos faz despojar, pelos próprios fiéis, de tudo o que possuímos? É a primeira coisa que fazem os revolucionários: despojar-nos, tornar-nos pobres. Não será que Deus nos quer castigar pelo nosso apego aos bens materiais e assim forçar-nos a praticar a pobreza, já que não queremos praticá-la voluntariamente? E ainda bem que isto acontece, de vez em quando, pois nos deixaríamos adormecer na riqueza e no bem-estar e já não nos ocuparíamos das coisas de Deus. Quando Deus diz “aí de vós os ricos”, di-lo, ainda mais, para os seus ministros que para os outros, porque se alguém deve praticar a pobreza são sobretudo os sacerdotes, seus servidores “[242]. De tudo isso, ele tira consequências práticas: “Como desfazer estas más impressões no coração dos povos? Como fazer renascer neles a confiança e o respeito pelo sacerdote? Terá que ser pelo desapego e pela pobreza que recuperaremos o nosso lugar no coração dos povos. Como é, geralmente, amado um padre desinteressado! Mesmo o ruim! E como é desprezado um padre avarento, interesseiro! Quanto mais pobres e desinteressados nós formos, menos exigentes seremos, mais amigos do povo nós seremos e mais o bem será fácil para nós” [243]. Neste ponto, o Padre Chevrier tinha sido bem sucedido. Na Guillotière, era conhecido como um amigo do pobre povo[244]. O Padre Chevrier estudou o apelo à pobreza evangélica, sobretudo em vista do apostolado junto dos pobres, mas, ao ver que o mundo é cada vez mais escravo do dinheiro e da busca egoísta do bem-estar, insiste na pobreza do sacerdote, também em relação ao mundo em geral: “Devemos praticar as virtudes opostas aos vícios do mundo e quanto mais o mundo está corrompido e viciado, mais nós devemos brilhar, à frente dele, pelas virtudes opostas, e arrastá-lo, seduzi-lo pelas nossas palavras e sobretudo pelos nossos exemplos. Quanto mais o mundo ama o luxo e a riqueza, mais nós devemos amar e praticar a pobreza” [245]. Isto é tão evidente para o Padre Chevrier que pede ao padre que não só não siga o mundo, mas que seja o seu mestre: “Hoje, mais do que nunca, é preciso ser pobre, para lutar contra o mundo, contra os prazeres materiais, o luxo, o bem-estar que crescem exageradamente por toda a parte. O padre não deve seguir o mundo, deve ir à frente e ser o seu mestre para o deter e o guiar. Se o padre faz como o mundo, como poderá ele guiá-lo e instruí-lo?” [246].

Ao contemplar Jesus, o filho de Deus, que se fez pobre para nos libertar da idolatria do dinheiro e nos abrir a possibilidade de viver no amor de Deus e dos nossos irmãos, o Padre Chevrier não conseguiu reter o entusiasmo pela pobreza e compôs um elogio do padre pobre: “Como é belo este homem de Deus cujos pés, só ao de leve, tocam na terra! Como são belos os pés dos mensageiros da paz, dos mensageiros de boas novas (Rm 10,15; Is 52,7). Nem as mãos nem o coração estão presos à terra. Que liberdade, que poder dá ao sacerdote esta santa e bela pobreza de Jesus Cristo! Que força ele tem assim, para lutar contra os vícios do mundo! Que exemplo para o mundo, este mundo que trabalha só para o dinheiro, pensa só no dinheiro e vive só para o dinheiro! E, ao lado deste mundo material, sensual, um homem todo espiritual, que não quer nada destas coisas da terra e diz ao mundo: guarda o teu ouro e tua prata, o meu tesouro está no céu, a minha vida é Jesus Cristo; que se contenta com o estritamente necessário, que não pede nada a ninguém, que trabalha só para Deus, que não se bate nem pela sua túnica nem pela sua capa, que não reclama aquilo que lhe tiraram e que se abandona entre as mãos da Divina Providência. Como é belo! Como é grande! Como é admirável este homem! E como, ao vê-lo, o mundo deve segui-lo com o olhar e admirar nele o poder da fé, do amor e da confiança em Deus! Onde estiver este homem fará coisas admiráveis, diz a Sabedoria” [247]. Compreende-se o que representava para ele a missão de formar padres pobres. E manifestava a sua convicção exclamando: “Como Deus tem necessidade de bons padres pobres!” [248]

A humildade, segundo o Evangelho

À primeira vista, poderá parecer que a humildade não é um sinal do discípulo; pois que se trata de ser humilde “em espírito e de coração” [249]. Apesar de tudo, há certo comportamento que pode ser sinal de uma verdadeira humildade. A primeira condição para tudo, neste ponto, devemos evitar qualquer hipocrisia. Seria lamentável brincar com a humildade. A primeira condição para praticar a humildade, segundo o Evangelho, é que esta seja verdadeira, “em relação a Deus, aos homens e a si mesmo” [250].

Para que a humildade seja verdadeira, deve estar enraizada no amor a Jesus Cristo e na dependência do Espírito Santo. O problema de fundo no nosso orgulho é que este, ao mesmo tempo em que nos centraliza em nós mesmos, leva-nos a agir independentemente de Deus. Ao darmo-nos totalmente a Jesus Cristo, já não pertencemos a nós mesmos, é Ele o centro da nossa vida: “Jesus Cristo deve ser o nosso pensamento habitual e constante; é para Ele que todos os nossos desejos e toda a nossa afeição se dirigem, de dia e de noite” [251]. “Quando alguém encontrou Jesus Cristo já não procura senão agradar-lhe e segui-lo o melhor possível. Por isso mesmo, já não procura a própria glória, mas a glória de Jesus Cristo, e não se preocupa com o que pensam os outros. Isso já não conta” [252].

Também, quando se quer viver, verdadeiramente, dependente do Espírito de Deus é-se obrigado a renunciar, completamente, ao próprio espírito para se deixar guiar pelo Espírito Santo. Assim, a aprendizagem da humildade, o conhecimento e o amor de Jesus Cristo e a dependência do Espírito Santo são uma e a mesma coisa. A humildade não é uma pequena virtude a menosprezar. Faz parte da verdade, vivida no amor.

Segundo o seu método habitual, o Padre Chevrier esforçou-se por concretizar, em si mesmo, um comportamento humilde, a partir dos ensinamentos e dos exemplos de Jesus Cristo. Aqui podemos referir-nos ao capítulo do Verdadeiro Discípulo intitulado “Segui-me na minha humildade” [253]. Nestas páginas, Antônio Chevrier convida-nos a meditar nos ensinamentos de Jesus neste domínio e na maneira como Ele mesmo praticou a humildade na sua encarnação, no seu nascimento, na sua vida oculta em Nazaré, no seu ministério apostólico e na sua paixão. Apresenta-nos assim um caminho seguro para praticarmos a humildade, na verdade. Escrevia ele a uma irmã do Prado: “Aquele que me segue não caminha nas trevas”. Seguindo assim Nosso Senhor, não nos enganamos. Mas, no entanto, nunca seremos tão pequenos como Ele; nem tão humildes, nem tão pobres, nem tão humilhados, nem tão caridosos “[254].

Entre os traços característicos da humildade do sacerdote, segundo o Evangelho, há um que, mais que os outros, chamou atenção do Padre Chevrier, justamente pela importância que tem no campo apostólico. Ele sabia até que ponto os homens, em geral, e o mundo operário em particular, não aceitam um padre que pretenda ser superior aos outros e que queira recuperá-los. Por isso, se refere a Cristo, que se despojou a si mesmo, assumindo a condição de escravo, e quis dar o exemplo aos seus apóstolos, lavando-lhes os pés (Fil 2,6-7; Jo 13,1-7). Também, neste sentido, amor e humildade são a mesma coisa, vividos na verdade. Antônio Chevrier escrevia aos seus primeiros padres: “Como sereis grandes quando fordes sacerdotes, mas, ao mesmo tempo, como será necessário que sejais pequenos para serdes, verdadeiramente, outro Jesus Cristo sobre a terra… servidores de todos, escravos dos outros, pela caridade, os últimos de todos, pela humildade. Como é belo, mas como é difícil! Só o Espírito Santo vos pode fazer compreender isto. Que vós possais recebê-lo em abundância. Tereis tudo se o receberdes na vossa ordenação” [255].

A propósito disto, o Padre Chevrier não hesita em pedir aos padres uma mudança profunda no seu comportamento social. No seu tempo, o padre era, mesmo sob o ponto de vista humano, um notável, um pouco à maneira dos que no mundo têm poder. Não era este o pensamento de Cristo que tinha dito aos seus apóstolos: “Sabeis que os governantes das nações fazem sentir o seu domínio sobre elas e como os poderosos exercem sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós” (Mc 10,42-43). Ele próprio se tinha apresentado como exemplo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção do mundo” (Mt 20,24) [256]. Na época do Padre Chevrier, o padre considerava-se superior aos leigos; mas esta noção de superioridade é estranha ao Evangelho onde os últimos são os primeiros. Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quiser ser o primeiro, deve ser o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35) [257]. Quando se compara a carta do Padre Chevrier aos seus primeiros padres com os textos do Evangelho, que ele meditou no seu Verdadeiro Discípulo, vê-se um exemplo concreto da maneira que o Padre Chevrier tinha de nos apresentar o sacerdote, segundo o Evangelho. Para ele, a atitude de servidor impõe-se, de um modo absoluto, ao discípulo de Jesus que quer caminhar, segundo a verdade. No « Quadro de Saint Fons », a inscrição central do conjunto é precisamente a palavra de Jesus aos seus apóstolos depois de lhes ter lavado os pés: “Dei-vos um exemplo para que, como eu fiz, façais vós também” (Jo 13,15).

O problema da humildade é capital porque, em nível da relação do apóstolo com Deus, condiciona a eficácia apostólica: é o problema da verdadeira confiança em Deus no apostolado. Há homens que espontaneamente têm uma forte confiança em si mesmos e que correm o risco de se apoiarem mais nas suas capacidades humanas e na sua formação teológica e pastoral que em Deus. Antônio Chevrier não caiu neste perigo, mas chama a atenção para os ensinamentos do Evangelho e de São Paulo, sobre este assunto. O próprio Jesus “atribui ao Pai as obras boas que faz” [258]. Quanto a nós, somos “servos inúteis” [259]. São Paulo que era, aparentemente, mais dotado e mais instruído que os outros apóstolos, não quis recorrer a “discursos persuasivos da sabedoria humana” (1 Cor 2,4) a fim de que a fé dos Coríntios “não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1 Cor 2,5). Ao falar da sua ação e da ação de Apolo, considera-as como nada, em comparação com a ação de Deus: “Eu plantei, Apolo regou, porém foi Deus quem deu o crescimento. Assim, nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus que dá o crescimento” (1 Cor 3,6-7). Antônio Chevrier transmitiu fielmente o ensino de São Paulo[260], mas o seu problema punha-se doutro modo. Tinha tendência a deixar-se desanimar diante de uma obra que o ultrapassava. Não sentia em si, nem o temperamento, nem a competência, nem o valor espiritual que lhe pareciam necessários para ir em frente. Só em Deus podia pôr a sua confiança, aceitando-se tal qual era. Já que Deus o tinha escolhido, não havia mais que fazer senão avançar, sem se preocupar. Para compreender a confiança do Padre Chevrier é preciso ter presente o seu sentimento de incapacidade. Em 1856, por altura da fundação da escola clerical, escrevia: “Muitas pessoas bem instruídas, e até entre o clero, dizem que a obra do Prado não pode ir por diante porque eu sou muito ignorante; essa gente tem razão e a verdade é que se a nossa obra der resultado não serei eu que a farei ter êxito, mas sim o Bom Deus” [261]. No mesmo ano volta ao assunto e confessa a sua profunda confusão. Não hesita em acreditar que Deus quer esta obra, mas, mais uma vez, tomando consciência dos seus limites humanos e do que ele chama a sua cobardia, vendo-se só, frente a um trabalho que o ultrapassa, sente-se desamparado. Apesar de tudo, não hesita e pede a ajuda da oração: “Ajudai-me a realizar o que o Bom Deus pede, sobretudo esta obra de padres pobres para as paróquias” [262].

Foto do « Quadro de Saint Fons »

Tinham dado ao Padre Chevrier uma pequena casa, situada no limite municipal de Saint Fons, nos arredores ao sul de Lyon. Esta pequena casa, ainda hoje conservada, estava nesse tempo, no meio dos campos, numa colina sobranceira ao Val do Ródano, o alto das “Clochettes”. Foi transformada em casa de retiros e, na sala do rés do chão, onde havia uma manjedoura para animais, o Padre Chevrier teve a idéia de reproduzir, nos muros, um esquema que há muito tempo tinha feito numa folha de papel. Daqui nasceu o hábito de chamar a este esquema o « Quadro de Saint Fons ». A disposição da sala levou o Padre Chevrier a modificar a ordem que tinha no papel. O quadro passou assim a ser um verdadeiro tríptico: o Mistério da Eucaristia está ao centro, à volta da porta que dá para a pequena capela, enquanto as duas partes do Presépio e do Calvário convergem para esta parte central.

Quadro de Saint-Fons[263]

SACERDOS ALTER CHRISTUS

(O sacerdote é outro Cristo)

Por seus poderes Por seus exemplos

Modelo.

EXEMPLUM DEDI VOBIS

(menino Jesus) [264]

Pobreza

UT QUEMADMODUM

EGO FECI

(Cruz) 2

ITA ET VOS FACIATIS[265]

(hóstia) 2

POBRE E HUMILDE MORTE A SI MESMO CARIDADE
Na casa

No vestuário

Na alimentação

Nos bens

No trabalho

No ministério

De espírito

De coração

Perante

Deus

Os homens

Si mesmo

Imolar-se

Na solidão

Na oração

Na penitência

No trabalho

No sofrimento

Na morte

 

Morrer para

O seu corpo

O seu espírito

A sua vontade

A sua reputação

A sua família

O mundo

Dar

O seu corpo

O seu espírito

Os seus bens

O seu tempo

A sua saúde

A sua vida

Dar a vida

Pela sua fé

Pela sua doutrina

Pelas suas orações

Pelas suas palavras

Pelos seus poderes

Pelos seus exemplos

O padre é um homem despojado.

Quanto mais pobre se é,

mais se glorifica e se ama Deus e mais útil se é ao próximo.

O padre é um homem crucificado.

Quanto mais se morre,

mais se dá a vida.

O padre
é um homem dado em alimento.

É preciso
tornar-se bom pão.

 

(tradução que está no Verdadeiro Discípulo)

Não era por se sentir incapaz de fazer o que Deus lhe pedia que o Padre Chevrier fosse humilde. Era humilde porque sabia aceitar-se como era e, apoiando-se em Deus, ir para frente, apesar de tudo. Estamos, pois, muito longe de uma falsa humildade que diminui o homem e o paralisa. A humildade é a verdade. A humildade apostólica situa-nos, não como dominador, mas como servidores; faz-nos ultrapassar toda suficiência e todo o medo, pois só Deus é que converte e santifica. É grande a humildade![266]

O que acabo de dizer sobre a pobreza evangélica e a humildade foi visualizado, de certa maneira, pelo Padre Chevrier na primeira parte do « Quadro de Saint Fons” [267]. A sala, onde se encontram as inscrições, era antigamente um curral. Por cima da manjedoura, que ainda se conserva como era, escreveu dois títulos: Pobre e Humilde. Por baixo de pobre há uma primeira coluna: na casa, no vestuário, na alimentação, nos bens, no trabalho, no ministério. Por baixo de “humilde” está uma segunda coluna: de espírito, de coração, perante Deus, os homens, si mesmo. Por baixo das duas colunas está: o padre é um homem despojado e, de cada lado, duas inscrições complementares: Quanto mais pobre se é, mais se glorifica a Deus. Quanto mais nos humilhamos, mas úteis somos ao próximo[268].

Inúteis os comentários! Deixar-se impregnar pela luz de Cristo, sobre a ação do Espírito Santo, é quanto basta!

II. O Calvário

Falar da cruz e do sofrimento sempre revoltou os homens. Jesus verificou-o, por experiência própria, quando o seu apóstolo Pedro se lhe opôs, energicamente, no momento em que anunciou a sua paixão (Mt 16,2-23). Igualmente, o apóstolo Paulo reconhecia que a pregação da Cruz era “um escândalo para os judeus e uma loucura para os pagãos” (1 Cor 1,23).

No nosso tempo, esta reação é cada vez mais forte. Em parte, por causa das apresentações jansenistas ou doloristas do mistério da Cruz; mas esta rejeição de Cruz vem sobretudo da baixa geral da fé cristã. Muitos; aceitam do cristianismo só o que lhes parece favorecer a realização do homem; e ao mesmo tempo, rejeitam o valor redentor do sofrimento e a sua fecundidade apostólica. Raciocinando assim, tiram ao sofrimento todo o valor significativo. Às vezes, chegam mesmo a negar a existência do pecado e o valor do sacrifício. No tempo do Padre Chevrier, não se punham todas estas questões. Alimentavam-se, nos meios religiosos cristãos, as exigências de uma moral rigorosa, de concepção mais ou menos jansenista. Era mais uma moral do permitido e do proibido do que uma moral baseada no amor. Por isso, com facilidade, se permitia tudo o que não era pecado. Ora, não é pecado juntar dinheiro, vestir bem, comer bons jantares, etc, etc. Tal era a mentalidade dos meios abastados, naquele tempo, e sabemos que o clero, facilmente, se conformava com o comportamento das “pessoas bem” e de “boas famílias”. Pouco a pouco, a vida do clero tinha-se tornado uma vida “burguesa”. Quanto às exigências do Evangelho, como já disse, pensava-se que estavam reservadas aos religiosos. Os padres seculares não lhes estavam submetidos. Entre os operários da Guillotière a opinião era diferente. A sua vida era dura e não podiam enriquecer, nem vestir bem e nem sempre podiam matar a fome. O clero “burguês” era mal visto por eles. E isto, o Padre Chevrier sabia-o bem. É por isso que a dupla referência à vida burguesa e à vida dos operários está constantemente presente no seu espírito e, por conseguinte, na sua vida e nos seus escritos. Ele optou pelos pobres. Queria viver de tal maneira que os pobres pudessem aceitá-lo.

No entanto, a sua ação não é uma opção política; não opta por uma classe social contra outra; simplesmente se coloca numa linha de Evangelho. Põe o seu “olhar em Jesus, o qual, pela alegria que lhe era proposta, suportou a Cruz” (Hb 12,2). Não discute. Entrega-se a Jesus para o seguir até o fim. Nada o poderá deter. Também, ele escolhe o caminho da Cruz e pede, simplesmente, àqueles que querem seguir Jesus Cristo, mais de perto, que aceitem o Evangelho como ele é, o ponham em prática. Não se pode ser discípulo de Cristo sem aceitar levar a própria cruz; e conclui assim o estudo sobre o discípulo: “Tomar a sua cruz é aceitar o sofrimento causado pela pobreza, pela renúncia às criaturas, pela renúncia a si mesmo; é aceitar a perseguição que um discípulo de Jesus Cristo deve Esperar. Quem não quer levar a sua cruz e seguir-me não pode ser meu discípulo” [269].

Para seguir Jesus Cristo, mais de perto, devemos Tornar-nos conformes a Ele, não só na sua pobreza, mas também no seu sofrimento. Além disso, assim como não basta ser pobre, em espírito, mas é preciso ser efetivamente pobre, assim também não basta aceitar interiormente o caráter do sofrimento, mas é necessário assumi-lo exteriormente. “Por isso, o sofrimento é o segundo caráter do discípulo”. Falando do sofrimento de Jesus, Antônio Chevrier dizia: “Nosso Senhor possuía exteriormente o caráter da pobreza e do sofrimento; aqueles que o possuem só interiormente correm o risco de não possuir mesmo nada”[270]. Trata-se de uma verdadeira escolha e não de amar o sofrimento pelo sofrimento; aquele que quer seguir Jesus Cristo, mais de perto, necessariamente, encontra o sofrimento; e terá que levar a sua cruz. Dizia o Padre Chevrier: “Jesus Cristo não veio à terra para gozar e viver confortavelmente; veio para converter o mundo, lutar contra ele e dar aos homens o exemplo das virtudes; e isto, não o conseguiu sem sofrimento. Instruir, repreender, corrigir, dar o exemplo, converter, expiar, tudo isto não pode ser feito sem sofrimento” [271].

A nossa atitude em relação ao sofrimento e à cruz poderá mostrar-nos se somos capazes de seguir Jesus Cristo, mais de perto. Um rigorismo aparente não deverá afastar aqueles que Deus chama a viver, segundo o Evangelho; mas não devemos, para mais facilmente fazer aceitar a mensagem do Padre Chevrier, adocicar o seu ensino. Antônio Chevrier exprimiu o mistério do sofrimento segundo o que se vivia e se pensava no seu tempo, mas o essencial deste mistério não muda. “Só o podemos compreender pelo Espírito de Deus[272]. Jesus crucificado ficará para sempre “um sinal de contradição” (Lc 2,34).

O sofrimento na vida de Jesus Cristo

Só pelo conhecimento de Jesus Cristo e pelo amor por Ele é que poderemos segui-lo até o Calvário, levando a nossa cruz e seguindo o mesmo caminho. Não é de admirar que o Padre Chevrier tenha insistido tanto sobre a contemplação de Jesus Cristo, na sua paixão. Aqui, vou evocar apenas dos aspectos que mais impressionaram Antônio Chevrier[273]. Em primeiro lugar, o jejum de quarenta dias no deserto. O Padre Chevrier, no Verdadeiro Discípulo, dedicou a este assunto um capítulo especial: “Segui-me no meu jejum”. Mas não pensa somente no jejum, enquanto “penitência voluntária” [274]; fala também, com certa emoção do que ele chama “jejum de caridade”. Observa Jesus cansado, com fome, cheio de sede que esquece tudo porque veio uma mulher, uma samaritana que tinha necessidade de conhecer o dom de Deus. Já não tem fome nem sede e quando os apóstolos o convidam para comer, diz-lhes: “Tenho um alimento que vós não conheceis. O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a realizar a sua obra” (Jo 4,33-34). Eis o comentário do Padre Chevrier: “Que belas palavras! A vontade do Pai é o seu alimento; enquanto os outros só pensam em comer, fazer compras, preparar a comida, Jesus pensa unicamente em fazer a vontade de seu Pai e esquece, por assim dizer, o alimento do corpo que nós procuramos tanto. Em primeiro lugar, está a vontade de seu Pai; deixa tudo para cumprir esta santa vontade. Que belo exemplo para nós que tememos tanto mudar a hora de comer e que falte o prato ou a sobremesa! Como ele se ocupava tão pouco deste alimento corporal! Sentado no poço de Jacó, pede um pouco de água à samaritana (Jo 4,7). Quando os apóstolos lhe trazem comida, diz-lhes que tem um alimento que eles não conhecem. Alimento invisível este, que consiste em fazer a vontade de seu Pai” [275].

Poderemos talvez pensar que é um texto banal; mas, no entanto, mostra bem a “maneira” do Padre Chevrier. Vive contemplando Jesus Cristo, sem esquecer o concreto da vida. O conhecimento de Jesus Cristo é um convite a tornar-se semelhante a Ele.

Cristo sofreu também por causa dos combates e perseguições que são consequência de uma pregação autêntica. Dois capítulos são dedicados a este assunto: “Segui-me, nos meus combates”; “Segui-me, nas minhas perseguições” [276]. Jesus não é revolucionário no sentido político da palavra. No entanto, dando testemunho da verdade (Jo 18,37), “veio trazer a guerra[277]. “Vem lutar contra o erro, a mentira e o pecado que reinam no mundo… guerra inevitável “[278]. Jesus luta primeiro contra a “incredulidade dos judeus e as suas idéias terrestres e mundanas” [279]. Luta também “contra o farisaísmo, contra o mau espírito de uns e a falsa religião dos outros” [280]. Não foi só pela palavra que Jesus lutou, mas também pela sua maneira de viver: “A todos os vícios vai opor os seus exemplos de virtude. Derrubará o orgulho pela sua humildade, a avareza pela sua pobreza, a sensualidade pela sua penitência, pela sua caridade, pela sua paciência. Eis as suas armas, eis em que consiste este grande combate que terá lugar sobre a terra. Começa com o povo judeu e em seguida os seus discípulos vão continuá-lo por todo o mundo[281]. Trata-se, pois, de um combate espiritual, mas este combate é travado a nível terrestre; e suscita a perseguição e a morte. “Neste combate, não há nada de terrestre, é a guerra da humildade contra o orgulho, do desinteresse contra a avareza, do espírito contra a carne, do bem contra o mal, do céu contra a terra. Está demonstrado que, num combate, há um que terá que sucumbir. Haverá um que sucumbirá pelo corpo, mas vencerá pelo espírito, porque não veio lutar com o corpo, mas com o espírito” [282].

Não sei como é que os contemporâneos do Padre Chevrier compreenderam esta linguagem. Não pensavam que o Padre Chevrier fosse um revolucionário; por outro lado, não podia ser considerado jansenista ou um moralista rigoroso. Estavam em frente do mistério de Cristo. Pois é certo que os combates de Cristo desencadearam contra Ele uma oposição que culminou com a sua morte.

Eis o texto do Padre Chevrier: “Foi perseguido pelos seus parentes, pelos seus apóstolos, pelos judeus, pelos fariseus, pelo povo, pelos padres e pelos soldados. Foi perseguido até a morte, desprezado, insultado, odiado. Teve que sofrer o ódio, a maldade, as contradições, as discussões a seu propósito, os desprezos, as injúrias, as calúnias, o escárnio, as mais fortes oposições. Apresentaram contra Ele, para o fazer condenar, tudo o que a inveja pode inventar em mentiras, em intrigas, em conspirações, em excitações, em humilhações. Deturparam o seu pensamento, as suas palavras mais verdadeiras, as suas melhores ações, as mais santas e as mais caridosas. Afastaram dele o povo por meio das mais absurdas invenções e suposições. Armaram-lhe ciladas de toda a espécie para o surpreender e comprometer. Teve que suportar as mais injustas condenações, as maiores humilhações, as mais falsas acusações, os mais profundos desprezos, as ironias mais ofensivas, os insultos mais ultrajantes e, mais que tudo isto, a traição dos seus apóstolos” [283]. E tudo isto por quê? Porque Ele deu testemunho da verdade. “O mundo odeia-me porque eu testemunho que as suas obras são más” (J 7,7). E anuncia as mesmas perseguições para os seus apóstolos (Jo 15,20).

Assim, o sofrimento marcou toda a vida de Cristo, culminando com a sua paixão, desde a agonia até a morte na cruz. Foi sobretudo pela reflexão dos mistérios dolorosos do Rosário e das estações da Via Sacra que o Padre Chevrier procurou compenetrar-se da paixão do seu Mestre. E fez também um estudo especial sobre a Paixão de Cristo. Eis uma passagem sobre os mistérios do Rosário: é como um resumo das virtudes praticadas por Jesus Cristo durante a sua paixão: A humildade até as humilhações. – A pobreza até a nudez. – A solidão até ser abandonado por Deus e pelos homens. – O amor a Deus até a própria imolação. – O amor do próximo até morrer por ele. – A caridade até se esquecer de si mesmo para pensar só nos outros. – A paciência até o autodomínio completo, até não se queixar de nada. –A mansidão até a amabilidade para com os seus inimigos. – A obediência até a morte. – A calma e a dignidade diante dos inimigos. – A misericórdia e a bondade até fazer bem aos inimigos, até perdoar na cruz. – Esquecer-se de si até não pedir nenhum alívio. – A penitência até o abandono do seu corpo entre as mãos dos seus inimigos. – O silêncio até nem sequer se defender das acusações injustas que fazem contra Ele. – A grandeza e a calma na sua morte “[284]. Não procuremos no Padre Chevrier uma teologia da paixão; trata-se de uma contemplação simples, cheia de amor, transformadora. Ele sabia bem que “o discípulo não é mais que o Mestre. “É perfeito se for como o seu Mestre” (Lc 6,40).

A cruz de Jesus Cristo na vida do Padre Chevrier

Estaria muito enganado quem pensasse que o Padre Chevrier amava o sofrimento pelo sofrimento. Nele não há o menor sinal de dolorismo; sendo muito sensível, mais de uma vez se sentiu triste e angustiado, mas soube permanecer sempre livre. Encontrei, em São Paulo, uma descrição dos sofrimentos do apóstolo que nos ajuda a compreender o que foi a vida do Padre Chevrier: “Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre, no nosso corpo, os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo. Estando ainda vivos, somos, a toda a hora, entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. Deste modo, em nós, opera a morte e em vós, a vida (2 Cor 4,8-12).

Teve dificuldades pessoais que vinham ao mesmo tempo, da sua saúde e do seu temperamento. A sua saúde foi sempre muito frágil e nunca se poupou. A sua vida foi marcada pela doença, sobretudo a partir do dia 8 de Dezembro de 1855. Depois de se ter dado a fundo durante uma missão em Santo André, chegou a cuspir sangue[285]. Durante a sua estada na obra de Camille Rambaud, teve que aceitar uma alimentação um pouco melhorada[286]. E depois de ir para o Prado, sabemos, por testemunhos e por cartas, que várias vezes esteve doente e foi obrigado a repousar para recuperar as forças. Em 1874, esteve em risco de morrer com uma congestão pulmonar[287]. Finalmente, em 1876, o seu médico, M. Levrat diagnosticou-lhe uma úlcera no estômago. Foi esta doença que o levou[288]. Os três últimos anos do Padre Chevrier foram especialmente difíceis, sobretudo a partir do mês de Maio de 1878; e a partir do dia 31 de Outubro, já não pode mais celebrar missa. Vômitos muito dolorosos faziam-no sofrer muito. Nunca se queixava. Muitas vezes, pensei que este último ano, vivido, no sofrimento e na inatividade, foi o ano mais fecundo da sua vida. Foi então que, verdadeiramente, fundou o Prado.

Se não se queixava dos sofrimentos físicos, mais que uma vez, manifestou o sofrimento que sentia, ao ver-se ultrapassado pelo que tinha a fazer. Sentia, em si, como que a evidência de que não era capaz de cumprir a missão que Deus lhe tinha confiado. Não duvidava do apelo de Deus, sentia-se inapto e incompetente. Havia momentos em que ficava como que paralisado e então pensava que era cobarde e preguiçoso. Mesmo tendo sido suficientemente forte para ultrapassar esta dificuldade e para realizar até o fim o que Deus esperava dele, o sofrimento permanecia: “Sinto de tal modo a minha impotência, a minha incapacidade, que digo, muitas vezes, ao bom Deus: Meu Deus, não vos tereis enganado colocando à frente de uma grande Obra um pobre ser tão débil como eu; eu sou tão pobre, tão pecador, tão ignorante que, verdadeiramente, se o bom Deus não envia alguém para fazer a sua obra, ela só pode perecer. Quantas qualidades, quantas virtudes são necessárias para estabelecer qualquer coisa, para fazer bem como deve ser a obra de Deus; eu sei bem que Deus escolhe aqueles que quer e muitas vezes os menores e os mais pobres para manifestar a sua glória e o seu poder e que toda a gente possa dizer: foi Deus que fez isto, mas é necessário também que este pobre ser corresponda bem à graça, é preciso que ele seja um homem de oração e de sacrifícios e eu sinto que resisto sempre à santa vontade de Deus, que atraso a sua Obra; faz-me falta alguém aqui, constantemente a meu lado que me empurre e me lembre o que devo fazer; como sou infeliz, como sou digno de compaixão!” [289].

Hoje, é-nos fácil compreender o significado espiritual desta dificuldade que, aliás, o Padre Chevrier sentia, mais ou menos, de modo confuso; mas as perspectivas de fé não suprimem o sofrimento. Era realmente levando a sua cruz que o Padre Chevrier ia para frente e, apesar do sofrimento, encontrava, no conhecimento de Jesus Cristo, “a alegria e a felicidade” [290]. Esta coexistência de sentimentos tão opostos não se pode explicar humanamente. No entanto, se queremos compreender Antônio Chevrier, não podemos esquecer nem a apreensão e a tristeza que, às vezes, o invadiam, nem a paz e alegria profunda que lhe permitiram perseverar até o fim.

O Padre Chevrier não era um “ativista”, mas entregava-se totalmente à sua missão e, reservando todo o tempo que lhe parecia necessário para a oração, dava-se, sem reserva, à sua Tarefa sacerdotal “[291]. Gostava de citar as palavras dos apóstolos, quando escolheram sete homens para o serviço das mesas: “Quanto a nós, entregar-nos-emos, assiduamente à oração e ao serviço da palavra” (At 6,4). Ao dar-se assim totalmente, Antônio Chevrier ia até ao limite e mesmo além do limite das suas forças. Chegara mesmo a dizer que o padre deve “dar a sua saúde e a sua vida” [292]. O que ele fez e pediu também aos seus padres que o fizessem, exigindo, no entanto, que fossem prudentes, sobretudo quanto à alimentação e ao sono. Mas dizia-lhes: “Matei-me a trabalhar; deveis matar-vos igualmente; é a vossa vez” [293].

Para explicar este afinco pelo trabalho apostólico, devemos ter em mente o conhecimento que tinha da dura vida dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, a consciência da sua responsabilidade, na evangelização do mundo operário. Era como uma bofetada que lhe davam quando alguém lhe dizia: “Bom dia, Senhor padre, vai passear, vem do passeio? Como se não tivéssemos mais que fazer senão passear todo o dia. Eis a fama que nós temos no mundo: passear, perder o nosso tempo. Triste fama!” e acrescentava: “O padre deve, mais que ninguém, trabalhar todo o dia. Os pedreiros trabalham o dia inteiro, e os carpinteiros, e os marceneiros, e os agricultores, e os canteiros, etc. Toda esta gente trabalha o dia inteiro e até às vezes de noite para ganhar a vida e a dos filhos; e o padre terá então uma sorte mais leve que os outros, ele que tem um emprego mais bem elevado que eles!” [294].

Antônio Chevrier tinha uma consciência muito clara da sua responsabilidade de sacerdote; para ele, era um apelo a trabalhar sem cessar. Chegava a dizer: “Perder o seu tempo é uma coisa irreparável… é ser injusto para com o próximo” [295]. Sim, os homens têm direito a nosso respeito, somos os seus padres; têm direito de exigir que estejamos inteiramente e sempre ao seu serviço: “Se na terra há alguém que tenha a obrigação de trabalhar é, sobretudo, o padre, já que o seu trabalho é tão elevado, tão importante para ele e para os outros. Pois a sua missão vem de Deus e do seu trabalho, na terra, dependem a glória de Deus e a salvação das almas” [296]. Esta convicção que o Padre Chevrier exprime com tanto entusiasmo, ele próprio a tinha enraizado na sua vida. Realmente, matou-se a trabalhar. Só admitia “o repouso necessário para repor o corpo em estado de trabalhar” [297]. Assim se compreende a expressão que empregou no « Quadro de Saint Fons »: “Imolar-se pelo trabalho” [298].

A incompreensão e as oposições são outra forma de sofrimento. Primeiro, sofreu a incompreensão de sua mãe; e esta incompreensão foi crescendo à medida que ele avançava, cada vez mais, no caminho da conformidade com Jesus Cristo. Também foi criticado, tanto por leigos como por padres. Era sobretudo a incompreensão dos seus colegas que o fazia sofrer. Diziam dele: “É um orgulhoso, é um louco!” [299]. Sabia aceitar e dizia: “Enfim, Como têm razão em me chamarem orgulhoso e insensato! Como me conhecem bem!” Mas isto fazia-o sofrer e dizia: “Tinha vergonha de mim mesmo; quando via um padre, gostaria de poder meter-me num buraco” [300]. Maior sofrimento eram as oposições que encontrava na sua própria casa, da parte dos seus cooperadores. Também, aqui, encontramos o heroísmo da sua paciência. Um dia em que lhe fizeram observações muito duras, não respondeu nada, mas dizia depois: “É bom, às vezes, sejamos postos no devido lugar; é uma coisa que faz bem” [301]. No entanto, sentia-se muito só e chegou a queixar-se da sua solidão: “Se o Bom Deus me enviasse um bom colega que compreendesse a obra de Deus, então sentiria mais coragem, mais força; mas só, sempre só, sinto que me faltam as forças ou seria necessária uma graça extraordinária que eu ainda não mereci” [302].

Mas, mais duras que tudo, eram as incompreensões que descobria nos seus seminaristas. As cartas de Roma ao Pe. Jaricot são, neste ponto, uns testemunhos dolorosos. Eis uma passagem muito significativa: “Quanto aos nossos jovens padres, sinto que a minha autoridade é bem fraca. Duret e Delorme parecem estar mais de acordo com o nosso pensamento, compreender melhor a pobreza e a vida do Prado. Broche e Farissier fazem muitos raciocínios; sobretudo Broche não diz nada e parece-me que já tem outras idéias definidas, Raciocina, sabe muito; a autoridade de M. Jaillet, de M. Dutel e do seminário têm influência sobre eles. É preciso rezar” [303]. Graças aos três meses passados com eles, o Padre Chevrier conseguiu recuperar a situação e a ordenação sacerdotal dos seus quatro primeiros padres, passou-se num ambiente de alegria.

Pouco depois, a dificuldade reaparece. O Pe. Jaricot entra para a Trapa de Tamié, o Pe. Duret quer ir para a Grande Chartreuse, o Pe. Farissier pensa ir para as missões. O Pe. Broche prefere estar em Limonest em vez de trabalhar no Prado; quanto ao Pe. Delorme falta-lhe a saúde e não poderá trabalhar sozinho. É, pois o desmoronamento de todo o seu projeto, de toda a sua vida. Desta vez, o Padre Chevrier não aguenta mais e desabafa o seu sofrimento com o Pe. Jaricot, em carta datada do dia 5 de abril de 1878. Tem a certeza de que o projeto vem de Deus e que “outros farão melhor que nós”. Mas o seu ser está esmagado pela provação. “Não poderei deixar de sentir certa pena ao ver o Prado abandonado e sem crianças, sabendo que, durante dezoito anos, foi sítio de tanto suor, tantos trabalhos e tantas conversões. Ide-vos, embora, todos, rezar e fazer penitência no claustro. Tenho pena de não poder ir eu também, pois tenho mais necessidade que vós, uma vez que sou mais velho e, por conseguinte tenho muito mais pecados. Mas, como não vou, irei talvez para Saint Fons e terei a consolação de ter formado trapistas, cartuxos e missionários, já que não consegui formar catequistas; embora, segundo me parece, deva ser esta, hoje, a necessidade da época e da Igreja. Adeus, meu caro amigo, reze por nós e, sobretudo por mim, que pensava ter feito alguma coisa, uma obra, e vejo que não fiz, os meus pecados de orgulho e outros da minha vida”. Introduz a assinatura com estas palavras: “Vosso irmão em Jesus Cristo abandonado sobre a cruz” [304].

Tudo isto mostra, suficientemente, o lugar que a cruz ocupa na vida do Padre Chevrier. Por isso, naturalmente, faço referência a uma das suas últimas palavras: “O Mestre é bom, mas é justo; faz pagar as graças que concede e para obter graças grandes é preciso comprá-las” [305]. Estas provações parecem suficientes. Mas Antônio Chevrier tinha pensado que era ainda necessário juntar-lhes uma penitência voluntária. Eis como ele a situa: “Há uma penitência que vem do próximo, ao suportar tudo o que nos acontece por sua causa, sem se queixar e sem dar nas vistas. E há uma penitência que vem de nós mesmos, quando nos impomos sacrifícios voluntários” [306]. Entre as penitências voluntárias, a que coloca, em primeiro lugar, é o jejum. Jesus também permaneceu quarenta dias no deserto “e não comeu nada durante esses dias” (Lc 4,2) [307]. Antônio Chevrier sempre se mortificou na comida e o seu médico, o Dr. Levrat, não hesitou em dizer-lhe, ao diagnosticar uma úlcera no estômago: “Sr. Padre, foram os excessos de alimentação que vos puseram neste estado… podemos cair em excessos; um que consiste em comer demais e outro em não comer o suficiente”. Antônio Chevrier desculpou-se dizendo: “Talvez, pode ser que tenha razão, mas o que é que quer? Não tenho tempo, procuram-me a todo o momento e eu não posso, estando em casa, despedir as pobres pessoas sem ajuda, ou sem as reconciliar com Deus, e acontece que deixo passar a hora de comer”. Antônio Chevrier chegou a confessar ao seu médico que, às vezes, passava vinte e quatro horas sem tomar nada[308]. É o jejum da caridade de que já falei; juntava-o aos jejuns prescritos pela Igreja e pela regra da Ordem Terceira de São Francisco de Assis (quarta-feira e sexta-feira durante o Advento e a Quaresma; e todas as sextas-feiras, do ano) [309].

O Padre Chevrier indica ainda algumas práticas de penitência, além do jejum: “usar a disciplina, ao menos uma vez por semana, usar, às vezes, um instrumento de penitência com licença dos seus superiores; dormir, às vezes, no chão, com licença dos seus superiores; levantar-se, às vezes, de noite para rezar; dizer, por exemplo, cinco vezes o Pai Nosso e a Ave Maria com os braços em cruz” [310]. Eis as razões que dá para justificar a sua atitude: “A penitência expia os pecados passados, preserva das faltas para o futuro, dá força à alma para a prática da virtude, impede-nos de cair na mornidão e na moleza, e ajuda-nos a merecer muitas graças para nós e para os outros. Penitência torna-nos conformes a Jesus Cristo e dá-nos parte nos seus méritos” [311].

Devido ao cuidado que o Padre Chevrier tinha em não se pôr em evidência, somos obrigados a entrever os seus sentimentos através daquilo que ensinava. Nunca teve um amor mórbido pelo sofrimento. Mas, como São Paulo, vibra na comunhão com os sofrimentos de Cristo, tornando-se semelhante a Ele na sua morte (Fil 3,10); o amor da cruz e a alegria na cruz explicam-se pelo seu amor a Jesus crucificado; explicam-se também pelo seu amor pelos homens. Quer salvá-los, custe o que custar e é pela cruz que serão salvos. É por isso que deseja tanto levar a própria cruz como Jesus levou a sua. É isto que exprimem as linhas seguintes. Para as compreender é preciso entrar em comunhão com o amor do Padre Chevrier por Cristo e pelos homens; com efeito, dizia ele, falando do seu sofrimento: “É o grande sinal do verdadeiro amor” [312]. Esta passagem tem por título: Como devemos levar a cruz? O Padre Chevrier responde: com submissão, com paciência, com alegria.

“Com submissão. É a vontade de Deus… É o nosso dever de discípulo. Quem não toma a sua cruz… (Lc 14,27); como um dever, pois é necessário completar, na sua carne, o que falta aos sofrimentos de Cristo (Col 1,24). Ovelhas no meio de lobos.

“Com paciência. Quando vos batem na face direita… Abençoai aqueles que vos maldizem, orai por aqueles que vos perseguem. Não resistir ao mal. Vencer o mal com o bem. Não temais aqueles que matam o corpo. “Com alegria. Pensando que é pela cruz que somos semelhantes a Jesus Cristo, ganhamos o céu e convertemos as almas. Sofrer com mansidão, paciência acompanhada de alegria (Col 1,11), pensando nos frutos que brotam da cruz. Quando for levantado na cruz, atrairei todos para mim. Morro todos os dias para vos ganhar a glória (1 Cor 15,31). Levando, sempre, no nosso corpo, a morte de Jesus Cristo (2 Cor 4,10) “[313].

Não basta ler este texto uma vez. É preciso relê-lo e assimilá-lo, pois nos ajuda a penetrar no essencial da mensagem do Padre Chevrier. Ficaríamos muito aquém se víssemos nele somente alguém que introduziu algumas mudanças no comportamento dos padres, até o ponto de lhes pedir que partilhem plenamente a vida dos pobres. Tudo isto é muito importante, mas é preciso ir até a origem, um amor transformador, que conduz o discípulo a seguir Jesus, até o fim, até nos seus sofrimentos e na sua morte[314].

O ensino do Padre Chevrier sobre o sofrimento

Antônio Chevrier insiste, sobretudo, na necessidade de aceitar e levar a própria cruz sem hesitar; quem não aceita levar a própria cruz, não pode ser discípulo de Jesus. A maneira como o diz é muito clara, quase rude: “Esta condição é tão essencial que Nosso Senhor diz que aquele que não aceita esta cruz, que não toma a sua cruz, não pode ser seu discípulo. Portanto, se não quer aceitar e tomar esta cruz apresentada por Jesus Cristo, o Mestre, há que desistir” [315], e insiste a seguir: “Se alguém não toma a sua cruz, não é digno de mim’. Deus não o quer para seu discípulo. Nosso Senhor quer, pois, com Ele, almas corajosas, generosas. É preciso ter a coragem de aceitar esta cruz que Nosso Senhor nos apresenta, ou do contrário desistir porque Nosso Senhor não nos aceita. “Non est me dignus” [316]. Antônio Chevrier chega a viver como que obcecado pelo sofrimento dos operários que, no seu tempo, trabalhavam habitualmente, 12 horas por dia, muitas vezes, mesmo no domingo, até o meio-dia e sem férias. Para ele, seria um escândalo ser padre ou religioso “para se divertir, viver à burguesa, arranjar uma situação, amontoar dinheiro, ter tempo, à vontade, ser mais feliz no mundo” [317]. Como teme que não tenham compreendido bem, volta a insistir: “Quando se vai para padre ou para religioso, não é, pois para levar uma vida agradável, mais cômoda que os outros, as pessoas do mundo. Não, muito longe disso; ao contrário, é para tomar a cruz mais pesada que as pessoas do mundo, para levar uma vida mais rigorosa, mais perfeita, mais difícil para a natureza. É preciso tomar a própria cruz, aceitar a cruz que Jesus nos dá. Cruz de uma vida estrita e rigorosa, vida evangélica” [318].

Não há fidelidade ao Evangelho sem renúncia; o Padre Chevrier disse-o e repetiu-o ao longo de quase duzentas páginas do Verdadeiro Discípulo[319]. A renúncia é, antes de tudo, uma libertação; é também, ao mesmo tempo, condição e consequência de um amor que quer desabrochar e desenvolver-se; mas comporta, necessariamente, um sofrimento porque toda a renúncia é uma privação: portanto, é uma cruz. Neste ponto, o Padre Chevrier é muito preciso ao dizer: “Quando se deixa todos os bens próprios, é-se pobre e a pobreza é uma cruz. Quando se renuncia às criaturas e ao mundo, não se tem a proteção e a ajuda das pessoas, a sua afeição, é uma cruz. Quando da renúncia a si mesmo, quer dizer, à afeição do coração, ao conforto do corpo, aos atos da sua vontade, temos que sofrer, é uma cruz” [320].

Seria pena parar no caminho, a partir do momento em que a conformidade com o Evangelho causa sofrimento. Aliás, Jesus preveniu bem àqueles que queriam segui-lo. Conhecemos o seu ensinamento acerca do homem que quer construir uma torre, ou do rei que quer declarar guerra a outro rei (Lc 14,28-33). Antes de tomar a decisão, é preciso refletir bem. O Padre Chevrier faz o seguinte comentário à palavra de Jesus: “Trata-se de construir uma torre muito elevada, a torre da perfeição. Trata-se de combater inimigos poderosos. E para construir esta torre, para combater estes inimigos poderosos é tão necessário renunciar à sua família, a si mesmo e aos bens da terra, como é necessário a um homem ter dinheiro para construir uma casa, como é necessário a um rei ter soldados para fazer a guerra. Aquele que começasse esta guerra ou este edifício, sem ter o que é necessário seria semelhante a um homem que quisesse construir sem dinheiro ou fazer a guerra sem soldados” [321]. Aceitar o sofrimento é, portanto, uma condição essencial para quem quer viver como verdadeiro discípulo de Jesus.

Sem desenvolver uma teologia do Ministério Pascal, apresenta bem os dois aspetos complementares da fecundidade do sofrimento. Esta fecundidade está primeiro, de um modo invisível, no caminho com os sofrimentos e a morte de Jesus Cristo; mas comporta também um aspeto visível. Quando nos diz que “a cruz pobre e ensangüentada atraiu o mundo” [322], não pensa só na eficácia invisível do sofrimento oferecido a Deus, mas também no testemunho visível desta eficácia. Escreve ele: “A pobreza e o sofrimento atrairão mais que todas as ostentações e belezas exteriores do mundo” [323]. Considera esta dupla eficácia do sofrimento, interior e exterior, como uma só e única realidade. Aplica à vida pobre, sofredora e toda a doação do padre às palavras que Jesus disse a propósito dos seus milagres: “Se não acreditais nas minhas palavras, acreditai nas minhas obras, dizia o Nosso Senhor aos judeus. Que nós possamos dizer o mesmo e mostrar aos homens as nossas obras, para os levar a acreditar e a converter-se. Vede como eu me deixo comer por vós, sem dizer nada, para vosso bem” [324]. Nos dois casos, trata-se de um valor significativo, capaz de provocar os homens à conversão. O Padre Chevrier relembra o ensinamento de Jesus: “Se o grão de trigo morrer dará muito fruto” (Jo 12,24) [325]. “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32) [326]. Mostra-nos Jesus Cristo que se “imola a si mesmo para santificar os outros na Verdade” (Jo 17,17-19) [327]. Aquilo que Jesus fez, propõe-no também aos seus discípulos. “Aos seus apóstolos que lhe pediam os primeiros lugares, responde: ‘Podeis vós sofrer? ’. Não é questão de lugares de honra é questão de sofrer” [328].

Antônio Chevrier vê também como é que São Paulo considera os seus sofrimentos como marcas do apostolado (2 Cor 12,12-15), como estigmas de Jesus (Gal 6,14-17) [329]. E diz ainda: “São Paulo alegra-se por ver o seu sangue derramado para a salvação dos fiéis, alegra-se nos seus sofrimentos porque completa, na sua carne, o que a Jesus Cristo, falta sofrer… suporta tudo por amor dos eleitos, a fim de alcançarem a salvação” [330]. “Todos os dias, somos entregues à morte por vós” e conclui: “Aquele que cumpre todas estas coisas poderá dizer com verdade: ‘a minha vida é Jesus Cristo’ (Fil 1,21)”. “Uma vez que sabeis estas coisas, felizes sereis se as puserdes em prática” (Jo 13,17) [331]. É preciso referir-nos ao Evangelho e a São Paulo para compreender as expressões do Padre Chevrier. Às vezes, as suas palavras reproduzem as palavras da Escritura: “A salvação dos outros completa-se pelos nossos sofrimentos… Em nós, opera a morte e em vós a vida” [332]. Durante a sua última doença, depois de uma crise bastante dolorosa, o Padre Chevrier dizia simplesmente: “Ensinamos as almas pela palavra, mas salvamo-las pelo sofrimento” [333].

Foi, intencionalmente, que dei uma importância especial a esta segunda parte, a do Calvário. Porque é uma etapa decisiva; quando alguém quer seguir Jesus Cristo, mais de perto, não pode desistir, sob pretexto de que terá que sofrer; também não pode arrastar a cruz; é preciso levá-la em peso. “Há alguns que tomam a cruz e a rejeitam, desde que faça doer um pouco. Assim não! É preciso levá-la” [334]. Se não aceitamos sofrer com Jesus Cristo, nunca seremos um verdadeiro discípulo. Por outro lado, se não aceitamos o despojamento do presépio e a imolação da cruz, nunca mais chegaremos à realização da santidade.

Escutemos mais uma vez o Padre Chevrier que nos diz a sua convicção profunda: o sofrimento “é o grande sinal do amor verdadeiro, resultado do sofrimento. Nada atrai mais que o sofrimento. O sofrimento atrai de tal modo que converte as Almas mais renitentes, atrai os corações mais endurecidos, é o distintivo das grandes almas. Onde existe o sofrimento, seja onde for, há generosidade, dedicação, sacrifício, amor[335].

Para terminar este estudo sobre o Calvário, quero apenas reproduzir aqui as inscrições do « Quadro de Saint Fons ». De certa maneira, resume tudo o que acabamos de dizer. Sob o título geral, Sacerdos alter Christus, escreve: Morrer para si mesmo e depois, numa coluna: morrer para o seu corpo, o seu espírito, a sua vontade, a sua reputação, a sua família, o mundo; noutra coluna escreve: imolar-se na solidão, na oração, na penitência, no trabalho, no sofrimento, na morte. Por baixo das duas colunas escreve a seguinte frase: O padre è um homem crucificado. Finalmente, em baixo, abre-nos o caminho para o mistério da ressurreição, com uma última inscrição: quanto mais se morre, mais se dá a vida. Entre as duas colunas está um crucifixo![336]

III. O Tabernáculo

Quando o Padre Chevrier fala do Tabernáculo, a terceira parte do « Quadro de Saint Fons » apresenta-o como sendo a “consumação da santidade no amor perfeito” [337]. O que está exatamente na linha do Evangelho, pois Jesus revelou-nos as exigências do amor pelo próximo dizendo: “Sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48). Antônio Chevrier recorda-nos também que devemos amar-nos uns aos outros como Jesus nos amou. E Jesus amou-nos até dar a vida por nós e até ser nosso alimento na Eucaristia: “Tomai e comei, isto é o meu corpo” [338].

Mas o Padre Chevrier não tem ilusões. Depois de ter falado do Tabernáculo como “consumação da santidade no amor perfeito”, acrescenta que muito poucos conseguem elevar-se até este grau, em conformidade com Jesus Cristo[339]. No entanto, à maneira de Cristo, apresenta a todos e na sua totalidade, a meta para a qual somos chamados. Que cada um se comprometa, nesta via de perfeição, segundo a graça que recebeu e sabendo que a realização da perfeição evangélica se faz de uma maneira progressiva.

O divino e o humano no crescimento do Amor

Ao mesmo tempo em que faz referência à perfeição do Pai e do seu Filho, Jesus Cristo, o Padre Chevrier não menospreza os aspectos humanos do amor. Aliás, encontra-os também realizados em Jesus Cristo, feito homem como nós. Insiste, especialmente, na compaixão e na dedicação, no dom de si mesmo. Chega a dizer que “a compaixão é o fundamento da caridade. É o primeiro sentimento que deve tomar conta da nossa alma, ao ver, seja quem for que esteja na infelicidade. Aquele que fica frio, insensível à vista dos males, é incapaz de qualquer caridade” [340]. Em Jesus Cristo, admira “este sentimento de compaixão e de ternura que o invade ao ver os nossos males; esta perturbação, este estremecimento interior; estas lágrimas que derrama sobre nós e o desejo que tem de as aliviar” [341]. A disposição natural para se entregar e se dedicar era também, para o Padre Chevrier, o ponto de partida de um amor autêntico. Quando se tratava de acolher alguém que viesse para o serviço do Prado, estava mais atento à sua maneira de atuar que às suas palavras. O exterior não é somente o sinal do interior; é também a sua preparação.

Também, não existe apostolado em estado puro. Todo o apostolado emprega meios humanos. O Padre Chevrier não só não se opunha, mas dizia aos seus seminaristas que participassem nas reuniões em que se estudavam estes meios. O Padre Chevrier nunca menospreza o aspeto humano da caridade para com o próximo, quer se trate de compaixão, de dedicação ou de meios apostólicos, mas para ele, isto não é suficiente. Sabe bem que alguém pode dar todos os bens aos pobres e lançar-se ao fogo, sem ter a caridade (1 Cor 13,3). Jesus chegou mesmo a dizer que alguém pode profetizar expulsar os demônios e fazer milagres sem ser reconhecido por Ele (Mt 7,22-23). O que o Padre Chevrier quer não é somente ter padres pobres e dedicados. Quer padres para quem Jesus Cristo é tudo e que sejam outro Jesus Cristo. Para ele, o essencial é que nos entreguemos, inteiramente, a Jesus Cristo, a fim de cooperar, com Ele, na salvação dos homens, sob a influência do Espírito Santo. Não será assim que se realizará a consumação da santidade, no amor perfeito?

Amor a Deus e amor pelos homens

Este amor perfeito de que fala o Padre Chevrier é o amor para com os homens. É aos homens que devemos dar-nos, inteiramente, é aos homens que devemos dar a vida. É para eles que devemos tornar-nos pão bom; é por eles que o padre deve se tornar alimento. O que, aliás, está, exatamente, na linha da eucaristia; foi aos seus discípulos que Jesus disse: “Tomai e comei”. Mas, enganam-se, completamente, quem pensar que o Padre Chevrier coloca o amor pelos homens acima do amor a Deus. Na realidade, para ele, o amor a Deus está absolutamente, em primeiro lugar. Conhecer Jesus Cristo é tudo; mas o amor por Jesus Cristo arrasta-nos a amar todos aqueles por quem Ele morreu e a amá-los como Ele mesmo os amou (Jo 13,34). Uma vez que “Ele deu a sua vida por nós, nós devemos também dar a nossa vida pelos nossos irmãos (Jo 3,16). No « Quadro de Saint Fons », estamos ao nível do sinal, dos estigmas. Para significar que seguimos Jesus Cristo, de perto, despojamo-nos de tudo no Presépio, levamos a nossa cruz com Ele, e entreguemo-nos totalmente aos nossos irmãos, como Ele próprio fez na Eucaristia. As palavras dar, dar a vida, os dois subtítulos do Tabernáculo, atesta, de certa maneira, a origem divina do amor pelos homens. Deus amou de tal modo o mundo que deu o seu Filho Único (Jo 3,16). O Bom Pastor é aquele que dá a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,11. 15-17). Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. O pão que eu hei de dar é a minha carne para a vida do mundo (Jo 6,51)

Compreendem-se, então, as exigências enunciadas pelo Padre Chevrier, nas duas colunas do « Quadro de Saint Fons ». Trata-se de dar tudo: a saber, “o seu corpo, o seu espírito, os seus bens, o seu tempo, a sua saúde, a sua vida” e trata-se de dar a vida através da “sua fé, da sua doutrina, das suas palavras, das suas orações, dos seus poderes, dos seus exemplos” [342]. É verdadeiramente o dom total, por amor, que ele apresenta àqueles que querem viver, segundo o Evangelho.

Caridade e apostolado

Assim como não se pode opor o amor para com Deus a um verdadeiro amor para com o próximo, porque o amor ao próximo brota do amor a Deus e é um sinal autêntico deste, também, no campo do amor ao próximo, devemos distinguir, sem nunca os separar, o que responde às necessidades temporais do homem e o que responde às suas necessidades espirituais. Jesus enviou os seus apóstolos a pregar e curar e Ele próprio, se bem que dando sempre a prioridade ao anúncio da Boa Nova, nunca desprezou as necessidades terrestres do homem. Passou fazendo o bem (At 10,38). Não só curou os doentes como também alimentou as multidões que tinham fome; a até ressuscitou mortos. Todos estes benefícios terrestres tinham valor de sinal para a sua missão (Mt 11,2-6); o que não aceitava era que o aspecto temporal da sua ação deturpasse a sua missão. É por isso que fugiu para a montanha quando, depois da primeira multiplicação dos pães, se deu conta que o queriam proclamar rei (Jo 6,15.26-29). Na realidade, é do mesmo amor pelos homens que brotam, por um lado, a verdade e a graça e, por outro lado, as curas e outros benefícios materiais (Lc 5,20-25) [343].

Antônio Chevrier nunca esteve com todas estas considerações, mas viveu-as simplesmente. Porque amigo do povo pobre[344], estava preocupado, em “catequizar os pobres”. “Era a sua missão”. (Falaremos deste assunto no capítulo seguinte). Mas abriu-se às necessidades terrestres dos seus irmãos, com muito respeito e muita delicadeza, sem o fazer como meio para atrair as pessoas.

Eis as recomendações dadas aos padres, aos irmãos e às irmãs que viviam no Prado: “Pedirem a Deus que faça nascer, em nós, uma grande compaixão pelos pobres e pelos pecadores, que é o fundamento da caridade e sem esta compaixão espiritual, não poderemos fazer nada. Ativaremos, em nós, esta divina caridade para que possamos ir ao encontro das necessidades do próximo e dizer como Jesus Cristo: Vinde a mim. Imitaremos Nosso Senhor na sua bondade para com as crianças chamando-as a Ele e dando-lhes testemunho muito especial de ternura e afeição. Seremos, para eles, o pai e a mãe, ocupando-nos deles com uma sincera afeição, para ganhar as suas almas para Deus. Quando houver ocasião, receberemos à mesa os pais das nossas crianças, assim como os pobres, sendo, para nós, uma felicidade servi-los e mostrar-lhes todo o nosso carinho por eles[345].

“Saberemos perdoar, lembrando-nos bem desta palavra do Mestre: ‘Prefiro misericórdia ao sacrifício’ e que é necessário os corações pelo amor e não pela rigidez e severidade.

“Praticaremos a caridade para com todos aqueles que nô-la solicitarem; nem que seja só uma estampa piedosa ou uma boa palavra, lembrando-nos do que disse São Pedro: não possuo ouro nem prata, mas dou-te o que tenho. Nunca nos recusaremos a prestar serviço, seja a quem for com alegria e felicidade, considerando que somos, pela caridade, os servidores de toda a gente.

“Tomaremos como divisa da caridade esta palavra de Nosso Senhor: tomai e comei, considerando que somos pão espiritual que deve alimentar toda a gente pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação.”

Tal modo de agir tem um grande valor de testemunho. Já disse, várias vezes, que o chamavam o amigo do pobre povo.

Eis em que circunstância lhe foi dado este último. Um dia, o Padre Chevrier voltava de Saint Fons; um operário aproximou-se dele e, pondo-lhe a mão no ombro diz: “Aqui vai o canalha” e atira-lhe à cara todo o palavreado contra os padres. O Padre Chevrier começa tranquilamente, a conversar com ele e fala-lhe da sua obra. “Mas, então, o Senhor é o Padre Chevrier. – Eu mesmo, meu amigo. – Ah! Com que então, mas eu conheço-o e sei que o Senhor é amigo do pobre povo” [346]. Um título como este vale dinheiro! Podemos, a propósito, citar também as reflexões da multidão que assistia ao seu enterro. Foi um enterro, de certo modo, apesar da simplicidade. Eis o que diziam as pessoas: “Foi ele que me preparou para a primeira comunhão; deu catequese aos meus filhos; encontrou trabalho para o meu marido; emprego para a minha filha; se não fosse ele tinha faltado o pão; pagou a aprendizagem ao meu filho; era tão bom!” [347]. À sua maneira, o povo já o tinha canonizado: “Este já tem lugar certo no céu” [348].

Tornar-se bom pão

É claro que, falando e agindo como agia, o Padre Chevrier foi muito além dos limites da generosidade humana, por muito heróica que esta seja; estamos perante a consumação da santidade, no amor perfeito. Sem dúvida, que o Padre Chevrier nunca pensou ter lá chegado, ele que até o fim da vida pedia que rezassem pela sua conversão; mas esforçava-se por avançar no bom caminho. Já falei, longamente, da sua conversão; citei em seguida as duas convicções fundamentais que sempre o animaram: Conhecer Jesus Cristo é tudo; Possuir o Espírito de Deus é tudo. No entanto, não basta alimentares convicções no coração, é preciso que estas passem para a vida. Se as convicções interiores são verdadeiras, exigem que passemos à ação. É então que aparecem os sinais, os estigmas do verdadeiro discípulo. Mas ainda aqui, há uma ordem a observar, uma progressão a realizar. Para vir e ser este bom pão que dá a vida aos homens é preciso passar pelo despojamento do Presépio e pela imolação do Calvário.

Neste ponto, Antônio Chevrier foi muito explícito: “Antes de ser pão de vida, é preciso passar pelo Presépio e pelo Calvário. Como o trigo, é preciso malhá-lo, limpá-lo da palha, mandá-lo moer; ele perde a sua forma e, em seguida, pode tornar-se pão útil para o nosso corpo. Assim, também, só podemos ser úteis ao próximo, para a alma e para o corpo, depois de termos passado pela morte” [349]. Fala da morte pela qual se chega à vida e pela qual se transmite a vida. Pensando na renúncia e na imolação do sacerdote, dizia: “Quanto mais morremos mais temos a vida e mais transmitimos a vida” [350]. Portanto, seguindo o exemplo de Cristo, somos chamados a tornar-nos pão vivo que dá a vida ao mundo. Somos chamados a ser bom pão. Claro que ninguém poderá pretender que já lá chegou. Mas já é muito, procurar avançar pela via que conduz à consumação da santidade, no amor perfeito.

Ao terminar este capítulo sobre os sinais do discípulo, convido-vos a reler uma passagem de uma carta do Padre Chevrier ao P. Gourdon. Nela, se vê bem, por um lado, a grandeza do ideal a atingir e, por outro lado, a humilde aceitação do que somos, no nosso caminhar, em direção deste ideal. O Padre Chevrier fala-lhe do mistério da Encarnação e diz assim: “Foi este mistério que me levou a pedir a Deus a pobreza e a humildade e fez com que eu deixasse o ministério para pôr em prática a santa pobreza de Nosso Senhor. Desejo e peço todos os dias a Deus que tenha a bondade de encher os sacerdotes do Espírito de Jesus Cristo e que sejamos, cada vez mais, semelhantes a Jesus, nosso Divino Modelo, o grande Modelo dos sacerdotes. Oh! Fôssemos semelhantes a Jesus Cristo, nosso Salvador, quanto bem, quantas obras boas se realizariam na Santa Igreja de Deus. Convertamo-nos, meu bom irmão, ajudai-me a converter-me e oremos juntos para virmos a ser dignos representantes de Jesus Cristo na terra e distribuidores das suas graças. O sacerdote é um outro Jesus Cristo. Como é belo! Reze para que eu o chegue a ser de verdade. Sinto que estou tão longe deste belo modelo que, às vezes, perco a coragem, tão afastado da sua pobreza, tão longe da sua morte, tão longe da sua caridade! Reze e rezemos juntos para que nos tornemos conformes ao nosso Belo Modelo” [351].

Capítulo 5:
O apostolado, segundo o Evangelho

Se queremos seguir Jesus Cristo, mais de perto, é para nos tornarmos mais capazes de trabalhar eficazmente pela salvação dos homens. Depois de ter estudado a conversão do apóstolo, vou agora falar da sua ação apostólica. Não vou repetir o que deve ser o apóstolo que quer dar muito fruto; mas sim, direi como deve agir, para que o seu apostolado esteja mais em conformidade com o Evangelho.

1. Algumas características da ação apostólica, segundo o Evangelho

A oração e o sofrimento desempenham, ambos, uns papéis primordiais, no apostolado segundo o Evangelho. Penso que não vale à pena voltar ao assunto. Falarei somente da presença, junto dos homens, do anúncio da palavra de Deus e do cuidado em afastar, tanto quanto possível, o que possa levantar obstáculos ao Evangelho. Para terminar, farei uma breve menção da importância que o Padre Chevrier dava à missa e aos sacramentos. O que também é essencial, mas o Padre Chevrier não parece ter tido, no campo da pastoral sacramental, o mesmo carisma que tinha recebido no campo da catequese e da pregação[352].

Presença junto dos homens, segundo o Evangelho

Antônio Chevrier, ao fundar o Prado, pronunciou esta palavra que ficou subjacente a todas as suas atividades apostólicas:

“Irei para o meio deles e viverei a mesma vida” [353]. Ao falar assim, o Padre Chevrier realçava o aspeto sociológico da presença evangélica; e já vimos até que ponto sentia a necessidade de partilhar a vida dos pobres, para poder ser aceite por eles. Dizia ele aos seus seminaristas: “Não trabalheis para ser grandes e para vos elevar, trabalhai sim, para serdes pequenos, vos tornardes tão pequenos que sejais iguais aos pobres, para estar com eles, viver com eles, morrer com eles” [354]. Se queremos compreender o Padre Chevrier nunca é demais insistir nesta partilha da vida e neste “estar com”. Para ele, é um aspeto característico do mistério da Encarnação. Antes de os orientar para uma vida com os pobres, Antônio Chevrier já dizia aos seus seminaristas: “Amai muito os pobres e os pequenos” [355]. A presença, segundo o Evangelho, é motivada pelo amor e não pode ser, verdadeiramente, vivida, senão pelo amor. Foi por amor que o filho de Deus se fez homem e viveu entre nós. Aliás, só estamos, verdadeiramente, presentes, junto de alguém, na medida em que essa pessoa se sente amada tal qual é, tanto a nível individual como a nível social. Amar alguém não significa estar de acordo com tudo o que ele pensa ou com tudo o que ele faz; amar alguém, segundo o Evangelho, significa que interiorizamos o que ele é, pessoal e coletivamente, com os seus sofrimentos e as suas aspirações; com os seus valores e com as suas misérias. Foi assim que Jesus Cristo procedeu e era neste sentido que o Padre Chevrier falava da “compaixão como fundamento da caridade” [356]. Estar com os homens, segundo o Evangelho, é, pois, antes de tudo, uma presença de amor. Não se deve menosprezar o aspeto sociológico desta presença, mas se esta se reduzisse a uma simples semelhança, no comportamento, ficaria muito insuficiente.

A presença, segundo o Evangelho, exige de nós, também, que revelemos Jesus Cristo através do nosso comportamento humano, como Jesus Cristo revelou seu Pai através da sua vida terrestre. O modo de manifestar Jesus Cristo, através da nossa vida, pode variar, segundo às circunstâncias. Jesus não manifestou o seu Pai do mesmo modo, em Nazaré, na sua vida pública ou sobre a Cruz, mas podia dizer sempre: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Portanto não nos podemos contentar com partilhar a vida dos homens, assim, sem mais. Mesmo se ainda não chegou o momento em que poderemos anunciar Jesus Cristo, explicitamente, podemos sempre revelá-lo, de certo modo, através do nosso comportamento.

Tem-se falado muito de uma espiritualidade da Encarnação. O que caracteriza a Encarnação não é só o fato que o filho de Deus se tenha feito homem, mas também que este homem tenha dado Deus a conhecer (1 Jo 1). Dizia Antônio Chevrier: “É preciso que se veja Jesus Cristo, no nosso exterior, nas nossas atitudes, nas nossas palavras, nas nossas ações, em todo o nosso ser, porque todo o nosso ser deve revelar Jesus Cristo” [357].

O sacerdote não pode copiar, em tudo, a vida dos pobres. Em qualquer vida coletiva, quer se trate de ricos ou de pobres, existe, necessariamente, o pecado; este pecado nem sempre é consciente, sobretudo, quando é coletivo. Sobre o pretexto de “viver com” nunca podemos ir até a partilha do pecado. É verdade que sempre seremos fracos e somos uns pobres pecadores, como os outros, mas não nos podemos resignar ao pecado, nem tão pouco ao erro. Jesus disse ao seu Pai falando dos seus apóstolos: “Assim como Tu me enviaste ao mundo, também eu os envio ao mundo”. E ainda: “Não te peço que os tires do mundo, mas os livres do mal” (Jo 17,13-18). A este “estar com” do Padre Chevrier, podemos, pois aplicar o que ele diz sobre a renúncia à família e ao mundo[358]. Ele via os perigos do mundo, sobretudo, no contato do Padre com os mais abastados, mas o que diz é universal. Um sacerdote, segundo o Evangelho, nunca poderá estar de acordo com o erro nem com o pecado.

Há outros limites que vêm da situação da Igreja e da maneira de viver do clero em determinada época. Claro que o Padre Chevrier estava, totalmente, decidido a partilhar a vida dos trabalhadores; mas nada nos permite supor que tenha pensado em trabalhar com eles numa fábrica. Quando fala do trabalho manual do padre, é para nos dizer que, como os pobres, um padre deve “fazer o trabalho da casa” e só empregar operários em caso de necessidade “[359]. Por outro lado, quando afirma que um padre deve ganhar a vida pelo trabalho, pensa, antes de tudo e, sobretudo, no trabalho enquanto padre, portanto num trabalho que é, principalmente, um “trabalho espiritual” [360]. Podemos supor que hoje o Padre Chevrier estaria de acordo com os padres operários; mas, no seu tempo, tal orientação era impensável…

Finalmente, alguns limites vêm das exigências de uma vida, segundo o Evangelho. O Padre Chevrier nunca pensou no casamento como modo de partilhar a vida dos trabalhadores; o que não quer dizer que o menosprezava; o que ele queria era tornar-se, totalmente, conforme a Jesus Cristo e pôr em prática o seu ensinamento; mesmo quando nem a todos é dado compreendê-lo (Mt 19,11-12).

A presença junto dos homens, segundo o Evangelho, pode, na prática, ser orientada para determinado grupo, como Jesus Cristo dizia: “Fui enviado, unicamente, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,25), ou à maneira do apóstolo Paulo que dizia que o apostolado, junto dos pagãos, lhe tinha sido confiado, a ele como o apostolado junto dos judeus, tinha sido confiado a Pedro (Gal 2,7-10). No entanto, esta presença deve ser sempre aberta a todos, seja qual for a nação ou a origem e sejam quais forem as posições no plano religioso. Jesus fala com a Samaritana e permanece dois dias em Sicar (Jo 4,1-42). Propôs-se ir à casa do centurião romano (Mt 8,7). Atendeu a prece de uma Cananéia (Mc 7,24-30). Alguns gregos procuram-no (Jo 12,20-42). E fala, explicitamente, das ovelhas que não fazem parte do seu rebanho e das quais quer também ocupar-se (Jo 10,16). Quanto a São Paulo, se bem que permanecendo fiel à sua missão principal, nunca esquece os judeus, não só no plano apostólico, mas também no aspeto de ajuda mútua (Gal 2,10). Chega mesmo a dizer que se fez judeu para ganhar os judeus e que se fez “tudo para todos a fim de ganhar alguns a todo o custo” (1 Cor 9,20-22). O Padre Chevrier tinha feito uma opção muito nítida e dizia: “Não faltarão padres para se dedicar aos ricos, mas nós estamos, especialmente, encarregados de evangelizar os pobres” [361]. Apesar disto, vê-se bem, pela sua correspondência e pelas visitas que fazia ou recebia, que nunca excluía os ricos da sua preocupação apostólica. Também, a eles, ensinava o Evangelho.

Na sua época, o clero ocupava-se quase, exclusivamente, dos cristãos praticantes, habituais ou ocasionais. Por seu lado, o Padre Chevrier manifesta uma grande abertura missionária: “Quando nos for permitido, iremos dar catequese nas paróquias, nos lugares, nas aldeias, nos bairros, nas oficinas, a fim de reconduzir, até Deus, toda esta pobre gente que se afasta de nós, imitando assim os apóstolos que iam pregar, em público e nas casas, tornando-nos assim verdadeiros pequenos missionários” [362]. Vê-se, entretanto, quer pelo regulamento das paróquias, quer pelo seu comportamento, na paróquia de Moulin à Vent, que também não esquecia os cristãos praticantes. Tinha organizado uma missão na paróquia; e fundado uma escola católica “[363]. Para compreender o Padre Chevrier, não nos podemos contentar com um fato ou com uma fórmula. É preciso ver o conjunto. Ser padre, “segundo o Evangelho”, é muito simples e, ao mesmo tempo, muito complexo. Não tem nada a ver com teorias. Trata-se de fazer, sendo submisso ao Espírito Santo, aquilo que Jesus faria no nosso lugar.

A pregação do catecismo

Sem dúvida, Antônio Chevrier não encontrou a descrença, como nós a encontramos hoje, mas com certeza que não se teria contentado com partilhar a vida dos homens e de lhes manifestar Jesus Cristo pela sua vida. Teria, sem dúvida, admitido um tempo de preparação, mas não poderia renunciar a dizer a palavra que salva. Mesmo se há homens que recusam qualquer pregação, porque não querem ouvir doutrinas, podem, pelo menos, aceitar que lhes digamos o que para nós é a fé. A partir de certo nível, a amizade leva-nos a que digamos, mutuamente, o que para nós é o fundamento da nossa vida. A experiência ensinou-me que há sempre uma maneira de dizer a fé sem ser rejeitado. O que não quer dizer que os ouvintes se convertam; mas a partir do momento em que chegamos a ser, verdadeiramente, seus amigos, eles têm o direito de saber em que consiste a nossa fé. Não lho dizer seria uma falta de confiança… Seria também faltar ao nosso dever: “Ai de mim, se não evangelizar” (1 Cor 9,16).

Em todo o caso, no seu tempo, o Padre Chevrier nunca esteve com problemas sobre a possibilidade de anunciar o Evangelho. Para ele, a pregação “é a grande missão do sacerdote” [364] e diz: “A missão de pregar é a mais importante de todas, é ela que deve estar em primeiro lugar; é preciso pregar antes de batizar, antes de confessar, para converter, esclarecer, instruir.

Missão fundamental. Sem ela, nada no mundo “[365]. Antônio Chevrier utiliza, muitas vezes, a palavra pregação, mas prefere a palavra catecismo. Quer formar catequistas. Para ele o catecismo é uma instrução simples, ao alcance de toda a gente e cuja finalidade é “a fé, o amor, a ação”. Não basta formar pessoas que “sabem”; é preciso formar cristãos que creem que amam e que se decidem a agir, segundo o Evangelho[366]. Não condena os grandes sermões, constata, simplesmente, que não convertem; de qualquer modo, seguramente, que não era o que convinha à sua missão de evangelizar o mundo operário. Daí a exclusão das “pregações grandes e solenes” e a escolha de liberdade de “instruções simples e familiares” [367].

Escrevia aos seus seminaristas: “Catequizar os homens, é a grande missão do padre hoje; é preciso instruir, não com grandes discursos que não tocam o fundo do coração dos ignorantes, mas com instruções muito simples ao alcance do povo. Nos tempos que correm, deveríamos ir catequizar por todo o lado, falar simplesmente…” [368] O Padre Chevrier pensava que não basta pregar para que as pessoas aceitem, realmente, a palavra de Deus. A pregação precisa de ser fecundada pela oração e pelo sofrimento; necessita também, normalmente, da presença evangélica de que acaba de falar: finalmente, exige que aquele que prega acredite no que diz e viva, ou pelo menos se esforce por viver, segundo aquilo que diz. O Padre Chevrier contemplou, longamente, Jesus Cristo nas suas pregações. É “a sua grande missão, percorre as cidades e as aldeias e prega por toda a parte e todos os dias” [369]. Nota também que “Jesus fala com fidelidade, com simplicidade, com autoridade e com firmeza” [370]. Falando de Jesus Cristo, Antônio Chevrier cita as suas palavras: “Porque eu não falei por mim mesmo; o Pai, que me enviou, foi quem determinou o que devo fazer e anunciar” (Jo 12,49); “Digo o que meu Pai me ordenou. Digo o que ouvi de meu Pai” (Jo 8,26-28); “Falo como o meu Pai me ensinou. O meu Pai está comigo. Falo daquilo que vi junto do meu Pai” [371]. Aplica estas palavras de Jesus ao sacerdote que deve, também ele, “pregar com fidelidade”. Por conseguinte, devemos “falar só daquilo que Deus nos ensinou, o Evangelho. Se dizemos alguma coisa nossa já não é a palavra de Deus, é a palavra humana. Não pregar a nossa pessoa, pregar Jesus Cristo. Pregamo-nos, a nós mesmos, quando baseamos tudo no estudo, em combinações, em coisas rebuscadas, em satisfações”. Mas tudo aparece dito de forma positiva, nesta nota do Padre Chevrier: “Falar com sinceridade, da parte de Deus, na presença de Deus e segundo o Espírito de Jesus Cristo” [372]. Entramos aqui naquilo que para o Padre Chevrier é o essencial da pregação. O pregador, segundo o Evangelho, é um homem que, totalmente, entregue a Cristo, pode falar dele como de alguém com quem vive e da sua mensagem como de um ideal que se esforça por pôr em prática. Então a sua pregação será o testemunho daquilo que crê e daquilo que vive. Assim como Jesus que não falava como os escribas do seu tempo (Mt 7,29), mas sempre fazia referência ao Pai para anunciar o que tinha visto e ouvido junto d’Ele, também o Padre Chevrier não se contentava em fazer uma boa vulgarização teológica como quem ensina um assunto profano, mas dizia o que tinha descoberto em Cristo e o que tinha assimilado da sua mensagem[373]. Deste modo, podia ser, por sua vez, testemunha de Jesus Cristo, como o próprio Jesus Cristo foi testemunha fiel de seu Pai “[374]. São Paulo dizia: “Acreditamos, e por isso falamos” (2 Cor 4,13).

O Padre Chevrier era calmo, tinha um espírito conciliador e gostava de viver em paz com os outros, devemos, pois prestar particular atenção quando, no seu “Verdadeiro Discípulo”, depois ter falado da pregação em geral, introduz um novo capítulo sob o título: “Segui-me nos meus combates” [375]. Já dissemos, a propósito do Calvário, que o sacerdote deve aceitar o sofrimento que vem das incompreensões e das perseguições provocadas pela sua pregação. Aqui falarei do mesmo assunto a propósito da fidelidade que deve marcar a nossa pregação. É caso para refletir quando ouvimos o Padre Chevrier dizer-nos de Jesus Cristo: “Ele veio trazer a guerra… Não pode haver paz entre a verdade e o erro, entre Jesus Cristo e o mundo. Veio lutar contra o erro, a mentira e o pecado que reinam no mundo” [376] e quando acrescenta: “Ele nos nomeou para continuar a guerra no mundo” [377]. Eis como desenvolve o seu pensamento: “O mal está no mundo, nas nossas almas, nos nossos corações, e nos nossos espíritos. O demônio tomou o lugar de Deus, chama-se príncipe do mundo. Trevas, erro, mentira, orgulho, crueldade, impureza, inveja, homicídio. Ensinar e corrigir. Não basta ensinar, é necessário corrigir; não basta lavrar um campo e semeá-lo, é necessário arrancar as ervas más; cortar, podar; sem tudo isto, o primeiro trabalho é inútil. É necessário repreender, combater constantemente contra o mal, arrancá-lo por toda a parte em que se encontra. Trabalho importante. Talvez, mais difícil; mas tão necessário como o primeiro; um fica inútil sem o outro. Mas, facilmente, se encontram pessoas que ensinam que pessoas que corrigem” [378].

Mas cuidado!… Assim como esta guerra não é igual às guerras terrenas, também a Paz de Cristo não é igual à paz que o mundo dá. Por isso o Padre Chevrier nos acautela: “Como é necessário ter o Espírito de Jesus Cristo para não fazer a guerra contra Ele, em vez de a fazer por Ele” [379]. Por isso, se põe a contemplar Jesus Cristo para combater como Ele. “Que armas usou Ele neste grande combate: palavras, exemplos, cordeiro no meio dos lobos, mansidão. Nós combatemos com as armas da justiça (2 Cor 6,5-10); não combatemos segundo a carne (2 Cor 10,1-5). Condições para bem corrigir e combater: estar cheio de caridade e de ciência; a fim de que possais admoestar-vos mutuamente (Rm 15,14). Ciência, sabedoria e caridade. Repreende toda a gente com mansidão e prudência; discernimento, força e caridade; que diferença na maneira de repreender cada indivíduo!…[380].

O que o Padre Chevrier diz sobre o seu método catequético é válido também para a pregação em sentido largo. Este método é muito simples. Baseia-se, por um lado, na sua experiência pastoral e, por outro lado, no próprio Evangelho. Não pretendo apresentá-lo aqui de uma forma exaustiva; quereria somente traçar algumas grandes linhas. É, verdadeiramente, um método, segundo o Evangelho. Eis um primeiro texto que se pode aplicar tanto ao catecismo das crianças como à pregação em geral: “A finalidade de toda a instrução é dar a conhecer, amar e servir a Deus. É esclarecer a inteligência, pelo conhecimento, tocar o coração pelo amor e decidir a vontade de agir. A fé, o amor e a ação, eis os três efeitos que se devem procurar criar em toda a instrução. Dar a fé pela compreensão, pelo raciocínio, pelo conhecimento das coisas. Fazer nascer o amor pela verdade que se ensina e conduzir à prática de ações em concordância com a verdade conhecida e amada. Para atingir estes três efeitos é preciso utilizar todos os meios possíveis e, como diz São Paulo: é preciso dar à luz e amamentar como uma mãe, ser pai e dar a vida por meio da caridade. “Antes de dar a catequese, é preciso rezar por si mesmo e pelas crianças. É preciso estudar o catecismo para o compreender bem. É preciso dá-lo com gosto, com o desejo de ensinar aos outros aquilo que nós mesmos sabemos. Se alguém não sente, em si, este desejo, não pode exercer bem esta função “[381]. Sem excluir, de modo nenhum, o valor da memória, o Padre Chevrier não aceita que se comece por aí: “Querer começar por palavras, pela memória, é perder um tempo considerável e, muitas vezes, desanimar as crianças e os mestres. Esta repetição continua não vale nada para a alma, nem para o coração. Passam-se horas inteiras a apreender palavras e fica-se no mesmo ponto que antes “[382]. Por isso, em primeiro lugar, é preciso levar à compreensão, mas não por meio de raciocínios abstratos. “É preciso buscar as suas provas na palavra de Jesus Cristo e… nas coisas naturais, sensíveis, ou que encontramos em nós mesmos “[383]. Mas acrescenta ele: “se fala só à inteligência não se consegue nada. É preciso chegar ao coração… ”[384]. e isto, é, ao mesmo tempo, a ação da graça e a ação do catequista. Noutro sítio dizia: “Para comunicar a fé é preciso tê-la”[385]. Insiste sobre a importância da oração por parte do catequista e da criança. É preciso, finalmente, chegar até a ação e levar a praticar aquilo que se crê, “à medida que se dá a conhecer uma verdade, imediatamente, fazer com que chegue a produzir atos”[386].

No tempo do Padre Chevrier, insistia-se muito na necessidade de estabelecer a ordem e a disciplina nas casas de educação e pensava-se que esta regularidade imposta aos jovens teria uma verdadeira eficácia na formação deles. O Padre Chevrier, partindo do Espírito do Evangelho e da experiência que tinha adquirido na sua obra da primeira comunhão, na sua escola clerical e nas atividades paroquiais, reagiu vigorosamente. Foi, sobretudo, nesta ocasião que ele falou do interior e do exterior na formação cristã. Exprimia isto com vigor e clareza: “O Espírito de Deus, dizia ele, não está nesta regularidade exterior ou disciplina que se admira tanto, nos tempos que correm; nestes exercícios pedagógicos que fazem das pessoas verdadeiras máquinas, que se fazem funcionar ou andar por sinais. Quando tiverdes bem implantado todo este sistema exterior de ordem, organização, regularidade mecânica dos vossos homens, se pensais que aí está o Espírito de Deus, enganai-vos; é bem provável que não exista, de modo nenhum, porque o Espírito de Deus não está no exterior, está no interior” [387]. E juntava o seguinte comentário: “É o Espírito Santo que deve produzir, em nós, todo o exterior. É preciso começar por pôr em nós o Espírito de Deus e então, quando este entra, atua como a seiva da árvore, produz em nós todo o exterior. É preciso ocupar-se muito mais do interior que do exterior, dar muito mais importância ao interior que ao exterior; ponde nas almas o interior, o exterior aparecerá, ponde o exterior, não tereis feito nada” [388].

Não é que o Padre Chevrier pensasse que “era necessário descuidar o exterior e não exigir nada a esse respeito. Não, a ordem e a regularidade são necessárias. Mas é preciso considerar o interior como fundamento principal, a seiva espiritual que deve dar a vida ao exterior, doutro modo, não se faz nada sólido, verdadeiro, duradouro” [389]. Encontramo-nos aqui diante de uma regra fundamental da pedagogia do Padre Chevrier. Como tinha feito para o método catequético, fundamenta a sua pedagogia no Evangelho e na maneira de agir de Jesus com os seus apóstolos: “Não lhes dá outro regulamento senão este: Segue-me, eu sou o teu regulamento, a tua vida, a forma exterior que deves imitar. Há os que começam por regulamentos exteriores, fazem muitas regras; tudo isso não é nada. O verdadeiro regulamento que há que impor aos outros é este: segue-me, faz como eu, não te peço coisas mais difíceis que aquelas que eu próprio faço. Segue-me: eis o grande regulamento.

“Durante os três anos que passou com eles, para os formar na vida evangélica e apostólica, nunca o vemos aplicar-se a dar-lhes formas exteriores e regulares, disciplinares; viviam, segundo o tempo, como podiam. Pelo contrário, vemo-lo dedicar-se, constantemente, à transformação interior dos seus apóstolos. Instruía-os, sem cessar, corrigia-os a cada instante, iniciava-os em tudo, formava-os em tudo.

“Instruir, corrigir, pôr em ação, levar a agir, eis o grande método para formar as pessoas e dar-lhes a vida interior. Instruir, corrigir, pôr em ação, levar a agir, eis a vida, a seiva e o meio de a comunicar; mas encaixilhar o mundo num nicho, metê-lo numa forma, é forçar o mundo, afastar os defeitos e não os corrigir” [390].

O Padre Chevrier redigiu, pela sua mão, certo número de regulamentos, em especial, para os irmãos e irmãs do Prado (1864) e para a escola clerical (1865) [391]. Estes regulamentos estão sempre concebidos em referência ao Evangelho; para ele, um regulamento é uma maneira concreta de ajudar uns e outros a tornarem-se conformes com o Evangelho. Não há, pois, nada de absoluto nestes regulamentos; e dizia, no início do regulamento, para os Irmãos e Irmãs do Prado: “Uma onça de caridade vale mais que cem libras de regulamentos” [392]. Quanto à Regra, há uma só, e afirma-o ao dar as orientações sobre a pobreza: “A nossa regra é Jesus Cristo, a sua palavra, os seus exemplos. Fundamento sólido, inabalável” [393].

Evitar o que pode ser obstáculo ao Evangelho

Antônio Chevrier não se apresenta como um reformador da Igreja, mas diz claramente aquilo que, no seu tempo, lhe parece levantar obstáculos ao Evangelho de Deus e pede, para ele e para aqueles que quiserem associar-se a ele, autorização de não fazer aquilo que possa ser obstáculo ao Evangelho. Quando não tem necessidade de autorização para avançar, avança resolutamente. Quer, custe o que custar, “evita escandalizar um irmão por quem Cristo morreu” (1 Cor 8,7-13).

Uma preocupação especial para o Padre Chevrier foi o problema dos emolumentos. Não lhe competia a eles suprimi-los por sua própria autoridade, mas constatava até que ponto este costume era um obstáculo para a evangelização, sobretudo, entre a população própria da Guillotière. Tinha anotado, cuidadosamente, as reações populares e exprimia-as com todo o povo. Por isso, nos dá a conhecer as suas reflexões e, também neste ponto, se esforça, por seguir Jesus Cristo, mais de perto. Para isso, observa como é que Jesus agiu: “Na fundação da Igreja, a mais bela obra do mundo, Nosso Senhor não utiliza nenhum meio exterior, toma um homem a quem comunica a sua vida, e o seu espírito; e este escolhe outros doze que forma na vida evangélica; mas não é metendo-os numa caserna, nem fazendo-os caminhar em formatura que Ele os forma; não constrói edifícios, não toca tambor, nem música, nem concertos, nem teatro; pelo contrário, avisa-os para que não utilizem nenhum meio exterior; nem dinheiro, nem aparências bonitas; envio-vos como cordeiro para o meio de lobos, ite, docete; pregar, instruir, curar; virtus de illo exibat; os meios exteriores não conduzem a nada” [394]. Não nega a necessidade que se impõe, no nosso tempo, de ter lugares de reunião para o ensino, para a oração dos fiéis e, por vezes, locais para receber os que deles têm necessidade para a formação religiosa, mas sabe muito bem que não são as igrejas nem as casas que convertem. Por isso, reage contra a fúria de construir, que grassava na sua época: construir e ornamentar igrejas, casas paroquiais, e outros edifícios. “Não que se tenha de condenar o culto exterior; não, uma vez que a Igreja o pede e nós somos compostos de um corpo e de uma alma e também porque as coisas exteriores devem conduzir-nos até Deus. Mas não nos deixemos levar por esta moda que existe em nossos dias e não tomemos o acessório pelo principal” [395]. Não condena os outros. Se reage é, sobretudo, em razão da sua própria missão. Dizia: “Nós devemos representar o presépio e o calvário; deixemos para os outros o encargo de representar os mistérios gloriosos. Para nós, contentemo-nos com a pequenez e a pobreza, é esta parte que nos foi dada, donde não devemos sair; os pobres não devem sair do lugar que têm, nem que seja para Deus. Não se expor a agir por ostentação e orgulho, nem para satisfazer a vaidade pessoal, em vez de agradar a Deus” [396].

Além disto, há argumentos que têm valor universal; quando se tem muitas preocupações materiais, corre-se o risco de “deixar a obra espiritual, a obra das almas, para estar ocupado só com a obra material, as pedras, os muros, os púlpitos, os altares… e é-se obrigado a deixar para trás o catecismo, a oração, a confissão, a obra das almas” [397]. Corre-se também o risco de “pensar que se atrai por esta ostentação exterior. Pode-se excitar a curiosidade. Mas produzir a graça com meios exteriores é um engano. Um sacerdote pobre e santo converterá mais gente pelo seu exemplo que todos os candelabros do mundo, que todas as velas do mundo, que todas as belezas exteriores que se exibem, sem vir a propósito para atrair os homens em vão” [398]. E acrescenta “Um sacerdote pobre e santo, numa igreja de madeira, converterá mais pecadores que um padre qualquer numa igreja de ouro, de mármore e ornamentada com toda a espécie de belezas exteriores”. Finalmente, dizia ainda com uma ponta de ironia: “De fato, é muito mais fácil ter velas, lustres, caixas de esmolas, baldaquinos e todos estes apetrechos, que ter a santidade; uma onça de santidade e de pobreza vale mais que todo o esplendor do mundo” [399].

Pensava também nas reações do meio popular. Já no seu tempo a mentalidade nos bairros operários era muito diferente da mentalidade rural no que respeita às despesas para construir e ornamentar as igrejas. É certo que o Padre Chevrier tinha muita admiração pelo Cura de Aristeu, mas neste ponto, reagia doutro modo e dizia: “Devemos possuir este espírito de pobreza e de simplicidade e contentar-nos com o necessário, até mesmo nas igrejas e nos objetos de culto. Que não haja nada nas nossas igrejas e nos nossos paramentos que excite a realismo. Dizia assim: “Que quereis vós pedir a pessoas que já desprezam o padre, que consideram o padre como um avarento e um homem de boas comidas, pessoas que vêm três ou quatro vezes à Igreja durante a vida: aos casamentos, aos batizados e aos enterros e que, cada vez que vêm à Igreja, ouvem do padre ou do sacristão estas palavras: deve-me tanto, e isto dito com autoridade e exigência. Estas maneiras de proceder não fazem senão afastar da Igreja e eles partem protestando, criticando a religião e dizendo que é uma religião de dinheiro” [400]. É uma coisa a que não se pode resignar. E procura a luz no Evangelho: Jesus disse: “Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente” (Mt 10,8). Quanto a São Paulo, não quer receber nada dos Coríntios. Quer evangelizá-los gratuitamente “a fim de não criar qualquer obstáculo ao Evangelho de Jesus Cristo” (1 Cor 9,12). Por fim, procura o testemunho da tradição e encontra escrito no prefácio do ritual romano, que não se deve exigir nada, nem sequer pedir; mas que se pode aceitar aquilo que os fiéis oferecem espontaneamente[401]. E então acrescenta simplesmente: “Se o costume contrário prevaleceu em França, não foi senão por uma concessão fundada nas circunstâncias deploráveis em que se encontrava o clero a seguir à Revolução” [402].

Sabia, também, como se justificava, teologicamente, este costume; mas o que para ele estava, em primeiro lugar, não era a possibilidade de justificar, teologicamente, o que se faz; o que estava em primeiro lugar eram as consequências pastorais do nosso modo de pecador. Uma vez que o Evangelho e a Tradição estão de acordo com a gratuidade do ministério, podemos ir para frente, não para condenar o que se faz na Igreja, nem para impor aos padres uma outra maneira de agir, mas para pedir, humildemente, autorização, para aqueles que o desejam, de seguir Jesus Cristo, mais de perto. Depois de ter passado pelas diversas etapas da sua reflexão e depois de ter apresentado o seu projeto junto do Papa, que remetia o assunto para os bispos, o Padre Chevrier concluiu: “Pedimos autorização de exercer o ministério, gratuitamente, e de não receber, pelas nossas santas funções, mais que aquilo que os fiéis queiram dar-nos livre e espontaneamente e de nunca exigir nada pelo exercício do santo ministério” [403]. É que ele sabia bem que não podia iniciar este novo caminho, sem uma licença especial. Com efeito, há costumes que se introduziram na Igreja, fruto de determinadas condições históricas e que depois se tornaram leis impostas aos padres e aos fiéis.

Veremos, mais adiante, como o Padre Chevrier procedeu em relação ao Papa e aos bispos para permanecer sempre em comunhão com a Igreja; mas era preciso situar, desde já, como punha o problema em relação à evangelização dos pobres e o trabalho preparatório realizado pelo Padre Chevrier antes de decidir apresentar o problema ao papa e aos bispos. Não se tratava de uma teoria pessoal. Foi depois de ter constatado as reações do povo e depois de ter procurado o pensamento de Deus sobre o problema, na Escritura e na Tradição, que se dirigiu ao magistério da Igreja, a quem está confiada a interpretação autêntica da palavra de Deus. Tanto no aspeto da vida pessoal do sacerdote, como no aspeto do apostolado, o Padre Chevrier não se apresenta, pois, como um reformador do clero; mas uma vez que foi chamado por Deus para realizar, com outros, no meio do clero secular, uma vida e um apostolado, “segundo o Evangelho”, pede a autorização necessária para pôr em prática esta renovação evangélica, em comunhão com o Magistério da Igreja.

O problema dos bens eclesiásticos é diferente. Não se pode renunciar aos imóveis como se renuncia aos emolumentos. No entanto, o Padre Chevrier sente que há uma maneira de se situar, no que respeita aos bens eclesiásticos, que não é boa nem para os padres nem curiosidade ou a cobiça dos fiéis” [404]: E ainda: “Com mais simplicidade e, por conseguinte, menos despesas supérfluas nas igrejas, os pobres sentir-se-iam melhor, como em sua casa. Poderíamos talvez evitar fazer-lhes pagar o lugar, o que seria preferível, e a devoção, em vez de perder, sem dúvida que ganharia muito com isso” [405].

Não é que ele desejasse as igrejas desnudadas; o que ele não gostava era destas ornamentações que não dizem nada e queria “que os muros falassem e instruíssem as pessoas. Tudo numa Igreja deveria falar e instruir” [406].

Por uma espécie de paradoxo, o Padre Chevrier foi obrigado, pelas circunstâncias, a construir e a transformar muitas casas. Mas era por necessidades que se impunham e tudo o que fez ficou, verdadeiramente, marcado pela simplicidade e pela pobreza. Por outro lado, também, nunca se deixou absorver por todas estas construções. Todo, ele vivia entregue à oração e ao anúncio da palavra.

Nas ocupações temporais, também não se pode dar uma regra absoluta, mas há, para o padre, uma maneira de agir que lhe permitirá seguir Jesus Cristo, mais de perto. É neste sentido que o Padre Chevrier vai indo em frente e sempre a partir da sua experiência pastoral e do Evangelho. “Quando Nosso Senhor envia os apóstolos, não os envia para se dedicarem ao mundo, trabalhar, construir, fazer negócios; envia-os sim, para pregar e curar; eis as suas grandes missões que Jesus Cristo lhes confia: pregar e curar. Eu vos envio como o meu Pai me enviou… Os apóstolos que tinham recebido os ensinamentos do Salvador dão-nos o exemplo deste dever, tal como o vemos nos Atos dos Apóstolos; considerando o cuidado dos pobres como uma ocupação que os absorvia demais e lhes tirava o tempo que devia ser inteiramente dedicado ao espiritual, escolheram os diáconos para se dedicarem aos pobres; enquanto que guardaram para eles a oração e a pregação como sua única e verdadeira ocupação (At 6,2) [407].

Concretamente, o Padre Chevrier exprime aqui três preocupações diferentes:

  1. Por ter visto o que se passava com Camille Rambaud e pelo que se conhecia das Providências-oficinas, não quer que os seus padres se dediquem a obras sociais, como as que existiam no seu tempo “É preciso pôr de lado tudo o que é ocupar-se de bens, de terras, de culturas, de negócios, de vendas, de compras, de comércio, tudo o que cheira o comércio ou que se faz para ganhar dinheiro; tudo o que nos põe em relação com homens de negócios”.
  2. No que respeita à sua Obra da Primeira Comunhão, recusa qualquer trabalho assalariado para as crianças, a fim de que os cinco meses que eles passam no Prado sejam inteiramente destinados à formação cristã[408].
  3. No caso de uma propriedade que lhe foi dada em Limonest, quer “ter só o necessário para aí poder habitar: casa, pátio e horta, para não termos que ocupar-nos de culturas, da quinta, de jornaleiros, de criados, ou de rendeiros” [409]. Estes assuntos não só roubam o tempo, como também invadem o nosso espírito e é um obstáculo que impede fazer bem o nosso trabalho sacerdotal: às vezes, até são motivos de escândalo para o povo: o Padre Chevrier pensa especialmente na oposição dos trabalhadores contra as Providências – oficinas que lhes faziam concorrência[410].

Não se pode, no entanto, negar a importância das obras sociais. O Padre Chevrier sabe-o bem, mas no seu desejo de reservar para o padre o essencial da sua missão, pensa que estas devem ser confiadas aos leigos; “Há que deixar essas coisas para os leigos; os sacerdotes não devem tocar-lhe nem com a ponta dos dedos” [411]. Esta idéia de confiar a leigos as responsabilidades temporais parece ter vindo ao espírito do Padre Chevrier a partir da instituição dos Diáconos (At 6,1-6). Os apóstolos reservavam-se para a oração e a pregação, por isso, confiava aos diáconos a organização do serviço das mesas[412].

A missa e os sacramentos

Sobre este assunto, o Padre Chevrier não manifestou a mesma originalidade que mostrou a propósito da presença junto dos homens ou da pregação. Foi sem dúvida a deficiência da formação teológica e litúrgica que recebeu, que o impediu de situar bem os laços muito íntimos que existem entre, por um lado, a vida e os ensinamentos de Jesus Cristo, e, por outro lado, a missa e os sacramentos. Os seus contemporâneos observam a maneira como ele celebrava a eucaristia[413]. Infelizmente, as suas descrições não são suficientes para descobrir a sua atitude. É seguro que impressionava àqueles que assistiam à sua missa, mas não temos dados suficientes para descobrir o seu segredo.

Entretanto, o Padre Chevrier tinha constatado que “as pessoas se aborrecem na missa” o que é uma das razões pelas quais não vêm. Por isso, tentou redigir “métodos para ouvir a Santa Missa” e “explicações” da Missa. Possuímos uma dezena de textos de cinco a vinte páginas cada um. Ao falar das palavras de Cristo: “Fazei isto em memória de mim” esforçou-se por mostrar como as várias partes da missa evocam os diversos mistérios da vida de Jesus. Nestes métodos e explicações, há belas passagens, mas não nos servem para grande coisa. É a parte da obra do Padre Chevrier que mais se envelheceu[414].

Também, no que diz respeito aos sacramentos, é pena que não encontramos este sabor evangélico que caracteriza o conjunto da sua obra. Nota, a propósito da comunhão eucarística, que esta “deve transformar-nos em Jesus Cristo e não transformar Jesus Cristo em nós, o que acontece quando, depois de comungar, continuamos a agir por nós mesmos em vez de deixar atuar Jesus Cristo em nós” [415]. Encontramos aqui um esboço do que poderia ser o seu ensinamento sobre a comunhão, segundo o Evangelho, mas é muito curto.

2. A obra de Deus

A ação apostólica do Padre Chevrier não é somente uma ação que tem as suas características próprias; para ele é, antes de mais nada, a obra de Deus. É verdade que a ação apostólica é, ao mesmo tempo, a nossa ação e a ação de Deus. No entanto, pode-se acentuar mais o papel de Deus ou o nosso. O Padre Chevrier acentuou nitidamente o papel de Deus. Queria realizar a obra de Deus.

Deixar Deus agir

Em todo o seu apostolado, o Padre Chevrier queria ser, simplesmente, o instrumento de Deus. Dizia ele: “É preciso refletir muito e rezar antes de empreender uma coisa, para saber se esta é de Deus” [416]. E ainda: “É preciso deixar Deus agir. Contentemo-nos com ser instrumentos da Divina Providência. As nossas obras devem estar marcadas pelo Espírito de Deus. Tudo o que eu quis fazer, por mim mesmo, tive que o desfazer” [417].

Há dois textos que nos dão a conhecer o seu pensamento sobre a forma de agir no apostolado. Eis em primeiro lugar, o que escreveu a propósito de Jesus Cristo, o fundamento espiritual: “É em vão que procuramos construir, se Deus não está conosco, se não conduz os trabalhos, desenha o plano, escolhe os operários, e se não organiza tudo ele mesmo. Uma única pedra má, ou mal colocada, pode desmoronar todo o edifício… É, pois, a Ele que compete fazer tudo, escolher, chamar, construir, rejeitar, chamar quem lhe aprouver… Não é suficiente começar com Deus… É necessário agir e terminar com Deus… Quem ousará imiscuir-se na construção de um edifício? Quem pretenderá ser o arquiteto… o arquiteto de Deus ou o próprio Deus? Deixar Deus agir” [418].

Antônio Chevrier dizia a Emília Tamisier, fundadora dos Congressos Eucarísticos[419]: “As obras de Deus não são feitas por nós; é Deus que as realiza. Com os seus escritos, tinta e papel, você não vai conseguir nada. Deus faz as obras quando quer. Os Santos, nas obras que fazem, não sabem para onde vão. Começam e Deus dirige-os. É inútil que me fale dos seus projetos e da sua série de obras, tudo isso não vale nada. Sirva o Bom Deus com humildade. Desapareça… A sua pressa e a sua indiscrição estragam tudo. Não empregue nenhum meio humano. Deixe que Deus dirija tudo por meio dos acontecimentos. Você está a atrasá-lo com a sua ação pessoal… As obras não se fazem com previsões humanas, nem com dinheiro, nem com os nossos cálculos e nossos arranjos. Deus toma uma alma, dá-lhe voltas e mais voltas, aperfeiçoa-a, deita-a fora, recupera-a, coloca-a aqui, depois noutro lado. Escolhe outra depois ainda outra. Junta-as, e, no tempo devido, faz desabrochar a graça. Nós devemos ser os canais, e é tudo; o homem não é nada” [420].

Vê-se, claramente, a preocupação do Padre Chevrier: quer que a nossa ação apostólica seja verdadeiramente a obra de Deus: “É a Ele que compete fazer tudo… Deixar Deus agir… As obras de Deus não se fazem por nós, é Deus que as realiza… É Deus que as realiza… É Deus que as conduz… Devemos ser canais, e é tudo, o homem não é nada”. Não podemos supor que Deus vai falar-nos como uma pessoa fala a outra pessoa. Apesar de tudo, Ele exprime-se, quando procuramos, verdadeiramente, saber o que espera de nós. Para o Padre Chevrier há quatro pontos de referência complementares: os chamados interiores, a Palavra de Deus, os acontecimentos e finalmente o magistério da Igreja. Quero, neste membro, insistir especialmente sobre os acontecimentos. O próprio Padre Chevrier dizia: “Deixai Deus dirigir tudo por meio dos acontecimentos”. As grandes decisões do Padre Chevrier não se podem explicar sem fazer referência à miséria humana e religiosa dos operários do seu tempo. Foi para trabalhar mais eficazmente pela sua salvação que ele decidiu seguir Jesus Cristo, mais de perto, a título pessoal e no seu apostolado. Foi também para que estivessem ao serviço dos pobres que se decidiu a formar padres pobres. Outros acontecimentos intervieram nas decisões tomadas pelo Padre Chevrier, por exemplo, o seu encontro com Camille Rambaud. Ao mesmo tempo, a forma de agir de Camille Rambaud, no campo social, ajudou o Padre Chevrier a clarificar a sua própria concepção apostólica. Os seus colaboradores na “Cité de l’Enfant Jésus”, de um modo especial, o irmão Louat, irmã Amélia e a irmã Maria, desempenharam um papel importante na fundação da Obra da Primeira Comunhão do Prado.

Os insucessos que encontrou para associar consigo outros padres, levaram-no à fundação da escola clerical e as dificuldades encontradas, pelos seus seminaristas, fizeram com que procurasse para eles uma formação especial. Não se podem, pois, explicar as decisões do Padre Chevrier somente pelos apelos interiores ou pela referência ao Evangelho. Deixou-se dirigir pelos acontecimentos. Por outro lado, não se pode compreender como é que o Padre Chevrier se deixou conduzir pelos acontecimentos sem fazer referência aos apelos interiores e ao estudo continuado do Evangelho e dos escritos apostólicos. A atitude fundamental é simples, mas exige que avancemos pelo caminho de uma disponibilidade total, de uma atenção constante à vida e de uma busca continua de fidelidade à palavra de Deus. Estamos muito longe de um projeto pessoal que alguém prepara, decide e realiza por si mesmo. Mas também estamos muito longe de uma pura passividade que suprime o esforço humano. Ele próprio disse: “Matei-me a trabalhar”.

Quanto à origem divina de uma ou outra orientação apostólica, não se pode ter uma certeza absoluta. No entanto, pode haver uma certeza suficiente para se empenhar na ação. Antônio Chevrier, apesar de todas as dificuldades que encontrou, estava, intimamente, persuadido que Deus o tinha chamado para seguir Jesus Cristo, mais de perto, e para associar consigo outros padres que aceitassem caminhar com ele nesse mesmo sentido. Eis a propósito, o que ele escreveu no seu testamento espiritual: “Dou graças a Deus porque me escolheu para realizar a sua obra; nisto se cumpre a verdade que Deus escolhe o que há de menor, e sem valor, para realizar as suas obras. Eu, tão pobre em ciência e em virtude, e ter me escolhido, a mim, para edificar esta obra do Bom Deus que há de dar grandes frutos nas almas e na Igreja! Sim, que toda a glória reverta só para vós, ó meu Deus, pois eu posso dizer com toda a verdade que nada foi feito por mim, mas que fostes vós só que tudo fizestes. A Domino factum est istud. Terminai, ó meu Deus, aquilo que começastes em mim. Que a vossa obra cresça e se multiplique sob o vosso divino olhar e sob a proteção dos nossos superiores.

Agradeço a Deus por tantas graças espirituais e temporais que me concedeu durante a minha vida, sobretudo depois do meu sacerdócio, chamando-me para uma vida mais perfeita e mais evangélica, a fim de me aproximar ainda mais de Jesus Cristo, meu divino modelo “[421].

Esta atitude fundamental não diz respeito somente às decisões mais importantes como a fundação do Prado, mas também à realização e organização desta obra e a todas as atividades apostólicas, seja de que gênero forem. “Não basta começar com Deus, é preciso agir e terminar com Deus” [422]. No pensamento de Antônio Chevrier, o discípulo de Cristo, se quer segui-lo de perto, não procura realizar a sua obra pessoal; procura realizar, unicamente, o que Deus quer e deseja trabalhar somente para a obra de Deus, segundo o espírito de Cristo.

Não pedir nada e confiar só em Deus

Num livro já antigo, tentei apresentar a pobreza do sacerdote[423]. Aqui, vou falar dela, unicamente, em relação com o conceito que o Padre Chevrier tem da obra de Deus. As suas duas divisas: não pedir nada a ninguém e confiar só em Deus eram para ele como que a garantia de que realizava a vontade de Deus e não a sua própria obra. Nos objetivos fundamentais da Associação dos Padres do Prado, escreve assim: “A nossa característica particular de pobreza, no mundo, é a de não pedir nada a ninguém, apoiando-nos na palavra do Divino Mestre: buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Quando se dá a vida espiritual, Deus dá sempre a vida temporal” [424].

No entanto, realizar a obra de Deus não significa só fazer o que Deus quer, significa também agir como Deus quer, especialmente, no que diz respeito à pobreza. É que há uma relação estreita entre a fidelidade do sacerdote às exigências do Evangelho e a intervenção de Deus quanto aos meios de subsistência: “É preciso ser, realmente, pobre e ocupar-se, seriamente, só da obra de Deus. Sem estas duas condições, Deus não pode encarregar-se de nós. Se queremos viver como burgueses: boa mesa, bela sala, belos móveis, andar de carro, vestir bem e realizar a obra de Deus, negligentemente, é claro e certo que Deus não tem obrigação de sustentar gente desta espécie.

“É por isso que, apoiados nestes dois princípios, nós não queremos deixar nem fundações, nem rendas, nem bens. Se sois santos não tendes necessidade de tudo isso, tereis mais que aquilo que quereis; mas se não sois santos não tereis nada, e é bem feito porque não o tereis merecido e porque seria mal utilizada por vós; e vale mais deixar morrer as obras se essas não contribuem para a glória de Deus e se nelas não está o Espírito de Deus” [425]. Sente-se nas expressões do Padre Chevrier como que uma certeza tranqüila, uma verdadeira segurança. Esta segurança apóia-se direitamente em Cristo, pela fé. Dizia ele: “Quando o Mestre envia os seus apóstolos, pelo mundo, não os envia para pedir, edificar, fazer peditórios, construir, estabelecer-se no mundo; envia-os para ensinar, instruir, batizar. Eis a grande finalidade. E se trabalham para Ele, promete dar-lhes o salário. Quando se faz trabalhar um operário deve-se dar-lhe o salário; o operário merece o seu salário; uma vez que é Deus que envia, Ele se encarrega dos seus operários. Portanto, quando vamos a um lugar qualquer, a primeira coisa a fazer é ensinar, dar catequese, batizar, curar, prestar serviço a toda a gente; eis a nossa primeira missão. Se começarmos por construir, arranjar, alinhar, comprar, pedir, fazer peditórios, não fazemos obra de Deus, fazemos obra material. É preciso começar pela obra espiritual. Só depois virá a obra material” [426].

Quando nos esforçamos por realizar a obra de Deus e por realizá-la como Deus quer, nunca nos devemos preocupar. “Nosso Senhor quer que eliminemos do nosso coração qualquer preocupação pelo futuro e não tem medo de falar, muitas vezes, sobre a confiança que devemos ter em Deus e de entrar em longos pormenores, para nos mostrar que Deus quer ser, verdadeiramente, Nosso Pai e que seria uma ofensa grave nos inquietarmos quando trabalhamos por Ele” [427]. Reparamos na expressão: “Seria uma ofensa grave nos inquietarmos quando trabalhamos para Ele”. Por isso, Antônio Chevrier recorda-nos o que o Evangelho ensina sobre a confiança. Recorda-nos, especialmente, o que Jesus diz sobre as aves do céu e as flores do campo e também as instruções que dá aos apóstolos e conclui dizendo: “Com todos estes discursos, Nosso Senhor quer extirpar da nossa alma qualquer inquietação em relação ao dia de amanhã. Nós somos seus filhos, seus operários, seus servidores: Ele cuidará de nós. O operário merece o seu salário. Se Ele cuida das avezinhas, quanto mais de nós que somos as suas criaturas privilegiadas, os seus operários, que Ele envia a trabalhar na sua vinha. Não se faz trabalhar um operário sem lhe pagar” [428].

Aliás, há sinais que mostram que Jesus cumpre o que promete. Antônio Chevrier recorda-os, em primeiro lugar, no Evangelho. Jesus dizia: “Quando vos enviei, sem bolsa, nem alforge, nem sandália faltou-vos alguma coisa? – Nada, responderam eles” [429] (Lc 22,35). Dito doutra maneira, não lhes faltou nada quando os enviou sem nada. Estes sinais, o Padre Chevrier os viu se realizar à sua vista, no Prado. Ele que nunca falava das graças extraordinárias que recebia, interiormente, cita, muitas vezes, a experiência que teve da extraordinária bondade de Deus para com o Prado, e diz: “Se, realmente, somos operários de Deus, teremos o nosso salário. Deus o enviará. Não é a nossa casa uma prova desta grande verdade? Onde é que estão os nossos rendimentos? Onde estão os nossos haveres? E, no entanto, Deus alimenta, cada dia, quase duzentas pessoas; é ou não é uma prova evidente da providência de Deus para conosco? Se continuamos a viver como começamos, teremos sempre o apoio e o socorro de Deus”. [430]. Ele via as intervenções de Deus para fazer viver o Prado como um milagre normal[431].

As suas instruções são bastante rigorosas e exprimem bem o seu pensamento: “Para observar esta regra de pobreza, de fé e de confiança, em Deus, propomo-nos, antes de tudo, dedicar-nos, exclusivamente, às obras de Deus e dar sempre a prioridade à obra de Deus; de nunca começar pelo temporal, mas começar pelo espiritual; de nunca solicitar as pessoas do mundo para que nos deem, seja o que for, de nunca empregar nenhum desses meios humanos que o mundo tanto usa para ter dinheiro, tais como loterias, concertos, serões, reuniões, sermões e outras coisas onde se fazem peditórios. Todos estes meios de atrair o dinheiro não revelam caridade, confiança, humildade; não se deve exigir dinheiro, nem forçar as pessoas a que nô-lo deem. Pelo contrário; que todo o dinheiro ou bens que recebemos sejam unicamente o dinheiro da Providência e que os fiéis no-la deem livre, voluntária, afetuosa e espontaneamente” [432]. Não recusa as ofertas dadas livremente, mas não aceita processos que “dão dinheiro”. Por isso mesmo, renuncia a possuir grandes rendimentos, pois, basta-lhe o necessário. Não condena os que usam de meios humanos para ter dinheiro; mas lastima-os. Preocupava-se muito tudo o que no seu tempo se fazia para construir, embelezar, aumentar, alargar: “Que pensar daqueles que só pensam em construir, embelezar a casa paroquial, e a igreja e que, para isso passam o tempo a correr para junto do presidente, do governador, dos senhores e das senhoras. Que pena!… Deixam as almas para andar a correr por causa dos muros. Para converter não são necessárias tantas coisas. Não fomos enviados para fazer construções, mas para converter. Nunca, como hoje, se construíram tantas igrejas e casas paroquiais e nunca houve tão pouca fé e religião. Não devemos construir ou fazer coisas exteriores, a não ser quando nos virmos forçados a isso e tivermos largamente com que subvencionar, sem grandes problemas” [433].

Ao seu sucessor, o Pe. Duret, que estava preocupado perante a rigidez aparente destas instruções, ele infunde confiança e coragem. Mas não cede em nada quanto às orientações. E, uma última pergunta pela qual o Pe. Duret exprime bem o fundado da sua preocupação: “E se o pão continua a não aparecer, se depois de ter esperado com paciência, rezado, sofrido, os meios continuarem a faltar e as faturas a acumularem-se”, o Padre Chevrier responde: “Não chegareis a tal extremidade; ou então, meus filhos, tereis que concluir que não tendes a aprovação de Deus, ou que Ele não vos considera dignos de realizar os seus desígnios; e então será necessário aceitar a sua vontade e submeter-se a ela. Tendes, pois que vos tornar dignos da vossa vocação, adquirir as virtudes necessárias e merecer, pelo sofrimento, os auxílios de que tendes necessidade, porque até agora tudo me prova que estamos realizando a Obra do Bom Deus e que Ele ama o nosso Prado” [434].

Não podemos esquecer tais instruções. O Evangelho está sempre à nossa frente, presente e atual. Aliás, se na continuação, lermos no “Verdadeiro Discípulo”, as páginas que falam da confiança em Deus, podemos sentir o entusiasmo com que o Padre Chevrier as escreveu. De tal modo se sente nas mãos de Deus que não pode estar preocupado. O único problema consiste em realizar a obra de Deus e não a obra pessoal e ser fiel a Deus em conformidade com Seu Filho Jesus. O elogio do padre pobre aparece então como a conclusão destas páginas de fé, confiança e amor “[435].

3. Renovação evangélica em comunhão com a Igreja

À primeira vista, pode parecer que uma renovação evangélica, na vida e no ministério dos padres pode ser realizada sem encontrar dificuldades nem da parte do magistério nem dos outros sacerdotes. Aliás, o magistério sempre afirmou que a Igreja devia procurar, sem cessar, a sua renovação, segundo o Evangelho. De fato, quando se trata de uma renovação, puramente espiritual que, em si mesma não exige uma mudança exterior, nem no estilo de vida nem nas realizações apostólicas, não aparecem grandes dificuldades; mas o Padre Chevrier não queria contentar-se com uma renovação puramente espiritual; desejava uma renovação na vida toda e no comportamento dos sacerdotes, tanto em nível pessoal como em nível apostólico; queria também realizar esta renovação permanecendo padre secular. Nunca pediu que esta renovação fosse imposta a todos os padres e também não se apresentava como um reformador do clero. Nunca se sentiu no direito de condenar os colegas, a pretexto de que a sua vida não lhe parecia bastante evangélica; somente pedia a permissão, para ele e para os que se associassem a ele, de viver, segundo o Evangelho, permanecendo padres seculares. De um modo especial, pedia a permissão de exercer o ministério gratuitamente. Mesmo agindo assim, Antônio Chevrier meteu-se em enormes dificuldades. Já falamos disto e não é de estranhar. Estas dificuldades eram inevitáveis. É que, concretamente, pelo fato de não aceitar o estilo de vida dos colegas, mesmo se não os criticava, parecia censurá-los. Podia-se também temer que os fiéis, ao notar as diferenças, desconsiderassem, mais ou menos, os padres que mantivessem as tradições do clero. Se a autoridade eclesiástica permitisse ao Padre Chevrier de exercer o ministério, gratuitamente, não iria tornar mais difícil para outros padres a prática dos costumes em vigor? Então seria necessário levantar o problema dos recursos necessários à vida do clero. De mais a mais, a preferência pelos pobres, tal como o Padre Chevrier a encarava, não só estava em oposição com a mentalidade habitual do clero, como também poderia causar dificuldades junto das “boas famílias” que se apresentavam como sendo o principal sustento do clero.

No seu pequeno posto, o Padre Chevrier situou-se na linha daqueles que na Igreja mais trabalharam para a sua renovação evangélica; penso especialmente em São Francisco de Assis e São Domingos. Ele gostava de dizer: “O Espírito de Deus encontra-se nos santos” [436]. Procurou realizar uma renovação evangélica autêntica, em perfeita comunhão com a Igreja. A sua maneira de atuar não era a única possível. Mas devo confessar que esta sempre me impressionou profundamente.

O Padre Chevrier, o Papa, os bispos[437]

Antônio Chevrier sempre teve uma atitude de fé e de obediência em relação ao Papa e aos bispos. É certo que não há nada de exagerado na sua atitude: mesmo se chega a dizer que se pode ser bispo sem possuir o Espírito de Deus[438] e manifesta as suas reservas quanto às grandes cerimônias romanas. A propósito de uma missa pontifical, na capela Sixtina, escreve o seguinte: “Tudo isso é imponente e que em nenhum outro lugar a religião se apresenta com tanta grandiosidade e esplendor. No entanto, eu teria preferido ver o presépio do Bom Jesus e ser pastor para ter a felicidade de estar no estábulo do bom Salvador” [439].

Se o Papa e os bispos não são Cristo, eles O representam para nós e são um sinal dele: “Ao ver o papa, vemos Nosso Senhor Jesus Cristo[440]… Devemos-lhe obediência porque ele representa o próprio Jesus Cristo” [441]. “Os nossos bispos são os representantes de Deus na terra e, unidos ao papa nos manifestam também a vontade de Deus” [442]. Quando falava do papa e dos bispos não ficava só ao nível de uma fé puramente sobrenatural, mas manifestava também, com toda a simplicidade, a sua confiança e filial afeição: “O nosso Santo Padre, o papa é pai de todos nós; nos tem todos no seu coração, por isso, devemos amá-lo” e acrescentava: “Quanto mais o importunamos, mais o devemos amar e rezar por ele; é o dever dos seus filhos” [443]. Ao anunciar aos fiéis, reunidos na capela do Prado, a morte do Cardeal De Bonald, dizia o seguinte: “Foi dele que eu recebi a unção sacerdotal; foi ele que abençoou os primeiros trabalhos do meu ministério; foi ele que me apoiou, dirigiu, aconselhou, encorajou na fundação do Prado, nas provações e dificuldades; foi graças a ele que eu tenho hoje a felicidade de evangelizar as vossas almas. Foi dele que eu recebi a missão” [444].

Ao mesmo tempo, o Padre Chevrier tem consciência do chamamento que recebeu de Deus. Tem a íntima convicção de que o Senhor lhe pediu que se convertesse, seguindo Jesus Cristo, mais de perto; tem ainda a convicção de que deve associar a si outros padres para caminharem com ele na mesma linha e que estes padres deverão transformar, não só a sua vida pessoal, mas também as suas relações de apostolado junto das pessoas, no sentido do Evangelho. O caminho destas iniciativas pelo qual o Senhor o empurra a entrar, não o opõe à obediência ao papa e aos bispos. Pelo contrário, busca, sem cessar, avançar na fidelidade a Cristo e àqueles que o representam na Igreja. “Nos submeteremos de alma e coração a todas as decisões da Igreja e do Papa” [445].

Para melhor compreender como é que o Padre Chevrier procurou levar a cabo a sua missão, em comunhão com o papa e os bispos, será útil ver qual foi, em geral, a atitude do papa e dos bispos a seu respeito.

Antônio Chevrier esteve em relação com os arcebispos de Lyon, a saber, o cardeal De Bonald (+1870), Dom Ginouilhac (+1876), o Cardeal Caverot (+1887). Entre os colaboradores destes, há que nomear, especialmente, um bispo auxiliar, Dom Thibaudier e um vigário geral M. Richoud. As suas relações com o episcopado de Grenoble foram muito breves (1867-1871); são mal conhecidas; só dizem respeito à paróquia do Moulin à Vent. A nível pessoal, os arcebispos de Lyon sempre mostraram benevolência e confiança a seu respeito. O cardeal De Bonald o apoiou, verdadeiramente, na fundação da Obra da Primeira Comunhão no Prado. Não há sinais de dificuldades no que diz respeito à fundação da escola clerical. Ao receber, na sua escola, alunos que não pagavam pensão, dava assim possibilidade de acesso ao sacerdócio a crianças pobres. Numa época em que não havia obras de vocações, o Padre Chevrier prestava um grande serviço à diocese de Lyon. Dom Ginouilhac e o cardeal Caverot tiveram a mesma atitude de benevolência, confiança e apoio. No entanto, é preciso notar certa reserva da parte do cardeal De Bonald e de Dom Ginouilhac. O cardeal Caverot foi o primeiro arcebispo de Lyon que visitou o Prado. Em 1878, dezoito anos depois da fundação, Dom Ginouilhac explica muito simplesmente a sua reserva escrevendo ao Padre Chevrier: “Irei vos visitar, meu bom padre, no vosso Prado, mas não ouso aventurar-me pelos vossos bairros” [446]. Não sabemos nada acerca dos motivos que impediram o cardeal De Bonald de visitar o Padre Chevrier.

No que diz respeito à sua fundação essencial, uma associação de sacerdotes pobres a serviço das paróquias pobres, se sente uma profunda hesitação por parte do arcebispo de Lyon. Poderíamos resumi-la assim: o Padre Chevrier é um santo, de acordo, mas será um fundador? Sem dúvida que por aqui se podem explicar as recusas repetidas apresentadas ao Pe Gourdon para entrar no Prado, assim como a recusa, por parte de Dom Ginouilhac, quanto a enviar seminaristas do Prado para Roma.

No que diz a respeito à gratuidade do ministério, parece ter sido, explicitamente, excluída. De fato, o arcebispo de Lyon nunca propôs uma paróquia ao Padre Chevrier, e foi preciso esperar até 1891, doze anos depois da sua morte, para que uma paróquia fosse confiada a padres do Prado. Não terá sido por causa do desacordo, no assunto da gratuidade do ministério, que o episcopado de Grenoble retirou a paróquia do Moulin à Vent ao Padre Chevrier? Com efeito, no post scriptum de uma carta dirigida ao Padre Chevrier, Monsenhor Orcel, vigário geral de Grenoble, escreve o seguinte: “Suponho que os vossos dialogados, em Moulin à Vent, se conformam à vontade de Dom e recebem os emolumentos” [447].

No entanto, o cardeal Caverot parece ter ido mais além que os seus predecessores na confiança que manifestou para com o Padre Chevrier e as suas orientações. Foi ele que autorizou os quatro primeiros diáconos do Prado a continuar os estudos em Roma; e, apesar da opinião contrária do seu vigário geral, deixou-os, depois de ordenados sacerdotes, à disposição do Padre Chevrier. Também foi ele que aprovou, “provisoriamente e a experiência”, o regulamento do Prado, no dia 25 de janeiro de 1878. Neste regulamento, não se fala de espórtulas, até porque o Prado não era uma paróquia, mas apenas o seguinte: “Quanto a nós, está excluída qualquer forma de arranjar dinheiro… nos limitaremos ao peditório do domingo, nos ofícios e na oração da tarde” [448]. Aprovar este regulamento era aprovar que não se obrigasse a “pregar o lugar sentado” [449]. Já era alguma coisa!… Além disto, neste regulamento, era apresentado ao cardeal o desejo de “ir dar catequese nas oficinas, nas aldeias, nas casas, para ir buscar tantas almas que hoje se afastam de Deus e da Igreja” [450].

Junto do papa, o Padre Chevrier encontrou mais ou menos o mesmo acolhimento que da parte dos arcebispos de Lyon. Foi muito bem recebido e com muita benevolência, a título pessoal e pela sua obra da Primeira Comunhão, mas nunca obteve a aprovação que tanto desejava nem para a associação de sacerdotes que ele desejava fundar nem para a gratuidade do ministério. Aliás, nunca obteve audiência privada. Foi, no entanto, recebido duas vezes por Pio IX, no fim de uma audiência concedida a Dom Dubuis[451]. Tudo se passou, portanto, por intermédio e com o apoio dos padres capuchinhos e de Dom Dubuis. Citarei a resposta de Pio IX ao Pe. Piscivillo, que tinha apresentado ao papa o pedido do Padre Chevrier (dia 12 de outubro de 1864). Neste requerimento, o Padre Chevrier apresentava o desejo de vários sacerdotes que queriam “exercer o santo ministério sem outra retribuição além da que os fiéis oferecerão livremente”. O papa respondeu: “A obra é boa, mas antes de a aprovar, é preciso que os anos passem e os bispos testemunhem a sua oportunidade e sucesso; por enquanto, não posso senão aprovar as intenções, e abençoar as pessoas, o que faço de todo o coração” [452].

Não se pode dizer que o papa e os bispos tenham reconhecido, juridicamente, Antônio Chevrier naquilo que era o essencial da sua missão, isto é, uma associação de padres seculares decididos a viver, segundo o Evangelho, na sua vida e no seu ministério de padres diocesanos; também não o autorizaram a retomar o antigo costume, mencionado no prefácio do ritual romano, quanto à maneira de receber as ofertas dos fiéis por ocasião dos atos do culto. Apesar de o não terem reconhecido, juridicamente, é certo que o encorajaram, positivamente, e o Padre Chevrier mostrou-se muito contente com a resposta do Papa Pio IX: “A obra é boa”. Falarei mais além[453] sobre a aprovação do papa, mas queria dizer desde já que não podemos olhar só para as reservas e as recusas. O aspeto positivo do encorajamento é, de longe, mais significativo que as reservas manifestadas. De certo modo, o papa Pio IX abria a porta aos bispos que viessem a dar uma autorização ao Padre Chevrier, no sentido da gratuidade do ministério. Fiel à sua missão

Em face de tais incompreensões, outros teriam desanimado ou ficado revoltados; ou então teriam passado além de todas as interdições para realizar o que lhes parecesse necessário. Antônio Chevrier deseja só a vontade de Deus e nem sequer lhe passa pela idéia que se possa fazer a vontade de Deus fora da comunhão com a Igreja. Mas não encara a obediência de um modo puramente passivo; por isso, em face destas dificuldades, não fica parado; pelo contrário, o vemos cheio de iniciativas, realizando o que é possível, insistindo para conseguir as autorizações necessárias, esperando sem desanimar. Nunca, condenou os outros sacerdotes e, se bem que permanecendo fiel à sua orientação, não se permitia a menor crítica pessoal. Exprimia, francamente, a sua maneira de pensar e denunciava, claramente, os inconvenientes que resultavam de certas maneiras de agir. Às vezes, exprimia-se com vivacidade e humor, por exemplo, falando dos padres que passam o tempo a pedir para construir ou ornamentar as igrejas: “São obrigados a correr, continuamente, para junto do governador, do presidente da câmara, do imperador, do senhor fulano ou da senhora fulana de tal. É isto a obra de Deus? Não. É obra humana” [454]. É a forma de agir que é criticada e não as pessoas; se falava assim, era aos seus seminaristas e aos seus padres para que não fizessem como os outros. E dizia-lhes também: “Cada um dará conta a Deus pelas graças que tiver recebido. Não temos nada de que nos vangloriar e devemos evitar dizer qualquer palavra contrária à caridade para com o próximo: há que pôr a render a graça de Deus e não criticar ninguém” [455]. Quando, em necessidade de uma autorização, não a pede em nome de uma teoria que deva ser imposta a todos; pede, simplesmente, que lhe permitam não utilizar certas maneiras de agir que possam afastar as pessoas da Igreja. Quando não tem necessidade de uma licença especial, Antônio Chevrier sabe usar da sua liberdade para viver, segundo o Evangelho. Sabe bem que praticando uma pobreza efetiva “no aleijamento, no vestir, na alimentação, etc.” pode incomodar outros padres e ser criticado por eles; mas quando não criticamos aqueles que nos criticam, acabamos por fazer aceitar esta originalidade que consiste em viver, segundo o Evangelho “[456]. Mesmo quando não se é bem compreendido, pode-se ir trabalhando, progressivamente, para a realização de um projeto. O Padre Chevrier tinha procurado colegas que aceitassem a sua maneira de ver e se associassem e ele. Neste ponto, apesar de alguns êxitos temporários, penso, em especial, no Pe. Jaricot, foi um insucesso. Por isso, a partir de 1865, Antônio Chevrier se decide em fundar uma escola clerical a fim de poder formar alguns jovens na linha do Prado. Só os podia formar até a Retórica. Em seguida, devia enviá-los para o seminário maior. Nem por isso os abandona; visita-os, escreve-lhes, acolhe-os durante as férias, e continua, até certo ponto, a formá-los, segundo o Evangelho. Apesar de tudo, nota quanto às influências exteriores ao Prado são um obstáculo[457]. Daí o sentir a necessidade de uma formação especial.

Já em 1873, o Padre Chevrier tinha pedido a Dom Ginouilhac autorização para mandar os seus seminaristas estudar em Roma[458]; em 1876, renova o pedido junto do cardeal Caverot, para os seus quatro diáconos. Mais uma vez, a resposta é negativa[459]. Dez dias depois, tendo ido ao paço episcopal por causa da crisma das crianças do Prado, o Padre Chevrier aproxima-se do cardeal que rezava a ação de graças no seu genuflexório e, de joelhos, ao lado dele, volta a insistir. “Pensava que já tinha desistido disso, diz-lhe o cardeal. – Parece-me impossível desistir, Dom. – Estais assim tão agarrado à ideia? – Sim, Dom, parece-me uma coisa necessária. A nossa vocação é uma vocação especial, precisa de uma formação especial” [460]. Contra tudo o que esperava, Dom Caverot aceita e diz-lhe: “Faça como deseja. Não quero contrariar os desígnios de Deus a vosso respeito e da vossa obra” [461]. Esta conversa parece-me característica da forma de agir do Padre Chevrier. Sente-se, intimamente, persuadido que Deus lhe pede uma formação especial para os seus futuros padres; constata que a formação recebida, no seminário maior de Lyon, não é suficiente; e então pede e insiste. A obediência, na fé, não é passiva nem resignada; é humilde, exige que proponhamos iniciativas e que saibamos perseverar.

Havia outro problema que o preocupava. Deixaria o arcebispado de Lyon à sua disposição os seus quatro primeiros padres? Canonicamente, o Padre Chevrier não tinha nenhum direito sobre eles. Os formou até as humanidades, à custa do Prado, pagou a pensão, no seminário maior, os acompanhou pessoalmente na altura do subdiaconato, tudo isto constituía uma razão válida, mas não era um direito. Era, no entanto, um bom argumento no sentido da decisão do cardeal Caverot que, finalmente, pôs estes jovens sacerdotes à disposição do Padre Chevrier. Também, por aqui, nos apercebemos do “método” do Padre Chevrier: não espera que as autorizações venham naturalmente; vai preparando-as.

Os fatos que acabei de enumerar mostram já, claramente, as três características da ação do Padre Chevrier: realismo, prudência, perseverança. Estão enraizadas nesta sabedoria popular que vem mais da intuição e da experiência que dos raciocínios; mas só se explicam, plenamente, por referência a esta sabedoria de Deus que o Padre Chevrier tinha bebido no Evangelho. Eis ainda um fato que manifesta o seu realismo. Sobrecarregado de trabalho, o Padre Chevrier não podia acudir sozinho a todas as exigências da obra do Padre Chevrier e da escola clerical. Então aceitou a colaboração de padres que, em geral, não estavam à altura do trabalho que lhes confiava, mas que podiam ajudá-lo. Se guiasse por teorias, não os teria aceitado; e então teria que renunciar ao seu projeto. Realista, fez o que era possível com os colaboradores que podia encontrar.

De igual modo, conhecendo bem a mentalidade geral do tempo, Antônio Chevrier não revelou a totalidade do seu projeto, nem ao fundar a obra de primeira comunhão, nem na altura em que começou a receber crianças na sua escola clerical. Era prudente. Bastava-lhe ter as licenças necessárias para ir realizando o que tinha há fazer cada dia. Também, não podia, desde o princípio, ver, com clareza, a forma que iria tomar o seu projeto. O que ele viu, é que devia fundar uma associação de sacerdotes pobres para servir os pobres. Quanto à realização, o Padre Chevrier colocava-se numa atitude de dependência em relação ao Espírito Santo, deixando-se guiar pelos acontecimentos. Sobretudo nisto, consiste a verdadeira prudência.

O que mais chama a atenção na atitude do Padre Chevrier é a perseverança. Não se deixou deter, nem pelas incompreensões de seus superiores hierárquicos, nem pelas dificuldades que lhe criavam os seus colegas, nem pelas resistências e, às vezes, insucessos na formação dos seus futuros padres, continuava, apesar de tudo.

Sofria muito com a sua solidão. Nós o sabemos por uma confidência sua: foi em 1865, na altura em que fazia as diligências para receber o Pe. Gourdon, diligências que nunca resultaram. Escrevia ele: “Se o Bom Deus me enviasse um bom companheiro, que compreendesse bem a Obra de Deus, então eu teria mais coragem, mais força, mas sozinho, sempre sozinho, sinto que não tenho força ou que seria necessária uma graça extraordinária que eu ainda não mereci” [462].

Sofria tanto mais da solidão, quanto mais se sentia incapaz de fazer face à sua responsabilidade. Só poderemos compreender bem o valor da sua perseverança, se a situarmos no meio dos obstáculos interiores e exteriores com que se deparava todos os dias. No mês de setembro de 1864, na altura de apresentar ao papa a sua súplica, escrevia: “Sou tão pobre, tão miserável, tenho tanta vergonha de me encontrar no mundo e em presença do mundo, que me esconderia, todo inteiro, num pequenino buraco” [463]. Pois bem! Apesar de tudo, não se deixou desanimar, continuou a avançar. A perseverança do Padre Chevrier não tinha nada de uma esperança passiva. Em 1878, teve a impressão de que tudo se desmoronava; o Pe. Jaricot tinha ido para os Trapistas e dois dos seus jovens padres pensavam deixá-lo, um para a Grande Cartuxo e outro para as Missões Estrangeiras. Não se contenta com aceitar, pela fé, tal provação; está decidido a lutar ainda. Se bem que respeitando a liberdade de cada um, escreve ao Pe. Jaricot, conversa longamente com o Pe. Duret e bruscamente a crise se resolve. O Pe. Jaricot volta para o Prado e os dois jovens padres decidem ficar com o Padre Chevrier. Tinha agüentado até o fim, até ficar doente, mas não se deixou vencer[464].

Ele próprio, no seu testamento espiritual, reconheceu que a mão de Deus estava com ele. Tinha dois pensamentos em que se apoiava e que para ele eram duas certezas:

  1. “Se transmitirmos, verdadeiramente, o interior, o exterior acabará sempre por chegar” [465]
  2. “Quando o Bom Deus quer uma coisa, sabe dispor o coração dos nossos superiores para no-la concederem em tempo oportuno; é preciso rezar e saber esperar” [466].

Saber esperar é esperar não só rezando, mas realizando, logo de início, o que pode ser realizado, preparando o futuro e repetindo as diligências e os pedidos necessários, não por teimosia, mas por fidelidade[467], não para exercer pressões, mas para ajudar os nossos superiores a compreender melhor o que Deus espera de nós. Trabalhar assim é contribuir para uma renovação evangélica, em comunhão com a Igreja, é realizar a obra de Deus.


Capítulo 6:
A comunidade, segundo o Evangelho

Antônio Chevrier disse, muitas vezes, que sofria pela sua solidão no Prado, e, no entanto, nunca esteve só. Desde o início, estiveram com ele irmãos e irmãs e, mais tarde, alguns sacerdotes. Era ele o superior e por isso podia organizar, pelo menos, certa vida comunitária; o que realmente fez. Donde lhe vinha então esta dolorosa impressão de solidão? Segundo a sua maneira de ver, não basta viver em conjunto, mesmo com uma boa organização, para que haja uma vida de comunidade. A organização de uma vida comunitária, os exercícios religiosos em comum, são o exterior; para ele, sem dúvida, o exterior também conta e até é necessário, mas nunca é suficiente. O necessário é, antes de tudo, buscar o interior, quer dizer, aquilo que garante a verdadeira unidade. A verdadeira unidade não está nem no dinheiro, nem no vestir, nem no fato de viver juntos, nem no título de irmãos que nos damos mutuamente; tudo isto supõe a unidade, mas não é a unidade; no fundo, tudo isto não é nada! Como estes títulos de irmão e irmã são, muitas vezes, ridículos e mentirosos!”[468].

Iremos, portanto, encontrar de novo, a propósito da vida comunitária, um dos aspetos característicos do Padre Chevrier. Por um lado, apresenta o que lhe parece ser o essencial na vida comunitária, aquilo que a torna verdadeira; por outro lado, sem nunca perder de vista o ideal a que se propôs, vai já realizando aquilo que é possível e pede aos que se associaram a ele que caminhem também em direção a este ideal. Às vezes, tem-se impressão de que não consegue, em razão da distância que separa o ideal da realização; na realidade é um avançar cheio de esperança, pois, através de todos os obstáculos, vai prosseguindo no seu esforço.

No essencial, o pensamento do Padre Chevrier é realmente original, no sentido em que é totalmente evangélico; mas quando se trata de passar à realização não hesita em inspirar-se na vida religiosa, se bem que subordinando sempre as práticas comunitárias às exigências do apostolado. As orientações do Padre Chevrier são, portanto, originais e, ao mesmo tempo, marcadas pelo que se praticava na sua época; vamos apresentá-las tal como ele mesmo as apresentou[469].

1. A família espiritual

O Padre Chevrier afirmou a necessidade de um superior e de um regulamento; desejava também a vida em coabitação e a partilha dos bens. Dava muita importância à regularidade das reuniões e dos exercícios comunitários. Tudo isto, para ele, não era o essencial, nem o primordial. O que para ele era primeiro e essencial, exprimiu-se em dois textos fundamentais[470].

Depois de ter dito que o “Espírito de Deus é tudo, é tudo para si mesmo, é tudo para a comunidade”, o Padre Chevrier acrescenta: “É o Espírito de Deus que cria a unidade numa casa, une os espíritos e os corações e faz com que todos sejam um”. Fazendo referência, em seguida, à oração de Cristo depois da Última Ceia (Jo 17,11.20-26) e à vida dos primeiros cristãos que tinham um só coração e uma só alma (At 4,32), repete, sob uma forma diferente, a mesma afirmação: “A verdadeira unidade está na união de um mesmo espírito, de um mesmo pensamento, de um mesmo amor, e é Jesus Cristo que é o centro, pelo Espírito Santo” [471]. Dito doutra maneira, a comunidade, tal como o Padre Chevrier a deseja, só pode existir entre aqueles que, pessoalmente, tomaram a decisão de seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, mais de perto. O que não quer dizer que já aí tenham chegado; até porque nunca se pode realizar completamente a perfeição evangélica; mas o que supõe que estejam, verdadeiramente, decididos a avançar nesse sentido.

Seguir Jesus Cristo, mais de perto, estende-se a toda a vida do sacerdote e a todo o seu ministério. A associação que ele queria fundar não podia ser uma associação, puramente, espiritual, limitada ao que chama “vida interior”, mas uma associação que comportava, necessariamente, a realização efetiva da vida evangélica. Também, esta associação não pode se consistir, somente, numa escolha de um estilo de vida pobre e num apostolado orientado para os pobres. É preciso que este estilo de vida e esta orientação, em direção aos pobres, tenham sido escolhidos a partir do conhecimento e do amor por Jesus Cristo, com a finalidade de dar Jesus Cristo a conhecer. Para formar uma verdadeira comunidade, segundo o Evangelho, os sacerdotes devem comungar, na mesma decisão e dar-se, inteiramente, a Jesus Cristo, vivendo dependentes do seu Espírito e exercendo o apostolado, segundo o Evangelho.

O segundo texto refere-se à passagem do Evangelho em que Jesus nos diz quem é o seu irmão, a sua irmã e a sua mãe (Mc 3,31). Está em relação profunda com o texto precedente, mas insiste sobre a prática e precisa o que é uma família espiritual. Eis algumas passagens mais significativas: “Quando duas almas esclarecidas, pelo Espírito Santo, ouvem a palavra de Deus e a compreendem, forma-se, nestas duas almas, uma união de espírito muito íntima de que Deus é o princípio e o elo de ligação… Este conhecimento de Deus produz, em primeiro lugar, o amor de Deus e também o amor por aquele que pensa em Deus, é infinitamente mais profundo e mais forte que qualquer outra ligação natural. E quando, a este vínculo espiritual, se vem juntar a prática da mesma palavra, então forma-se uma verdadeira família espiritual, uma comunidade cristã que tem Deus por fundamento, a sua palavra por vínculo e as mesmas práticas por objetivo. Não pode existir família ou comunidade cristã sem esta união de espírito, fundada no conhecimento de Jesus Cristo, da sua divina palavra e na prática das mesmas obras” [472]. A “família espiritual” exige, portanto, dos seus membros, não só o conhecimento de Jesus Cristo, mas também a “prática das mesmas obras”. Não haverá, por isso, família espiritual sem realizações exteriores. Assim como não há pobreza autêntica se esta fica só a nível de um desapego espiritual e do coração.

Entre estas práticas e estas realizações, há uma que é específica da vida, em comunidade, segundo o Evangelho. É a vida de família. Assim como Chevrier partia da pobreza dos pobres para descobrir como devia viver pobre, assim também parte da “verdadeira família” para definir como deve ser uma família espiritual. No entanto, o fazer referência aos pobres e à família, não constitui um absoluto e finalmente tudo deve ser esclarecido à luz do Evangelho. É isto o realismo evangélico do Padre Chevrier. Não é só a realidade vivida pelos pobres ou pelas famílias que passa a ser uma regra de vida, mas sim, esta realidade iluminada pelo Evangelho. Não se trata de copiar, rigorosamente, o que vivem os pobres ou as famílias, mas é preciso ter esta vida em conta; porque Jesus forma-nos através da vida dos pobres e das famílias, se soubermos olhá-los à luz do Evangelho. Eis como Antônio Chevrier descreve a família espiritual: “Quando esta família existe, realmente, devemos encontrar nela tudo o que existe numa verdadeira família: o amor, a união, a ajuda, a caridade, todos os cuidados espirituais, e temporais necessários a cada um dos seus membros, sem ter necessidade de ir buscar noutro sítio o que é preciso para as necessidades da alma ou do corpo; doutro modo, a família não é completa nem verdadeira” [473].

Este “essencial” da vida comunitária, na comunhão de espírito e de coração com Jesus, no esforço constante de conformidade efetiva com o Evangelho e no apoio fraternal de uma verdadeira vida de família, é a meta para a qual se oriente constantemente o Padre Chevrier. Apesar das dificuldades, nunca desanima; tanto na formação dos seus futuros padres como na formação das irmãs, sempre se esforçou por constituir uma verdadeira vida de comunidade, segundo o Evangelho. Necessidade profunda que sentia, tanto para ele como para os seus sacerdotes.

2. O apoio da comunidade

Antônio Chevrier falou da necessidade de um apoio comunitário para os sacerdotes, a partir de dois pontos de vista. No regulamento das paróquias, escrito, provavelmente, quando era pároco da paróquia de Moulin à Vent (1867-1871), descreve, sobretudo, as “práticas comunitárias”; o que é normal, visto que se trata de um regulamento. Noutros escritos, especialmente nas cartas, fala-nos diretamente da necessidade de uma comunidade evangélica para ser fiel à vocação de discípulo de Jesus. Quando queremos seguir Jesus Cristo, mais de perto, não podemos ficar sós, temos necessidade dos irmãos, como os irmãos têm necessidade de nós. Não se devem opor estes dois aspetos da mesma necessidade. São complementares; mas não se situam no mesmo plano. Na perspectiva do Padre Chevrier, é a comunidade que é mais importante. Mas a prática comunitária continua a ser necessária.

Na introdução ao regulamento dos padres na paróquia, Antônio Chevrier descreve a grandeza do ministério paroquial e as dificuldades encontradas, pelos padres, para serem fiéis à sua vocação. A seguir, nota que: “A solidão em que se encontra o sacerdote, mesmo vivendo, às vezes, com colegas, faz com que ele cumpra menos bem os seus deveres, desleixe a sua formação e não realize completamente a missão que Jesus lhe confiou”. Com efeito, se o padre quer estar à altura do seu dever, “tem necessidade de apoio, de auxílio, de amigos e de conselheiros”. Tem necessidade de amizade para poder “comunicar as suas idéias e trabalhar para as pôr em prática”. O apoio que Antônio Chevrier espera da comunidade comporta vários aspetos: afetivo, espiritual e apostólico.

A introdução citada termina assim: “Alguns padres, desejando salvar-se e salvar os outros, comprometem-se a viver na pobreza, na obediência aos superiores e em união entre eles; a rezar, a estudar e entregar-se a todas as obras de zelo que convêm ao ministério das paróquias” [474]. Antônio Chevrier enumera, a seguir, uma série de prescrições onde manifesta a sua preocupação de viver a pobreza, e ao mesmo tempo, as circunstâncias concretas em que então se desenrolava o ministério paroquial. Por isso, quer ajudar os sacerdotes a sair do individualismo e a orientarem-se, sob todos os pontos de vista, num sentido comunitário. Sente-se que o Padre Chevrier não reduz a vida comunitária ao campo do apostolado ou dos exercícios espirituais, em comum; quer que ela esteja presente em toda a vida do sacerdote.

Ele próprio exprimiu, não só o sofrimento provocado pela solidão, mas também a necessidade que sentia de um apoio comunitário, para poder responder ao chamamento de Deus. Numa carta escrita em 1865, – na altura em que o Pe. Gourdon fazia diligências para serem admitidas no Prado, diligências que, infelizmente, não deram resultado – dizia assim: “Se o bom Deus me enviasse um bom companheiro, que compreendesse bem a Obra de Deus, então eu teria mais coragem, mais força; mas sozinho, sempre sozinho, sinto que não tenho força ou que seria necessária uma graça extraordinária que eu ainda não mereci” [475]. Quando o Padre Chevrier diz que “só, sempre só, sinto que não tenho forças”, não pensa, unicamente, na sua vida pessoal de discípulo de Jesus, mas em tudo o que Deus lhe pediu na noite de Natal de 1856, quer dizer, a fundação de uma associação de padres que vivam, segundo o Evangelho. É, sobretudo em relação a esta fundação que ele se sente esmagado na sua solidão. Mas o conjunto das cartas revela bem a sua convicção profunda: só, não se pode viver, verdadeiramente, segundo o Evangelho. É necessário um apoio comunitário. Ou melhor, dito: uma vida em comunidade, segundo o Evangelho, é necessária para que se consiga seguir Jesus Cristo, mais de perto, tanto pessoalmente como no campo do apostolado. O Padre Chevrier quer, para os seus padres, um apostolado, segundo o Evangelho.

Por outro lado, é difícil descobrir em que consistia esta “graça extraordinária”, única, que lhe daria a possibilidade de viver, segundo o Evangelho e realizar a sua missão em um apoio comunitário. Talvez, pensasse no Cura d’Ars! Ou então, ao ver-se esmagado pela sua incompetência, pela sua incapacidade, e pelo que ele chamava a sua cobardia, talvez sentisse a necessidade de ser mais ajudado por Deus. Em todo o caso e n a impossibilidade de encontrarmos outras explicações, podem resumir assim o pensamento do Padre Chevrier: a vida comunitária, segundo o Evangelho, é normalmente necessária a todos aqueles que querem seguir Jesus Cristo, mais de perto.

É por isso que sempre procurou colegas com quem pudesse partilhar o mesmo desejo, de viver em conformidade total com Jesus Cristo. Em janeiro de 1866, esperava que o Pe. Gourdon pudesse vir trabalhar com ele no Prado. Escrevia então estas linhas cheias de esperança: “Venha, meditaremos em conjunto estas coisas e as poremos em prática. Sinto que tenho necessidade de alguém que compreenda o bom Salvador e que o ame. Oh! Não, como dizia na sua carta, não continuaremos sozinhos, seremos dois e Jesus será o nosso mestre; com ele tudo se pode compreender, nele tudo se pode unir, ele é o laço forte e inseparável que une os corações, verdadeiramente, desejosos de segui-lo” [476]. Infelizmente, a autorização foi recusada. Antônio Chevrier reage com fé e caridade. Chega mesmo a compreender os motivos da recusa: “Estes senhores, diz ele, não podem adivinhar o motivo que nos faz agir” [477]. Mas o golpe é duro: “Às vezes, tenho tanta vergonha, tanto medo, que nada garante que eu me salve. Ainda ontem, senti-me fortemente tentado a fechar-me no meu pequeno quarto e não mais voltar a aparecer; reze por mim, por favor, porque sou muito pobre, muito miserável, não em dinheiro, não penso nisso, mas em virtudes; uma pequena palavra no Santo Sacrifício. Como tenho necessidade de um bom companheiro para me apoiar!” [478].

O Senhor não o abandonou nesta provação e Antônio Chevrier continuou a procurar padres para o ajudar; mas não eram como ele desejava. E continua a sofrer na sua solidão. Em 1869, tenta ainda com o Pe. Dutel e explica bem o seu pensamento: “Imitar Nosso Senhor, seguir Jesus Cristo, chegar a ser outro Jesus Cristo sobre a terra, eis o fim a que me propus desde o princípio. Se o Espírito Santo o inspirar para vir nos ajudar a realizar este trabalho e a viver em conjunto esta vida, venha” [479]; e acrescenta: “vejo, por experiência, que aqueles que vêm aqui, conduzidos pelo seu espírito próprio, ou para encontrar um trabalho, não fazem nada e são entraves em vez de ajudas” [480]. O Padre Dutel foi autorizado a vir para o Prado. Era um padre sério e mesmo até muito austero; mas tinha as suas ideias a propósito do Prado e criticava, constantemente, o Padre Chevrier; não foi para ele o amigo de que tinha necessidade.

Felizmente, Antônio Chevrier encontrou o Pe. Jaricot. Este tinha alguns limites quanto a meios humanos, mas estava bem decidido a seguir Jesus Cristo, mais de perto. O Pe. Jaricot foi ordenado em 1869. Na correspondência que teve com ele de 1866 a 1878, vê-se até que ponto o Padre Chevrier vivia preocupado com o essencial. De uma forma ou de outra, insiste, sem cessar, no apelo a seguir Jesus Cristo, mais de perto. É ao Pe. Jaricot que, durante a sua estadia, em Roma, em 1877, ele manifesta as suas apreensões quanto aos seus futuros padres que fazem muitos raciocínios e que receberam toda a espécie de influências, no seminário e até mesmo no Prado[481]. Nem por isso desanima mesmo se dá conta do quanto “será difícil desfazer o que já está assente no espírito dos nossos jovens padres” [482]. Por isso, vai “devagar” [483]. Assim se compreende porque é que o Padre Chevrier insistia tanto na possibilidade de dar aos seus futuros padres uma formação especial[484].

Notemos que a vida comunitária faz parte do apelo sentido pelo Padre Chevrier na noite de Natal de 1856. Sentia-se chamado por Deus, não só a seguir Jesus Cristo, mais de perto, mas também a associar consigo outros sacerdotes, também eles decididos a viver, segundo o Evangelho. Nisto está o essencial da vida em comunidade. Podíamos dizer que o Padre Chevrier não teria sido fiel a Cristo, se não tivesse fundado, no Prado, uma vida comunitária, segundo o Evangelho.

3. Realização da comunidade, segundo o Evangelho

Antônio Chevrier nunca teve a possibilidade de realizar, plenamente, uma comunidade, segundo o Evangelho, tal como o desejava. No entanto, tentou traçar as grandes linhas de tal comunidade e, sobretudo esforçou-se por realizar, cada dia, com a sua paciência, a sua bondade e a sua persistência, aquilo que era impossível. Para esta realização segue, antes de tudo, aquilo que até agora dissemos sobre o essencial de uma vida comunitária, segundo o Evangelho e a família espiritual; quanto à prática comunitária, atém-se aos costumes da vida religiosa, na medida em que estes são compatíveis com o ministério dos padres em paróquia[485]. No entanto, tem a sua maneira própria de se conformar com estes costumes. Vou insistir, sobretudo, no espírito que anima estas realizações e naquilo que é original na sua forma de pôr em prática a vida de comunidade.

A vida em comum

Mesmo quando não vivemos, em comum, podemos ajudar-nos, mutuamente, através de encontros regulares. Às vezes, é a única possibilidade facilitada aos padres seculares. Algumas equipes são constituídas dentro destes limites. O Padre Chevrier nunca se colocou nesta perspectiva. O que ele procurou foi pôr em prática a vida em comum. É neste sentido que já no mês de maio de 1858, durante um retiro em Maubec, escreveu esta resolução: “Prometo a Jesus procurar companheiros, de boa vontade, para os associar comigo, a fim de viver em comum a mesma vida de pobreza e de sacrifício e trabalhar, mais eficazmente, pela nossa salvação e pela salvação dos nossos irmãos” [486].

Em 1865, por altura da fundação da escola clerical, escrevia o seguinte: “Como eu gostaria de ter comigo companheiros para levar uma vida evangélica, praticando a pobreza e a obediência, como nas comunidades, e entregar-nos, ao mesmo tempo, ao ministério paroquial” [487]. E no regulamento das paróquias, que pensava apresentar ao arcebispo de Lyon, escrevia: “Prometemos obedecer-lhe, mesmo que nos envie para as paróquias mais afastadas, mais sobrecarregadas e mais difíceis; somente lhe pedimos que não nos separasse” [488].

Podia-se dizer ao Padre Chevrier que a vida, em comum, não é absolutamente indispensável para encontrar um apoio comunitário. Penso, porém, que ele não se teria lançado num debate teórico. No entanto, podemos encontrar resposta através dos seus escritos e da sua vida. Insiste muito na importância da vida em comum: é vivendo em comum que se constitui uma família espiritual, segundo o Evangelho; é vivendo em comum que, mutuamente, nos ajudamos a seguir Jesus Cristo, mais de perto; é vivendo em comum que os padres, em paróquia, encontrarão o apoio humano e apostólico de que têm necessidade; ao mesmo tempo, se a vida em comum não é possível ou é incompleta, é preciso fazer tudo para suprir a sua falta ou as suas deficiências.

Há, pois, na sua maneira de ver e atuar, uma dupla orientação: fazer todo o possível para pôr em prática uma vida comunitária, segundo o Evangelho; empregar todos os meios necessários para realizar, apesar de tudo, um apoio comunitário, quando a vida, em comum, não pode ser concretizada ou é insuficiente. De fato, nunca lhe foi possível realizar, completamente, o seu ideal, mesmo no Prado; e, na única paróquia que lhe foi confiada, o Pe. Martinet vivia só, exceto quando o Padre Chevrier podia ausentar-se do Prado para partilhar a sua vida e o seu apostolado. Lembremo-nos, também, que não lhe foi possível formar os seus futuros padres em filosofia e teologia, guardando-os consigo no Prado. Teve que os enviar para o Seminário Maior de Lyon.

Realista como era, o Padre Chevrier nunca desanimou. Apesar das deficiências existentes no Prado, das dificuldades e oposições que sentia, sempre se esforçou por constituir, quanto possível, uma família espiritual, e pôr em prática certo número de exercícios comuns. No caso dos seus seminaristas, supria a falta da vida em comum, através de cartas ou organizando reuniões regulares entre eles. Além disso, durante as férias, reunia-os, no Prado, para os levar a pôr em prática, ao menos durante algumas semanas, uma verdadeira vida em comum e iniciá-los no apostolado comunitário. Por fim, insistiu muito para que, em Roma, os seus futuros padres constituíssem uma equipe de vida em comum.

Sente-se, através da sua maneira de pensar e de atuar, quanto à vida, em comum, era para ele uma preocupação constante. No concreto da vida cotidiana, fazia o que podia e era, suficientemente, realista para se contentar com o possível, sem nunca esquecer o objetivo que desejava atingir e orientando, nesse sentido, as realizações de cada dia.

Regulamentos e obediência

O Padre Chevrier apresenta o seu pensamento sobre a obediência aos superiores e aos regulamentos no “Verdadeiro Discípulo” [489]. Podemos também citar as instruções dadas ao Pe. Duret, seu sucessor[490], e os testemunhos reunidos em “Esprit et Vertus”, sobre este assunto. Ao ler os textos do Padre Chevrier, podemos ter a impressão de que são muito tradicionais, traduzindo a mentalidade do seu tempo. Mas se fazemos a comparação entre estes textos e a sua vida, notamos que a sua maneira de pensar e de agir se revela, profundamente, renovada, graças ao Evangelho. Conservou certo número de expressões das mais tradicionais e, sobretudo as que são de origem bíblica; limpou-as mais ou menos do sentido esclerosado em que tinham caído e fez-lhes retomar o sabor inicial. É deste modo que fala da renúncia, dos regulamentos, da obediência ou do “superior”. O Padre Chevrier deu sempre prioridade ao interior em relação ao exterior. Diz, a propósito dos “que começam por regulamentos exteriores e fazem muitas regras”, que “tudo isso não vale nada” [491] [492]. Apesar de tudo, ele próprio redigiu um bom número de regulamentos. Recordemos pelo menos o regulamento para os irmãos e as irmãs do Prado, o regulamento da escola clerical, o regulamento para as paróquias[493]. Uma certeza, porém, é que o Padre Chevrier não absolutiza os regulamentos. Por exemplo, dizia aos seus seminaristas que mudassem o regulamento quando lhes parecesse útil[494]. Ao mesmo tempo, tinha, em conta, o nosso individualismo e a nossa tendência para o arbitrário. Por isso, achava necessário um regulamento para assegurar a conformidade com a vontade de Deus, pela renúncia a si mesmo, e para garantir certa harmonia entre os que vivem em comunidade. Em qualquer das hipóteses, sabemos que um regulamento só é válido na medida em que faz referência ao Evangelho[495]. Ele que, acima de tudo, dava a prioridade ao conhecimento e ao amor de Jesus Cristo, na dependência do Espírito Santo, considera também “a obediência como a nossa virtude principal” [496]. Encontramos, aqui, de novo, a preocupação que sempre tinha de colocar cada coisa no seu devido lugar. O Padre Chevrier não quer transformar a obediência nem os regulamentos em coisas absolutas: são meios necessários para que renunciemos ao nosso próprio espírito e à nossa própria vontade, a fim de nos deixarmos guiar pelo Espírito de Deus. É por isso que nos pede que obedeçamos com fé, com submissão e com amor[497].

Finalmente, atribui ao “superior” um papel muito importante a serviço da comunidade. Pus aqui a palavra “superior” entre aspas porque é a que ele emprega, mas à qual dá uma significação rigorosamente evangélica[498]. Começa por situar bem a função dos superiores, lembrando que há um só Mestre e Superior no Céu e na Terra, que é Jesus Cristo “[499]. É por isso que o superior, “por si mesmo, não pode fazer nada”. Através da longa descrição que transmite ao Pe. Duret e em comparação com a maneira como viveu a sua responsabilidade de superior, vê-se sobressair o que deve ser um responsável de comunidade, segundo o Evangelho: um homem totalmente entregue a Cristo e aos irmãos por amor, “o pai e o amigo de todos” [500]; um homem que não se impõe que deve poder dizer: “Segue-me, faz como eu” [501]; um homem que sabe ouvir e esperar com paciência; um homem que sabe estar atento às necessidades humanas de cada um. Ao mesmo tempo, afirma que o superior é um homem que deve saber ser firme e capaz de repreender. Assim, os regulamentos e os superiores são postos no devido lugar; estão ao serviço da família espiritual para a ajudar a realizar-se na fidelidade e no amor.

A partilha dos bens

Antônio Chevrier insiste, de maneira especial, na partilha dos bens como sinal de uma comunidade, segundo o Evangelho. Este sinal reveste-se de uma importância especial, na medida em que se refere à primeira comunidade cristã (At 2,42-47; 4,32-35). Esta partilha dos bens deve realizar-se, em primeiro lugar, entre os membros de uma mesma comunidade. Para ele, era insuportável ouvir dizer: “É meu, é o meu quarto, é a minha cama, é o meu relógio, é a minha mesa, é meu, não quero que o toquem” [502]. E dá instruções concretas para esta partilha: “Só guardaremos o que é necessário para o nosso uso pessoal” [503].

O Padre Chevrier não faz referência só ao exemplo da primeira comunidade cristã, mas contempla também Jesus dizendo a seu Pai: “Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu” (Jo 17,20) e continuando: “Não peço somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim, para que todos sejam um; como tu, Pai está em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós, para que o mundo acredite que tu me enviaste” (Jo 17,20-21). E então o Padre Chevrier prolonga a partilha dos bens até a multidão dos pobres. A sua divisa é esta: “Tudo o que é meu é vosso… Se vem alguém que seja pobre… ele lhe diz: aqui tens, o meu quarto, a minha cama… a minha bolsa: tudo o que é meu é teu” [504]. Vê-se como seria exagerado aplicar à letra estas palavras, mas é fácil evitar o exagero. O que é preciso evitar, a todo o custo, é a atitude de uma comunidade fechada, em si mesma, e que recusasse abrir-se às necessidades dos outros.

As práticas comunitárias

Antônio Chevrier insiste, muito, nas reuniões de comunidade, seja para uma revisão semanal, seja para o cumprimento progressivo e comunitário do regulamento do Prado[505]. Desejava também que a oração fosse feita, em comum, mas nunca chegou a impor a recitação comunitária do breviário. O que ele colocava, em primeiro lugar, era o ministério do sacerdote. Por isso dizia simplesmente: “Recitaremos o ofício divino, em comum, ou separadamente, segundo as possibilidades[506].

Não tenho a intenção de enumerar, mesmo resumidamente, as práticas comunitárias indicadas pelo Padre Chevrier. Podemos encontrá-las no regulamento das paróquias[507], no “Verdadeiro Discípulo” [508], ou ainda no regulamento aprovado pelo Cardeal Caverot, no mês de janeiro de 1878[509]. Aliás, não é no campo das práticas comunitárias que o Padre Chevrier manifesta melhor a sua originalidade. A originalidade da comunidade, segundo o Evangelho, está, sobretudo, no que dissemos sobre o essencial da vida em comunidade: e também na prioridade que sempre deu ao apostolado, tanto na orientação geral da comunidade como na organização das suas atividades. É claro que o Padre Chevrier nunca pensou em fazer do Prado uma comunidade monástica, mas nem por isso deixava de apreciar o valor da recitação do ofício divino em comum. Às vezes, recitava “o breviário em comum, com alguns dos padres da casa, sobretudo com o Pe. Jaricot, à noite, depois de fechar a capela, quando tinha a possibilidade e as circunstâncias o permitiam. Teria desejado recitá-lo, assim regularmente, pois gostava de rezar em comum. Além das graças atribuídas à oração, em comum, encontrava nela um sabor particular. Por isso, quando ainda éramos jovens padres, e já a partir do subdiaconato, ele nos recomendava que recitássemos o breviário, todos em conjunto, e desejava que mantivéssemos esta prática, como um exercício comunitário, entre padres do Prado, se não fosse possível todo o ofício, ao menos uma parte determinada, por exemplo, Matinas ou Laudes, enquanto não fosse possível fazer melhor” [510].

Criação permanente da comunidade

Não basta fundar uma comunidade e organizá-la bem, para que seja uma comunidade viva. Uma comunidade tem necessidade de se renovar, continuamente, segundo as exigências do Espírito de Deus. O Padre Chevrier sabia-o bem. Daí, a preocupação, permanente, em insistir nas exigências de uma vida em conformidade com o Evangelho. Cartas, visitas, reuniões, tudo para ele era ocasião de chamar atenção para o essencial. Para dar vida a uma comunidade não basta reunir homens de boa vontade que a desejem. É preciso que, de certo modo, todos em conjunto, e cada dia, reiniciem a criação da comunidade. Uma comunidade não pode ser viva se os membros não são fiéis à oração, ao estudo do Evangelho, à “devoção” ao Espírito Santo.

A vida de comunidade exige de todos os membros um esforço permanente de renúncia a si mesmo. O Padre Chevrier é muito exigente neste ponto. Não pode viver em comunidade quem se deixa guiar pelo próprio egoísmo. Para ele, o egoísmo é “a mais terrível das doenças… há egoísmo que vem do coração e aquele que vem do orgulho do espírito” [511]. Fala, também, daqueles que procuram, sempre, “impor-se pelo espírito de crítica… e querem, sempre, dominar sobre os outros” [512]. Finalmente, fala dos individualistas que querem agir, segundo os “seus pontos de vista particulares, sem ter em conta os pontos de vista gerais” [513].

Por isso, é preciso, constantemente, renunciar a si mesmo para se deixar guiar pelo Espírito de Deus. É ele que dará a unidade[514]. Para que esta renúncia dê frutos é preciso que seja animada pelo amor de Cristo, claro, mas também pelo amor por aqueles a quem nos entregamos. É esquecendo-se de si mesmo e entregando-se a Cristo e aos outros que se chegará a renunciar ao próprio espírito e à própria vontade. Numa carta à Irmã Verônica, Antônio Chevrier insiste no amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e no dom de si mesmo para a evangelização dos pobres. É o grande meio para ultrapassar as inevitáveis dificuldades e diz: “Saber falar de Deus e dá-lo a conhecer aos pobres e aos ignorantes, nisto consiste a nossa vida e o nosso amor” [515]. E dizia também: “Procurai ter um conceito justo e uma noção de grandeza acerca da vossa sublime vocação” [516]. Quando temos a noção da grandeza da própria vocação, mais facilmente, podemos avançar e permanecer unidos, mesmo quando houver “algumas pequeninas divisões ou algumas pequenas oposições” [517].

Finalmente, a criação permanente de uma comunidade é obra do amor. É entregando-se, totalmente, a Cristo e aos outros, que somos capazes de nos esquecermos de nós mesmos, a fim de trabalharmos, em conjunto, na obra de Deus. Vale também para a comunidade a fórmula que o Padre Chevrier aplicou, especialmente, ao discípulo de Cristo: “É o amor que guia e nada mais” [518].

Capítulo 7:
Algumas orientações

Reuni, neste capítulo, três estudos cuja finalidade não é tanto aprofundar o essencial da mensagem do Padre Chevrier nem realçar um ou outro aspeto de forma a pôr em prática o seu ideal, mas sim, situar algumas orientações em relação à vida religiosa, ao papa e aos bispos e à formação especial dos padres que querem viver, segundo o Evangelho, não só durante o tempo de preparação para o sacerdócio, mas também, e um modo permanente, durante toda a sua vida de sacerdotes. Por aqui, poderemos situar melhor a originalidade de Padre Chevrier, na linha do esforço constante da Igreja, no sentido de uma renovação evangélica.

1. O Padre Chevrier e a vida religiosa

O Padre Chevrier pensou, mais que uma vez, na vida religiosa, que pela afiliação da sua obra numa congregação já existente, quer pela organização do Prado em congregação religiosa. Aliás, os seus melhores amigos e protetores (o P. Bruno, Capuchinho e Dom Dubuis, bispo de Galvestone) parecem tê-lo orientado neste sentido[519]. Ele próprio fez, realmente, diligências para se filiar na congregação dos Padres do Santíssimo Sacramento, fundada pelo P. Eymard (Março de 1861) [520].

É bom notar, ao mesmo tempo, a oposição do Cardeal de Bonald a que entre para a congregação do P. Eymard e a oposição do Arcebispo de Lyon a que o Prado seja transformado em ordem Terceira Regular Franciscana. Com certeza que, estas recusas sucessivas, tiveram influência na decisão final do Padre Chevrier. No entanto, podemos descobrir nele os motivos pessoais que determinaram, definitivamente, a sua decisão, claramente resumida quando diz: “Queremos permanecer padres seculares e viver no meio do mundo” [521].

Estaria engando quem atribuísse ao Padre Chevrier uma oposição, por pequena que fosse à vida religiosa enquanto tal. Seguir Jesus Cristo, mais de perto, observar os conselhos evangélicos, são fórmulas características da vida religiosa que ele aceita, sem reservas. Sempre teve amigos entre os religiosos e não hesitou prestar-lhes serviços em momentos difíceis, por exemplo, no tempo da Comuna[522]. O seu diretor espiritual foi, durante muito tempo um capuchinho. Faz referência explícita à vida religiosa no que ele chama o Objetivo Fundamental da Associação dos Padres do Prado (1878), onde escreve: “Queremos levar uma vida regular e aproximar-nos o mais possível da vida dos religiosos, tais como os Franciscanos, os Carmelitas, os Dominicanos, tomando, da sua vida séria e austera, tudo o que possa ser compatível com o nosso ministério apostólico, no meio do mundo” [523].

Vou tentar pôr em evidência, na vida e nos escritos do Padre Chevrier, os motivos que, finalmente, o levaram a optar pela vida de padre secular. Pode parecer discutível uma ou outra expressão que ele usa ao falar da vida religiosa. Não é um teólogo nem um canonista. Ele próprio confessa que não conhece os autores que trataram as grandes questões da vida religiosa[524]. Direi, pois, simplesmente, os motivos que o conduziram a não escolher a vida religiosa como ele a concebia e como a viu praticar no seu tempo.

Partilhar a vida dos homens

O principal motivo que o guia é o desejo de permanecer presente no mundo e partilhar a vida dos homens. Considera que a vida religiosa supõe, necessariamente, uma separação do mundo, quer juntar-se aos pobres e viver como eles. Eis uma das suas expressões que mostra bem o que pensava: “Os religiosos estão no claustro, mas o padre é feito para viver no meio dos homens” [525]. No seu modo de ver, há sempre a idéia de “claustro” em toda a vida religiosa. Não critica os que, para melhor realizar a própria santificação ou mais facilmente se consagrarem ao louvor de Deus, desejam uma certa separação dos homens; mas não era a sua via. Claro que deseja que o sacerdote se dedique à oração e estude a palavra de Deus; mas não quer que se separe dos homens. Problema difícil de resolver e que viveu por experiência; o que ele teme é que a vida religiosa, com a separação que supõe, de um modo ou de outro, seja um obstáculo que o impeça de partilhar, a fundo, a vida dos homens. Claro que é também um risco pondo a sua confiança em Deus e na disponibilidade do sacerdote em relação ao Espírito de Deus “[526].

Sob a autoridade dos bispos

Por outro lado, Antônio Chevrier notava que, de maneira quase habitual, os religiosos tinham tendência a escapar à autoridade do bispo para se ligarem direitamente a Roma. Ele, porém, deseja permanecer sempre dependendo dos bispos. É o que está escrito, explicitamente, no projeto de Regulamento das Paróquias: “Consideraremos o Senhor Arcebispo como o nosso verdadeiro Superior” [527].

“Prometemos obedecer-lhe, mesmo que nos envie para as paróquias mais afastadas, mais sobrecarregadas, mais difíceis; somente lhe pedimos que não nos separasse” [528]. Mesmo quando recorre, direitamente, ao papa para ter autorização de exercer, gratuitamente, o ministério, faz, explicitamente, referência ao bispo: “Na medida em que a autoridade diocesana o permita” [529]. De uma maneira absoluta, renuncia a qualquer estatuto de isenção.

Nem por isso o Padre Chevrier aceita conformar-se, em tudo, ao estilo de vida dos padres seculares e à maneira como exercem o Ministério. Já falamos do seu não conformismo. Também não se trata de renunciar à vida em comum; quer mesmo uma formação especial para os seus padres; mas, para realizar tudo isto, quer depender, inteiramente, dos bispos. Insiste na vida em comum, mas limita-se a pedir ao arcebispo de Lyon que não separe os pradosianos. É certo que procurou que o papa aprovasse o seu desejo de exercer, gratuitamente, o ministério, mas mesmo com esta aprovação, não queria avançar, senão na medida em que a autoridade diocesana o permitisse.

Assim, o Padre Chevrier quer renunciar, não só a qualquer isenção particular, mas também às vantagens que poderia tirar da legislação da Igreja acerca dos institutos religiosos, especialmente, os que são de direito pontifício.

Agindo assim, o Padre Chevrier, com certeza, que mostra toda a sua confiança no bispo, mas coloca-o numa situação difícil[530]. Com efeito, o bispo terá que aceitar, entre o seu clero, certo pluralismo quanto à maneira de viver dos padres, não convém, no entanto, exagerar os riscos resultantes de um pluralismo entre o clero diocesano. Na medida em que os padres estiverem bem decididos a viver em comunhão, com o bispo, acabarão sempre por se aceitarem, mutuamente, apesar da diversidade. Seria, verdadeiramente, grave que o clero de uma diocese não fosse capaz de aceitar os padres, que, sem querer impor-se aos outros, desejassem, simplesmente, ter a possibilidade de seguir Jesus Cristo, mais de perto.

Santificação pessoal e orientação apostólica

Quando o Padre Chevrier se inspira na vida religiosa, introduz sempre um limite que, para ele, não é unicamente uma cláusula de estilo. Só aceita da vida religiosa “aquilo que é compatível com o nosso ministério apostólico, no meio do mundo” [531]. Poderia supor-se que, para ele, a vida religiosa dá a prioridade à santificação pessoal, em relação ao apostolado.

Ora, no seu modo de ver, a santificação pessoal não é por si mesma, um objetivo; está inteiramente orientada para a eficácia do apóstolo. O que não quer dizer que o Padre Chevrier renuncie, por pouco que seja, à perfeição evangélica, só que a situa em relação ao apostolado.

Do mesmo modo, a prioridade dada à orientação apostólica traz consigo outra maneira de conceber e praticar a perfeição evangélica. Isto é claro quando se trata da pobreza, mas aplica-se, sobre diversas formas, a tudo o que é exterior na vida e no ministério dos sacerdotes. O Padre Chevrier está sempre muito atento às reações das pessoas, especialmente, dos mais pobres e mais afastados da Igreja. Dá uma importância muito grande, não só ao testemunho, mas também às consequências dos contra testemunhos.

É preciso viver de tal maneira que as pessoas, e especialmente as mais pobres, possam descobrir Jesus Cristo, através da nossa maneira de agir; trata-se de evitar, com o máximo cuidado, tudo aquilo que possa escandalizar as pessoas e afastá-las de nós.

Podemos notar também uma grande diferença na forma de se situar em relação à Regra. Antônio Chevrier considera-a necessária, mas nunca a coloca em primeiro plano.

No início do Regulamento, para os Irmãos e Irmãs do Prado, escreve: “Uma onça de caridade vale mais que cem libras de Regulamentos[532]. Por outro lado, estabelece uma distinção, muito nítida, entre a Regra, que para ele é Jesus Cristo e o Evangelho[533], e os regulamentos que sempre devem referir-se ao Evangelho, mas que podem ser modificados, é um ponto de que fala muitas vezes. Evidentemente que, sempre na fidelidade ao Evangelho, um regulamento deve adaptar-se à diversidade das pessoas, das circunstâncias e, sobretudo das necessidades apostólicas.

Antônio Chevrier não era jurista, por isso não emprega sempre as palavras regra e regulamento em sentido rigoroso; poderia ter distinguido melhor entre o que é regra de vida, constituição, diretivas, ou regulamento interno. De qualquer modo, e se bem que sendo sempre exigente quanto à obediência ao regulamento, concebe esta obediência de uma forma diferente daquela em que o entendiam as sociedades religiosas do seu tempo. Para ele, a única regra, no sentido profundo do termo, é Jesus Cristo e a dependência em relação ao Espírito Santo.

Não é por isso que menospreza os regulamentos. Tinha bastante bom senso para acreditar que se pode viver, sem regras, quando se quer seriamente procurar a perfeição evangélica; mas não queria colocar, num mesmo plano, o Evangelho e um regulamento, por mais perfeito que fosse. Poderia ter dito: “Seguir Jesus Cristo, mais de perto, é tudo; o regulamento não é nada”. De qualquer modo, nunca quis apropriar-se de uma fórmula clássica nas sociedades religiosas do seu tempo e que, aliás, pode muito bem considerar-se válida: “Aquele que vive para a regra, vive para Deus”. Não podemos dizer que há oposição, mas a forma de situar a obediência a uma regra é bastante diferente.

Com certeza que poderia discutir cada um destes argumentos, mas a impressão geral aparece claramente. Por fidelidade àquilo que ele pensava ser, na sua vida, o apelo de Deus, o Padre Chevrier não quis, para o Prado, um estatuto jurídico de congregação religiosa. Quis que os seus sacerdotes fossem padres seculares.

2. A aprovação do Papa

Já falei do Padre Chevrier em relação ao papa e aos bispos e até que ponto ele tinha o sentido do bispo; mas queria agora tentar explicar como é que sentia a necessidade de uma aprovação do papa, sem procurar qualquer estatuto de isenção em relação ao seu bispo.

Será também o membro de explicar como se situava em relação ao magistério e ao Espírito Santo. É através do comportamento do Padre Chevrier, nas suas iniciativas, nos seus pedidos de aprovação e nas suas dificuldades que podemos discernir a sua atitude profunda. Atitude que me parece, verdadeiramente, evangélica.

Em 1864, o Padre Chevrier tinha consigo só um padre, o Pe. Bernerd; estava também em relação com alguns sacerdotes que sentiam o mesmo desejo que ele. E nada mais. Podemos pergunta-nos, então, porque é que queria conseguir a assinatura do Santo Padre sobre aquilo que era, nessa época, apenas um projeto, quase sem estar iniciado?

É certo que, como o nota, explicitamente, o Pe. Bruno, o capuchinho que foi seu confessor durante muito tempo, existia nele uma atração irresistível por Roma”. De fato, ele que nunca foi a Paris, foi quatro vezes a Roma e na sua primeira viagem, em 1853, não tinha nada a pedir para o Prado que ainda não tinha sido fundado.

No entanto, o que o atraía para Roma não era a suntuosidade das cerimônias pontifícias; muito ao contrário[534]. Também não era certa concepção mítica do papa, muito longe da sua maneira de crer em Cristo, o “único Mestre e Superior, no céu e na terra” [535].

Na realidade, a sua tendência para Roma explica-se, antes de tudo, pela relação que a sua fé estabelecia entre o papa e Jesus Cristo. Quando se está convencido que conhecer Jesus Cristo é tudo, sente-se, necessariamente, o desejo de ver aquele que é, a título especial, o seu representante visível. Daí esta frase de Antônio Chevrier, numa homilia ao regressar de Roma, “Ô, meus irmãos, como se é feliz quando se vê o papa! Ao vê-lo, vemos Nosso Senhor Jesus Cristo” [536].

Mas, havia mais: é que o Padre Chevrier não foi a Roma só para ver o papa. A partir da segunda viagem (1864), procura obter do papa uma aprovação para os sacerdotes pobres. Havia nele como uma teimosia em querer conseguir esta aprovação. Como explicar isto?

Com certeza que não era para ultrapassar os bispos, a fim de obter uma aprovação que viria a impor-se por si mesma. O Padre Chevrier procura ter uma total confiança nos bispos, sem buscar nenhuma espécie de isenção.

Num plano subjetivo e pessoal, o Padre Chevrier está convencido que o Senhor lhe pede, não só que se faça pobre e evangelize os pobres, mas também que funde uma associação de padres pobres para servir os pobres. Dois pontos lhe parecem ter uma importância especial: queria que estes sacerdotes pobres pudessem pôr em prática, em comum, uma vida, segundo o Evangelho e que estes mesmos sacerdotes pobres pudessem renunciar a qualquer exigência de dinheiro no exercício do seu ministério.

Subjetivamente, não hesita. Expõe os seus desejos espirituais e pede conselho ao P. Denavit, seu diretor espiritual no Seminário Maior. Fala também do assunto ao Cura de Aristeu. Tanto de um, como de outro, recebe aprovação e encorajamento[537]. Então, apesar de todas as oposições e incompreensões, apesar de todas as dificuldades e insucessos, apesar da resistência do seu temperamento que continua hesitante, tímido, decide-se a todos os sacrifícios para pôr em prática aquilo que a ele se impunha como sendo a vontade de Deus. Mas sabe, também, que aquilo que o Senhor lhe pede é a fundação de uma obra de Igreja. Por isso, procura ter, além da certeza subjetiva e dos encorajamentos dos seus conselheiros espirituais, uma aprovação da Igreja[538].

Podia ter pedido esta aprovação ao Arcebispo de Lyon, mas desde o início, o Padre Chevrier estava persuadido que o Senhor lhe pedia que fundasse esta obra de sacerdotes pobres, não só para a diocese de Lyon, mas sim, para a Igreja Universal. De fato, já na suplica apresentada em 1864, o Padre Chevrier fala “do desejo que alguns padres de Lyon e doutras dioceses têm de se reunir, na medida em que a autoridade diocesana lhe permita, a fim de levar uma vida de regulares e exercer o santo ministério sem mais retribuição que aquela que os fiéis lhes derem espontaneamente” [539].

Esta orientação universal da obra iniciada por Antônio Chevrier está clara ainda no seu testamento espiritual. Aí, ele agradece a Deus por o ter escolhido para esta obra “que deve dar grandes frutos nas almas e na Igreja” [540].

Por conseguinte, devia dirigir-se direitamente ao papa. Só ele podia de certa forma, dar ao seu projeto uma aprovação em nível da Igreja Universal. Com certeza que o Padre Chevrier esperava do Papa uma verdadeira aprovação do seu pedido, com todas as consequências que daí resultariam. Claro que não teria tido a pretensão de impor aos bispos a decisão do Santo Padre; mas sabia bem que as suas relações com os bispos seriam fáceis, se pudesse mostrar-lhes a aprovação do Papa. Finalmente e, sobretudo, dada a confiança, muito especial, que tinha no Vigário de Cristo, poderia sentir-se pessoalmente muito mais forte para o seu trabalho de fundador.

A resposta do papa, se bem que positiva, foi muito reservada. Já a citei, ao falar, de um modo geral, da atitude do papa e dos bispos para com o Padre Chevrier. Reproduzo-a aqui, noutro contexto para aprofundar o seu significado. O papa dizia que não podia assinar, mas, ao mesmo tempo, dizia que a obra era boa e concluía nestes termos: “Antes de aprovar, é necessário que passem alguns anos e que os bispos deem testemunho da sua oportunidade e do seu êxito” [541]. Sem dúvida que, ao proceder assim, o papa decepcionou o Padre Chevrier que esperava mais, mas compreendeu claramente as suas preocupações. Ao dizer-lhe que a obra era boa, concedia-lhe o reconhecimento de que necessitava para prosseguir a sua obra com toda a segurança; ao dizer-lhe que se submetesse para cada diocese, à aprovação dos bispos, remetia-o, de certo modo, à sua própria recusa de isenção. A partir daí, o Padre Chevrier, como escreveu no “Verdadeiro Discípulo”, pode afirmar: “Não podia ter uma resposta mais favorável e, ao mesmo tempo, mais prudente” [542].

É por isso que, em vez de desanimar, aceita esta resposta como um encorajamento e escreve no “Verdadeiro Discípulo”: “Pedimos, portanto, a licença para exercer o ministério, gratuitamente, e receber, pelas nossas santas funções, só o que os fiéis quiserem dar, livre e espontaneamente, sem nunca exigir nada pelo exercício do santo ministério” [543].

A terceira viagem do Padre Chevrier (1875) não lhe traz nada de novo. Consegue ver o papa, ao fim de uma audiência de Dom Dubuis, mas o papa não diz uma só palavra de aprovação. Então os seus amigos insistem para que peça a transformação do pequeno grupo de padres em congregação religiosa. O arcebispo de Lyon opõe-se a esta iniciativa. E o Padre Chevrier nunca mais falou nisso[544].

Entretanto, não renunciou ao desejo de uma aprovação, mais explícita, por parte do papa. Duas cartas, escritas durante a quarta e última viagem a Roma, ainda falam deste assunto[545]; depois de dizer: “Vamos talvez conseguir”, acrescenta: “Mas não é o importante; o importante é dar bem a nossa catequese… o resto virá depois” [546]. Deste modo, o seu pensamento se vai purificando, pouco a pouco, daquilo que, de humano, podia haver a mais no seu desejo de ter a aprovação. Em 16 de abril de 1877, escreve de Roma: “Não vim aqui para procurar aprovações, redigir constituições, vim aqui para pôr, tanto quanto puder o Espírito de Jesus Cristo nos nossos corações. Quando possuirmos o Espírito de Deus, tudo estará bem… as aprovações não faltarão; mas se não tivermos o Espírito de Deus para que servirão elas? Para nada; servirão somente para nossa vergonha e nossa condenação. Peçamos, por isso, o Espírito de Deus. Que o Espírito Santo nos comunique a sua caridade, sobretudo a sua humanidade, a sua mansidão, o seu zelo e tudo estará bem; mas, sem tudo isto, nunca seremos nada e nunca faremos nada” [547].

Alguns dias depois, a 20 de maio, o Padre Chevrier foi, uma vez, apresentado ao papa por Dom Dubuis, no final da audiência. Dom Dubuis explicou a Pio IX o que o Padre Chevrier fazia. Então o Papa disse simplesmente: “Evangelizar os pobres, dar ao povo o conhecimento e o amor de Jesus Cristo, eis o que há a fazer. Espero que o vosso zelo não se limitará à cidade de Lyon” [548]. Não era uma aprovação jurídica, mas era um encorajamento. Mais uma vez, o Padre Chevrier era remetido para o essencial. Ter o Espírito de Deus é tudo.

Havia passado cerca de 12 anos, depois da graça do Natal de 1856. Cada vez mais, o Padre Chevrier ia tomando consciência da origem divina do apelo interior que tinha sentido.

Para isso, tinha seguido os métodos habituais de discernimento dos espíritos e as opiniões dos seus conselheiros espirituais. Havia procurado também, para aquilo que no seu projeto lhe parecia o mais importante, a aprovação da Santa Sé. O papa havia-lhe dito que a obra era boa, mas que para a aprovação jurídica da Santa Sé era preciso esperar pelo testemunho dos bispos. Só uma coisa faltava fazer: avançar e ser fiel ao Espírito de Deus. Aliás, a aprovação do papa, por muito valor que tivesse, nunca poderia dispensar da fidelidade ao Espírito de Deus. Só podemos realizar obra de Deus na medida em que nos deixamos conduzir pelo Espírito de Deus.

3. A formação especial

Com toda a certeza que o Padre Chevrier desejava para os seus futuros padres uma formação especial. Já o dissemos. Também, neste ponto, as circunstâncias se opuseram à realização do que ele tanto desejava. Mesmo na escola clerical do Prado, a sua ação era travada pelos seus colaboradores; e a sua estadia, no Seminário Maior, também não havia sido favorável à formação evangélica dos futuros sacerdotes. Procurou ainda que o Pe. Jaricot acompanhasse os seus quatro diáconos a Roma, mas não conseguiu autorização para isso. Então, decide-se, ele que estava tão ocupado pelo Prado, a ausentar-se durante mais de dois meses para trabalhar na formação evangélica deles.

Para compreender esta insistência do Padre Chevrier, quanto à formação especial, podemos recordar o que já dissemos acerca do clero do seu tempo, mas só podemos compreender, bem, em referência ao Evangelho. Para o Padre Chevrier, o modelo absoluto da formação sacerdotal é Jesus Cristo, formador dos seus apóstolos.

A referência a Jesus Cristo, educador dos apóstolos.

Antônio Chevrier começa por notar que Jesus não dá aos seus apóstolos outro regulamento a não ser este: “Segue-me, eu sou o teu regulamento, a tua vida, a forma exterior que deves imitar. Há quem comece por regulamentos exteriores, estabelecendo muitas regras; tudo isso não é nada. O verdadeiro regulamento que se deve impor aos outros, é este: segue-me, faze como eu, não te peço coisas mais difíceis que aquelas que eu mesmo faço. Segue-me, eis o grande regulamento” [549].

O Padre Chevrier acrescentava: “Durante os três anos que passou com eles para os formar na vida evangélica e apostólica, nunca o vemos aplicar-se a dar-lhes formas exteriores, regulares, disciplinares; viviam, segundo o tempo, como podiam. Ao contrário, vemo-lo ocupar-se constantemente da transformação interior dos seus apóstolos. Instruía-os, sem cessar, e sem cessar, corrigia-os a cada passo, dispunha-os a tudo, formava-os em tudo. Instruir, corrigir, pôr em ação, fazer agir, eis o grande método, para formar as pessoas e dar-lhes a vida interior” [550].

Já o dissemos, o Padre Chevrier estava convencido de que um regulamento é necessário, mas não o considerava essencial. O essencial, para ele, é estar sempre conforme com o Evangelho. E, no Evangelho, nota, antes de mais nada, o papel educador que partilha a vida dos seus discípulos; o que lhe permite pô-los em ação e corrigi-los, sem cessar.

Não parecia ao Padre Chevrier que o essencial fosse, suficientemente, realizado nos seminários do seu tempo. Claro que não entrou em conflito com eles, mas gostaria, para poder formar discípulos de Jesus, de se aproximar, ainda mais, da maneira de proceder de Jesus.

Tentou ser, em relação aos seus seminaristas, o que Jesus era em relação aos seus apóstolos[551] e, na medida do possível, esforçou-se para os pôr em ação.

Na escola clerical, eram os próprios alunos que faziam todo o trabalho da casa. Não havia empregados domésticos[552]. Os “latinistas” não só não deviam ser servidos, mas deviam apreender a servir. O Padre Chevrier fazia-os entrar depois das crianças da primeira comunhão e queria que fossem eles servir à mesa[553]. Já expliquei também como é que, para formá-los num estilo de vida pobre, os ensinava a fazer o que fazem os pobres: “Ir buscar restos de carvão para se aquecer no inverno. Ir buscar pano velho para comprar pão”, etc.[554]. Assim, os futuros sacerdotes não corriam o risco de se habituarem a um estilo de vida que os separasse dos pobres.

Ao mesmo tempo, procurava cultivar neles, esta adesão a Jesus Cristo que é sempre essencial para aqueles que querem segui-lo, mais de perto. Era este objetivo que procurava, através da meditação dos mistérios do Rosário, da Via Sacra e, sobretudo, pela participação no sacrifício eucarístico. Além disto, formava-os, também, no estudo do Evangelho, de que já falamos. Mas como não os podia guardar consigo, até o sacerdócio, Antônio Chevrier esforçava-se por lhes comunicar, no decorrer do ano e durante as férias, aquilo que não recebiam no seminário maior.

É neste contexto que se deve compreender o porquê do último ano de preparação ao sacerdócio, numa equipe fora do seminário, em Roma. O Cardeal Caverot havia-lhe proposto receber os seus diáconos no seminário francês de Roma. O Padre Chevrier não aceitou. Queria uma formação especial.

É preciso, no entanto, precisar bem o que significava para o Padre Chevrier, uma formação fora do seminário. Não era para transformar os seminaristas em simples estudantes. Muito ao contrário, tinha por finalidade dar aos seminaristas do Prado a possibilidade de, efetivamente, seguir Jesus Cristo, mais de perto. Não era, pois, uma vida de independência e de facilidade que lhes era proposta, mas sim, uma vida muito mais exigente. Tratava-se, não só de aprofundar o conhecimento e o amor de Jesus Cristo, mas também, de começarem a pôr, efetivamente, em prática a pobreza.

Realismo e comunhão com a Igreja

O Padre Chevrier sabia, muito bem que, depois do Concílio de Trento, a formação sacerdotal era dada, normalmente nos seminários. O que ele queria quando fala de formação especial, era que lhes dessem autorização para formar os seus futuros sacerdotes numa casa do Prado. Mas estaria enganado quem visse na equipe dos quatro diáconos, em Roma, um modelo definitivo, preconizado pelo Padre Chevrier. Apesar de certo número de diferenças, a sua escola clerical, no Prado, ou em Limonest, era semelhante aos seminários menores daquele tempo.

Não se pode, portanto, dizer o que teria sido um seminário maior do Prado, segundo a vontade do Padre Chevrier. Aliás, para ele, o exterior é sempre secundário. No entanto, através das suas cartas e dos seus escritos, vemos bem que, fosse qual fosse a estrutura exterior das casas de formação, desejava um lugar onde, sem negligenciar, de modo nenhum, um regulamento e dando aos estudos o tempo necessário, se acentuassem os três pontos seguintes:

  1. Um esforço espiritual de conhecimento e amor de Cristo que conduzisse a pessoa a transformar-se nele.
  2. Um estilo de vida que aproximasse os futuros padres da vida dos pobres, a fim de que pudessem, chegando ao sacerdócio, viver também esta vida.
  3. Realização de atividades apostólicas adaptadas, durante o ano e no tempo de férias.

Estes três pontos estão profundamente interligados: trata-se de formar sacerdotes que deverão ser outro Jesus Cristo, no meio dos homens, o que supõe, ao mesmo tempo, a intimidade com Cristo, a transformação interior e exterior em conformidade com Ele e, um começo de ação com Ele, em referência à missão temporal dos apóstolos.

Deste modo, o Padre Chevrier não entendia a formação especial que desejava para os seus futuros sacerdotes, como uma formação menos exigente que aquela que era dada nos seminários maiores do seu tempo. Pelo contrário, desejava que, já no seminário, os futuros sacerdotes fossem orientados para a perfeição evangélica, seguindo Nosso Senhor Jesus Cristo, mais de perto[555].

Para vir a ser verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, não devemos contentar-nos com a formação recebida durante a preparação para o sacerdócio.

O Padre Chevrier considera que a formação dos sacerdotes deve durar toda a sua vida. Durante toda a vida, o padre é chamado a progredir no conhecimento e no amor de Jesus Cristo, esforçando-se por se tornar conforme a Ele e numa colaboração habitual com Ele. É neste contexto geral de formação espiritual e apostólica que o Padre Chevrier situa, no regulamento das paróquias, os estudos do padre e a vida comunitária.

4. A alegria do discípulo

Jesus prometeu a felicidade, de um modo especial, àquele “que ouve a palavra de Deus e a põe em prática” (Lc 11,28). Prometeu o cêntuplo “já neste mundo” àqueles que deixarem tudo para o seguir (Mc 10,30).

E depois de dizer aos seus apóstolos: “Dei-vos um exemplo para que assim como eu fiz convosco, vós façais também”, acrescenta: “Sereis felizes se compreenderdes estas coisas e as puserdes em prática” (Jo 13,15-17). A felicidade de que Jesus fala aqui é muito diferente dos prazeres puramente terrestres; é, porém uma felicidade que existe de verdade: como que uma mistura de alegria, de paz e de um sentimento de plenitude. Temos, neste sentido, o testemunho daqueles que quiseram seguir Jesus Cristo, mais de perto. Jesus não nos enganou.

A alegria, segundo o Evangelho

Logo de início, o Evangelho apresenta-se como uma boa notícia e o anjo anuncia aos pastores “uma grande alegria que será para todo o povo” (Lc 2,10).

Sem dúvida que a pregação de Jesus começa por um apelo à conversão (Mc 1,15), mas também é, desde o início, a proclamação das bem-aventuranças. Oito vezes, Jesus proclama que são felizes aqueles que, verdadeiramente, aceitam o Reino de Deus (Mt 5,2-12). E ao terminar os seus ensinamentos, diz aos seus discípulos: “Disse-vos todas estas coisas, a fim de que a minha alegria esteja em vós e que vossa alegria seja completa” (Jo 15,11).

Esta alegria é uma alegria que nada poderá fazê-la desaparecer. Ao falar da alegria pascal, ou seja, da alegria que os apóstolos vão sentir depois da ressurreição, Jesus dizia-lhes: “Agora estais tristes, mas eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração ficará cheio de alegria e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,22). É uma alegria que pode existir, mesmo no meio dos sofrimentos. Quando os apóstolos, presos por ordem do Sinédrio, foram postos em liberdade, depois de serem chicoteados, “partiram cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do nome de Jesus” (At 5,41). Quanto a São Paulo, sentia-se “inundado de alegria, no meio de todas as suas tribulações” (2 Cor 7,4) e diz na carta aos Colossenses: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja” (Col 1,24).

Esta alegria do discípulo não é, portanto uma alegria que ele busca para sua própria satisfação. É a alegria do amor; do verdadeiro amor de quem se entrega, esquecendo-se de si mesmo. Como já dissemos e repetimos, é o amor que guia o discípulo, e mais nada[556]. A sua alegria consiste em ser todo para Jesus Cristo, tornando-se semelhante a Ele e entregando-se, totalmente, a Ele para a salvação dos homens. Então, a vida humana atinge a plenitude da sua finalidade; adquire-se a certeza do êxito e da fecundidade da vida, mesmo se esta parece não ter dado resultado. Jesus dizia: “Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15,5), e São Paulo junta, a este propósito, algumas precisões: “Deus concorre, em tudo para o bem dos que o amam” (Rm 8,28); e também: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31); e ainda: “Somos mais que vencedores por Aquele que nos amou” (Rm 8,31).

Há uma condição para que tudo isto se possa realizar: não se pode fazer batota com o Evangelho. Não falo aqui das nossas fraquezas e das nossas incapacidades. O Senhor conhece-nos e perdoa-nos. Tem muito mais poder que nós temos fraquezas e São Paulo dizia: “Quando me sinto fraco então é que sou forte” (2 Cor 12,10). Jesus tinha-lhe dito: “Basta-te a minha graça porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente” (2 Cor 12,9).

Fazer batota com Evangelho é proteger-se com raciocínios ou deixar-se levar, segundo a forma comum de pensar, falar e agir, para recusar um sim total e sem limites; fazer batota com o Evangelho é não querer perder a sua vida, sob pretexto de a salvar; fazer batota com o Evangelho é sentir-se inquieto, ter medo e finalmente abandonar, sob pretexto de não ser capaz de seguir Jesus Cristo, mais de perto. Há que ser verdadeiro com Jesus Cristo, verdadeiro, tendo consciência das suas limitações e das suas misérias, verdadeiro, tendo a certeza que é Ele o nosso Salvador e que tudo é possível àquele que crê (Mc 10,23).

A alegria na vida do Padre Chevrier

O Padre Chevrier nunca disse deste modo o que acabo de dizer, mas viveu-o. Sem dúvida que não tinha o temperamento de Francisco de Assis: a sua alegria não era exuberante, a sua mãe era originária do Dauphiné e o seu pai era de Lyon. No entanto, nunca fez batota com o Evangelho; entregou-se inteiramente a Cristo e aos outros. Por isso, também ele fala de alegria, de paz, de felicidade: não era isto que procurava, mas o Senhor concedeu-lhe a graça de experimentar o que tinha prometido. Também fala de beleza e várias vezes emprega esta palavra quando, do fundo de si mesmo, brotam sentimentos de profunda admiração. Recordemos esta frase, já citada, do Pe. Planus: “Sabia entusiasmar-nos, quando nos falava de Jesus Cristo”. É com alegria que nos damos a Jesus Cristo, quando ele nos chama[557], e quem encontrou Jesus Cristo, “encontrou a sabedoria, a luz, a vida, a paz, a alegria, a felicidade” [558]. Dizia também, ao falar do Verdadeiro Discípulo: “Toda a sua felicidade consiste em seguir Jesus Cristo” [559], e explica: “Quando se ama alguém, sinceramente, é-se feliz em o seguir e caminhar pelos seus passos. Sente-se gosto em o ver, em o ouvir e faz-se tudo para o imitar” [560].

É como que um arrebatamento de amor que se sente, ao percorrer as páginas do “Verdadeiro Discípulo” em que nos fala da sua adesão a Jesus Cristo[561].

Conhecer Jesus Cristo é, antes de mais nada, um dom gratuito de Deus, mas também uma recompensa concedida a quem se decidiu a segui-lo, mais de perto. Jesus o prometeu, explicitamente, ao dizer: “Aquele que tem os meus mandamentos e os cumpre, esse é que me ama, e aquele que me ama, será amado por meu Pai. Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21). Estas últimas palavras mostram o conhecimento que o Padre Chevrier tinha de Jesus Cristo. Em verdade, Cristo manifestou-se àquele cujo único desejo era ser um verdadeiro discípulo, a fim de ser verdadeira testemunha.

Então se compreende a sua oração a Cristo. Começa por descobrir a sua beleza e a sua grandeza: “Ó Verbo, ó Cristo, como sois belo, como sois grande” e pede ao Senhor que o ilumine ainda mais: “Porque sois a luz, deixai vir um pequeno raio sobre a minha alma, a fim de que eu vos possa ver e compreender”. Queria realmente vê-lo: “Deixai-me lançar um olhar sobre vós, ó beleza infinita” [562]. Aqui, há a vontade de conhecer e amar Jesus Cristo; e também a alegria de o seguir. Antônio Chevrier é um discípulo, quer ouvir a sua palavra e pô-la em prática. Mas isto é também um dom de Deus. Por isso, ele pede: “Falai, eu quero escutar a vossa palavra porque sei que ela vem do Céu. Quero escutá-la, meditá-la, pô-la em prática, porque na vossa palavra há a vida, a alegria, a paz e a felicidade. Fala, Senhor, vós sois o meu Senhor e o meu Mestre e não quero escutar mais ninguém, senão a vós” [563]. Podemos agora compreender porque é que o Padre Chevrier encontrou a alegria no meio da pobreza e dos sofrimentos e porque é que irradiava bondade. Já falamos do seu elogio da pobreza que, para ele, passou a ser uma riqueza. E neste ponto, fala também de beleza: “Ó pobreza, como és bela! Jesus Cristo, o meu Mestre, achou-te tão bela que te aceitou como esposa ao descer do Céu, fez de ti a companheira da sua vida e quis morrer contigo na cruz. Concedei-me, ó meu Mestre, esta bela pobreza. Que eu a procure com afã, a receba com alegria, a abrace com amor, para que ela seja a companheira de toda a minha vida e morra com ela num pedaço de madeira, como o meu Mestre!” [564].

É este mesmo entusiasmo que manifesta, ao falar do padre pobre: “Que liberdade, que poder, dá ao sacerdote esta santa e bela pobreza de Jesus Cristo… E ao lado deste mundo material, sensual, um homem todo espiritual, que não vive para a terra, que despreza o dinheiro e os bens deste mundo, que não quer nada destas coisas da terra e que diz ao mundo: “Guarda o teu ouro e o teu dinheiro”, o meu tesouro está no céu, a minha vida é Jesus Cristo! “que se contenta com o estritamente necessário, que não pede nada a ninguém, que trabalha só para Deus, que não se bate nem pela sua túnica, nem pela sua capa, que deixa levar a sua capa e não reclama aquilo que lhe tiraram e se abandona nas mãos da Divina Providência. Como é Belo! Como é grande! Como é admirável este homem! E como, ao vê-lo, o mundo deve segui-lo com o olhar e admirar nele o poder da fé, do amor e da confiança em Deus!

Onde estiverem estes homens, farão coisas admiráveis, diz a Sabedoria “[565].

Antônio Chevrier fala também da alegria no sofrimento. Então o tom torna-se mais grave. Em si mesmo, o sofrimento é um mal. Só o amor lhe pode dar sentido. No entanto, porque é o sinal do nosso amor por Jesus Cristo e da nossa semelhança com Ele e também porque garante, de uma forma especial, a fecundidade do nosso apostolado, devemos não só aceitar a nossa cruz, de cada dia, mas “levá-la com alegria e amor”. Encontramos, duas vezes, esta afirmação[566]. O Padre Chevrier sabe, não só pelo Evangelho, mas também por experiência própria, que a cruz é mais fácil de levar, se é levada com Jesus Cristo: “Esta cruz é Jesus que no-la apresenta e nos diz: “Tomai sobre vós o meu jugo, o meu jugo é suave e a minha carga é leve” [567]. Esta alegria que encontrou, na sua vida pobre e crucificada manifestou-a ele pela bondade que impressionava os seus contemporâneos. É verdade que a expressão do Padre Chevrier, nas fotografias, é uma expressão grave e austera, mas não era esta a sua expressão habitual. Um dos primeiros seminaristas do Prado fala do seu bom sorriso[568] e sabemos quanto era estimado pelas crianças da primeira comunhão. Podemos também citar a reflexão de uma operária que tinha sido recebida pelo Padre Chevrier: “Meu Deus, se sois tão bom como o Padre Chevrier, não terei medo de vós, no dia do julgamento” [569].

Na medida em que uma comunidade vive, segundo as exigências do Evangelho, especialmente, na medida em que os seus membros aceitam renunciar ao próprio espírito, para se deixar guiar pelo Espírito de Jesus Cristo, é então que esta comunidade conhece uma verdadeira alegria, segundo o Evangelho. O Padre Chevrier afirma isto claramente: “Quando, numa casa, reina esta verdadeira renúncia, já não vemos almas que só se preocupam consigo mesmas; todos se ocupam de Deus e das almas para as conduzir até Deus e as salvar; então reina a paz, a alegria, a caridade, a união, a força e a atração para o bem e para o amor” [570].

O que acabo de dizer pode parecer uma loucura, não só aos descrentes, mas também a muitos cristãos. Apesar disso, é a verdade do Evangelho, e é também a experiência daqueles que quiseram viver, segundo o Evangelho, sem fazer batota. Esta alegria, segundo o Evangelho, não evita as provações nem as dificuldades. Um verdadeiro discípulo de Cristo, pobre, conhece horas de Getsemani; mas mantém sempre a paz de Cristo, no fundo do seu ser. Não é de uma maneira humana que Jesus nos prometeu a paz; mas prometeu-a: “Deixo-vos a Paz, dou-vos a minha Paz; não vô-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27). E São Paulo sabia que a Paz de Deus ultrapassa a todos os sentimentos (Fil 4,7).


Capítulo 8:
O Prado, depois da morte do Padre Chevrier

Sem ter a pretensão de redigir uma história do Prado, queria dizer, brevemente, como este viveu depois da morte do Padre Chevrier. Falo, sobretudo, dos padres do Prado. Mas a família do Prado é composta também doutros ramos: Irmãos e irmãs, leigos. Todos nos sentimos, profundamente, unidos no mesmo esforço de seguir Jesus Cristo, mais de perto, cada um em função daquilo que é. De fato, temo-nos enriquecido mutuamente. O Padre Chevrier tinha escrito um Regulamento para os irmãos e as irmãs do Prado (1864). Dentro do respeito pelas nossas diversidades, temos realmente consciência de constituir uma verdadeira família espiritual[571].

Apesar da unidade profunda que se manifesta, ao longo da história do Prado, podemos considerar, nesta história, certo número de períodos com as suas características próprias[572].

Primeiro período: 1879 – 1922

Este primeiro período, parece-me que pode ser caracterizado por uma verdadeira preocupação de fidelidade aos ensinamentos do Padre Chevrier. Foi esta fidelidade que deu ao Prado a possibilidade de subsistir, no meio das dificuldades que encontrava e das crises interiores que atravessava.

Durante este tempo, o Prado desenvolveu-se, muito lentamente. Em 1922, contava apenas trinta e dois padres. Digamo-lo, francamente, não se tinha muita confiança nele. Por vezes, até havia quem desviasse do Prado os padres ou seminaristas que nele desejavam entrar. Por isso, se compreende que o Prado se tenha fixado numa atitude de defesa, a fim de permanecer fiel a si mesmo, apesar de oposições e incompreensões.

Durante todo este período, o Prado não tinha outro estatuto jurídico além do Regulamento redigido pelo Padre Chevrier e que havia sido aprovado pelo Cardeal Caverot, no dia 25 de janeiro de 1878. O Padre Chevrier falava de Associação dos Padres do Prado. No entanto, com pleno acordo da autoridade episcopal, funcionava como uma sociedade religiosa de direito diocesano. Estava diretamente encarregado das obras que havia fundado e das paróquias que lhe tinham sido confiadas. Além disso, punha à disposição da diocese os padres pradosianos que estivessem disponíveis.

Pouco a pouco, apesar de tudo, certa evolução se ia operando. O entusiasmo do Cardeal Mercier pelo Padre Chevrier e a sua visita ao Prado, em 1910, foram, para muitos um sinal. A causa de beatificação do Padre Chevrier foi, oficialmente, introduzida, em Roma, no dia 11 de junho de 1913. Ao mesmo tempo, entre o clero secular, começava a notar-se certa evolução, num sentido mais evangélico e mais comunitário. Em 1922, entraram para o Prado cinco novos padres: começava então um novo período.

Segundo período: 1922 – 1934

O que marca este período é, antes de mais nada, um crescimento bastante lento, mas regular. Para o noviciado, instituído em 1924, entram cada ano dois ou três novos padres. Pouco a pouco, o número das paróquias confiadas ao Prado vai aumentando, tanto na zona urbana dos arredores de Lyon como em meio rural.

Juridicamente, o Prado havia-se transformado, em 1924, numa sociedade de vida comum, sem votos. Era, na verdade, a forma jurídica que parecia mais maleável e mais fácil de adaptar ao que o Padre Chevrier havia desejado.

Neste período, nota-se também certa renovação espiritual. Devo citar a propósito, a influência, muito discreta e muito profunda, exercida, nesta época, pelo Pe. Lauzier, que era superior do Seminário Menor do Prado, em “Notre Dame de la Roche” (Nossa Senhora da Rocha, lugar perto de Lyon). Ele soube infundir, nos seus alunos, uma verdadeira vida espiritual e um espírito de família muito profundo e muito aberto. O Pe. Lauzier foi eleito quarto superior do Prado em 1925.

Por outro lado, a publicação da vida e dos escritos do Padre Chevrier chamou para ele as atenções e tornou-o mais conhecido. O Pe. Chambost tinha publicado, em 1920, uma vida do Padre Chevrier, o Verdadeiro Discípulo foi impresso, pela primeira vez, em 1921. Em seguida, apareceram sucessivamente: Cartas do Padre Chevrier, Espírito e Virtudes do Padre Chevrier, e Assuntos de oração, extraídos dos seus escritos. O Padre Chevrier, de Antônio de Lestra, teve também certo sucesso.

Nesta atmosfera descontraída e cada vez mais simpática, os pradosianos podem, mais facilmente, descobrir a dimensão diocesana da sua vocação. Estão bem unidos aos outros padres da diocese, não só pelo tempo passado no seminário maior, mas também pela celebração apostólica. E protestam quando se supõe que não são diocesanos. Até 1934, só havia pradosianos na diocese de Lyon. Os jovens originários de outras dioceses que entravam no Prado eram incardinados em Lyon, desde a primeira ordenação.

Terceiro período: 1934 – 1956

São três as características que melhor definem este período.

A partir de 1934, o Prado começa a aceitar jovens que serão incardinados nas suas dioceses de origem. Esta decisão coincide com uma evolução, cada vez mais profunda, entre o clero diocesano. Cada vez mais seminaristas e os jovens padres sentem o desejo de uma vida mais pobre, mais evangélica, mais comunitária e mais missionária. Muitos vêm então ao Prado procurar apoio para realizar o seu ideal.

Além disso, a simpatia para com Padre Chevrier e para o Prado vai aumentando e, com facilidade, os bispos dão aos padres e aos seminaristas autorização para entrar no Prado. É sobretudo a seguir à segunda guerra mundial que o desenvolvimento do Prado se torna mais rápido. Situa-se numa época de movimento missionário. Pensemos na Missão de França, nos Filhos da Caridade e em tantas outras iniciativas apostólicas que nascem e se desenvolvem por toda a parte.

Ao mesmo tempo, e é a segunda característica deste período, o Prado entra, sem reticência, na corrente diocesana. Esta abertura diocesana foi o resultado da expansão do Prado fora da diocese de Lyon e, ao mesmo tempo, o resultado de uma vontade bem nítida dos jovens pradosianos de, não só permanecer sujeitos aos seus bispos, em dependência filial, mas também permanecer bem unidos com todos os padres das suas dioceses.

Sem dúvida, que esta união com todos os padres diocesanos, poderia ter constituído um obstáculo, sob o ponto de vista do ideal pradosiano. Não estariam em risco, sob o pretexto de serem diocesanos, de se assemelharem, em tudo, aos outros padres? Também, e isto foi a terceira característica deste período, nós procuramos aprofundar a nossa vocação, no interior do clero diocesano. Tínhamos a consciência de não ter posto em evidência todas as dimensões do nosso ideal evangélico. Alguns que se tinham sentido atraídos para o Prado, sobretudo pelo ideal missionário, e que não tinham percebido, suficientemente, as exigências espirituais, acabaram por nos deixar, o que era de prever. Outros hesitavam entre a fidelidade ao Prado e a fidelidade à diocese. No conjunto, os pradosianos, sem pretender ter resolvido todos estes problemas, esforçavam-se, muito simplesmente, por realizar, o melhor que podiam, as exigências apostólicas e espirituais da vida pradosiana, no seio do clero diocesano, com o apoio comunitário que o Prado lhes podia dar. Sentíamos que estávamos longe do nosso ideal, mas todos acreditávamos nele.

Da parte do clero diocesano, no seu conjunto, não encontramos grandes dificuldades. Os “outros”, faziam, às vezes, uma observação amigável, por não sermos, suficientemente, pradosianos! Um bispo dizia aos seus padres do Prado: “Os padres da diocese têm o direito de vos exigir que sejais pradosianos a fundo”.

A existência de uma Comunidade Geral, isto é, de padres que estão incardinados no Prado, não foi, como seria de temer, um obstáculo ao caráter diocesano do Prado. Notemos para já, que, na grande maioria, os padres do Prado estão incardinados nas suas dioceses; por outro lado, os que pediram para ser incardinados, na Comunidade Geral, fizeram-no porque não estavam em ligação com uma diocese determinada ou porque desejavam estar disponíveis para trabalhar em dioceses mais pobres em padres; notemos, finalmente que, depois da nomeação para uma determinada diocese, é pedido aos padres da Comunidade Geral que se comportem, no seio do clero diocesano, exatamente, como se nela estivessem incardinados.

Deste modo, a Comunidade Geral era uma maneira de responder ao desejo, manifesto pelo Concílio, de uma maior disponibilidade dos sacerdotes, tanto em favor dos países ou dioceses que lutam com falta de padres, como em favor de determinadas atividades pastorais[573].

Quarto período: 1956 – 1968

Em 1956, havia 514 pradosianos. Foi nesse ano que, pela primeira vez, inscrevemos, no Prado, um postulante não francês; e é a partir dessa data que, cada vez mais, entramos em relação com padres e seminaristas doutros países. Ao mesmo tempo, alguns Pradosianos de França partiram para a Ásia, África e América Latina, a título da Fidei Donum.

A princípio, as nossas relações com seminaristas e padres doutros países eram sinal, sobretudo, de uma simpatia e de uma busca no sentido de uma espiritualidade mais evangélica, mais comunitária e mais missionária; entretanto, nalguns países da Europa, sobretudo Espanha e Itália, assim como no Médio Oriente, certo número de seminaristas e de padres desejavam realmente aderir ao Prado, se bem que constituindo grupos nacionais ou regionais, no interior da Associação dos Padres do Prado.

O fato de este se tornar internacional, obrigava-nos, a aprofundar mais o essencial da mensagem do Padre Chevrier, libertando-a dos aspetos, especificamente, franceses. É preciso que cada Prado nacional possa estar, verdadeiramente, inserido no seu país, com todas as características próprias, sem se sentir obrigado a importar, doutro lado, formas de realização que lhe sejam estranhas.

Em princípio, todos estávamos de acordo, mas, para nós franceses, não era fácil libertar-nos, no plano cultural, teológico e pastoral, daquilo que tínhamos vivido concretamente em França. Por isso, a internacionalização do Prado foi, para os pradosianos franceses que entravam em contato com outros países, um apelo a uma verdadeira purificação interior e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de enriquecimento, pela descoberta doutros valores culturais, teológicos e pastorais. Este trabalho de purificação e este enriquecimento, recebidos dos outros, está ainda longe de chegar ao fim. Sentimos, se bem que de uma forma ainda não muito clara, que encontraremos, graças a esta dimensão internacional, um meio de descobrir melhor o essencial da mensagem do Padre Chevrier e de discernir melhor a sua fecundidade, através da diversidade das realizações concretas.

Pessoalmente, encontrei, várias vezes, padres franceses ou doutros países que, sem pensar em pertencer ao Prado, manifestavam o desejo de renovar a sua vida sacerdotal, segundo o Evangelho; senti, neste seu desejo, um apelo a pôr o carisma do Padre Chevrier ainda mais à disposição de todos os sacerdotes que dele desejem se beneficiar. Este apelo perdurou sempre em mim e não é alheio à redação deste livro.

As situações de injustiça que descobrimos, por toda a parte, em especial, na América Latina e o aumento bastante rápido da secularização, exigiram também, da nossa parte, uma participação, sempre mais ativa, num apostolado, verdadeiramente, missionário, ao serviço dos mais pobres e dos mais afastados da Igreja. Claro que, como já disse ao falar do Padre Chevrier, o Prado não tem, enquanto tal, uma pastoral própria; mas em cada diocese, os pradosianos são chamados, em obediência ao seu bispo e em união com os outros padres, a pôr em prática as iniciativas missionárias que lhes forem exigidas pelas circunstâncias.

Nem sempre era fácil, para os pradosianos de França, enviados para o terceiro mundo, a título da Fidei Donum, inserir-se realmente na pastoral das dioceses. Quer queiramos quer não, há sempre em nós a tentação de transportar aquilo que nos é próprio. Pouco a pouco, no entanto, eles descobriram a necessidade de renunciar, absolutamente, a qualquer forma de colonialismo pastoral. Descobriram também as vantagens que há em adaptar, por assim dizer, as suas iniciativas à pastoral tal como esta era vivida nas dioceses em que se encontravam.

A internacionalização do Prado levou-nos a renovar a nossa estrutura jurídica. Segundo as indicações dadas, nessa época, pela Santa Sé, orientamo-nos para os Institutos seculares e, no dia 28 de outubro de 1959, fomos erigidos em Instituto Secular de direito pontifical.

Certo número de dificuldades nos levou depois a pôr em causa esta escolha e foi manifestado, junto da Santa Sé, o desejo de passarmos a ser uma “associação sacerdotal”. O problema continua a ser estudado, aguardando a publicação do novo Código de Direito Canônico[574].

Quinto período: a partir de 1968

Escolhi esta data em razão do seu valor significativo, pelo menos para os franceses; mas poderia lembrar também acontecimentos que marcaram, não menos profundamente, outras regiões. Penso nos acontecimentos políticos ocorridos, na Espanha e em Portugal, assim como no estado de Guerra que perturba o Líbano. Penso nas ditaduras militares que se instalaram, na maior parte dos países da América Latina e nos esforços de libertação coletiva que podemos constatar nesses mesmos países. Penso também nas grandes mudanças políticas provocadas, na África, pela descolonização e pelo acesso à independência das novas nações. Vivemos, pois, todos numa época marcada por profundas modificações. É uma época de provações, com tudo o que pode comportar como riscos e também como possibilidades favoráveis para os sacerdotes que querem estar presente na vida dos homens e ser fiéis a Jesus Cristo e ao Evangelho[575].

Falei de Maio de 1968, porque sou francês; mas penso que, de formas diferentes, todos os padres do Prado são chamados a viver o mesmo problema: Como permanecer fiéis ao carisma do Padre Chevrier, numa época tão revolvida? Na realidade, a convulsão que se manifestou, de uma forma violenta e espetacular, em Maio de 1968, tinha começado vários anos antes; e no capítulo preliminar da Gaudium et Spes, já encontramos uma descrição da condição humana dos nossos dias que corresponde, em grande parte, às análises que viriam a ser feitas depois de Maio de 1968[576]. Apesar de tudo, esta data não é somente o símbolo da entrada da humanidade, numa “era nova”, através de uma “verdadeira metamorfose social e cultural” [577], mas encontramos aí também uma rejeição radical dos valores tradicionais e a proclamação utópica de um futuro de desenvolvimento e de liberdade. Sem dúvida que estas mudanças profundas se manifestaram, sobretudo no aspeto humano, mas, como diz ainda o Concílio, “os seus efeitos repercutem-se até a vida religiosa” [578].

Em virtude da nossa vocação própria, tínhamos decidido estar mais em comunhão com a vida dos homens; por isso, fomos abalados de um modo especial, por estas convulsões. Teoricamente, na fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja que o Padre Chevrier tanto tinha procurado inculcar-nos, deveríamos permanecer firmes na tempestade; o que não nos teria impedido de nos pormos em causa e de acolher tudo o que de positivo aparecia nesta nova era; mas continuamos sendo uns pobres homens como os outros e também nós conhecemos as nossas misérias. Em França, nesta época, certo número de pradosianos abandonou o ministério sacerdotal e outros foram seriamente abalados.

Notemos, no entanto, que a nossa presença, no mundo, foi para muitos de nós, fonte de uma conversão, mais profunda, a Jesus Cristo e de um amor, mais verdadeiro, para com os homens, sobretudo para com os mais oprimidos e mais explorados. Aquilo que podia ser para nós, um risco, transformou-se assim num apelo. Eis alguns exemplos concretos:

Na medida em que alguns pradosianos, bastante inseridos no mundo dos pobres, se esforçaram por se comportar como enviados de Jesus Cristo, sentiram a felicidade de reconhecer que os pobres os tinham evangelizado.

Ao partilhar o sofrimento dos pobres, vítimas de injustiça, e ao descobrir os mecanismos que conduzem à exploração do homem, alguns pradosianos foram levados a interrogar-se sobre o problema do amor para com os inimigos.

O contato habitual com a simplicidade dos pobres conduziu-nos, muitas vezes, a pôr o problema da simplicidade dos discípulos de Jesus Cristo.

Muitos redescobriram, de certo modo, o valor do celibato, pelo Reino de Deus, porque tinham feito a experiência de viver a entrega total a um povo, por amor de Jesus Cristo!

Mais que tudo, as dificuldades, deste último período, provocaram, no conjunto dos pradosianos, como que um novo impulso para descobrir, em profundidade, o aspeto espiritual do carisma do Padre Chevrier. No meio das transformações atuais, era normal que, num primeiro tempo, fizéssemos um esforço especial para estar com aqueles que sofrem e são levados a revoltar-se porque não podem suportar mais a injustiça que pesa sobre eles; mas, num segundo tempo que vivemos atualmente, sentimos a necessidade de reavivar em nós, ainda mais, o essencial da graça do Padre Chevrier: conhecer Jesus Cristo é tudo; anunciar Jesus Cristo é a grande missão do sacerdote.

Apesar das dificuldades que acabo de enumerar, a associação dos padres do Prado continuou a desenvolver-se. É certo que, sobretudo na França, o crescimento foi lento. Mas, todos os anos, há sempre padres ou seminaristas que entram nas equipes e pedem para entrar no Prado. Por isto, damos graças a Deus.

Fora da França, os Prados da Espanha, Itália e Médio Oriente, continuaram também eles, progredindo na própria caminhada. Os pradosianos do Médio Oriente especialmente do Líbano, disseram-nos, várias vezes, quanto à orientação evangélica encontrada no Prado foi para eles um grande apoio, num período trágico. Os padres do Prado estão, atualmente, presentes em trinta e sete países (no início dos anos 80), sobretudo no Terceiro Mundo. É muito, mas ao mesmo tempo bastante modesto. Muito, porque esta situação “espalhada” em povos e Igrejas tão diversas empurra-nos, sempre mais, a que busquemos o essencial, na diversidade das culturas, das situações econômicas e políticas, nas formas tão diferentes de viver a fé. Em muitos países, a presença do Prado é assegurada, quase unicamente, por padres Fidei Donum, espanhóis, italianos ou franceses, e, portanto, estrangeiros.

Nestes últimos anos, o Prado nasceu em Madagascar, no Vietnã, nas Antilhas; está nascendo no Congo, na Colômbia, na Coréia, na Ilha da Reunião (Oceano Índico), etc. Em geral, são seminaristas ou padres originários destes países que querem partilhar a vida dos seus povos, na fidelidade ao Evangelho. Podemos mencionar também a Bélgica, a Suíça, Portugal e Áustria. A quando das nossas sessões ou assembléias internacionais, apercebemo-nos, cada vez mais, da riqueza do diálogo e intercâmbio que se fazem entre uns e outros.

Estes grupos originários dos vários países são recentes e ainda pequenos. Noutros sítios, da Ásia, África e América Latina, têm-se manifesto algumas vocações pradosianas isoladas. Estamos ainda no começo. Quando morreu o Padre Chevrier, tinha apenas quatro padres no Prado. E dizia: “O nosso Prado durará enquanto conservar o espírito de humildade e de pobreza; mas ai dele, se vier a desviar-se; a caridade não poderá continuar por muito tempo” [579].

Ao terminar este rápido percurso da vida do Prado, desde a morte do Padre Chevrier, quero destacar aqui duas reflexões:

  1. “Ser sacerdote, segundo o Evangelho”, não é uma fórmula mágica e não basta um ato de vontade, mesmo sincero, para realizá-lo. É necessária, uma conversão permanente, pessoal e coletiva.
  2. Pelo próprio fato de não querermos fechar-nos, em nós mesmos e também pelo fato de querermos, em união com o conjunto dos padres diocesanos, partilharemos a vida dos homens a quem somos enviados a anunciar Jesus Cristo, estamos muito em contato com os desvios e os erros. Porque não somos nem melhores nem mais fortes que os outros, corremos o risco de nos deixarmos arrastar pela corrente. Mas este risco é o mesmo que Jesus aceitou para os apóstolos; e por isso dizia a seu Pai: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os envio para o mundo. Não te peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17,15-18).

Este risco não nos deve paralisar. Ao contrário, é um apelo a que sejamos ainda mais fiéis a Jesus Cristo, e aos mais pobres, por uma adesão, ainda mais total, ao nosso único Mestre, numa conformidade mais exata com todos os seus ensinamentos; é também um apelo a viver e a agir numa dependência, mais completa, em relação ao Espírito Santo e numa comunhão, mais vigilante, com a Igreja inteira, especialmente, com o seu magistério. Finalmente, é um apelo a que nos apoiemos mais uns aos outros, sem nos separarmos dos irmãos, padres diocesanos, procurando, entre padres do Prado, como seguir Jesus Cristo, mais de perto, em toda a nossa vida e todas as nossas atividades sacerdotais.

IX. Acréscimo próprio a esta nova edição
do livro de Dom Alfred Ancel

A história dos Padres do Prado, escrita neste capítulo VIII, data de quase trinta anos. Foi escrita para um público francês que ignorava as origens do Prado em Lyon. Está de acordo com o período que vai das origens até 1970, mais ou menos. Dom Alfred Ancel redigiu essas páginas a partir das suas lembranças. Mas ela precisa hoje ser refinada e completada.

A precisão que se pode trazer para o período que vai de 1925 para 1971 é a seguinte. O desenvolvimento do Prado aconteceu primeiro, nas dioceses da França, logo após a segunda guerra mundial e, em outros países, durante e depois do Concílio Vaticano II. Deve-se uma grande parte à pessoa e às atividades de Dom Alfred Ancel (1898-1984), que foi responsável geral da Associação dos Padres do Prado de 1942 até 1971 e, ao mesmo tempo, bispo auxiliar de Lyon, a partir de 1947. Pela sua personalidade, pelo conhecimento aprofundado que tinha do Padre Chevrier, do qual era um discípulo fiel, pela sua irradiação espiritual, pelos seus compromissos, numa vida de proximidade e de partilha com os pobres, não só com os que estavam afastados da Igreja, mas também com os seus compromissos de bispo a serviço da missão universal da Igreja, os seus numerosos escritos, as suas incessantes viagens na França e no mundo, Dom Alfred Ancel soube, com outras pessoas, desenvolver o Prado, seguindo o Padre Chevrier. Como não se costuma falar de si mesmo, Dom Alfred não podia fazê-lo no seu livro!

Desde 1971, a Associação dos Padres do Prado prosseguiu o seu caminho sobre a responsabilidade de Pe. Pierre Berthelon (1971-1977), que foi antes, assistente de Dom Alfred Ancel e que nos deixou uma nova edição do Verdadeiro Discípulo, Pe. Georges Arnold (1977-1983), Pe. Antonio Bravo (1983-2001) e Pe. Robert Daviaud, o atual responsável geral dos padres do Prado.

Dois acontecimentos particularmente importantes contribuíram para o desenvolvimento e o fortalecimento da família pradosiana, na Igreja e no mundo. Primeiro, em 1986, a proclamação, em Lyon, pelo Papa João Paulo II, da beatificação de Padre Antônio Chevrier, que contribuiu para fazer com que ele não pertencesse mais somente ao Prado, mas a toda a Igreja, tornando-se um modelo para os padres, assim como para aqueles e aquelas que se sentem chamados para uma vida evangélica a serviço dos pobres. Neste mesmo ano de 1986, a Assembléia Geral da Associação dos Padres do Prado escolheu claramente tornar-se um Instituto Secular de direito pontifical e obteve, no ano seguinte, a aprovação das suas Constituições pela Santa Sede; terminava um período de incerteza sobre o estatuto canônico do Instituto, que podia agora se desenvolver sobre bases firmes.

A situação da família do Prado apresenta-se agora assim:

O Prado hoje:

Fundando o Prado no ano de 1860, o Padre Chevrier tinha dois objetivos: a educação religiosa e humana das crianças pobres, assim como a formação de padres e de apóstolos pobres para anunciar o Evangelho aos pobres. Sua obra está continuando de duas maneiras, totalmente distintas hoje:

– A nível sócio educativo:

Três Associações têm hoje, na França, ações sociais e educativas para os jovens com grandes dificuldades. Autônomas e independentes do ramo religioso, essas Associações inspiram-se das intuições e da pedagogia do Padre Antônio Chevrier.

– A nível religioso:

A graça concedida ao Padre Chevrier, em vista da evangelização dos pobres, é um dom do Espírito Santo para toda a Igreja, em particular para a família espiritual do Prado. É uma graça missionária, presente no mundo inteiro e em mais de cinqüenta países. O Prado tenta vivê-la apegando-se ao Cristo pobre e humilde enviado para o lado dos “pequeninos, dos sofredores, dos mal amados”, dos “pobres, dos ignorantes, dos pecadores”.

Cinco elementos constituem atualmente a família pradosiana: Os padres do Prado, os Irmãos do Prado, as Pessoas Associadas, as Irmãs do Prado e o Instituto Feminino do Prado.

Outros batizados (leigos e diáconos) reúnem-se também regularmente em equipe Prado, encontrando aqui uma comida evangélica.

Os padres do Prado

A Associação dos Padres do Prado é um “Instituto secular” de direito pontifical. Não é uma congregação religiosa. Os padres do Prado tornam-se diocesanos. Portanto, alguns podem ser incardinados, no Instituto, para o serviço da Missão e para cargos de formação.

Os padres do Prado estão, sobretudo, presentes nos meios populares, no meio dos mais desfavorecidos e nos cargos de formação, dos seminaristas e dos padres em particular. Depois de dois anos de formação, sem deixar o ministério, eles pronunciam o compromisso temporário para cinco anos, e, depois, o compromisso perpétuo. Podem também beneficiar-se de um “Ano Pradosiano”.

Contato: Associação dos Padres do Prado, 13, rue Père Chevrier, 69007 Lyon, França

Tel: 04 78 72 41 67; email: ap.prado@wanadoo.fr; site: www.leprado.org

Um seminário, perto de Lyon, prepara para o sacerdócio, no espírito do Padre Chevrier.

Contato: Séminaire du Prado, 2054 chemin Saint André 69760.LIMONEST. Tél. 04 78 35 61 44. seminaireduprado@wanadoo.fr )

Os irmãos do Prado

Profundamente apegados ao carisma do Padre Chevrier, os Irmãos do Prado são “leigos consagrados”. Na Associação, o grupo constituído forma uma Fraternidade, organização particular. Ainda pouco numerosos, estão presentes na França, na Itália e na Índia.

Os leigos associados

A Associação acolhe leigos que querem viver da espiritualidade do Prado e que participam da sua missão ao lado dos pobres. Estão presentes, no Meio Oriente, na Itália, na Espanha. Padres e diáconos podem também se tornar membros associados.

As Irmãs do Prado

Sociedade de Vida Apostólica de direito diocesano, as Irmãs do Prado estão atualmente em vários países da Europa, da Ásia e da América Latina. Reunidas pelo chamado de “conhecer e fazer conhecer Jesus Cristo”, elas partilham, mais do que possível, as condições das pessoas, nos bairros populares e nas aldeias. Elas vivem em comunidades.

Contato: Irmãs do Prado, 14, rue Père Chevrier 69007 LYON. Tél. 04 78 72 03 83 conseilgeneral.prado@wanadoo.fr. Site : www.soeursprado.org

O Instituto Feminino do Prado

O IFP foi fundado no ano de 1959. Seus membros, leigas, consagram-se totalmente a Deus, segundo os conselhos evangélicos. Vivendo no meio do mundo, elas participam da missão de evangelização da Igreja ao lado dos mais desfavorecidos das nossas sociedades. “Instituto Secular” de direito diocesano, se encontram na França, na Espanha, no Chile, na Coréia, no México e no Líbano.

Contato: IFP, 13 rue Père Chevrier.69007 LYON. Site : instituts-seculiers.cef.fr/ifp.htm)

Várias equipes ligadas ao Prado

Leigos, ligados ao Prado, mas também diáconos, testemunham, na atualidade da universalidade da “graça concedida, pelo Espírito Santo, à Igreja, na pessoa do Padre Chevrier, para a evangelização dos pobres”. Em numerosas regiões do mundo, reúnem-se, assim, equipes que têm a preocupação de meditar o Evangelho à maneira do Padre Chevrier e de ter uma preocupação missionária, no meio dos mais desfavorecidos.

Contato: 13 rue Père Chevrier 69007 LYON. Tél. 04 78 72 41 67.  AP.PRADO@wanadoo.fr

[1]      Encontrei uma justificação teológica do que acabo de dizer num estudo de Minas Gerais Joussard sobre o sacerdócio, no tempo dos Padres da Igreja. Sem menosprezar, de algum modo, a imposição das mãos que é essencial na transmissão do sacerdócio, os Padres da Igreja insistiam muito na importância da imitação de Cristo, “imitação direta no que respeita aos apóstolos, imitação indireta através dos Apóstolos e dos seus sucessores para aqueles que viessem depois” (La Tradition Sacerdotale, Mappuy, 1959, p. 110). Não é só o que Cristo fez na última ceia que os apóstolos e os seus sucessores são chamados a imitar, mas toda a pregação e toda a vida de Cristo (p. 109 e 110). Por isso o cuidado de encontrar padres que sejam pontos de referência, porque são uma “réplica do verdadeiro Padre” (p. 112, 116, 123 e 124).

[2]      Para conhecer a vida de Antônio Chevrier, ler primeiro o pequeno livro do P. Pierre Berthelon, Antoine Chevrier 1826-1879, editado em 1976. Podereis completar a informação, lendo na introdução ao Verdadeiro Discípulo o “perfilo” do Padre Chevrier (V.D. p. 19-28)

       Para compreender bem a originalidade do Padre Chevrier, em relação ao seu tempo, será muito útil ler a obra de Jean-François Six: “Un prêtre, Antoine Chevrier, Fondateur du Prado. Este livro de 537 páginas, publicado em 1965 (Le Seuil, Paris), coloca os fatos no seu contexto histórico e eclesial. Vou citar frequentemente esta biografia.

       A vida do Padre Chevrier, escrita pelo Cônego Chambost, é mais antiga (1920) e contém informações que não se encontram noutro lado. Por outro lado, a biografia escrita por Henriette Waltz, Un Pauvre parmi nous (l’Abeille, Lyon, 1942), ajuda a compreender, dum ponto de vista psicológico, as relações de Antônio Chevrier com o meio em que vivia.

       Para entrar direitamente em contato com o pensamento do Padre Chevrier, ler o seu Verdadeiro Discípulo. É nesta obra que ele nos apresenta, a partir do Evangelho e de São Paulo, e sempre apoiado na sua experiência pastoral, o que deve ser um padre, segundo o Evangelho. Não é um livro que se possa ler como uma história, mas sim, um livro de meditação que deve ser assimilado pela oração pessoal ou em grupo, se possível.

       O Pe Berthelon apresenta os principais textos do Verdadeiro Discípulo juntando-lhe algumas passagens das cartas do Padre Chevrier e do Processo de Beatificação, num livro intitulado “Le Message du Père Chevrier” (Ed Mappus, Le Puy, 1960).

       O pequenino livro de Pierre Berthelon “Antônio Chevrier” está traduzido para o português, editado pelo Prado Internacional, em 1976.

[3]      Six p. 41-49.

[4]      Six p. 78.

[5]      Six p. 87-99.

[6]      Ms. IV, p. 665.

[7]      Ms III., p. 12.

[8]      Um dos dois rios que atravessam Lyon.

[9]      Six p. 113-116.

[10]    V.D. p. 358-367.

[11]    Ms III, p. 358-367

[12]    Ms I., p. 515-516.

[13]    Ms III, p. 11.

[14]    Ms III, p. 5.

[15]    Six p. 122 – João Maria Laffay que era seminarista do Prado não garante a exatidão literal do seu testemunho, mas afirma que é fiel ao sentido. A expressão “os homens continuam a condenar-se” não significa que o Padre Chevrier fosse jansenista. Na mesma época, ele dizia: “Deus me guarde de dominar a sua misericórdia, creio que um grande número será salvo” (Ms. III, p. 358-367).

[16]    Six p. 125 – Irmã Maria e Irmã Verônica faziam parte das primeiras irmãs do Prado. Especialmente a Irmã Maria tinha a confiança total do Padre Chevrier. Foi ela a primeira responsável das Irmãs do Prado.

[17]    Six p. 123.

[18]    Esta afirmação do Padre Chevrier foi-nos transmitida por Mlle de Marguerye. Todos os testemunhos que acabo de citar são tirados do capítulo de J-F Six, intitulado “A Conversão”, p. 121-125.

[19]    Six, p. 134-136.

[20]    Six, p. 157-194. Camilo Rambaud é um burguês de Lyon que tinha abandonado a sua situação de fabricante de sedas e que com o seu amigo Paulo du Bourg tinha decidido tornar-se pobre para estar a serviço dos pobres. A sua atuação impressionara muito o Padre Chevrier. Trabalharam juntos durante três anos (agosto de 1857 a dezembro de 1860) e se separaram, não foi porque o Padre Chevrier não estivesse preocupado com a situação social dos operários. Na verdade, ele ajudou-os quanto podia, mas a sua primeira preocupação era a evangelização e uma evangelização que se situasse na vida humana, partilhando a vida dos pobres.

[21]    Berthelon, p. 29-30.

[22]    Six p. 187.

[23]    “Pensamos, que depois de ter dado catequese durante 3 anos, entre nós, poderemos fazê-lo duma maneira útil noutros sítios” (But Fondamental de l’ Association des Prêtres du Prado, VDA, R.P. 190). Tendo tido a responsabilidade da obra da primeira comunhão durante os dois primeiros da minha vida no Prado, posso afirmar que esta forma de apostolado me marcou profundamente para sempre.

[24]    Chambost, p. 273-299.

[25]    No entanto, podemos fazer uma exceção para o Padre Jaricot. Mesmo se a sua vocação não fosse, finalmente, uma vocação de pradosiano, mas uma vocação de trapista, durante todo o tempo que esteve no Prado, foi, realmente, para o Padre Chevrier um amigo e um apoio.

[26]    Cf. Introdução ao Verdadeiro Discípulo, p. 28-36.

[27]    Six, p. 290-295.

[28]    Six, p. 332-339.

[29]    Chambost p. 245; P. I, p. 185.

[30]    Chambost, p. 563-564, P. I, p. 221.

[31]    Six p. 367.

[32]    Six p. 209-215.

[33]    Six p. 209-215.

[34]    Carta à Senhora Franchet 309 (291) .

[35]    Idem.

[36]    Citado por J. F. Six, p. 188.

[37]    Carta ao Padre Gourdon n° 57 (54).

[38]    Chambost, p. 567 ; R., p. 50.

[39]    V.D. p. 125.

[40]    V.D. p. 126.

[41]    V.D. p. 510.

[42]    V.D. p. 513.

[43]    V.D. p. 511.

[44]    V.D. p. 535 – O Padre Chevrier seguiu vários planos para apresentar o seu pensamento sobre a vida sacerdotal segundo o Evangelho. O mais conhecido é, sem dúvida, aquele que serviu para a redação do Verdadeiro Discípulo, em referência à palavra de Jesus: “Se alguém quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Também tinha pensado em estudar diretamente o sacerdócio e deixou-nos numerosas notas, em vista de uma redação eventual (V.D.A., p. 509-532; R. P. 274 e 280). Finalmente, apresentou o seu ideal sacerdotal, de uma maneira sintética, no « Quadro de Saint Fons ». O « Quadro de Saint Fons » é um conjunto de inscrições que ele mesmo pintou nos muros de uma pequena casa que servia para os retiros dos pradosianos e que se encontra em Saint Fons, nos arredores de Lyon. Mais adiante apresentamos a reprodução fotográfica. Ver também, na introdução ao Verdadeiro Discípulo, o estudo do Pe. Berthelon sobre a sua elaboração, (V.D. p. 28-36).

[45]    V.D. p. 341.

[46]    Dictionaire de Spiritualité, art. “François”, co. 1283.

[47]    V.D. p. 101.

[48]    V.D. p. 101.

[49]    V.D. p. 101.

[50]    V.D. p. 120.

[51]    V.D. p. 120-121.

[52]    Six p. 122.

[53]    Carta aos quatro seminaristas, em Alix n° 82 (538), dia 24 de janeiro de 1872.

[54]    Carta ao R. P. Jaricot 152 (87), a Cláudio Farissier 121 (117), a Maurício Daspres e Léon Ferrat, Seminaristas 125 (139)

[55]    Carta a Francisco Duret 103 (105), dia 9 de fevereiro de 1874.

[56]    V.D. p. 121.

[57]    A preocupação de seguir Jesus Cristo, mais de perto, não é alheia aos métodos utilizados. Ela preside, de certo modo, à escolha dos métodos e intervém sempre na maneira de os empregar.

[58]    Carta ao Pe. João-Cláudio Jaricot n° 142 (77), Vichy, agosto de 1876. Possuir a sabedoria é uma expressão menos utilizada, mas, também ela, caraterística de uma vida, segundo o Evangelho. Antônio Chevrier fala largamente do assunto numa carta, em Junho de 1876, a Sra de Marguerye. Eis algumas passagens: “A sabedoria está no despojamento de si mesmo, de toda a criatura e de todas as coisas terrestres. Quando adquirimos este despojamento completo, então podemos elevar-nos com Jesus Cristo até as regiões superiores do seu amor; então não temos nada de nós, nada terrestre, nada nos entristece nada nos abate, nada nos perturba, porque tudo o que é terrestre é aniquilado e vivemos com Jesus Cristo; e então seguimo-lo por todo o lado, em todas as regiões superiores da caridade, do zelo, do sofrimento e da morte. Como é belo um homem, um padre que tomou este caminho, e quando ele o segue com Jesus Cristo, quantas coisas pode fazer…” (Carta à Senhora de Marguerie 440 (351), junho de 1876). As duas últimas linhas afirmam, claramente, a eficácia do sacerdote que escolheu esta via. E afirmam, também, a beleza de uma vida assim. O Padre Chevrier era, profundamente, sensível à beleza de uma vida apostólica vivida, na verdade, e, portanto, vivida na eficácia.

[59]    V.D. p. 21.

[60]    A propósito de interior e de exterior, Pierre Berthelon introduz a nota seguinte no índice analítico do Verdadeiro Discípulo: “O interior é a ação divina do homem e o consentimento do homem nesta ação; o exterior é todo o comportamento visível do homem, resultado visível da sua ação” (V.D. p. 541).

[61]    V.D. p. 103.

[62]    V.D. p. 477 – Junto aqui um texto de São Tomás de Aquino cuja referência não encontrei. Não pretendo que os termos sejam exatos, mas posso garantir o sentido: “Aquele que é pobre em espírito realiza efetivamente a pobreza, na medida das suas possibilidades”. O Padre Chevrier teria gostado muito de conhecer este texto. Dizia ele: “Aquele que tem o espírito de pobreza tende sempre a privar-se. O verdadeiro pobre de Jesus Cristo vai-se privando sempre, diminuindo” (V.D. p. 295).

[63]    V.D. p. 198.

[64]    V.D. p. 198.

[65]    Chambost, p. 81.

[66]    Carta à Senhora Franchet 310 (292).

[67]    Six, p. 288.

[68]    Six, p. 289.

[69]    V.D. p. 295. Em “La pauvreté du prêtre”, tentei reunir os principais textos que se referem ao Padre Chevrier, mestre de pobreza (Vitte, 1945, p. 315-330). Gostaria também de reproduzir aqui algumas das suas notas de retiros. Ajudam a ver, com dez anos de intervalo, a continuidade da orientação de Antônio Chevrier, a importância da conformidade exterior com Cristo e a prioridade que ele dá sempre ao conhecimento e ao amor de Jesus Cristo.

       O primeiro texto é do seu retiro no Seminário Maior de Lyon, a 31 de dezembro de 1857 (é o primeiro aniversário do Natal de 1856): “Tomo a Jesus como meu modelo e vou esforçar-me por imitá-lo o mais perfeitamente possível: imitar Jesus será o meu único desejo e o único objeto de todo o meu pensamento, a finalidade de todas as minhas ações… O sacerdote é a mais perfeita imagem de Jesus sobre a Terra… é o sacerdote do Deus do Presépio, do Deus da cruz… Jesus foi a caridade, o próprio amor. Amou o homem ao ponto de descer do Céu, vir à Terra e tornar-se pequenino por nós; sacrificou-se por nós; deu-nos tudo e morreu por nós e dá-se todo a cada um na Santa Eucaristia. Que exemplo para amar o nosso próximo! Ao ver a criança mais suja posso dizer: “Jesus sacrificou-se e morreu por ela. E eu, quanto não deveria eu fazer? Jesus quer dar-se a ela em alimento e eu, quanto não devo dar-lhe?”(R., p. 4-8).

       O segundo texto data de um retiro feito na Cartuxa de Portes, em 1867. A obra de primeira comunhão foi fundada em ­, a escola clerical em 1865, o Padre Chevrier tinha sido nomeado responsável da paróquia de Moulin-a-Vent em 1866. A orientação permanecia a mesma: “Jesus Cristo despojou-se a si-mesmo, fez-se pobre, sofreu… eu devo fazer igual. Quanto mais o desapego exterior e interior é grande numa alma, mais luz e o Espírito de Deus abundam nela… Que farei eu? A conformidade exterior com Nosso Senhor é o meio de chegar à conformidade interior. Conformidade com a Encarnação, com o Presépio, com o exílio, com o abandono dos pais aos 12 anos… Tudo isto por um desejo sincero de conformidade com Jesus Cristo, para atrair a sua luz e a sua graça à expiação dos meus pecados e angariar almas para a sua glória. Foi pela pobreza, pela humildade e pela morte que Ele deu nascente à sua Igreja, é, também, por meio de tudo isso, que nós daremos nascente” (R., p. 29)

[70]    Six p. 39-40; 198-215 e ss

[71]    Pode ler-se, a este propósito, o capítulo XVIII do P. Chambost, intitulado: Popularité et tribulations (p. 241-255).

[72]    E.V., p. 224-225.

[73]    V.D. p. 121 – Na época atual, muitos religiosos tornaram-se também “padres do ministério” e partilham a vida dos homens como os seus irmãos do clero secular. Se vivesse hoje, Antônio Chevrier já não poderia exprimir-se como o fez há um século.

[74]    V.D. p. 118.

[75]    A explicação que acabo de dar não vem direitamente do Padre Chevrier. É uma interpretação do seu pensamento. O que é claro para ele é que “Deus tem necessidade de bons padres pobres” (Carta ao Padre Gourdon 53 (50), 28 de agosto de 1865. É por isso que Deus chama alguns padres a seguir Jesus Cristo mais de perto. Também é claro que não há que se julgar os outros, mas quando se é chamado há que se ir para frente. Seria pena não responder a este apelo de Deus. O Padre Chevrier não pensa só em Jesus Cristo, que nos chama, mas também nos pobres que têm necessidade de ver Jesus Cristo na pessoa do Padre.

[76]    V.D. p. 519.

[77]    V.D. p. 363.

[78]    Carta a Francisco Duret 116 (107)

[79]    Carta a Francisco Duret 118 (108)

[80]    A propósito, quero citar um fato que me foi contado pelo Pe. Planus. O Pe. Planus foi meu mestre de noviços e tinha sido formado pelo próprio Padre Chevrier, quando era aluno da escola clerical do Prado. O Padre Chevrier tinha falado em pôr em comum o dinheiro pessoal. “Entusiasmado pela sua palestra fui entregar-lhe o meu pequeno porta-moedas. O Padre Chevrier aceitou-o. Esteve a conversar um pouco comigo e voltou a dar-mo dizendo: está muito bem o que fizeste; mas ainda é muito cedo. Voltaremos a falar do assunto, mais tarde”.

[81]    V.D. p. 126-127 – A propósito dos raciocínios contra os quais teve que se bater, vou citar três extratos das suas cartas ao Pe. Jaricot. Quando o Padre Chevrier as escreve, encontra-se em Roma com os seus quatro diáconos que serão depois os primeiros padres do Prado: “Peço-lhe que reze muito por mim e pelos meus jovens clérigos. Não sei bem o que poderei fazer; penso que só a graça de Deus os poderá fazer entrar num caminho de pobreza e de renúncia que eles talvez vislumbrem; vou devagar, porque eu próprio tenho grande necessidade de luz” (Carta n° 145 (80)).

       “Como é fácil habituar-se à vida burguesa, e como é difícil sair de lá, uma vez que se lhe tomou o gosto e se entrou nela. Sinto hoje como será difícil destruir tudo o que entrou na cabeça dos nossos jovens padres e das nossas crianças. Sinto toda a dificuldade e, por outro lado, sinto toda a minha debilidade. Nunca compreendi, tão bem, como é necessário ser santo para consolidar qualquer coisa; para comunicar aos outros um pouco de vida espiritual, é preciso estar cheio dela. Gemo por causa da minha pobre miséria, covardia e ignorância. Sinto que teria de começar por mim próprio, e santificar-me antes de santificar os outros. Reze por mim. Obrigado pelas Missas que celebra por mim. Trabalho no meu Verdadeiro Discípulo, explico-o todos os dias, vamos começar a ver a prática, é aí que haverá provavelmente algumas dificuldades. Duret e Delorme parecem-me dispostos, ao menos um pouco melhor. Delorme dizia ontem que não queria conservar o seu relógio, que era suficiente ter um em comum. Farissier e Broche não estavam de acordo. Amanhã vamos começar a tratar da comunidade de bens entre os irmãos. Verei o que isto dá, se cada um fará o sacrifício das suas pequenas bolsas particulares. Terei necessidade de ti para me ajudares e apoiares, um pouco, sobre o desprendimento” (Carta n° 148 (83)).

[82]    V.D. p. 127

[83]    V.D. p. 125

[84]    V.D. p. 113.

[85]    V.D. p. 231.

[86]    V.D. p. 113.

[87]    V.D. p. 115. Já desenvolvi largamente este tema do encontro com Jesus Cristo no meu livro “Croire aujourd’hui (ed. Delarge), especialmente nas pp. 18-21, 97-118, 263-297.

[88]    V.D. p. 114.

[89]    V.D. p. 113. Habitualmente não é desde o primeiro encontro com Jesus Cristo que tudo isto se impõe ao nosso espírito e ao nosso coração e é possível que os futuros padres que o Padre Chevrier se esforçava por formar ainda não tivessem adquirido esta convicção que a ele se impunha. No entanto, queria fazê-los partilhar da sua própria convicção para que soubessem até onde os conduziria o conhecimento de Jesus Cristo se eles fossem fiéis, mas quer pô-los no devido lugar. Ele próprio se tinha interessado pelas ciências (Six p. 111-112) e encorajava os seus seminaristas no estudo da filosofia e da teologia. Mas não podia colocar tudo ao mesmo nível. Só o conhecimento de Deus é vida eterna (Jo 17,3).

[90]    P. Ancel, Croire aujourd’hui – La reencontre de Jésus Christ (Acreditar hoje – O encontro com Jesus Cristo, ed. Delarge, p. 18-21.

[91]    No entanto, fala de misticismo, mas num sentido pejorativo. Para ele, esta palavra designa expressões religiosas pouco equilibradas e ao mesmo tempo sentimentais.

[92]    Six p. 121.

[93]    V.D. p. 113.

[94]    V.D. p. 106-107.

[95]    Chambost, p. 20.

[96]    V.D. p. 63.

[97]    V.D. p. 100-101.

[98]    V.D. p. 108, tradução da edição brasileira publicada pelo editor “Vozes” no ano de 2008.

[99]    V.D. p. 108.

[100]   V.D. p. 115.

[101]   V.D. p. 125.

[102]   V.D. p. 117.

[103]   Verdadeiro Discípulo antiga edição, p. 17; R., p. 16.

[104]   Carta a João Cláudio Jaricot (Seminarista) 65 (68)

[105]   Há uma contradição, aparente, entre a preocupação que o Padre Chevrier tinha de se tornar conforme, o mais literalmente possível, com a vida e o ensinamento de Jesus Cristo e o que acabamos de dizer. Claro que não se trata de copiar exatamente o que Jesus fez noutras circunstâncias e num meio cultural diferente. Mas não bastaria, por exemplo, contentar-se com o espírito de pobreza, sem prática efetiva da pobreza. Não se trata, portanto, de copiar as realizações efetivas de pobreza de Jesus e dos seus apóstolos más de procurar ver que realizações efetivas de pobreza, hoje, o mesmo significado que as realizações feitas por Jesus e os seus apóstolos.

       Apesar de tudo, quando se pode conservar tal qual uma palavra ou um comportamento de Cristo, é preferível. Há como um valor sacramental nestas palavras e nestes comportamentos. O Padre Chevrier tinha, neste ponto, muito cuidado; dizia ele, a propósito do discípulo de Jesus, que “tudo o que diz, tudo o que faz, assenta numa palavra ou numa ação de Jesus Cristo” (V.D. p. 228)

[106]   V.D. p. 103 – No entanto, o exterior em relação ao interior, não é só um resultado ou um sinal; pode ser também uma preparação. O Padre Chevrier sabia-o bem, ele que queria ajudar os seus seminaristas a entrar pela via da pobreza evangélica, graças ao clima de pobreza que eles encontravam na casa do Prado e a partir de práticas da pobreza. Voltarei ao assunto no capítulo seguinte.

[107]   Carta à Irmã Verônica 181 (231)

[108]   V.D. p. 448.

[109]   Chambost, p. 62; P. 1, p. 174.

[110]   Chambost, p. 68.

[111]   V.D. p. 225.

[112]   V.D. p. 448.

[113]   Ms XI, p. 79; cf. V.D. p. 117.

[114]   Ms XI, p. 550.

[115]   Ms XI, p. 550-551.

[116]   V.D. p. 135.

[117]   Ms. XI, p. 552.

[118]   V.D. p. 195.

[119]   V.D. p. 114.

[120]   V.D. p. 115.

[121]   V.D. p. 116.

[122]   V.D. p. 117.

[123]   V.D. p. 114

[124]   Nesta passagem da carta aos Filipenses, São Paulo conta o que se passou com ele por ocasião da sua conversão: “Todas estas vantagens que eu tinha, (que ele tinha como judeu e fariseu zeloso), os considerei como perda, por causa de Cristo. Na verdade, em tudo isso só vejo perda, em comparação com o supremo bem que é o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor” (Fil 3,7-8).

[125]   V.D. p. 114.

[126]   V.D. p. 115.

[127]   V.D. p. 116.

[128]   V.D. p. 114.

[129]   Os místicos, seja qual for a diversidade das suas orientações e vocações, convergem em formulas semelhantes. Não penso que o Padre Chevrier tenha lido São João da Cruz. Na realidade, o Tudo e o Nada foram uma das caraterísticas do grande contemplativo espanhol.

[130]   V.D. p. 113.

[131]   V.D. p. 231.

[132]   V.D. p. 217.

[133]   V.D. p. 218.

[134]   O Padre Chevrier não menosprezava a teologia, mas não queria que se pusesse, no mesmo plano, a fé. Felizmente, que não faltam teólogos que são humildes e conduzem as suas investigações à luz da fé.

[135]   V.D. p. 219.

[136]   V.D. p. 219.

[137]   V.D. p. 220.

[138]   V.D. p. 219-224.

[139]   V.D. p. 224.

[140]   V.D. p. 224-225.

[141]   V.D. p. 225.

[142]   V.D. p. 228.

[143]   V.D. p. 211-217.

[144]   V.D. p. 224.

[145]   V.D. p. 211.

[146]   V.D. p. 212.

[147]   V.D. p. 223 – Ao longo destas citações, podemos constatar até que ponto a espiritualidade do Padre Chevrier é uma espiritualidade trinitária e isto pela mesma razão da sua orientação para Cristo. Quando se procura conhecer Cristo e tornar-se conforme a Ele, é se, naturalmente, conduzido a ser um com Ele nas suas relações com o Pai e o Espírito Santo. Para exortar a que nos deixemos conduzir pelo Espírito Santo, Antônio Chevrier apresenta Jesus que não faz nada por si mesmo e age dependendo sempre do Pai.

       Esta orientação trinitária não se situa só num plano de reflexão teológica ou de contemplação; impõe-se também num plano de apostolado, e de toda a atividade humana. Ver, por exemplo, o que ele ensinava sobre a confiança que deve animar o padre quanto aos bens materiais (V.D. p. 317-319). Donde quero fazer ressaltar a expressão “Deus quer ser verdadeiramente Nosso Pai e seria fazer-lhe uma grande ofensa não ter confiança quando se trabalha para Ele” (V.D. p. 347).

       Este modo de falar é típico da maneira como Antônio Chevrier se situa em relação ao Pai. Refere-se ao mesmo tempo ao Evangelho e à vida. É muito mais que um simples saber: estamos no concreto da vida quotidiana. É isto conhecer Jesus Cristo.

[148]   V.D. p. 225.

[149]   V.D. p. 223.

[150]   Ms XII, p. 3.

[151]   V.D. p. 118.

[152]   V.D. p. 118.

[153]   V.D. p. 119.

[154]   V.D. p. 511.

[155]   V.D. p. 228-229.

[156]   V.D. p. 228.

[157]   V.D. p. 118.

[158]   Ms IX, p. 7.

[159]   V.D. p. 511 – Mesmo recorrendo a estes dois critérios, que acabamos de assinalar, não podemos ter pretensões de infalibilidade. Mesmo se o Magistério intervém, favoravelmente, nunca dá a uma revelação privada o valor da Revelação Pública. No entretanto, recorrendo a estes dois critérios, podemos agir com segurança. O primeiro critério impõe-se a todos aqueles que querem viver na dependência do Espírito de Deus; o segundo critério impõe-se a todos pela negativa, quer dizer que não temos o direito de nos afastar da comunhão com o magistério; impõe-se, também, de uma maneira mais direta quando, num caso particular, não se pode tomar iniciativa sem autorização do Magistério. Foi o que aconteceu com o Padre Chevrier a propósito da gratuidade do ministério.

[160]   V.D. p. 229.

[161]   V.D. p. 227.

[162]   V.D. p. 228.

[163]   V.D. p. 229.

[164]   O Padre Chevrier não fala da atenção aos pobres como meio de conversão para a vida evangélica, mas vê aí, antes de mais nada, uma preparação para receber a graça da conversão. Portanto, não basta pensar na miséria material e espiritual dos pobres para se converter; mas, se não houvesse esta atenção aos pobres, talvez não nos puséssemos o problema da própria conversão. Na verdade, foi prestando atenção aos trabalhadores da Guillotière que o Padre Chevrier se preparou para receber a graça da conversão; e queria que os seus seminaristas estivessem em contato com os pobres.

[165]   V.D. p. 119.

[166]   V.D. p. 227.

[167]   V.D. p. 227.

[168]   V.D. p. 511.

[169]   V.D. p. 363.

[170]   V.D. p. 511 – Esta citação é tirada do anexo 1, Discípulo. Na verdade, para Antônio Chevrier, o fato de ser um verdadeiro discípulo está ligado tanto ao conhecimento e amor por Jesus Cristo como à dependência em relação ao Espírito Santo.

[171]   Cuidado em não pôr em pé de igualdade o esforço humano e a ação de Deus. Sem Deus, não podemos fazer nada (Jo 15,5), mas, se não fazemos nada, somos servidores preguiçosos (Mt 25,26). Na ação, não podemos separar o que vem de Deus e o que depende de nós. Podemos mesmo dizer que toda a ação vem de Deus e depende inteiramente de nós. Concretamente, Deus pede-nos que estejamos totalmente disponíveis e que ponhamos todas as nossas possibilidades ao seu serviço. O Padre Chevrier emprega duas vezes a palavra possível: fazer tudo o que é possível… fazer todos os sacrifícios possíveis. O que acabo de dizer, aplica-se, ao estudo do Evangelho e à renúncia, assim como aos esforços positivos para ser conforme Jesus Cristo e obedecer aos seus ensinamentos. Aplica-se, também, ainda à oração que é realizada, ao mesmo tempo, pelo Espírito Santo (Rom. 8,26 e pelo esforço que fazemos para rezar sem cessar como Jesus no-lo pediu.

[172]   V.D. p. 227.

[173]   V.D. p. 108.

[174]   V.D. p. 227.

[175]   V.D. p. 226.

[176]   V.D. p. 516-517.

[177]   V.D. p. 228.

[178]   Esta preocupação do Padre Chevrier era ao mesmo tempo uma preocupação apostólica. Ele queria que os operários da Guillotière pudessem ver e ouvir nele o próprio Jesus Cristo. “É preciso, dizia ele, que vejam Jesus Cristo, no nosso exterior, na nossa maneira de vestir, nas nossas ações, em nossas mãos, nos nossos pés, nos nossos olhos, na nossa cabeça, em toda a nossa pessoa, porque todo o nosso ser deve revelar Jesus Cristo” (V.D. p. 198).

[179]   V.D. p. 516-517.

[180]   V.D. p. 108.

[181]   Ms IX, p. 7.

[182]   Aconselho, de um modo especial, a leitura das introduções de Pierre Berthelon às diversas formas de renúncia. A introdução à renúncia a si mesmo (V.D. p. 161-164) é bastante elucidativa.

[183]   V.D. p. 123.

[184]   V.D. p. 123.

[185]   V.D. p. 124.

[186]   V.D. p. 135.

[187]   V.D. p. 339.

[188]   V.D.A., p. 97.

[189]   V.D. p. 270.

[190]   V.D. p. 322.

[191]   V.D. p. 198.

[192]   V.D. p. 199.

[193]   V.D. p. 115.

[194]   V.D. p. 228.

[195]   Já falei do caráter progressivo da conversão segundo o Evangelho. Este caráter progressivo manifesta-se especialmente quando se trata da renúncia. É por isso que retomo aqui este tema.

[196]   V.D. p. 464.

[197]   V.D. p. 463.

[198]   Cartas à Senhora Franchet n° 295 (277)

[199]   V.D. p. 267-274.

[200]   Não falo aqui de alguns comentários mais ou menos inspirados pela mentalidade do seu tempo. Falo das exigências evangélicas, tais quais são, na verdade imutável.

[201]   Como início desta tradição, encontrei dois testemunhos: o de João Maria Lafay: “O que é fruto de um conselho, dizia-me ele, muitas vezes não tem uma base sólida e duradoura, é preciso deixar as almas decidir por si mesmas, e então, podemos contar com a sua perseverança (p. 2, p. 171; Chambost, p. 249) e o de Irmã Gabriela: “Dizia-nos ele: Deus quer que façamos tudo por amor e não pela força… foi o amor que levou Nosso Senhor a agir, durante toda a sua vida” (p. 3, p. 132-133).

[202]   V.D. p. 371-379.

[203]   V.D. p. 158.

[204]   V.D. p. 283.

[205]   Esta atitude do Padre Chevrier, em relação à família, não significa que se tenha que cortar as relações com ela. O Padre Chevrier reconhece que há motivos de caridade ou de necessidade que temos de ter em conta. O que ele pede é que o padre seja verdadeiramente livre em relação à sua família. Antônio Chevrier amava profundamente a sua mãe, sabia que a sua vida de pobreza a contrariava muito. Preferiu seguir Jesus Cristo, mas quando ela ficou viúva e sem meios para viver, levou-a consigo para o Prado… guardando sempre a sua liberdade em relação a ela. O que é absoluto para o Padre Chevrier, não é a regra, mas sim o Amor!

[206]   Ms. V, p. 45-46.

[207]   Escreveu um dia à Senhora Franchet: “Confiai tudo nas mãos da Virgem Maria que é a grande distribuidora de graças de Deus” (Carta à Senhora Franchet 344 (326))

[208]   P. 1, p. 121.

[209]   P. 3, p. 103.

[210]   As sete dores da Virgem Maria, segundo são invocadas no Prado, estão todas em ligação com a Paixão de Jesus: Jesus no Jardim das Oliveiras, Jesus condenado à Morte, Jesus atado e flagelado, Jesus coroado de espinhos, Jesus levando a sua cruz, Jesus morrendo na cruz, Jesus descido da cruz e entregue a sua mãe.

[211]   Carta ao Seminarista Cláudio Farissier 121 (117), Roma, dia 22 de maio de 1877.

[212]   « Dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, façais vós também” (Jo 13,16). “É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: Se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). “Isto vos servirá de sinal para o identificardes: Encontrareis um menino envolto em pano e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12).

[213]   Carta n° 56 (53) ao Pe Gourdon, dia 22 de janeiro de 1866.

[214]   Chanoine Chambost, L’Esprit et les Vertus du Père Chevrier, Vitte, Lyon, 1926, p. 2. P. 170.

[215]   Carta n° 114 (97) a Cláudio Farissier, mês de dezembro de 1872.

[216]   O Padre que assim se “desengrandece », tornando-se o irmão dos pobres, fica muito aquém do despojamento do filho de Deus ao fazer-se homem; mas trata-se do mesmo movimento do amor que leva a renunciar a qualquer superioridade sociológica. Não é nada, em comparação com o que fez o filho de Deus. Mais uma razão para aceitar este esforço de verdadeira fraternidade com os pobres!

[217]   E.V., p. 204-209 ; p.3, p. 21-23 ; p. 4, p. 173.

[218]   E.V., p. 415-416.

[219]   Ch., p. 245; p.1, p. 185.

[220]   Ms VII, p. 98 – Mesmo hoje, opção pelos pobres e opção de classe não coincidem; nem no plano sociológico, nem no plano espiritual. Há, entretanto, pontos de convergência que não devemos esquecer.

[221]   E.V., p. 416; p. 4, p. 173.

[222]   E.V., p. 384.

[223]   E.V., p. 369; p. 1, p. 4.

[224]   Podemos citar, a propósito, o texto de São Paulo: “Vós conheceis a liberdade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9). Esta frase é misteriosa: a pobreza não só é uma riqueza, mais ainda, é enriquecedora!

[225]   V.D. p. 323

[226]   V.D. p. 412.

[227]   É neste sentido que teremos de ler as páginas do Verdadeiro Discípulo, onde o Padre Chevrier reuniu sob o título “Segui-me na minha pobreza” os textos do Evangelho que nos revelam a pobreza de Cristo (V.D. p. 407-414). Uma frase do Pe. Foucauld exprime bem a atitude interior de Antônio Chevrier: “Não posso conceber o amor sem uma necessidade, uma necessidade imperiosa, de conformidade, de semelhança… Ser rico no meu conforto, viver tranquilamente dos meus bens, quando vós fostes pobre, sem conforto, vivendo pelo sofrimento do trabalho duro, para mim, não posso, ó meu Deus, não posso amar assim” (Ecrits Spirituels, Paris, 1930, p. 106). Esta forma de se exprimir é verdadeiramente característica da vida, segundo o Evangelho, à maneira de São Francisco de Assis. Há homens que são conduzidos, interiormente, pelo amor de Cristo a segui-lo, mais de perto. Não julgam os pobres; admitem que outros podem amar Cristo sem se tornarem pobres como Ele; mas para eles é impossível!

[228]   E.V., p. 385; p. 1, p. 209.

[229]   E.V., p. 290-292.

[230]   V.D. p. 540 (antiga edição); R., p. 71.

[231]   V.D. p. 292-294.

[232]   V.D. p. 197-198.

[233]   V.D. p. 524.

[234]   V.D. p. 413.

[235]   V.D. p. 413-414.

[236]   V.D. p. 295.

[237]   V.D. p. 295.

[238]   V.D. p. 295.

[239]   V.D. p. 295-296.

[240]   V.D. p. 295.

[241]   V.D. p. 296.

[242]   V.D. p. 316-317.

[243]   V.D. p. 316.

[244]   Ch., p. 245. P. 1, p. 185.

[245]   V.D. p. 136.

[246]   V.D. p. 519.

[247]   V.D. p. 322.

[248]   Carta n° 53 (50), ao Padre Gourdon, dia 28 de agosto de 1865

[249]   V.D. p. 535.

[250]   V.D. p. 535.

[251]   V.D. p. 117.

[252]   V.D. p. 115.

[253]   V.D. p. 385-399.

[254]   Carta n° 212 (186), à irmã Clara.

[255]   Carta n° 121 (117), ao Cláudio Farissier, dia 22 de maio de 1877. À primeira vista, esta condição formulada pelo Padre Chevrier é surpreendente: “Tereis tudo se o receberdes na vossa ordenação”. Certamente que o Padre Chevrier não contesta a eficácia sacramental e sabe bem que os padres validamente ordenados recebem o Espírito Santo pela ordenação. Mas o sacramento, tal como é realmente dado, comporta “a parte” daquele que o recebe.

       É neste sentido que o Concílio de Trento ensina que a eficácia dos sacramentos é proporcional às disposições de quem os recebe. É por isso que o Padre Chevrier, noutro lado, diz que não se pode ser padre sem ter o Espírito de Deus (V.D. p. 219). Não há nada de mágico nem de automático na ação sacramental. O Espírito Santo respeita a nossa liberdade e a nossa disponibilidade na fé. O Padre Chevrier também tinha observado que alguns cristãos que comungam, muitas vezes, não se transformam. Não é por culpa do sacramento!

[256]   V.D. p. 388-389.

[257]   V.D. p. 390.

[258]   V.D. p. 395.

[259]   V.D. p. 388.

[260]   V.D. p. 397-399.

[261]   Carta n° 294 (276), à Senhora Franchet, dia 15 de março de 1865.

[262]   Carta n° 295 (277), à Senhora Franchet, 1865.

[263]   Na capela de Saint-Fons, a terceira parte do quadro encontra-se ao centro, pintada sobre a parede, onde se encontra a porta que dá para a capela. Esta disposição exprime bem a convergência do conjunto para esta terceira parte.

[264]   Dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, também vós façais. (Jo 13,15).

[265]   Nesta parte, no manuscrito, encontram-se esboçados três desenhos: o Menino Jesus no Presépio, uma Cruz e uma Hóstia.

[266]   No primeiro capítulo, procurei apresentar o Padre Chevrier sob o título: Um pequeno que veio a ser grande. Se ele chegou a ser uma personalidade e, à sua maneira, um grande é pelo menos em parte, porque se aceitou tal que era com os seus limites concretos. Assim, conseguiu pôr a render as qualidades, se bem que limitadas, que realmente tinha.

[267]   Na página 106, pode o leitor encontrar uma apresentação do « Quadro de Saint Fons ».

[268]   V.D. p. 553.

[269]   V.D. p. 513.

[270]   V.D. p. 477.

[271]   V.D. p. 477.

[272]   V.D. p. 479.

[273]   Há mais de cem títulos, acompanhados de textos da Escritura, no capítulo do Verdadeiro Discípulo intitulado: Segui-me no meu sofrimento, (V.D. p. 473-485). Por isso, tive que escolher só alguns.

[274]   V.D. p. 478.

[275]   V.D. p. 351.

[276]   V.D. p. 453-472.

[277]   V.D. p. 457.

[278]   V.D. p. 457-458.

[279]   V.D. p. 458.

[280]   V.D. p. 460.

[281]   V.D.A p. 446-447 ; Ms VI, p. 492.

[282]   V.D.A. p. 447; Ms VI, p. 492.

[283]   V.D.A. p. 468; Ms XII, p. 640 e 643.

[284]   V.D.A. p. 473-474; Ms V, p. 546.

[285]   Jean-François Six., Un prêtre Antoine Chevrier, Fondateur du Prado, Le Seuil, Paris, 1965, p. 113.

[286]   Henriette Waltz, Un pauvre parmi nous, L’Abeille, Lyon, 1942, p. 91.

[287]   Chambost, Vie Nouvelle du Vénérable Père Chevrier, Vitte, Lyon, 1920, p.412-413; P. 2, p. 260.

[288]   Chambost, Vie Nouvelle du Vénérable Père Chevrier, Vitte, Lyon, 1920, p. 442-443; P. 4, p. 145.

[289]   Carta à Senhora Franchet n° 295 (277), ano 1865.

[290]   V.D. p. 114.

[291]   Sob o título Départ et mission, o Pe Six escreveu algumas belas páginas que explicam bem a maneira como o Pe. Chevrier soube equilibrar a sua vida, num dom total de si mesmo a Deus e aos homens (S., p. 296-301).

[292]   V.D. p. 535.

[293]   E.V., p. 172; P. 2, p. 159.

[294]   V.D. p. 191.

[295]   V.D. p. 191.

[296]   V.D. p. 191.

[297]   V.D. p. 193.

[298]   V.D. p. 535.

[299]   S., p. 192.

[300]   Chambost, p. 251; P. 1, p. 189.

[301]   Chambost, p. 251; P. 4, p. 171.

[302]   Carta à Senhora Franchet n° 295 (277), ano 1865.

[303]   Carta ao João-Cláudio Jaricot Padre 147 (82), mês de abril de 1877.

[304]   Carta ao João-Cláudio Jaricot Padre 153 (88), no dia 9 de abril de 1878.

[305]   Chambost, p. 559 ; P. 1, p. 221. Alguns hoje não poderão aceitar estas palavras: pregar, comprar. Evidentemente que é preciso compreendê-las bem. Mas estão na Escritura (1 Cor 6,20; 7,23).

[306]   V.D. p. 196.

[307]   V.D. p. 196.

[308]   V.D., p. 478. A propósito deste assunto, contaram-me o seguinte fato. Dois padres conversavam sobre a penitência voluntária e um deles dizia: “Não se encontra nada a esse respeito no Evangelho”, então o outro responde-lhe: “Pois bem, jejue durante quarenta dias e depois falaremos”.

[309]   V.D. p. 353.

[310]   V.D. p. 196.

[311]   V.D. p. 196. Não temos que copiar o Padre Chevrier e ele pode ter sido imprudente no seu jejum de caridade. Mas não seremos nós prudentes demais? Além disso, há o exemplo de Jesus Cristo! O Padre Chevrier cita também São Paulo: “Castigo o meu corpo e mantenho-o em servidão, não aconteça que tendo pregado aos outros, venha eu próprio a ficar desclassificado” (1 Cor 9,27). Claro que não se trata de copiar, mas também não se deverá, sob pretexto de evitar o formalismo, cair no irrealismo. O Padre Chevrier não tem estreiteza de espírito, é realista. Sabe muito bem, por exemplo, que algumas pessoas não poderão jejuar, mas ajuda-as a refletir, dando-lhes, um conselho concreto: “Se a saúde não permitir jejuar, pode-se tomar a mesma quantidade de comida, mas que seja diferente, quer dizer, mais grosseira, mais simples, mais pobre: pão, vinho, fruta, nada de cozido, nem preparado de propósito, e então entramos no espírito de penitência” (V.D. p. 354). Entrar no espírito de penitência, para o Padre Chevrier, não é só a nível da intenção; sugere realizações concretas.

[312]   V.D. p. 486.

[313]   V.D. p. 332.

[314]   « Nisto conhecemos o amor : Ele deu a sua vida por nós e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos” (1 Jo 3,16). Há muita semelhança entre a atitude do Padre Chevrier, em relação à pobreza, e a sua atitude em relação ao sofrimento. Encontramos a origem destes sentimentos, ao mesmo tempo, no seu amor por Cristo e no seu amor pelos homens. A este nível, riqueza e pobreza, alegria e sofrimento, vida e morte passam a ser uma e a mesma coisa.

[315]   V.D. p. 331.

[316]   V.D. p. 331.

[317]   V.D. p. 330.

[318]   V.D. p. 330.

[319]   P., p. 131-323.

[320]   V.D. p. 330.

[321]   V.D. p. 133-134.

[322]   V.D. p. 521.

[323]   V.D. p. 521.

[324]   V.D. p. 137.

[325]   V.D. p. 480.

[326]   V.D. p. 480.

[327]   V.D. p. 481.

[328]   V.D. p. 480.

[329]   V.D. p. 487-489.

[330]   V.D. p. 488.

[331]   V.D. p. 489.

[332]   V.D. p. 487.

[333]   Chambost, p. 599; P. 1, p. 221.

[334]   V.D. p. 330.

[335]   V.D. p. 486. No capítulo seguinte, falarei da gratuidade do ministério e do valor significativo desta gratuidade em relação à obra de Deus. Gostaria, simplesmente, de relembrar aqui o que o Padre Chevrier responde aos que temem vir a sofrer, se não pedem nada a ninguém: “Tinha Nosso Senhor aquilo que era necessário quando veio à terra? Tinha o necessário, nas suas viagens pela Galiléia, pela Judéia, e pela Decápole? Tinha o necessário quando estava na cruz? Se é preciso sofrer, tanto melhor! É por isso que a obra de Deus será mais sólida e dará mais resultado. Atraem-se e ganham-se mais almas para Deus pela pobreza e pelo sofrimento que pelo bem-estar e pelas riquezas. Os fiéis darão muito mais, ou melhor, estarão muito mais dispostos a dar, quando nos virem pobres e no sofrimento. Se o Bom Deus não nos envia meios de subsistência, é uma prova de que quer que soframos e mereçamos, pelo sofrimento, aquilo de que temos necessidade” (V.D. p. 307-308). E acrescenta: “Toda a obra de Deus tem de levar, antes de mais nada, a marca da pobreza e do sofrimento” (V.D. p. 308). Eis, finalmente, a sua conclusão: “Aliás, não são as terras nem as casas, nem o ouro, nem a prata que realizam a obra de Deus. São os homens, os homens generosos e dedicados que sabem sofrer, animados pelo Espírito de Deus. Eis o que é preciso para uma obra ir por diante. Dai-me, Senhor, uma alma generosa, dedicada, que saiba sofrer; ela valerá mais que um milhão; e quando, ao lado desta alma, se juntar uma outra com o mesmo desejo, e caminhando para o mesmo fim e unidas em conjunto pelo amor de Deus, a obra está fundada” (V.D. p. 308).

[336]   Ms V, p. 45-46

[337]   E.V., p. 218 ; P 2, p. 170.

[338]   V.D. p. 551 ; R., p. 92.

[339]   E.V., p. 243.

[340]   V.D. p. 419.

[341]   V.D. p. 419.

[342]   Devemos respeitar a caminhada de cada um e já falamos do caráter progressivo de uma vida, segundo o Evangelho. No entanto, nunca podemos esquecer a meta a atingir. Jesus pede-nos que vamos até o fim. Ninguém poderá dizer que já lá chegou; mas também não nos podemos contentar com o ter compaixão, com sermos dedicados ou termos conseguido alguns resultados.

[343]   V.D. p. 552-553

[344]   No tempo do Padre Chevrier, não se falava dos aspetos coletivos da caridade temporal; também não se falava de desenvolvimento ou de libertação do homem. Mas a relação entre o apostolado, propriamente dito, e a caridade temporal permanecerá sempre a mesma. Como dizia Paulo VI: “A libertação do homem é um aspeto inseparável da sua salvação integral, realizada por Jesus Cristo.” (Discurso aos jornalistas, 28 de fevereiro de 1976)

[345]   Ch., p. 245 ; P 1, p. 185.

[346]   V.D. p. 419.

[347]   V.D. p. 300-304

[348]   Ch. P. 563 ; P. 2, p. 221.

[349]   V.D. p. 534 ; R., p. 24-25.

[350]   Era a sua maneira de exprimir o Mistério Pascal.

[351]   Carta n° 52 (49), ao Padre Gourdon, ano 1865. Acabais de notar as palavras de grandeza e de beleza. Estes termos saem espontaneamente da caneta do Padre Chevrier. Só o compreendemos bem se nos lembrarmos que ele começou a sua oração a Cristo dizendo: “Ó Verbo, ó Cristo, como sois belo, como sois grande!” Para Antônio Chevrier, Jesus está sempre presente! É pela sua luz que descobrimos os verdadeiros valores.

[352]   No tempo do Padre Chevrier, não se falava, como hoje, de projeto apostólico ou de métodos pastorais, mas sempre houve modos de dar a catequese, receber as pessoas, administrar os sacramentos, etc., que eram mais ou menos adaptadas e mais ou menos conformes com o Evangelho. É neste sentido que vou falar da ação apostólica e da sua renovação, segundo o Evangelho. O que o Padre Chevrier disse e fez em relação à pregação e à catequese, parece-me exemplar tanto quanto à adaptação como quanto à renovação evangélica. Teve a mesma preocupação evangélica quanto à missa e aos sacramentos; foi menos feliz no que respeita à adaptação.

[353]   Chambost, p. 166.

[354]   Carta ao João Broche n° 114 (97)

[355]   Carta ao João Broche n° 114 (97)

[356]   V.D. p. 419 e 433.

[357]   V.D. p. 198.

[358]   V.D. p. 139-158.

[359]   V.D. p. 414.

[360]   V.D. p. 412.

[361]   Chambost, p. 416.

[362]   V.D.A., p. 508; R. p. 189-190.

[363]   Chambost, p. 300-315.

[364]   V.D. p. 448.

[365]   V.D. p. 444.

[366]   V.D. p. 451.

[367]   V.D.A., p. 508 ; R. p. 191.

[368]   Carta a Francisco Duret n° 91 (102)

[369]   V.D. p. 441-442.

[370]   V.D. p. 442-443.

[371]   V.D. p. 442.

[372]   V.D. p. 448.

[373]   Não é por isso que o Padre Chevrier teria rejeitado um ensino teológico dado aos leigos. O que ele pregava não era uma teologia, mas simplesmente a palavra de Deus. Não se pode exigir tudo da mesma pessoa.

[374]   Há uma expressão que aparece muitas vezes nos escritos do Padre Chevrier: “Saber falar do Bom Deus” (Cartas n° 93 (92), 103 (105), etc.) Para ele, saber falar do Bom Deus é provocar, naquele que ouve, ao menos uma abertura à fé, ao amor e ao desejo de se converter. “Como é belo”, dizia ele. Dizia ao Pe. Planus que foi seminarista do Padre Chevrier: “Sabia entusiasmar-nos quando falava de Jesus Cristo”. Numa carta aos seus quatro diáconos que iria encontrar em Roma, dizia: “Terei muitas coisas para vos dizer acerca de Nosso Senhor Jesus Cristo (Carta a Francisco Duret 115 (106))

[375]   V.D. p. 453-464.

[376]   V.D. p. 457.

[377]   V.D. p. 463.

[378]   V.D. p. 458.

[379]   V.D. p. 464.

[380]   V.D. p. 464.

[381]   V.D.A., p. 439 ; Ms X, p. 360.

[382]   V.D.A., p. 439-440 ; Ms VII, p. 262..

[383]   V.D.A., p. 441 ; Ms VII, p. 264 ; cf. R. p. 108..

[384]   V.D.A., p. 441 ; R. p. 108..

[385]   V.D. p. 221.

[386]   V.D.A., p. 442 ; cf. R. p. 108. – Como nota muito bem o padre Six, a progressão é a mesma na espiritualidade pessoal e no ensino evangélico: “A fé, o amor, a ação, eis os três efeitos que é preciso procurar” (Six, p. 242, n° 19).

[387]   V.D. 219-220.

[388]   V.D. p. 221.

[389]   V.D. p. 221-222.

[390]   V.D. p. 222.

[391]   Chambost, p. 263-268 ; 295-297 ; 310-315 ; R. p. 103.

[392]   Chambost, p. 263 ; Ms X, p. 349.

[393]   V.D. p. 283.

[394]   V.D. p. 222.

[395]   V.D. p. 522.

[396]   V.D. p. 298.

[397]   V.D. p. 523.

[398]   V.D. p. 521.

[399]   V.D. p. 521.

[400]   V.D. p. 315.

[401]   V.D. p. 311-313.

[402]   V.D. p. 313.

[403]   V.D. p. 315.

[404]   V.D. p. 297.

[405]   Chambost, L’Esprit et les Vertus, p. 391.

[406]   Chambost, p. 229. P. 1, p. 166.

[407]   V.D. p. 304.

[408]   Aceita, no entanto, o trabalho manual que se faz em casa para não ter empregados e porque cada um faz as reparações necessárias.

[409]   V.D. p. 305.

[410]   Six p. 73-78 ; 223.

[411]   V.D. p. 304.

[412]   O Padre Chevrier nunca condenou os padres que na Igreja se dedicam a obras sociais; só que não era o seu carisma.

[413]   Chambost, p. 585-586.

[414]   Chambost, p. 354-358 ; Chambost Esprit et Vertus, p. 22-34 ; cf. P. 1, p. 171.

[415]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 23 ; P. 3, p. 98.

[416]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 238.

[417]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 237 ; P. 4, p. 190.

[418]   V.D. p. 103.

[419]   J. F. Six redigiu uma nota sobre Emília Tamisier. Esta mulher, de grande valor, tinha necessidade de se desfazer das suas próprias ideias e dos seus próprios projetos para se tornar, verdadeiramente, um instrumento de Deus e realizar a obra de Deus (Six, p. 474-475). O Cônego Chambost dedicou todo um capítulo às relações do Padre Chevrier e Emília Tamisier (Chambost, p. 394-407). É difícil encontrar dois temperamentos mais diferentes que o de Antônio Chevrier e de Emília Tamisier. Um hesitante, desconfiando de si próprio, o outro seguro de si mesmo, cheio de projetos, sem medo de nada. Mas, por caminhos diferentes, o Senhor faz a sua obra, desde que o deixem agir. Empurra e apoia um, modera e trava outro. Finalmente é a obra de Deus que se realiza.

[420]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 346-347.

[421]   Chambost, p. 567, R. p. 50 – Fui eu que sublinhei as passagens deste texto que exprimem, de um modo mais claro, as intervenções de Deus.

[422]   V.D. p. 103.

[423]   Cf. La Pauvreté du prêtre, p. 196-273.

[424]   V.D.A., p. 507 ; R, p. 191.

[425]   V.D. p. 321.

[426]   V.D. p. 306-307.

[427]   V.D. p. 317.

[428]   V.D. p. 318.

[429]   V.D. p. 410.

[430]   V.D. p. 321.

[431]   La Pauvreté du prêtre, p. 198.

[432]   V.D. p. 309-310.

[433]   V.D. p. 307.

[434]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 130.

[435]   V.D. p. 306-323.

[436]   V.D. p. 226.

[437]   Nesta parte, vou empregar a palavra Igreja no sentido em que o Padre Chevrier a emprega. Para ele, a Igreja é, antes de mais nada, o Papa e os bispos. Ele exprimiu-se segundo a teologia do seu tempo. É aí que nós temos de situar para o podermos compreender.

[438]   V.D. p. 219.

[439]   Carta ao senhor Paulo du Bourg 15 (535)

[440]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 89 ; P. 2, p. 22.

[441]   V.D. p. 256.

[442]   V.D. p. 257.

[443]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 89 ; P. 1, p. 109.

[444]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 90 ; P. 4, p. 163.

[445]   V.D. p. 233-234 – A propósito, podemos reler uma frase que já foi citada quando falamos da dependência em relação ao Espírito Santo. Trata-se do discernimento. Antônio Chevrier dizia: “Temos que apoiar-nos em Jesus Cristo e na sua palavra; eis onde está o fundamento inabalável e sólido sobre o qual podemos nos apoiar sem medo: Jesus Cristo e a Igreja. Apoiados nestas duas bases, temos a certeza de avançar com segurança, apesar das contrariedades, dos combates, das lutas e das perseguições” (V.D. p. 511).

[446]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 91.

[447]   Six, p. 294.

[448]   V.D.A., p. 506 ; R., p. 188.

[449]   “Pagar o lugar sentado”. Referência ao costume que existia em França segundo o qual, na missa e outros atos de culto, as pessoas pagavam para reservar um lugar sentado. Por vezes, na missa, havia dois peditórios. O peditório habitual e outro para as cadeiras que nalguns casos não eram propriedade da paróquia, mas de uma terceira pessoa que recolhia o peditório. Este costume perdurou, nalguns sítios, até à década de 1960 (nota do tradutor).

[450]   V.D.A., p. 501 ; R., p. 185 – O regulamento das paróquias falava explicitamente da gratuidade do ministério (Chambost, p. 311; R., p. 103); mas tanto quanto podemos saber, nunca foi proposto à aprovação do arcebispo de Lyon.

[451]   Dom Dubuis, bispo de Galveston (Estados Unidos, Texas), era originário de Lyon. Conhecia bem o Padre Chevrier. Tinha ordenado e incardinado na sua diocese o P. Jaricot, deixando-o à disposição do Padre Chevrier.

[452]   V.D. p. 414.

[453]   Cf. Capítulo 7.

[454]   V.D. p. 523.

[455]   V.D. p. 121.

[456]   Apesar de tudo, devemos reconhecer que, no início, o Prado foi muito mal recebido pelo clero de Lyon. Ao ler, na vida do Padre Chevrier, escrita pelo Pe. Chambost, o capítulo intitulado: Popularidade e tribulação (p. 241-255), vemos até que ponto Antônio Chevrier sofreu por parte dos seus colegas. Mas se lermos o que diz João Francisco Six acerca da formação do clero, nesse tempo, já não estranhamos (p. 209-215). O que é extraordinário é que, finalmente, Antônio Chevrier foi aceite e até admirado. Quanto aos fiéis, alguns seguiam as reações dos outros padres, e era normal; no entanto, pela sua correspondência, se vê que um certo número de fiéis o tinham compreendido melhor que o conjunto do clero. Por outro lado, era venerado pelos trabalhadores. Já dissemos atrás que o consideravam como “um amigo do pobre povo” (Chambost, p. 245; P.1, p. 185). Mas nunca o Padre Chevrier se valeu da popularidade para se opor aos colegas. Não só não os criticava, mas também não admitia que os criticassem na sua presença (Chambost, Evangile et Vie, p. 94).

[457]   Carta ao João Cláudio Jaricot Padre 145 (80), 147 (82), 148 (83).

[458]   Six p. 333.

[459]   Six p. 334.

[460]   Six p. 334.

[461]   Chambost, p. 459.

[462]   Carta à Senhora Franchet 295 (277).

[463]   Carta à Senhora Franchet 293 (275).

[464]   Six p. 384-394.

[465]   V.D. p. 221.

[466]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 353.

[467]   Pode-se distinguir entre a teimosia e a fidelidade: a teimosia está no campo do nosso próprio espírito e da nossa própria vontade, ao contrário da fidelidade que se coloca em referência ao Espírito de Deus e à vontade de Deus. Compreende-se porque é que o Padre Chevrier tinha insistido tanto sobre a renúncia ao espírito próprio. Tinha adquirido a certeza de trabalhar, não para a sua própria obra, mas para a obra de Deus.

[468]   V.D. p. 231.

[469]   Encontramos aqui de novo a distinção do Padre Chevrier entre o tudo e o nada e entre o interior e o exterior. Falando dos sinais exteriores de unidade o Padre Chevrier dizia: “No fundo, tudo isto não é nada” (V.D. p. 231); igualmente, ao falar “daqueles que começam pelos regulamentos exteriores e que fazem muitas regras”, dizia também: “Isso não é nada” (V.D. p. 222). Mas o que não é nada pode, de uma forma ou de outra, ser ao mesmo tempo necessário. Dizia ele, por exemplo, que “é preciso ordem e regularidade” (V.D. p. 221). Pela maneira de se exprimir, o Padre Chevrier quer pôr em evidência o que é primordial e essencial. No entanto, não emprega a palavra essencial, prefere empregar as palavras tudo e nada. Quer isto dizer que, finalmente, se trata de realidades em planos diferentes: “Conhecer Jesus Cristo é tudo, o resto não é nada”. Nem sempre é fácil encontrar palavras para exprimir bem o conceito destas diferenças e complementaridades; mas é muito importante compreendê-las por intuição, porque estão cheias de consequências para a prática. O exterior, que não é nada, não pode ser menosprezado; e seria, não só um erro, mas também um perigo colocá-lo em primeiro lugar.

[470]   V.D. p. 231 e 151-152. Empreguei a palavra essencial, se bem que não faz parte do vocabulário do Padre Chevrier, para designar não só o que é interior, mas também o que, sendo exterior, se torna inseparável do interior. Podemos pôr-nos a questão: “A pobreza efetiva é ou não essencial ao Prado?” À qual responderei: se a praticamos por ela mesma ou só por uma finalidade sociológica ou de eficácia apostólica, não só não é essencial ao Prado como também é estranha ao seu espírito. Se se põe em prática como preparação para a pobreza interior, é normalmente necessária; pertence à tradição do Prado desde o início. Se se põe em prática com manifestação do amor de Jesus Pobre e do amor pelos pobres, é essencial ao Prado. Assim o exterior faz parte do essencial quando é sinal inseparável do interior. Esta explicação ajuda-nos a compreender como é que o esforço para pôr em prática o Evangelho e para realizar um apostolado, segundo o Evangelho, faz parte essencial da vida comunitária no Prado. O mesmo se diga quanto à realização de uma vida, segundo o Evangelho.

[471]   V.D. p. 231.

[472]   V.D. p. 151.

[473]   V.D. p. 152

[474]   Chambost, p. 311 ; R., p. 103.

[475]   Carta à Senhora Franchet 295 (277)

[476]   Carta ao Pe. Gourdon 56 (53).

[477]   Carta ao Pe. Gourdon 57 (54).

[478]   Carta ao Pe. Gourdon 57 (54).

[479]   Carta ao Pe. Dutel 75 (55).

[480]   Carta ao Pe. Dutel 75 (55).

[481]   Carta ao João-Cláudio Jaricot Padre 147 (82).

[482]   Carta ao João-Cláudio Jaricot Padre 147 (82).

[483]   Carta ao João-Cláudio Jaricot Padre 147 (82).

[484]   Cf. Capítulo 7: Uma formação especial.

[485]   V.D.A., p. 507 ; R., p. 191.

[486]   Chambost, p. 118 ; R., p. 10.

[487]   Chambost, p. 274 ; P. 2, p. 85.

[488]   Chambost, p. 312 ; R., p. 104.

[489]   V.D. p. 256-261.

[490]   V.D. p. 527-531.

[491]   Chambost, Esprit et Vertus, p. 263-267.

[492]   V.D. p. 222.

[493]   O volume X dos manuscritos está intitulado: Regulamentos. Aí encontramos também regulamentos que fez para si mesmo e regulamentos pessoais que propôs a alguns membros do Prado. Dizia: “Devemos considerar o regulamento como a expressão da vontade de Deus a nosso respeito” (V.D. p. 258).

[494]   Carta a Francisco Duret n° 116 (107)

[495]   V.D. p. 267.

[496]   V.D. p. 260.

[497]   V.D. p. 258-259.

[498]   Falta a nota 498

[499]   V.D. p. 527.

[500]   V.D. p. 530.

[501]   V.D. p. 222.

[502]   V.D. p. 288.

[503]   V.D. p. 289.

[504]   V.D. p. 288.

[505]   V.D. p. 274.

[506]   V.D. p. 363.

[507]   Chambost, p. 310-313 ; R., p. 102-105.

[508]   V.D. p. 272-274 ; 363-365.

[509]   V.D.A., 487-507 ; R., p. 170-189.

[510]   Chambost, L’Esprit et les Vertus, p. 84-85.

[511]   V.D. p. 271-273.

[512]   V.D. p. 232.

[513]   V.D. p. 233.

[514]   V.D. p. 231-234 ; 270-274.

[515]   Carta à Irmã Verônica n° 181 (231).

[516]   Carta à Irmã Verônica n° 189 (239).

[517]   V.D. p. 232.

[518]   V.D. p. 125.

[519]   Six, p. 322-327.

[520]   Six, p. 249-250.

[521]   V.D.A., p. 507 ; R., p. 191.

[522]   Six, p. 303.

[523]   V.D.A., p. 507 ; R., p. 191 ; cf., Carta a João Cláudio Jaricot (Seminarista) 67 (70). Num parágrafo do Regulamento das Paróquias, chega a pensar na possibilidade de “fazer votos, se Deus dignar abençoar o nosso projeto e se sua Eminência nos der autorização” (R., p. 103). Estes parágrafos não foram citados nas biografias do Padre Chevrier. Na realidade, que se saiba, Antônio Chevrier nunca fez votos e é a única passagem dos seus escritos em que faz alusão a este assunto.

[524]    Carta à Senhora Franchet 309 (291).

[525]   V.D. p. 121.

[526]   Na época atual, há institutos religiosos que parece terem renunciado a qualquer forma de clausura. Não sei se já existia algum no tempo de Padre Chevrier; em todo o caso, não parece que os tenha conhecido.

[527]   Chambost, p. 311 ; R., p. 103.

[528]   Chambost, p. 312 ; R., p. 104.

[529]   V.D. p. 314.

[530]   De fato a ligação de um padre ao bispo de uma determinada Igreja é caraterística da mais antiga tradição. Talvez o Padre Chevrier tenha tido a intuição, mais ou menos consciente , do carisma que representa a vinculação do padre ao seu bispo. Porém, não fala disto em nenhum escrito. Em qualquer das hipóteses, certamente que o Padre Chevrier tem, numa dimensão de fé, um profundo sentido da diocese.

[531]   V.D.A., p. 507; R., p. 191.

[532]   Chambost, p. 263 ; Ms X, p. 349.

[533]   “A nossa Regra é Jesus Cristo, as suas palavras, os seus exemplos” (V.D. p. 283).

[534]   Carta ao senhor Paulo du Bourg 15 (535)

[535]   V.D. p. 527.

[536]   E.V., p. 89 ; P. 2, p. 22.

[537]   Six, p. 126-128.

[538]   Emprego aqui a palavra Igreja no sentido em que era utilizada no tempo de Padre Chevrier, para designar o magistério na Igreja.

[539]   V.D. p. 315 – O Padre Chevrier podia falar doutras dioceses, pois o Pe. Bernerd, que vivia com ele, estava incardinado na diocese de Nevers (Six, p. 429).

[540]   Chambost, p. 567 ; R., p. 50.

[541]   Six, p. 281.

[542]   V.D. p. 315 – Há uma contradição aparente entre o pedido da aprovação de 1864 que, segundo parece, foi apresentado ao papa pelo Pe. Piscivillo, sem o Arcebispo de Lyon estar ao corrente, e o conteúdo do pedido que menciona explicitamente a autoridade dos bispos. Para compreender, é preciso situar-se na conjuntura histórica. Na época do Padre Chevrier, um certo número de fundadores dirigiram-se direitamente ao papa, “passando por cima dos bispos”, a fim de obter as autorizações que desejavam. O Padre Chevrier pela devoção que tinha pelo papa, segundo esta era entendida, no seu tempo, não pensou que deveria, por fidelidade ao conceito que tinha do bispo, apresentar ao arcebispo de Lyon o pedido que dirigia ao papa; o não procurar nenhuma situação especial de isenção é para nós mais esclarecedor. Mesmo se o papa lhe tivesse dado a autorização que pedia, teria posto em prática com a permissão da autoridade diocesana (V.O., p. 314). A forma como, em 1875, foi conduzido o pedido de transformação do Prado em Ordem Terceira regular, parece mais discutível, mas as diligências foram feitas por amigos do Padre Chevrier. Desde que se apercebeu das reticências da autoridade diocesana, não insistiu mais (Six, p. 322-327).

[543]   V.D. p. 315.

[544]   Six p. 322-327.

[545]   Carta ao João Cláudio Jaricot Padre 147 (82), carta à Senhora de Marguerie 443 (354).

[546]   Carta ao João Cláudio Jaricot Padre 147 (82)

[547]   V.L., p. 238, p. 136.

[548]   Chambost, p. 477 ; Six, p. 145.

[549]   V.D. p. 222.

[550]   V.D. p. 222.

[551]   Pauvreté du prêtre (Pobreza do padre), p. 315-325.

[552]   Chambost, p. 295.

[553]   E.V., p. 340 ; P. 2, p. 196.

[554]   Regulamento de 1870, Six, p. 288.

[555]   Como já disse, o Padre Chevrier não se opõe aos seminários do seu tempo, mas aplica à formação aquilo que dizia acerca dos padres bons e dos padres perfeitos. Nem todos os seminaristas estão decididos a seguir Jesus Cristo, mais de perto. Isto não impede que possam ser bons seminaristas e, depois, bons padres, e conclui assim: “Somos iniciados, nesta via, no seminário. A Igreja, mãe prudente, coloca-nos na via comum e ordinária. Pode-se ser bom sem ser perfeito” (V.D.A., p. 86; Messias XI, p. 34).

[556]   V.D. p. 125.

[557]   V.D. p. 122.

[558]   V.D. p. 114.

[559]   V.D. p. 116.

[560]   V.D. p. 117.

[561]   V.D. p. 113-127.

[562]   V.D. p. 108.

[563]   V.D. p. 108.

[564]   V.D. p. 323.

[565]   V.D. p. 323.

[566]   V.D. p. 332.

[567]   V.D. p. 330.

[568]   Pauvreté du prêtre, p. 326-323.

[569]   E.V., p. 191 ; P. 3, p. 17.

[570]   V.D. p. 270.

[571]   V.D. p. 151.

[572]   Eu mesmo fiz a divisão dos períodos e a escolha das caraterísticas de cada um. Daí o aspeto pessoal e talvez arbitrário desta divisão e desta escolha. Consultar também as obras de Chambost (p. 587-608) e de J.F. Six (p. 371-380).

[573]   P.O. 10.

[574]   No mês de agosto de 1986, na Assembléia Geral dos representantes do Prado (presente neste momento em 34 países), foi decidido pedir à Santa Sé que a “Associação dos Padres do Prado” seja reconhecida na Igreja como Instituto Secular, dada a nova apresentação dos institutos seculares no Código de Direito Canônico “É como padres seculares e leigos consagrados, nas Igrejas locais, que somos chamados a seguir Jesus Cristo, mais de perto, para melhor trabalhar na evangelização dos pobres” (Carta de informação da decisão da Assembléia). (Nota do tradutor).

[575]   Neste último período, como já não era responsável do Prado desde 1971, tive menos contatos diretos com as equipes de base; mas tentei viver, na medida das possibilidades, em contato com os homens e pude completar as minhas informações graças aos testemunhos dos irmãos.

[576]   G.S., 4-11.

[577]   G.S. 4, § 2.

[578]   G.S. 4, § 2.

[579]   Chambost, p. 558; P.1, p. 220.

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