Chegada na paróquia rural de Befeta na Ilha de Madagascar (18/11/2010)

Os momentos de chegada são momentos fortes, onde a gente descobre tudo, onde as perguntas surgem de repente. Escrever é um meio de tentar esclarecer a visão. E, como vários de vocês estão pedindo noticias sobre a nova inserção pastoral acharão aqui o que posso dizer hoje.

Sábado 16 de outubro de 2010

No fim da semana passada, animei o retiro dos leigos que cooperam com a FIDESCO. Ontem a noite, fui rezar com eles e com os outros cooperadores que se juntam a eles. Um ou outro está se preparando o regresso para a França, três acabam de chegar. É um grupo que testemunha o Evangelho, uma bela realização da Comunidade da Renovação Carismática chamada “Emanuel”. Após a oração, o grupo costuma se encontrar para jantar num restaurante. Para me animar no momento em que vou para a nova missão, eles me oferecem um grande queijo produzido na “Fazenda escola”, onde três dentre eles trabalham na formação dos cultivadores da diocese de Fianarantsoa.

Não pensava em celebrar no sábado de manhã na catedral, mas, nesta sexta-feira, Pe Marco, pároco da catedral me pediu para presidir a missa deste sábado. No fim da missa, Pe Marco tomou a palavra para me enviar em missão para o distrito de Befeta. A confiança e o acolhimento dele desde que cheguei a Madagascar, o fato de logo me deixar proclamar o Evangelho na catedral, depois presidir a missa cada segunda-feira e substitui-lo no mês de agosto e setembro mesmo aos domingos, ajudou-me a progredir na língua e agora, estou a vontade para celebrar, única coisa que sei fazer em Malagasy. Fiquei muito sensível com a atenção fraterna desta manhã que corresponde ao acolhimento maravilhoso que recebi desde o mês de março por parte dos padres da diocese.

No Evangelho de hoje, havia esta “Palavra da vida”:

“Quando vos entregarão diante das sinagogas, dos poderes e das autoridades, não vos preocupem em saber o que dizer para vos defender ou como falar, porque o Espírito Santo vos ensinará na hora mesma o que terei de dizer…”

Respondendo à palavra de envio de Pe Marco, atualizo esta frase:

“Quando for enviado a Befeta enquanto não souber falar, não vos atormentei em saber como falar, o Espírito Santo vos ensinará na mesma hora o que terei de dizer…”

Fomos para o “Distrito” de Befeta. Nós: Pe Wilson, o pároco, ordenado hà dois anos atrás, membro da equipe de padres do Prado (o seu pedido de “Primeira Formação, noviciado, acaba de ser aceito); irmã Emilienne e irmã Jeanne d’Arc, irmãs augustinianas de Nossa Senhora de Paris. Têm entre 30 e 40 anos e vêm a cada duas semanas para apoiar a pastoral no distrito e acompanhar um “Centro de Promoção Rural”, junto com um catequista de Tomboarivo. A palavra “catequista” corresponde a uma função não limitada à catequese das crianças, mas também às que correspondem no Brasil às de ministro da Palavra, da Eucaristia e coordenador da comunidade para cada um deles. A comunidade propõe nomes e o padre chama. Depois, são seis meses de formação na “escola de catequista”. A pessoa vem morar na escola, perto de Fianarantsoa com a esposa e os filhos deles, enquanto os familiares tomam conta do seu arrozal. Não são mandatos para 4 anos com possibilidade de renovar uma vez como no Brasil, mas serviço para muitos anos, com as vantagens e os inconvenientes desta opção.

O distrito de Befeta (paróquia rural) tem quatro “Centros” (patrimônios principais: Isaka no centro onde nos deteremos depois, Tomboarivo 15 quilômetros norte oeste (acesso por boa estrada de chão mas que se destruirá quando chegar a primeira chuva forte, (porque não foi feita corretamente), Befeta 15 quilômetros sul (estrada de chão dificilmente praticável com 4 x 4 mesmo em época de seca, e impossível quando chove, com pontes destruídas – 1 hora necessária para 15 quilômetros), Ikalalao (10 quilômetros este de Isaka se formos como as aves do céu… mas é preciso fazer 30 quilômetros passando por Befeta para chegar là com estradas de chão e pontes péssimas). Para ir de Fianarantsoa para Befeta, passando pelo sul, são 43 quilometros com a mesma situação,e 2 horas de viagem, e só quando não há chuva. Por isso, passamos pelo norte, com uma estrada melhor, de chão e pontes em cimento indestrutíveis. São 30 quilômetras até Ambohimahasoa (centro do “Regional” se utilizamos as categorias da diocese de Cachoeiro no Brasil) e mais 60 quilômetros até Fianarantsoa com muitas curvas, estreita, mas asfaltada. É a Nacional 7, única estrada que vai de Antananarivo (capital) até o sul Oeste da Ilha. São 2 horas e meia.

Cada centro tem 8 ou 9 “fiangonana”, comunidades de base com capelas dispersas nos campos. As “fiangonana” mais distantes são a 20 quilômetros de veredas acessíveis só a pé nas condições difíceis que já contei na carta de Pentecostes. Temos 33 “fiangonana”, pontos de celebração.Parece-me que a paróquia faz 45° (graus) norte sul e este oeste.

Pouco antes de chegar em Befeta, seguimos o grande e belo rio Matsiatra (60 metros?), que faz a divisa oeste do distrito. Há diversos ilhazinhas com rochedos, entre os quais se formam cachoeirinhas. Pode-se atravessar a pé em vários pontos, mas hà lugares mais profundos. Arrozais e plantações em terraços descem até o rio e esculpem curvas de nível. Acima, se encontram os lugarejos com casas com um ou dois andares, construídas com terra vermelha que se confudem com a cor do terreno. O cume dos montes é coberto com muitas ervas secas e algumas árvores espalhadas. Mais distante, se encontram rochas pouco elevadas de cor cinza, azul ou verdes, que esculpem em alguns pontos formas às vezes curiosas, tal como 3 grandes blocos de rocha que me fazem pensar em Maria e José olhando Jesus no presépio. A água fica azul com reflexos de prata ao sol. Hoje a noite, chegamos no momento do por do sol. É um espetáculo extraordinário. O rio deu seu nome à região administrativa de Fianarantsoa chamada região do “ Vale Alto do Rio Matsiatra”.

No fim da tarde, uma sombra no quadro: uma nuvem imponente dá ao sol uma bela cor vermelha, mas torna a respiração difícil por causa da fumaça dos inumeráveis incêndios do mato que queimam Madagascar neste momento. Por que este costume, apesar de todos os alertas para não mais fazê-lo? Queimar o mato constituído por ervas secas, altas e duras, incomestíveis pelos animais, “limpa” o terreno e faz pequeninas ervas verdes e tenras que os zebus podem pastar. Brotam logo com a chegada de uma chuvinha ou um orvalho. Não cultivam plantas para nutrir os animais, mas a contribuição dessas ervinhas fica bem limitada. Este pequenino benefício imediato faz o povo se esquecer das outras consequências: as árvores estão queimadas, a erosão acelerada, o terreno empobrecido, as fontes secas, a chuva se torna rara, e, quando surge, não penetra no chão, não o fecunda mas o escava. Como mudar mentalidades ancestrais?

Quando chegamos ao rio, o catequista explica que um homem praticando a pesca de mergulho foi morto por um jacaré em Tomboarivo na semana precedente. Quando atingimos o lugar onde as pessoas de Befeta vem buscar água e lavar a roupa na beira do rio, quando não têm mais água na fonte, o catequista explica que, um ano atrás, um jacaré errou: mordeu só o vestido de uma mulher que lavava a roupa e ela conseguiu fugir sem vestido. Estou bem decidido a não me aventurar aqui, nem entrar na água, mesmo que sejam desastres rarissímos sobretudo por causa do risco de contaminação pela bilharziosa.

Após 2 horas desta viagem, a estrada de chão com laterita que faz muita poeira sobe acima do vale do Matsiatra, e entra em Befeta. A casa paroquial é uma alta casa perto da igreja com a torre quebrada por raios. O primeiro choque, foi encontrar um verdadeiro ataque com barata entrando e saindo do orifício do banco de madeira acima da fossa no banheiro. Impossível sentar-se sobre o banco. Só de entrar no banheiro, as baratas sobem em você.

A cada vez que me encontrar nessas situações difíceis, viverei a sequência seguinte:

–     primeiro chega o medo, a dúvida: por que pedi para estar aqui, conseguirei ficar?

–     depois, me lembro do porquê , para quem (as pessoas daqui, Cristo), senti o chamado para me disponibilizar para este envio;

–     paradoxalmente, há uma alegria: há anos que sinto o chamado para estar com os mais pobres, e me é dado agora a oportunidade de poder estar com eles;

–     chega este questionamento imediato: o que te é dado como presente além desta dificuldade e para o qual tu podes dar graças a Deus: as paisagens extraordinárias, o acolhimento do povo, a fé, a alegria, a simplicidade dele, a fecundidade pela missão recebida, …

–     como contornar esta dificuldade pelo menos em parte?

–     enfim, como entender imediatamente o que não poderá ser mudado, para não perder energia e sim receber alegria?

Assim, cada dificuldade se torna ocasião de rezar, voltar ao chamado, pedir forças, “dar graças em todo o tempo”. No acompanhamento aos moribundos ou às pessoas atravessando situações gravíssimas, depois de as ter escutado, lhes pedia sempre: “E nesta situação difícil, o que tu podes agradecer apesar de tudo, o que te é dado?” Com eles, fiz a experiência da força do chamado de São Paulo:

“Em todo tempo e situação, dê graças a Deus Pai em nome do Senhor Jesus Cristo” (Efesos 5,20 e outros versículos ligados).

Aqui prevenido com a experiência da missão em Tomboarivo no tempo de Pentecostes, cheguei com inseticida. Coloquei bastante mas dava impressão de não ter efeito nenhum e era mais eficaz matar as baratas pisando,ou batendo com uma garrafa. Ficou impossível ir ao banheiro. Quando já tinha matado muitas, outras surgiram.

Estamos no período de “sol forte”. A colheita já está longe. É época de seca. No sul de Madagascar, a temperatura sobe até 40 graus e a seca está fortíssima. Nuvens de gafanhotos destroem tudo. Aqui, em Befeta, não há mais água nas fontes. Em Fianarantsoa, curtem a água várias horas por dia. As pessoas dizem que são situações novas. As pessoas do patrimônio se agitam no último momento para limpar um pouco a casa paroquial que está muito suja. Buscam água no rio com bois para encher duas barricas colocadas no balcão de um metro de largura que serve de um lado para a cozinha, do outro lado para o “banho”.

Um ajudante aconselhou-me a comprar uma barraca e a instalar no quarto para me proteger dos ratos, pernilongos, das pulgas e dos outros “companheiros”. Alguém ofereceu-me um colchão auto-inflável. Dá para evitar as camas destruídas e cheias de pulgas e percevejos da madeira (ver carta que enviei na Pentecoste). Consigo um lugar limpo onde posso descansar mas receio escandalizar Pe Wilson e as outras pessoas, chegando com este material. Mostro-lhes e explico o porquê. Nenhuma crítica. Pelo contrário, sinto que gostariam de poder aproveitar do mesmo.

18h- Jà é noite. Rezamos à luz das velas e das lâmpadas que se recarregam com manivela que outras pessoas tiveram a boa ideia de me fazer descobrir na França. Por sorte, tenho três e posso oferecer uma ao Pe Wilson, muito interessado com esta possibilidade de ver corretamente sem gasto com bateria.

20h30- nos deitamos, por falta de luz e para nos abrigarmos dos pernilongos que começam o trabalho deles, mesmo que o risco de paludismo no altiplano seja pequenino.

Domingo 17 de outubro

4h30- acordamos após 8h de um bom descanso. Tenho a sorte de poder viver tal como os monges o amanhecer do dia, este tempo calmo para “estudar o evangelho” (palavra do Pe Chevrier, fundador do Prado, que significa rezar, meditar, olhar com precisão quem é Jesus, o que ele diz, faz, para conhecê-lo, ama-lo e segui-lo), treino para conseguir ler o Evangelho na missa em malagasy, antes de nos juntarmos às 6h30 para rezar o ofício com Pe Wilson e as irmãs Emilienne e Jeanne d’Arc.

Não hà mais ataque de baratas: ficam os inumeráveis cadáveres que tiramos daqui. O banheiro ficou limpo. Daqui a alguns dias, teremos de fazer a mesma operação na cozinha, começando a tirar todo o lixo que os moradores anteriores deixaram acumular por falta de cuidado em toda a casa, reino maravilhoso para os ratos, baratas e outros companheiros simpáticos.

Na oração da manhã, uma pulga está saltando sobre a página do breviário, enquanto outras estão mordendo minhas pernas. Apesar de todas as precauções tomadas na véspera e a utilização maciça de inseticidas, estamos sendo invadidos e mordidos. A nossa vida não está em perigo, mas nos encontramos com comichão todo o tempo, e muito tempo após ser mordidos.

“Monpera” Charles Raymond, autoridade da diocese, veio para nos instalar oficialmente em nome do bispo. Antes da missa, somos 4 padres confessando durante mais de uma hora, sem conseguir responder ao pedido. Não compreendo nada, mas estou seriamente tocado pela fé das pessoas que vêm se confessar e não duvido que eles recebem a graça de Deus. Antes de cada missa, fica uma fila sem fim, mais ou menos trinta confissões por hora.

A igreja está cheia e canta como em todas as igrejas aqui. A missa demora mais de 3 horas. O Padre Charles Raymond me apresenta dizendo: “É um vazaha, mas pediu para vir no interior e ter a mesma vida simples que nós”. Como em várias ocasiões experimento o quanto esta intuição abre portas. Em Fianarantsoa, vários padres religiosos ou diocesanos escolheram começar com uma imersão no mundo rural.Em particular: Alain Pichard, da diocese de Nantes, hoje formador no seminário; Bernard Petit Dutaillis, ordenado para a diocese de Fianarantsoa, hoje professor no seminário menor e membro do Prado, o irmão que realmente cuidou de mim desde que cheguei; François Noiret, jesuíta, professor de antropologia, um dos melhores especialistas da cultura betsileo; Daniel Ferrero, jesuíta italiano, responsável pela “escola de catequistas” durante anos, e muitos outros. Esses chegaram a Madagascar há mais de 30 anos. Paolo, padre italiano fidei donum que tem mais ou menos a minha idade, está no litoral. Este, há 5 ou 6 anos, em condições mais difíceis por causa do calor e das pernilongos. Quando está em Fianarantsoa, passa horas conversando com as pessoas da rua, as prostitutas. Há seminaristas que riem dele porque não entendem este jeito de ser padre.

A primeira leitura do domingo, do livro do Êxodo (17,8-13) apresenta Israel que vence o combate tão longo que Moises luta com as mãos elevadas para o céu perdendo quando as abaixa. Nos versículos anteriores, se pode ler:

“Israël foi para o deserto de Sin pelas etapas seguintes por ordem do Senhor e acamparam em Rephidim aonde não tinha água para beber”.

Encontro luzes que mostram os motivos para eu estar nesta vida em “tendas” e com falta de água, e com a necessidade de andar de centro em centro, de Fiangonana em Fiangonana, a pé, de carro ou de bicicleta, onde temos de achar a força na oração. Com certeza, a segunda pobreza forte que devo viver depois da dificuldade com a língua é esta vida peregrina onde tudo deve caber numa única mochila e preciso de grandes dicionários, livros para a missa, Bíblia em francês e em malagasy. Temos de viver com muito pouco e sem lugar onde possamos nos instalar.

No versículo 4, se lê também o grito de Moises:

“O que farei para este povo?”

Começando a descobrir a pobreza fortíssima, e também o fracasso de muitas iniciativas para o desenvolvimento, surge sempre em mim esta pergunta. No momento, mesmo que esteja preocupado com essas faltas evidentes em todas as áreas (saúde, etc.), renunciei a qualquer projeto de “fazer algo”, de “trazer algo”, para ter um objetivo único: “ser com”, viver uma vida um pouco “monástica”. É um jeito de não conhecer a desilusão e o desânimo no momento em que os resultados não chegam. É sobretudo, uma condição para entrar em relação e, se Deus quiser, se o Espírito Santo conduzir nesta direção, para poder trazer algumas coisas, mas só depois de ter aceitado estar empobrecido, de receber primeiro, de aceitar não saber, não poder.

Noto que Moises não consegue sozinho abaixar os braços levantados para o céu, e experimento já poder ter uma vida comunitária com Pe Wilson (e as irmãs quando estão conosco). Quando estamos juntos e não espalhados cada um numa Fiangonana diferente, o dia inicia com as laudes às 6h30 e se conclui com as vésperas às 18h30 com 30 minutos de estudo do Evangelho do dia seguinte. Entretanto, celebramos a missa unidos, mesmo em fiangonana diferentes às 9h30 da manhã. Nada acontece a noite porque não há energia e por causa da insegurança. As refeições, as viagens a pé ou de carro, são momentos de partilha fraterna muito enriquecidoras.

Pe Wilson tem um dom extraordinário para entrar no Evangelho do jeito de Pe Antônio Chevrier, fundador do Prado. Recebi de verdade um irmão apaixonado por Cristo e pelas pessoas, pela missão, assim como duas irmãs animadas pelo Evangelho.

Meditamos a segunda leitura deste domingo (2 Tim 3,14-12). Paulo diz que sempre recebeu a força do Senhor para superar as situações difíceis, de perseguição em particular, e que achou esta força na Palavra de Deus. Depois, faz uma descrição que corresponde de maneira assustadora à situação do nosso mundo que se afasta do Evangelho e da Igreja para se agarrar com outras fontes, como as seitas e os movimentos pentecostais no Brasil ou a rejeição da fé no Ocidente:

“Mas você tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as perseguições e os sofrimentos que enfrentei, coisas que me aconteceram em Antioquia, Icônio, e Listra. Quanta perseguição suportei! Mas, de todas essas coisas o Senhor me livrou! De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Contudo, os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.

Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente: Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério.” (2 Tim 3,10-4,5)

Nos versículos precedentes, Paulo fala também da situação de fracasso moral da sociedade que encontra na Grécia da época, uma sociedade que se carateriza por um hedonismo ( os ricos explorando os escravos) e que é muito próximo do que vivemos hoje no Ocidente (2 Tim 3,1-13). A visão dele é um pouco unilateral e seria necessário dizer todas as maravilhas do Espírito Santo no nosso mundo, mas diz de fato algo da realidade que enfrentamos.

À tarde, fui lavar a roupa, porque espero me libertar das pulgas e da poeira da laterita que invade tudo. As mochilas atrás do carro 4 x 4 ficaram cheias. Não tinha água nas fontes públicas e não havia outro lugar além do rio que fica 20 minutos a pé. Havia meninas que enchiam vasilhas colocada sobre um dos raros atrelados puxado por bois com baldes de 20 litros. Muitos delas muito magras e parecendo 4 anos abaixo da real idade delas. Carregavam cargas além da capacidade delas.

Estava decidido a não ir à margem do rio, a sobretudo não colocar os pés na água por causa do risco forte de se contaminar com a bilharzioza, mas, para lavar a roupa e ajudar as crianças depois, não havia outro jeito. Não consigo falar, mas, ao me ver lavar a roupa e tirar a água para as crianças faz com que este povo tão apaixonante me adote pouco a pouco.

Alguns dias depois, quis comprar uma garrafa de água mineral numa loja do patrimônio onde não se encontra quase nada para comprar e a resposta foi: “Não temos mais, talvez na semana próxima…” O custo está inacessível para a gente. Nunca tinha sentido tão forte a ponto de que a água não está acessível para todos, sabendo que temos o rio perto, e que não nos encontramos sem nada.

Voltando a casa paroquial, caminhei com um casal protestante. Partilhamos com o pouco de malagasy que sei. Acabaram as aulas com a professora em Fianarantsoa, inicia a aprendizagem no meio das tarefas da vida cotidiana. Quando cheguei percebi que a roupa que acabava de limpar já estava suja com a poeira da laterita movimentada pelos nossos pés…

Segunda-feira 18 de outubro

A Igreja de Madagascar faz um grande trabalho social com centros de saúde, escolas, equipes “Justiça e paz”, etc. Quase toda fiangonana tem a sua escola católica e cabe ao pároco acompanhar todas essas realidades. Nesta manhã, saímos para uma fiangonana. Wilson deve encontrar os pais dos alunos porque o diretor demitiu-se. As irmãs devem acompanhar Olga, leiga com 30 anos, empregada de uma Associação de Promoção Rural que faz um trabalho extraordinário. Vou com elas. Hà um Centro de Formação em Isaka (um dos 4 patrimônios da nossa paróquia) onde os plantadores vêm se formar. Este centro incentiva os agricultores para diversificar as produções e sair desta alimentação desequilibrada em que o povo come só o arroz, quase sem carne, sem fruta, sem outros alimentos. Vão avaliar o trabalho em duas casas onde devem encontrar grupos de famílias.

A vereda, como de costume, està péssima. É preciso andar em rios, passar por cima de outro em equilíbrio sobre uma árvore estreita e que balança. Olga e as irmãs olham discretamente por trás e dão uma salva de palmas quando me veem atravessar “sem problema”. Estavam curiosas de ver como ia reagir o “vazaha” (estrangeiro branco). Cada situação deste tipo é ocasião de me fazer adotar. Ainda não encontrei os sapatos adaptados para andar na lama, nos rios, nas rochas… estou começando a andar sem nada para adaptar os meus pés e conseguir andar sem sapatos para poder caminhar quando chegar a chuva. Aqui, não se encontram as botas que achei em Dores.

Nos encontramos com algumas famílias na sala do primeiro andar da casa. Olga avalia o trabalho, o que conseguiram realizar. Ela encontra uma dificuldade forte: a associação faz micro créditos para as pessoas poderem iniciar uma cultura ou uma criação (aqui criação de pero). As pessoas estão muito felizes por receber, conseguem cultivar, criar, ganhar dinheiro, mas não aceitam pagar e dar a possibilidade à associação de continuar a viver. As ajudas humanitárias têm um efeito negativo: o povo está se tornando dependente e não chega à “auto prise en charge”, o fato de se assumir e não depender dos outros, tema das Conferências Episcopais Africanas. Portanto, quando visitamos os campos das famílias, os resultados são impressionantes, apesar da seca que conhecemos: cultura de mandioca, arroz, batatas, couve, bananas, cenora, videira. Há técnicas para prender os parasitas com pedaços de bambu na videira e técnicas para limitar a erosão e irrigar, que são efetivamente postas em prática.

As irmãs me pedem para animar um tempo de oração. Pensavam no Pai Nosso e Ave Maria, mas, como tinha o costumo no Brasil, leio o Evangelho do dia, peço a “palavra de vida”, o versículo que gostam mais, antes do Pai Nosso e da Ave Maria. É um momento rico: consigo a me fazer entender e a animar, mesmo que não entendo da resposta da gente. Posso ás vezes reconhecer o versículo ou imaginar o que devem dizer. Estava duvidando de fazer isso nas missas, mas a senhora que nos recebe me chama a fazê-lo. Quando falo com algumas pessoas e que estou dirigindo a conversa, consigo um pouco entender. Quando falam entre eles, não entendo nada.

Durante esta visita, percebo que todas as crianças têm dentes amarelos porque não existe pasta dental e escovas de dentes nas famílias. Não tem higiene dentária, nem geral.

Terça-feira 19 de outubro

Como nos dias seguintes, tomamos contato com os responsáveis eclesiais dos diversos centros e das fiangonana (coordenadores das comunidades, catequistas, professores das escolas católicas, etc.). Nesta manhã, encontramos em Befeta os “Ray aman-dreny” (tradução literal: “pai e mãe”, palavra que designa as autoridades civis e eclesiais, os padres, os pais também, e Deus mesmo que, em Madagascar, é “pai e mãe”) dos quatro centros. Muitos chegaram ontem e dormiram na escola católica de Befeta, porque caminharam até 10 horas a pé para chegar. Pe Wilson me pede de animar a oração. Rapidamente, vai se deixar convencer de começar pela leitura do Evangelho do dia. No início, achava que não tínhamos tempo para que alguns partilhassem a “palavra de vida”, porque estava preocupado com tudo o que queria refletir com as pessoas. Foi riqueza da nossa partilha fraterna de lhe permitir saborear orações menos formais e de começar pelo “único necessário” para citar palavras do Pe Chevrier meditando a partir do Evangelho de Marta e Maria, e de verificar que, quando se começa assim, o resto acontece sem problema. Não há mais encontros sem começar meditando juntos o Evangelho.

Depois, cada um se apresenta brevemente (nome, função, família) e nos apresentamos um pouco mais. Dia a dia, estarei cada vez mais seguro para resumir o meu itinerário, explicar o que é o Prado. Após esta apresentação, Pe Wilson inicia o encontro e eu saio. De fato, pedi para não ficar porque não entendo nada do que se fala. Estou vivendo a sequência que apresentei no início para superar as dificuldades: aqui, ver como evitar um obstáculo, não ficar em situação de xeque quando for possível.

Combinamos que, quando não conseguir falar, cuidarei das tarefas materiais (limpeza da casa, da roupa, tirar a água, coisas que ocupam um tempo significativo cada dia, etc.) para que ele esteja disponível para a pastoral que tem de assumir um pouco sozinho. Tem impressionante atenção fraterna para comigo e me dá coragem quando penso que nunca conseguirei falar.

Verifico que, se tive uma capacidade extraordinária para memorizar quando jovem, tenho agora uma grande dificuldade em memorizar, achar as palavras. Me faz duvidar de conseguir, sofrer por causa disso, e devo aqui também achar a alegria consentindo a esta fraqueza que me torna próximo também das pessoas, me obrigando a depender deles, me colocando na postura daquele que deve receber, ser verdadeiramente pobre, não poder animar. Medito muito a partir daí sobre a vinda de Jesus no despojamento mais total.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo que é um obstáculo gigante para a comunicação, esta pobreza favorece o encontro de verdade com este povo tão sofredor. Não sou mais aquele que sabe, mas aquele que se encontra pobre no meio deles. Pelo momento, esta dificuldade faz com que eles me acolham. Mas pode acontecer que se aborreçam com este padre que não sabe falar e que eu afunde também e conheça o desânimo.

Com Pe Wilson, nos tornamos um pouco “Marta e Maria”, só que, não estou murmurando contra ele, nem ele contra mim porque não sei fazer nada. E ele não se encontra sozinho aos pés do Senhor para escutar, mas age para a gente poder escutar a Palavra do Mestre. Uma fraternidade profunda está nascendo entre nós.

Começo a limpeza da casa, a erradicação das baratas. A sujeira da casa não se pode contar, e não só por causa das condições difíceis da vida aqui (falta da água, laterita), mas por falta de interesse com esta dimensão da vida. A sala de atendimento está transformada em lugar de despejo com sacos de arroz de 80 kilos.

Como não tem água nas fontes, preciso ir de carro ao rio para encher as reservas. No regresso, dou a carona a um casal de idosos. Chegam a pé de Fianarantsoa, 43 quilômetros, 10 horas.

Apesar de todas as precauções, a água está suja, com areia. Se ferver, não é grave, mas o arroz fica cheio de areia e estala nos dentes. Pedi ao jovem que ajudava na cozinha para ferver a água e limpar depois os legumes e frutas… mas sei que não fez.

Quarta-feira 21 de outubro

Mudamos de morada e saímos para Isaka, pequeno patrimônio que escolhemos como centro principal para nós porque é mais central. Tem colégio de ensino médio e tem estrada de chão boa até a Nacional que passa no norte em Ambohimahasoa, centro do Regional. Assim, mesmo quando chegar a chuva, poderemos ir para Fianarantsoa.

Na “estrada de chão” péssima, foi preciso parar e bater com ramo atrás de uma cobra de um metro de comprimento para ela nos deixar passar. Normalmente, as cobras daqui não são perigosas nem agressivas.

Chegamos a uma ponte destruída: a gente rouba as tábuas de madeira para fazer carvão. Carregamos tábuas para substituir. Mas, roubaram mais e não havia a quantidade necessária. Tivemos de andar em equilibrio sobre as vigas metálicas estreitas da ponte, que, por sorte, tinham a mesma distância das rodas do carro. De moto ou de bicicleta està mais complicado, porque não podemos carregar tábuas e temos de passar em equilíbrio sobre uma das vigas.

Na primeira vez que tive de atravessar esta ponte com Pe Gervais, vigário geral da diocese e responsável nacional do Prado de Madagascar, fiquei enjoado, por causa do medo com certeza, vendo Pe Gervais passar assim, mas sobretudo realizando o que significa esta destruição da ponte: este povo está tão sofrido que nem cuida do bem comum e destrói e rouba mesmo o que é indispensável para sua vida, cortando a passagem para o lugar onde está. Cada um olha o seu interesse imediato e não pensa nas consequências que virão para ele também. Não ter mais ponte, significa não ter mais “táxi brousse”, quer dizer não ter mais acesso à saúde, educação, comercio, etc. Todas as pontes em volta de Befeta estão como esta. Necessitamos mais de uma hora para percorrer os 15 quilômetros entre Befeta e Isaka.

Quando chegamos em Isaka, encontramos a mesma sujeira que em Befeta. Placas para o basket na sala de atendimento e outros materiais diversos. O meu “quarto”? Um espaço de 2,8 m por 2,6 m, o que impossibilita a instalação da tenda. Quando vim pela primeira vez, havia vários ratos que mostraram os focinhos deles na fenda acima da porta do quarto. Eles vivem livremente entre o telhado e o teto. Ouvi eles dizerem: “Salut vazaha! T’as vu le vazaha” (“oi, vazaha – estrangeiro branco -! “Tu vistes o vazaha?”). É assim que de maneira ás vezes afetuosa, ou trocista,(mas pesada para mim), as pessoas nos chamam de maneira muito frequente nas ruas. De noite (e de dia também), os ratos fazem um barulho impressionante, passando do teto ao quarto, à sala debaixo. Não se passa um dia sem encontrar um. Matei um pisando nele e estou pensando que precisaria de Pe Pedro que tem um carisma para chutar-los, que admirei em Guaçui.

Acabei por tirar o teto apesar dos problemas de isolamento térmico que haverá por causa disso (calor no verão e frio no inverno) para não receber mais todos os excrementos deles no quarto. Enchi dois baldes de 20 litros com os excrementos sobre o forro. Mas, mesmo assim, continuam a invadir o quarto. Vou cimentar os buracos do chão do quarto e colocar um gato. Me alegro com a tenda que me dá a possibilidade de me isolar deles.

Para ser justo, devo elogiar o sentido da higiene exemplar deles: no mesmo dia, roubaram a esponja, o sabão, a escova de dentes e o barbeador… Tudo isso desapareceu e encontramos no ninho deles. Devo suspender as coisas para que não sejam destruídas por esses companheiros tão ativos.

Após alguns dias, conseguimos eliminar as pulgas da casa paroquial de Isaka. Mas, quando visitamos as pessoas ou que confessamos, elas atacam imediatamente. Aprendemos a detectá-las logo para as esborrachar antes delas nos atingirem demais. Na lingua malagasy, para dizer a cor roxa, se diz: “cor de pulga”… De fato, é a cor delas. Temos comichão muito tempo depois da picada. Descubro algo da vida das pessoas que vivem na rua na França e das pessoas daqui: nunca poder se sentir bem com o seu corpo.

Quando chegamos em Isaka, também não havia água. O rio fica mais distante e tive de lavar a roupa no canal de água suja do arrozal, o que estava bem decidido a nunca fazer. Penso que sou privilegiado porque não tenho de fazê-lo nem de me lavar no esgotos da capital como a gente de lá tem de fazer. Foi mesmo providencial ir lavar a roupa aqui, porque as meninas que là estavam lavaram toda a minha roupa no tempo que eu levo para lavar uma camisa. Conversamos e foi uma boa lição de língua malagasy. Assustaram por ver homem lavando a roupa, porque os homens de Madagascar participam das tarefas como ir tirar a água, cuidar das criancinhas, lavar a roupa; assustaram em ver um padre, e um padre vazaha fazer isso.

Nos dias seguintes, a água voltou nas fontes públicas de Isaka, teoricamente entre 6h e 7h da manhã e no fim da tarde. Na realidade, por falta de manutenção e porque uma boa parte do material que se vende aqui é chinês. Barato, mas impróprio para o uso, não há mais torneira que funcione. Resultado: a água corre farta na estrada de chão e desde 6h20, não chega mais água. Os patos gostam.

Hoje, lavagem da roupa com água tirada da fonte, instalada na rua, entre duas pedras planas no meio da poeira perto da casa paroquial.

A dificuldade para ficar limpo, para lavar a roupa, para se lavar, me ajuda em compreender melhor a ausência de higiene.

Se a água está faltando neste momento, quando chega uma trovoada, o que começa a acontecer mais raramente, as “ruas” de Isaka transformam-se imediatamente num grande mar sobre o qual flutuam as imundicies. Não tem sistema de esgotos, nem de recuperação do lixo. As pessoas jogam tudo em volta das casas e as aldeias transformam-se em lixeira. Quanto ao meu quarto, está chovendo dentro e tive de deslocar a tenda que não tem a toalha para proteger da chuva. Temos de consertar.

A alimentação das pessoas se resume num arroz sem muito sabor com algumas ervas cozidas para o café da manhã, o almoço e o jantar. Quando perguntei para saber se havia leite, responderam: “Não, porque estamos na roça…” As vacas daqui não produzem leite e teriam dificuldade para conservar o leite em condições corretas de higiene. Aprendi a gostar deste arroz, quando andamos horas a pé, parece excelente. Wilson sugeriu-me um jeito de ter uma refeição diversificado quando tem só arroz: comer metade com sal, metade com açucar, o que dá uma excelente sobremesa.

Em Isaka, uma professora nos traz a refeição da manhã, do meio dia e da noite. Tem a preocupação de nos dar uma alimentação bem diversificada, equilibrada, com carne ou peixe, frutos e legumes, alimentação bem diferente do que os outros comem . O faz com gentileza extraordinária. Não sei se ela entende o quanto a atenção dela nos ajuda, nos toca.

A missa da noite, passo a mão sobre a cadeira do presidente, um pouco visivelmente, e me sento no banco ao lado. Nada foi limpo. Muitos bancos estão quebrados sem ninguém repará-los. Uma tribuna foi transformada em local para o feno, continuando a servir como tribuna para a missa. Uns dias depois, sem ter pedido nada, pessoas limparam um pouco a igreja e tiraram o feno. Prosper, catequista que, junto com a família, mora conosco na casa paroquial e cuida dela quando não estamos presentes, pediu-me para comprar pregos para que os bancos sejam reparados. Depois de se assustar quando me viu arrumar a casa e jogar fora o lixo que estava dentro, me ajudou muito neste trabalho.

Wilson pensa que a casa paroquial está insalubre e velha e que teríamos de apresentar um projeto e pedir dinheiro no exterior para construir uma nova e maior casa paroquial, e é verdade que está num estado péssimo. Mas é verdade também que não houve manutenção, que acumularam lixo, e que, se a Igreja em Madagascar quer viver esta “autosuficiência”, não há outro caminho a não ser viver com as suas possibilidades. É uma oportunidade de ter uma casa paroquial que não seja um grande e rico prédio e que se compara às casas onde a gente mora. Partilhamos muitas vezes com Wilson este assunto: como viver simplesmente, mas de maneira viável?

Dias seguintes

Neste momento de tomada de contato, a cada dia, Wilson recebe responsáveis da paróquia (os “Ray aman-dreny, professores, catequistas). Uns chegam na véspera porque são 4 horas para vir a pé. Quando celebramos a missa juntos, um preside, e outro faz a homilia. Pensava em preparar a mesma homilia para todos os dias da semana e ler sempre a leitura do domingo precedente por causa das dificuldades de língua mas, por fim, consigo preparar uma homilia curta a cada dia.

Sexta-feira 22 de outubro

À tarde, procurei um lugar nas colinas acima d’Isaka onde se pode receber telefonemas. Surpresa: a gente indica um espaço de 15 metros por 15 metros onde se pode receber “Orange”, outro espaço mais distante onde se pode conectar com “Telma”… Consegui escutar uma mensagem, mas não consegui ligar depois… a conexão era muito instável, “por causa do vento”, disseram eles.

No quarto de Pe Wilson, conseguimos receber a rádio católica em malagasy, mas não nos outros quartos. Pois não tenho mais acesso às informações do mundo exterior quando estou na paróquia. Os problemas políticos que afetam Madagascar parecem bem distantes, e é só quando passo em Fianarantsoa que posso me informar sobre o processo caótico da volta para um estado de direito com o próximo referendum de 17 de novembro sobre uma nova Constituição e com eleições presidenciais, legislativas e municipais a seguir. Tudo isso parece bem distante… e ao mesmo tempo afeta diretamente os lugares mais isolados do país que se encontra no caos. A insegurança está crescendo e já tenho 3 testemunhos de padres e bispos contando como membros da polícia executaram publicamente e sem julgamento com armas “ladrões” atados. Quando a polícia age em vez de se deixar corromper, o faz de maneira totalmente escandalosa. Quando fui visitar os padres do Prado em Morombe, na costa sul oeste, o motorista do táxi-brousse pagou 2 000,00 Ariary a cada policial encontrado nas entradas e saídas dos patrimônios, e todos aceitaram como uma coisa bem natural.

No meio da noite do sábado-23, para o domingo-24 de outubro, as pessoas tocaram o sino: alertavam porque havia um grupo de “dahalo” (bandidos) armados que estavam no patrimônio vizinho e que roubaram 7 bois. Eu e Wilson, não entendemos nada e dormimos.

No encontro do Prado em novembro, depois de ter evocado muito a seca e as suas consequências, falaram muito da insegurança com fatos certos, e outros que podem ser rumores descontrolados. Na Costa Este,“todos os túmulos foram roubados”, porque hà pessoas que roubam os ossos para vender? Hà quem diga que é para fazer produtos cosméticos na Europa, mas não tem sentido. Se é preciso ossos para fazer produtos, se utilizariam ossos animais que têm a mesma estrutura química. O que está certo, é que roubam ossos. Numa paróquia bem conhecida, sepultaram um casal onde os dois foram decapitados. Falam (rumor?) de roubos de crianças.

À noite, Pe Wilson fala da sua preocupação financeira. O pároco anterior não pagou a contribuição para a diocese e não deixou dinheiro no caixa da paróquia. Onde está o dinheiro?… Pe Wilson recebeu dinheiro para encher uma vez o tanque do carro, e mais ou menos 100 000,00 Ariary (salário mínimo 60 000,00 Ar) para pagar todas as despesas da paróquia do mês: nossa alimentação, o que acompanha o arroz nos encontros dos responsáveis da paróquia, a manutenção da casa, etc.). Penso em ter gastado quase tudo antes do mês acabar. Contamos: 250 000,00 Ariary (tinha outro dinheiro). Portanto, não houve nenhuma despesa extraordinária. Explica porque eles não compram papel higiênico: caro demais.

Proponho comprar algumas coisas com o dinheiro pessoal para que tenhamos uma vida mais humana: um fogão pequenino a gaz, produtos de limpeza, inseticidas. Não sabia o que era produto para barbear porque não pode comprar.

Domingo 24 de outubro

Missa de acolhimento oficial em Isaka. Muita gente e sempre a mesma quantidade de crianças, a força dos cânticos, da oração, da escuta, todas as confissões e a missa que demora muito, mas com uma bela participação.

Pe. Wilson pensava em ir para Fianarantsoa de táxi-brousse para buscar a moto e ir às compras. Não podia ir de carro por causa do preço. Como a gente não pode marcar missas nas fiangonana na segunda-feira e na terça-feira por causa da feira, propus ao Pe Wilson para nós irmos de carro e pagar o combustível. Precisava descansar, comprar inseticidas, eliminar as pulgas da roupa e do corpo.

Estou bem distante de ser “pobre com os pobres”, como nos chama Pe Chevrier, fundador do Prado, e tenho sempre jeito de “escapar” à condição de vida dos pobres. Tento mergulhar realmente na vida das pessoas mas não exagerar e não colocar a vida em perigo. No outro dia, voltando de bicicleta da missa que fui celebrar em Ambohimahasoa (60 quilômetros para ir), fui para um bom restaurante. Nunca tinha experimentado este desejo antes.

Segunda-feira 25 de outubro

Grande limpeza e compras com Wilson, com o meu dinheiro. Na loja onde compramos o fogão, havia uma tenda (50 000,00 Ariary). Wilson estava olhando para ela… “Viver com e como os pobres”, nesta situação, foi comprar a tenda para que Wilson possa aproveitar da mesma proteção que eu contra os ratos e pernilongos.

Quarta-feira 27 de outubro

Pela primeira vez desde que chegamos no distrito (paróquia rural) fui celebrar sozinho numa fiangonana (comunidade de base). Cirilo, responsável pelos catequistas de Isaka me acompanhava. Confissões durante uma hora sem entender nada do que dizem, mas sem que pareça incomodar as pessoas, porque têm uma prática um pouco “ritual e formalista”, em particular as crianças que decoram a confissão dos pecados. Escrevendo isso, não julgo o interior das pessoas que vivem este sacramento com muito amor e convicção. Depois da proclamação do Evangelho, antes de fazer a homilia, pedi que se houvesse 4 ou 5 pessoas que aceitassem dizer a “Palavra de vida”, o versículo de que mais gostaram, e deu certo. Mesmo que eu não tenha entendido tudo o que diziam.

Depois da missa, com o incentivo de Pe Wilson interessado com esta ideia, iniciei a leitura do Livro dos Atos dos Apóstolos, assim como em Dores do Rio Preto. A diferença é que tenho muitas dificuldades em falar, e mais em entender. Ajudei-me com as mãos e os pés, expressando-me por meio de mímicas, e fiquei surpreso ao conseguir animar e ver o povo feliz.

É um jeito de não me limitar a ser uma “máquina de sacramentos” e a ajudar o povo a crescer humanamente e na capacidade em se defender contre as seitas (ver artigo “colocar a Palavra nas mãos dos pobres” este blog www.bruno-cadart.over-blog.com), ajudar as pessoas a se formarem de um outro jeito do que repetindo o que um professor disse.

É outro ponto de diálogo frequente com Pe Wilson: como animar os encontros, em particular as formações dos catequistas, de um outro jeito do que aula tradicional e sem ajudar a pessoa a refletir e se tornar autor. É nestes diálogos que sinto uma possível fertilidade à minha presença aqui, os frutos estão surgindo.

Sábado 30 de outubro

Vamos “instalar a tenda” em Tomboarivo, o centro mais no Oeste da paróquia, “com os dahalo” (ladrões). As pessoas falam do conjunto do “distrito” como do “distrito dos dahalo”, mas Tomboarivo e as fiangonana no Oeste ganham o prêmio ao nível da fama. É um equivalente dos qualificativos atribuídos aos bairros dos subúrbios das grandes cidades na França: “la racaille”, que estigmatizam uma população na sua globalidade e não dizem toda a riqueza do que se vive aqui.

É a parte mais selvagem e desértica da paróquia. A casa paroquial, a igreja e a escola, com a casa do professor, estão localizadas na mata formada por grandes ervas secas e duras que se podem utilizar só para telhados. São construções recentes, pequeninas, simples, bem no estilo de São Francisco de Assis, com terra, madeira e colmo. Como todas as construções aqui, as portas, os tetos são baixinhos e batemos muitas vezes a cabeça. As casas das pessoas estão dispersas em grupos de 4 ou 8. A câmara municipal e a polícia militar, assim como um posto da saúde estão isolados também, a 3 quilômetros acima. Daqui se pode ver a paisagem em 380° e para 20 ou 40 quilômetros de distância. Dois quilômetros abaixo da igreja se encontra o Rio Matsiatra. É aqui que vive um jacaré que matou um pescador mergulhando, um mês antes. As fiangonana mais no Oeste estão a 20 quilômetros de veredas praticáveis só a pé, impossível mesmo de moto. A paisagem é explêndida.

A fama de Tomboarivo e das fiangonana é de ser invadidas por pulgas. Quando chegamos, comecei tratando a casa paroquial com inseticida e instalo imediatamente a tenda para colocar a mochila dentro, ao abrigo dos ratos e das pulgas. Tenho vergonha de agir assim logo que chego mas, não quero ser invadido.

Estupefação: nenhum olhar de condenação da parte de João Paulo, o professor que nos acolhe. Muito pelo contrário, ele me pede para cuidar da sala de aula e da casa dele porque está sofrendo demais com as pulgas. Depois, chamará as pessoas para mostrar as nossas tendas. Mas isso não apaga o meu mal estar: utilizo produto que custa 6 000,00 Ariary, totalmente inacessível para o povo e para os padres daqui (80 % da população vive abaixo de 2 dólares por dia).

Novo encontro com os “catequistas”, professores e “ray aman-dreny” (autoridades). Depois de me apresentar, como de costume, saio e peço ao João Paulo para me indicar a “fonte”, porque não há mais água na casa paroquial. Estou quase certo que fingiu que não compreendeu nem quando falei em malagasy, nem quando falei em francês, (enquanto falava bem francês,) para que eu não veja aonde eles tiravam a água. Mas, como insisti, acabou por me acompanhar.

Atravessamos um lugarejo: as pessoas usam roupa destruída até que se fica difícil para as crianças falar de “roupa”. 4 das 8 casas foram queimadas pelos “dahalo”, ladrões de bois e de tudo. As pessoas não têm nada, e lhes roubam o “pouco que têm”: os panos, pratos… As pessoas destas casas nos cumprimentam com grande sorriso.

Depois de 10 minutos andando numa vereda péssima, encontramos a “fonte”: um buraco de 60 centimetros de diâmetro, no qual há água com 20 centimetros de profundidade, cheio de lodo e sujeira, areia. Impossível mergulhar o balde diretamente, porque agita à água que se torna turva. Enche-se o balde com um copo que entra devagarinho na água, deixando entrar só a superficia da água. Depois, antes de entrar o copo de novo, tenta-se afastar as ervas e sujeiras que chegam com o fundo do copo, mas voltam imediato e entram.

Na volta, as pessoas do lugarejo me chamam: “Mandrosoa monpera!” (entre na casa padre!). Momento de partilha. Rezamos e abençoamos a casa. Quando chegamos à casa paroquial, as pessoas pedem para beber esta água sem ferver nem filtrar. Foi preciso mais de 20 minutos para buscar 40 litros… Há 30 catequistas, professores e ray aman-dreny presentes. É preciso água para cozinhar o arroz, lavar a louça, beber, se limpar…

No segundo ir e vir, descubro que pelo menos uma das 4 casas queimadas, totamente escurecida pela fumaça, sem telhado, está servindo: há gente vivendo dentro. O que dizer às famílias que estão aqui: “Malahelo” (estou triste). De novo, estou enjoado.

No terceiro ir e vir, ouço homem falando de mim em alta voz sem poder compreender. Pergunto ao João Paulo o que ele disse: “Nunca se viu um padre ir buscar água”. A pobreza da incapacidade de falar a língua deles e ficar no encontro com Pe Wilson abriu outro caminho que toca a gente.

Há pouco tempo, li o artigo no Jornal católico francês “La Croix” sobre a construção de catedrais na região parisiense. Neste artigo, se falava da igreja do “enfouissement” (enterramento, da vida escondida ao lado da gente, dos pobres em particular) dos anos 1970 que seria sem mais interesse, do passado em oposição à “Igreja da visibilidade”. Sou da geração que acredita numa necessária visibilidade da igreja, de um anúncio explícito do Evangelho, mas também desta geração que se beneficiou da riqueza evangélica deste movimento de enterramento da igreja para mais proximidade com o povo, com as pequeninas comunidades de irmãs, padres, no meio dos pobres, os padres operários, a Ação Católica. Receio que passamos de um movimento do pêndulo ao outro. A Igreja se tornar visível de maneira justa, só se ela cultivar muito o seu enterramento no meio do povo e dos pobres em particular e descobrir de maneira nova o caminho de Cristo que começa “no presépio”, para utilizar as palavras do Pe Antônio Chevrier, que continua “em Nazaré”, para utilizar as palavras do bem-aventurado Charles de Foucauld. Sempre tive estima forte pelos Padres Operários e tive o privilégio de partilhar com alguns deles quando trabalhei em paróquias na França e como permanente do Prado na França, mas, no momento em que posso anunciar Cristo só por gestos, me tornando mais próximo das pessoas, sinto ainda mais a força desta intuição da Igreja que se comprometeu para se “enterrar” com os Padres Operários e outras iniciativas missionárias que não são do passado.

Fizemos tres vezes o caminho de ida e volta e paramos, porque o nível da água abaixou muito e não sobraria para os vizinhos. O chão a nossa volta está muito seco. Quando não houver mais água aqui, a gente terá de ir tirar água no rio, a mais de 20 minutos a pé. Quando acabamos este serviço da busca da água, o que ocupa um tempo enorme, como todas as tarefas elementares da vida (limpeza, cozinha), chegou o fim do encontro com Pe Wilson. Celebramos a missa com os responsáveis. O Evangelho do dia é este belíssimo texto do “derradeiro lugar” que temos de escolher, texto que marcou tanto o Bem-aventurado Charles de Foucauld (Lc 14,1.7-11). Hoje, Pe Wilson preside e faço a homilia, contemplando Jesus que escolheu o “derradeiro lugar”, no presépio, em toda a vida dele: renunciou a tudo “até não ter pedra para por a cabeça”, identificou-se com o último; faleceu na cruz…

Sinto tão forte as contradições que vivo: nenhuma pedra onde colocar a cabeça… escolhi ter tenda, colchão que se enche com ar, travesseiro de qualidade trazido da França porque não se encontra nas lojas de Fianarantsoa. Tenho cuidado por ter um descanso reparador para ser capaz de enfrentar condições de vida difíceis.

Chega o almoço e, como sempre, os catequistas comem fora, e os padres com o responsável dos catequistas têm comida diferente e separados, na casa…

Saímos para levar a comunhão a um casal idoso e doente na montanha, 4 quilômetros de carro e 45 minutos a pé, guiados pelo catequista de lá e a filha dele, Perline, 11 anos. Subimos a escada que dá acesso ao primeiro andar onde mora a família. 40 pessoas estão presentes, sentadas no chão. O casal muito digno preside e parece muito mais do que os 80 anos deles. O velhote tem orgulho em dizer que tem 80 netos. Casaram no religioso hà 5 meses e estão muito felizes de poder comungar. A intensidade dos cânticos animados por Perline que conhece de cor todas as palavras, a participação das crianças, nos tocam. O homem não tem mais dedos no pé direito por causa da lepra ainda bem ativa em Madagascar. A esposa está tossindo e, se fosse num hospital, descobriria imediatamente a tuberculosa. Não vê mais nada por causa da catarata que não pode operar por falta de dinheiro.

Na volta, andando em fila indiana na vereda, com Pe Wilson, partilhamos tudo o que tocou o nosso coração durante esta visita, como nos levaram à oração, como o viver deles na escassez e distante de tudo, nos atingiu também. Pe Wilson conta o encontro que animou de manhã e lhe conto o que me tocou enquanto ia buscar a água, a reflexão do homem: “Nunca vemos um padre ir tirar a água”. Pe Wilson reage: “O que toca a gente, não são palavras, mas sinais, gestos concretos”. Pela segunda vez evoco com ele o quanto sinto mal estar nos encontros que acabam com refeição separada e diferente com os padres de um lado e os catequistas do outro, e a contradição com o Evangelho que meditamos hoje.

Quando chegamos à casa paroquial de Tomboarivo: 3 pratos na mesa (os dois padres e o responsável da comunidade), e os que prepararam e ficaram para dormir aqui, estão no chão, numa outra sala. Evocando a nossa palavra no Evangelho do dia, insistimos para todos (8 pessoas no total) comermos juntos à mesa, dizendo que não comeremos sem que isso se realize. Até aqui, quando comíamos arroz ou bebíamos a água na qual o arroz foi cozido, estava confiando no ponto de vista sanitário, porque tinha fervido. Aqui, vi que o arroz foi transportado num balde sujo…

Depois do jantar fora da casa, com uma noite bem estrelada, uma leiga animou a oração da noite cantando cânticos, salmos e lendo o Evangelho da manhã, Evangelho do 31° domingo do Tempo Ordinário: Zaqueu (Lc 19,1-10). Cada um partilha a sua “Palavra de Vida”. Ressoa para mim de maneira nova esta: “Zaqueu, desce depressa, preciso hoje de demorar na tua casa”. Desce depressa… Como é preciso para nós “descer” se queremos ir ao outro, acolher Cristo, entrar em relação de maneira justa, enfim, não falsa demais.

Domingo 31 de outubro

De novo a tarefa de ir buscar a água agora que o buraco se encheu um pouco durante a noite. Depois, uma hora de confissões “à sombra de uma árvore”, na realidade com muito sol, olhando as caravanas de pessoas formando filas nas veredas que sobem à igreja e que podemos ver a quilômetros. As pessoas colocaram a roupa de festa com cores vivas. Quando se olha de perto, se vê que a roupa esá habitualmente muito estragada e suja porque não se consegue tirar as manchas. O povo andou até 4 horas para vir celebrar.É assustador.

Chega a hora da missa. A capela está lotada com 600 pessoas e há bem mais gente fora que escuta, canta, comunga, participa. Não tem sono e demora 3 horas. 12h, a missa acaba, o povo come uma banana ou duas, e volta para a casa sem almoçar, com as crianças, as que ainda bem jovem andam com uma resistência incrível e outras afixados nas costelas. Almoçamos e voltamos para Isaka. Aqui, sinto um grande cansaço e durmo uma hora antes de lavar a roupa. Pe Wilson me mostra a programa até Natal. Teremos muitos dias onde estaremos separados, visitando fiangonana diferentes, mudando muitas vezes de lugar onde dormir.

Segunda-feira 1° de novembro

Wilson foi para Befeta e fiquei para celebrar a festa de Todos os Santos em Isaka. Depois da proclamação do Evangelho, peço a “Palavra de Vida”. Enquanto confessava, Cirilo, o responsável dos catequistas, leu 2 vezes o Evangelho e preparou o povo. Após a missa, tento iniciar a leitura dos Atos dos Apóstolos. Há muita gente: todos ficaram. Mas cada um parece contar com o vizinho para falar e tenho muitas dificuldades para animar. Depois da missa, peço a Cirilo para preparar comigo no mês próximo e de animar. A minha “pobreza” para falar se torna ocasião de fazer crescer o outro. Foi um desses momentos de “dúvida” onde é preciso percorrer rapidamente todas as etapas refletidas à frente das dificuldades para que se transformem em sorte e receber a alegria.

À noite, não hà mais Pe Wilson, e sinto o quanto a vida comunitária é uma graça. Penso no peso de solidão dos padres que não podem ter vida de equipe. Descobrindo as condições de vida dos padres da roça mesmo que possam escapar em parte, não tenho dificuldades em “compreender” que alguns desviem e compensem com álcool, dificuldade em distinguir o dinheiro pessoal e o da paróquia, mulheres. É preciso uma fé fortíssima e uma espiritualidade boa para ficar firme. Mesmo que sejamos ajudados pela fé e pelo acolhimento do povo, as condições e exercício do ministério estão penosos.

Provavelmente em relação à ausência de Pe Wilson, um professor do colégio quer me encontrar. Apresenta as dificuldades que ele tem para receber os “écolages” (participação financeira das famílias com as despesas da escola e o salário do professor). Vem dizer que não tem mais nada para dar de comer à família. Sinto mal estar. O que fazer? Dar, mas qual é a realidade? Amanhã, como farei? Será que é aquele que necessita mais? O que vem da relação Vazaha / malagasy, onde o vazaha é percebido como aquele que tem muito e pode dar? Porque não faz uma horta? Partilho com vocês algumas dessas perguntas e digo que não conheço a realidade e não posso responder que terá de fazer o pedido ao Pe Wilson. Não tenho comida na casa, porque Sra Julia traz no momento da refeição.

Estava ainda falando quando chegou Francisco de Assis, professor na escola primária. Eis o resumo da nossa partilha:

–     FA: Queria lhe pedir uma ajuda. Você poderia conseguir uma ajuda financeira para colocar energia solar na escola (que funciona de dia quando não é preciso ter luz) e criar uma biblioteca?

–     B: Não venho trazer recursos. Se tivesse e desse a ajuda, faria surgir vários problemas. Primeiro, ouvi muitos padres locais dizer o quanto é difícil substituir um padre vazaha ou um religioso que podia “facilmente” trazer dinheiro enquanto eles não podem. Se estou na roça, é para compreender a vida dos padres de Madagascar, poder acompanhá-los realmente e viver a missão de formador que recebi. Além disso, estou me perguntando muito sobre a eficácia das ajudas. Tenho sempre a imagem das pontes destruídas pelas pessoas, dos incêndios de pasto que reduzem todos os esforços de reflorestamento que levam a nada. Tenho no coração a lembrança do escândalo de uma falsa associação que prometeu ajuda à Igreja em Madagascar e que iniciou mais de 150 obras. Em vários lugares, por causa desta ajuda proposta, destruíram escolas que ainda podiam servir, para fazer outras novas e grandes. A pseudo associação desapareceu com o dinheiro que a Igreja adiantou para ele deixando obras paradas no início. Vejo as bombas sem manutenção nos patrimônios e, num deles, a precipitação da gente para reparar porque os responsáveis da associação iam passar no dia seguinte. Penso na “fonte” em Tomboarivo (um dos 4 centros da paróquia). Como entender que ninguém se preocupe em arrumar um acesso eficaz à água? Há água neste lugar. Constato que as ajudas tornaram o povo ainda mais dependente e os conduz a não acreditar que podem se levantar por si mesmo. Isso não desacredita o trabalho que podem fazer algumas associações, mas não é a minha vocação. Gostaria de ajudar as pessoas a acreditarem que podem mudar as coisas pelas suas próprias forças. Mas sinto muito forte as minhas contradições. Vamos instalar a energia solar para poder trabalhar com computador na casa paroquial. Quando fui ao retiro da diocese, decidi em renunciar a este projeto. Quando Wilson ouviu isso, insistiu para eu não renunciar a este projeto porque ele também queria aproveitar desta possibilidade de trabalhar com computador. Disse que seria como me “cortar o braço” de não mais trabalhar com computador enquanto esta ferramenta me ajuda muito. Chego do Brasil muito tocado pelas realizações desta Igreja. Primeiro, trabalhei para o povo ter a Bíblia e lê-la, para que possam encontrar força nela percebendo o amor de Deus e o chamado dele para se levantar. A gente criticou muito a “teologia da libertação”, fez caricaturas dela e continua fazendo[1] a partir dos exageros dela, mas vi no Brasil pessoas tomarem responsabilidades, comprometer-se a partir da leitura dos Atos dos Apostolos. Formaram pessoas em todos os lugarejos, bairros, sobre a saúde da criança e das mães grávidas. Ensinaram a conhecer os fatores que prejudicam a saúde e a fazer um trabalho de prevenção, dando atenção tanto à dimensão da saúde como à dimensão espiritual. Cada “líder” formado acompanha 15 mulheres que tem crianças entre 0 e 6 anos ou que esteja grávida no seu bairro, no seu lugarejo. Visitá-las. Criaram hortas para lutar contra as carencias alimentares. Todos os meses, celebram a “festa da vida”. Reunem as mães, fazem a pesagem das crianças, seguem a evolução do peso, dão formação às mães. Conseguiram fazer cair a mortalidade das crianças entre 0 a 1 ano de 95 % em 25 anos. É a doutora Zilda Arns, irmã do Cardeal Arns, que fundou esta pastoral com o apoio da C.N.B.B.[2] Morreu no terremoto em Haïti no dia 13 de janeiro de 2010 enquanto estava divulgando a Pastoral da Criança neste país. Além do resultado sobre a saúde, são milhares de mulheres que cresceram humanamente e espiritualmente tornando-se atores. A Igreja do Brasil fundou também a Pastoral da Sobriedade. Tudo isso não depende de qualquer financiamento vindo do exterior e faz as pessoas crescerem. Aqui, quando vejo tantas mulheres que se protegem do sol colocando-se ao abrigo de um poste, trazendo a criança no colo, mas deixando a criança com a cabeça sem chapéu com o sol, quando vejo todas as pessoas doentes por causa do álcool, é aqui que creio poder ajudar vocês. Gosto do lema das Conferências Episcopais da Àfrica sobre a “auto-suficiência”. Mas, enquanto gostaria de viver como a gente daqui, sinto muito forte as minhas contradições.

–     FA: Concordo com tudo o que você disse. Sou presidente de um lugarejo (se entendi bem). Visitei muita gente para explicar as consequências dos incêndios da mata. Um mês depois, as pessoas incendiaram tudo. A cada manhã, começo as aulas com meia-hora de catequese. Assim que começam na escola primária, participam da Igreja. Completei 46 anos, há mais de 20 anos que ensino. Quando os alunos chegam no colégial, param de ir às missas. 12 dos que foram meus alunos estão presos em Fianarantsoa. Estou desesperado. O que você diz sobre o álcool é verdade. Numerosos catequistas têm este problema.

Depois, foi uma longa partilha. Disse que gostou da iniciativa de leitura dos Atos dos Apóstolos pela manhã, quando não consegui animar as pessoas para falar. Disse-lhe do desejo de que os catequistas que acreditam neste trabalho baseado sobre o acolhimento da Palavra de Deus que pode transformar a minha vida e a dos outros, venham ler os Atos comigo para animar eles mesmos com as pessoas depois, na igreja. Se isso acontecer, será uma ocasião de verificar que a minha pobreza em falar pode se tornar riqueza: dar a possibilidade a outras pessoas de se tornarem atores. Se houver alguém que se interesse em resolver o problema do álcool, estou pronto a apoiar. Pe. Gervais foi pároco no distrito durante 9 anos e nos pediu que mobilizasse de novo o povo para fazer juntos a manutenção das estradas de chão. Quando era pároco, uma vez por ano, todas as comunidades dedicavam um dia para fazer isso e os padres participavam.

Quase ninguém tem a Bíblia, por causa do preço, mas também porque não houve em Madagascar o trabalho feito pela Igreja da America Latina a ponto de, desde o início de 2010 não se poder comprar Bíblia católica nas livrarias porque está “em reedição”. Quando será feito? “Não sabemos”. Digo ao Sr Francisco de Assis que, no meio das minhas contradições, estou me questionando se devo pedir ajuda à França para ajudar catequistas, professores e outras pessoas comprometidas na Igreja a adquirir a Bíblia num preço menor para nela encontrar a força e dar a conhecer a ajuda que ela traz.

Uma conversa como esta me faz duvidar da decisão já tomada de instalar a energia solar. Nunca tive tão pouco, mas nunca senti tão fortemente o quanto estou rico, o quanto as riquezas são obstáculos no encontro dos pobres. De um outro ponto de vista, estes meios técnicos me ajudam no enorme trabalho de reflexão. É muito útil, por exemplo, no trabalho de edição na língua malagasy dos livros do Prado, e é parte da missão recebida aqui. Uso muito o computador para aprender a lingua e redigir as homilias. É possível fazê-lo com papel e lápis, mas é mais difícil e demora mais.

Com certeza, não é a primeira vez que pessoas vieram ao encontro do “vazaha” que sou para pedir dinheiro, seja para si mesmo, seja para um projeto. Mas aqui, são pessoas da paroquia, colaboradores próximos. Sinto a necessidade de discernir a resposta a dar.

Terça-feira- 2 de novembro

15 quilômetros de estrada de chão percorridos de bicicleta para o norte da paroquia, na direção de Ambohimahasoa. Cirilo, responsável dos catequistas espera por mim com Louis Delphin, catequista e professor da Fiangonana a beira da estrada de chão. Louis Delphin carrega a bicicleta nas costas e escalamos os muros dos arrozais para deixar a bicicleta numa casa do lugarejo mais próximo. Mesmo diminuindo o máximo possível a bagagem, as sacolas estão pesadas. Depois, andamos 45 minutos a pé para uma outra fiangonana. Aqui, a partilha sobre os Atos dos Apóstolos deu certo.

Após o almoço, às 13h, andamos de novo 45 minutos a pé com velocidade impressionante, inclusive as mulheres e crianças muito jovens. Bênção da casa de Louis Delphin, e 10 quilômetros de bicicleta na direção de Ambohimahasoa. Um catequista está esperando a beira da estrada de chão e visita uma mulher de 40 anos, acamada desde 5 meses. Mesma qualidade de oração com a família como em Tomboarivo.

De novo 10 quilômetros de bicicleta, e chego em Ambohimahasoa, tarde demais para chegar em Fianarantsoa de bicicleta antes da noite (60 quilômetros de estrada montanhosa). Aproveito um carro que lá passava, senão teria ido com táxi brousse.

Chegando, posso enfim escutar as mensagens do telefone: o encontro com os pradosianos da diocese de Mananjara e Farafangana (Costa Este) em Manakara foi cancelado. Um dos participantes perdeu a sua mãe. Deu-me dois dias de descanso em Fianarantsoa e a ocasião de colocar por escrito tudo o que estou descobrindo.

Sexta-feira- 5 ao domingo 7 de novembro: com as irmãs do Prado em Kianjavato

Taxi brousse para Kianjavato, na estrada de Manakara, na Costa Este, para encontrar as irmãs do Prado. Em Madagascar, uma jovem fundou um grupo de mulheres buscando uma vida religiosa o mais próximo possível da vida das pessoas, dos pobres em particular, para faze-los conhecer Cristo. Irmã Charlotte Bevahiny e as companheiras dela pediram depois para entrar juntamente na associação das Irmãs do Prado. No ano de 1985, a comunidade foi fundada em Fénérive. Coisa original: não foram as irmãs do Prado, em particular as francesas que fundaram em Madagascar, mas as malagasienses que pediram porque gostavam muito das intuições de Pe Chevrier e Irmã Maria (fundadora das Irmãs do Prado com Pe Chevrier).

A pedido delas, visito a comunidade de Kianjavato, na estrada de Manakara, 160 quilômetros este de Fianarantsoa, 3h30 de táxi brousse. Goreti, segunda mulher que se juntou com Irmã Charlotte, me acolhe com Kiesa e Martine. Lidia, a quarta irmã da comunidade não está. Na partilha, explicam como conheceram o Prado, o que gostam nesta vida, o que é mais difícil. Dizem o quanto é importante para elas viverem com e como as pessoas, produzindo e vendendo legumes para viver, tendo “a mesma vida que tinha na minha família”, disse Martine, sem véu nem hábito, nem grande casa ou instituição. Apoiam a pastoral, a escola paroquial. Gostei deste tempo de partilha com as irmãs, a partilha do Evangelho, as celebrações da Eucaristia na casa delas e na igreja aos domingos.

Goretti me faz descobrir um pouco Kianjavato. Como está na Costa Este, na “Região da Floresta”, as casas são totalmente diferentes das casas do Altiplano, de madeira. O diretor do colégio público, homem apaixonado pela sua profissão, fez o colégio adquirir um terreno onde as famílias dos alunos da roça construíram casinhas de madeira. Assim as famílias não têm de pagar aluguel. Visitamos o “hospital” desta cidade de 10 000 moradores:

–     “Quantas camas hà?”

–     “Uma cama e três colchões”…

Quando entramos na sala de internação, hà uma cama num lado (não vi os três colchões), uma vassoura e um balde. Num lado, um doente que feriu o pé com a enxada está sentado sobre uma esteira. Uma mulher, parente do doente, é que cuida dele e prepara as refeições.Está sentada sobre outra esteira.

Domingo à tarde, uma delegação francesa visita as irmãs. Hà um “Voluntário do Progresso” e três responsáveis de uma grande empresa francesa que tem projeto de desenvolvimento humanitário muito interessante na região de Fianarantsoa.

Um dos responsáveis da empresa fundou também uma pequenina associação para apoiar a escolarização de crianças em vários países, entre os quais, Madagascar. Vem contatar as irmãs para elas se tornarem intermedíarias entre a associação e famílias ajudadas. Belo trabalho, portanto, por causa da situação difícil, sinto mal estar de estar presente neste diálogo: de maneira inevitável, a associação se encontra numa situação de dominação mesmo fazendo um bom trabalho.

Conto este encontro sobretudo por causa do diálogo que houve no carro depois. Ofereceram-me de me levar a Fianarantso. A partilha foi muito simpática com essas pessoas muito generosas. Depois de uma longa partilha, perguntei: “Qual é o horizonte filosófico de vocês?” A resposta foi: “Sou católico mas não praticante. Acredito que há alguma coisa, uma força. Mas o que conta é se dedicar aos outros. Estou bem assim. Faço o meu sistema e gosto das irmãs que me acolhem tal como sou, sem me influenciar”.

Diálogos como este, os padres têm todos os dias na França, e não duvido da qualidade dessas pessoas que contam aos olhos de Deus, nas quais o Espírito Santo está agindo, mas, neste dia, no contexto de Madagascar, caracterizado por uma forte pobreza econômica mas também por uma fé impressionante de muitos cristãos, num momento onde penso sem cessar no mistério do Natal, onde os padres de Fianarantsoa me pediram para animar o retiro de Natal deles, este diálogo me atingiu mais e pensava na “conversão” de Padre Chevrier na noite de Natal de 1856 meditando diante do presépio da paróquia dele no bairro pobre de Lyon, no momento da Revolução industrial:

“Foi em Santo André que o Prado nasceu. Foi meditando na noite de Natal sobre a pobreza de Nosso Senhor e o seu abaixamento entre os homens que resolvi deixar tudo e viver o mais pobremente possível.”

“Foi o mistério da Encarnação que me converteu” “Foi esse mistério que me levou a pedir a Deus a pobreza e a humildade e que fez com que deixasse o ministério para praticar a santa pobreza de Nosso Senhor.”

“Eu me dizia: o Filho de Deus desceu à terra para salvar os homens e converter os pecadores. E, no entanto, que vemos? Quantos pecadores há no mundo! Os homens continuam a condenar-se. Então, eu me decidi a seguir mais de perto a nosso Senhor Jesus Cristo para tornar-me mais capaz de trabalhar eficazmente pela salvação das almas e o meu desejo é que vocês também sigam a Jesus mais de perto”.

“Os homens continuam a condenar-se”… Não é expressão fácil de entender hoje. Gosto de traduzi-la assim: “Ser amado por alguém, e não se saber amado por ele, não poder viver deste amor, é uma condenação, uma grande perda para aquele que poderia ver a sua vida ser transformada”.

Escutando este homem, e através dele todos os contemporaneos europeus vivendo os “valores do Evangelho” para muitos deles, mas sem ter mais consciência de Quem é a fonte desses valores, sem mais sentir o desejo de viver em comunhão com Cristo, receber-se dele, viver o chamado dele a fazer Igreja, vinham em mim outras imagens.

Primeiro, uma reflexão de Pe Maurice Jourjon, grande especialista de Lyon dos “Padres da Igreja”, que hoje voltou para a casa do Pai e que tive a sorte de ter como professor. Era homem que amava profundamente Cristo, a Igreja, os homens em geral, os que não partilham a nossa fé, em particular. Para tentar ajudar cristãos que se afastaram assim da prática eclesial a tomar consciência da contradição da atitude delas, dizia com muito amor e respeito: “Sois cristão não praticante? Eu, sou nudista não praticante…”. Evidentemente, continuava o diálogo com as peças e os chamava a se perguntar: como posso me apresentar como cristão e me cortar do corpo fundado por Cristo, não viver mais dos sacramentos, não mais ler o Evangelho, nem mais nomear Cristo, falar “de uma força”, de “alguma coisa”? Como considerar como nada em particular as palavras de Cristo na Derradeira Ceia, no momento em que ele vai dar a sua vida e onde institui a Eucaristia e diz: “Fazei isso em memória de mim”. Isso, o lava-pés com certeza, o compromisso generoso, humanitário, mas também a Eucaristia, o “fazer Igreja”, o anúncio do amor dele.

Pensava numa visita na casa de um amigo diácono permanente, há uns anos atrás. Como tocava a campainha, a filha de 5 anos abriu a porta, gritou com força: “Não há lugar para você aqui”, e bateu a porta violentamente. Abriu de novo, gritou a mesma coisa, bateu de novo, e, assim, até os pais dela chegarem e explicar: “Nesta manhã, participou de um encontro para criancinhas onde fizeram o teatro do nascimento de Jesus, das portas fechadas na frente de Maria e José esperando o nascimento de Jesus em Belém. Nunca tinha percebido com tanta força a violência desta página do Evangelho.

Tendo fé, vivendo com privilégio e responsabilidade o fato de conhecer o amor de Cristo, vem sem cessar no meu coração esta pobreza tão forte, e que não faz barulho, a pobreza do nosso Ocidente cristão para quem Cristo não tem mais espaço, que, de um jeito organizado, “educado”, tranquilo, responde sem cessar ao Cristo: “Não tem lugar para você aqui!” Hoje, onde sinto na minha carne a pobreza material em Madagascar, sinto tão fortemente esta pobreza espiritual do nosso Ocidente cristão que não faz barulho, mas é tão violento e destrói com tanta força a vida de muitos homens e mulheres, jovens e crianças, a nossa vida social e familiar.

Quando chego em Fianarantsoa, Wilson está acamado com erupção de bolhas na pele e afta gigante na boca: almoçou na casa de uma família que utilizou um óleo estragado. Foi hospitalizado uma semana e parado por mais 10 dias.

Terça-feira 9 de novembro: encontro com padres lutando contra o álcool

No início de setembro, num almoço na casa episcopal, como justificava o fato de não aceitar álcool por causa do compromisso numa associação de solidariedade com pessoas doentes do álcool, em vez de me criticarem, dois padres me questionaram e pediram para nos encontrarmos. Um dos dois tinha ferida no olho. Neste encontro, contaram a história pessoal e familiar deles, como a doença alcoólica os atingia, como atingia largamente a sociedade, os padres. A ferida ao lado do olho era resultado da última embriaguez. Dei informações medicinais e fundamos um grupo de padres lutando contra a doença do álcool. A cada vez que nos encontramos, comunicam notícias da luta deles para não mais beber. Contataram outros.

Uma vez por mês, na semana do encontro mensal de todos os padres da diocese, nos encontramos no meu quarto. Esta terça-feira a noite, éramos 4. Um outro que parou desde o dia 23 de junho não pode se fazer presente. Os dois que fundaram o grupo pararam de beber desde o dia 8 de setembro. Contam como iniciaram a bebida na família para um, no seminário para outro, e descrevem as práticas de alcolismo coletivo nas famílias, no seminário, entre os padres. Contam como lutaram durante esses dois meses, as pressões para beber que receberam, o sofrimento por causa da falta de álcool enquanto eram dependentes, mas também a alegria, o bem estar fisico e a relação com os outros. O quarto padre juntou-se ao grupo pela primeira vez nesta noite. Escutou os outros e acabou dizendo com lágrimas nos olhos como está ainda bebendo, como se encontra sem ministério confiável por causa disso. As lágrimas me parecem ser não só de tristeza, mas também de emoção de poder enfim falar, ser compreendido, não julgado, chamado e amado.

Desses 4, um se juntou à equipe dos padres do Prado que se reuniu na véspera e disse o quanto foi tocado pelos “Escritos Espirituais” de Pe Chevrier. Os convidei a não só “lutar contra o álcool”, mas “para seguir Cristo” e achar a força no Estudo do Evangelho e no laço com Cristo para viver este combate.

Nesta noite, tal como na noite precedente, chegam até nós os gritos e as risadas de um grupo de padres que se alcoolizam no quarto vizinho.

Sábado 13 até à terça-feira 16 de novembro

Quatro dias em Antananarivo, a capital, primeiro no sábado e domingo, o primeiro encontro com os bispos (2) e vigários gerais ligados ao Prado (2 a cada 3 presentes), depois o Conselho nacional do Prado de Madagascar na segunda e na terça-feira. Fizemos revisão de vida com a proposta do Prado internacional no momento onde o Prado celebra 150 anos da compra da sala de Baile chamada “o Prado” em Lyon pelo Pe Antônio Chevrier. Momento forte onde cada um evoca “os gritos dos pobres”, longa litania impressionante dos sofrimentos de Madagascar, mas também dos “dons” pelos quais podemos dar graças a Deus. O Prado se encontra num momento em que está crescendo, se organizando e ajudando padres a ficar firmes numa vida difícil.

Epílogo

Nessas condições de vida difícil, com certeza, encontrei momentos de dúvida, mas fiquei surpreso de ver o quanto esses momentos eram fugazes. Verifiquei o quanto os “reflexos para sobreviver” evocado no início desta narração eram operantes nas dificuldades assim como o fato de “reler” o que vivo. Curiosamente, em situação de grande dificuldade, consigo encontrar a alegria, superar obstáculos. Quando tinha tudo, estava mais vulnerável e me deixava abalar e invadir pela cólera, a recriminação. Aqui, sabemos que se deixamos crescer esses sentimentos em nós, afundamos. Durante uma refeição, enquanto falávamos das condições difíceis da vida das pessoas, mas também da alegria impressionnante delas, Wilson dizia: “Vi só uma vez alguém suicidar-se desde que sou padre”. A alegria da gente é contagiante. Se se vive bem a sequência à frente das dificuldades, faço a experiência que uma vida simples é fonte de alegria.

Com o risco de vos surpreender, me sinto privilegiado aqui. Estou profundamente feliz: vida de comunhão fraterna com Pe Wilson, com as irmãs quando estão conosco, com os catequistas, as pessoas que encontramos na vida do dia a dia, com Cristo. Nunca consegui rezar tanto e fazer estudo do Evangelho

Vejo que esta missão em área rural é um meio privilegiado para tentar conseguir a falar o malagasy e poder trazer alguma coisa como formador de padres do Prado. Como poderia acompanhar sem conhecer nada desta vida ao mesmo tempo bela e difícil dos padres em Madagascar?

Sei que as dificuldades vão ser muitas, ser dura quando a chuva ou o frio chegar , quando houver impossibilidade de me comunicar, quando a ausência de resultados em termos de desenvolvimento se tornar pesada, quando chegar o cansaço que ameaçará este equilíbrio precário. Terei de me lembrar sem cessar para que, para quem (Cristo, as pessoas), estou aqui, quem me pode segurar. Terei de vigiar no descanso, nas paradas na casa episcopal.

A minha saúde está ameaçada pelo risco real de me contaminar pela água em particular, os perigos das viagens, e, também pelas possibilidades muito limitadas do sistema de saúde. Mas está favorecida pelo sono regular e importante (deitando 20h30, 21h, levantando 4h30, 5h… e cochilos), pelos quilômetros a pé ou de bicicleta com paisagens belíssimas, atividade física, ausência do estresse da vida moderna, vida de relações simples com as pessoas, tempo de oração, de partilha.

A meditação do Evangelho das Bem-aventuranças no dia de Todos os Santos tomou outro sabor neste ano no meio deste povo que não se encontra só na miséria, mas onde encontramos autênticos “pobres de coração”, pessoas que não são fechadas em si, que recebem de Cristo e dos outros, que têm uma alegria que vem de um Outro impressionnante. Quando vejo o compromisso sem conta dos catequistas, professores, a oração das crianças, como não reconhecer aqui todos os que Jesus apresenta como “bem aventurados”. Isso não apaga a consciência de tudo o que destrói a vida da gente daqui. Desejamos ver “operários de paz”, “corações puros e não corrompidos”, pessoas que não têm medo de sofrer para a justiça e o desenvolvimento aconteçam.

No momento em que escrevo, o Natal ainda está distante, mas penso sempre neste mistério que tocou tanto o coração de Pe Chevrier, mistério de Deus que vem encontrar a humanidade, fazendo-se pequenino, identificando-se com o mais pequenino, totalmente vulnerável, mistério tão ligado ao mistério da cruz. Em Madagascar, gostaríamos de ver também alguma coisa do mistério da ressurreição… e o país está decaindo sempre mais. Gostaríamos de ver as pessoas saírem do caminho que leva à morte precoce, aqui em Madagascar, como, de um outro jeito, na Europa, no Brasil e em outros lugares.

Bruno Cadart, 18 de novembro de 2010

[1]      Na ocasião de uma das últimas visitas de bispos do Brasil “ad limina”, o Papa Bento XVI atacou de novo a teologia da libertação, no momento em que é minoritária, onde não existe mais os exageros que marcaram um período, e no momento onde os perigos que ameaçam a Igreja estão outros: pentecotismo desequilibrado e desequilibrando, teologia da prosperidade, etc.

[2]      Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

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