Escritos Espirituais do Padre Antônio Chevrier fundador do Prado

Texto do Livro publicado pelo Editora Fonte Viva – Avenida Apolônio Sales, 1059

48600-000 – Paulo Afonso – Bahia Fone (075) 281-4816; Fax (075) 281-4544

Email: fonte.viva@fallnet.com.br

Ele fundou a “Familia espiritual do Prado” e, em particular, o Instituto clerical de direito pontificial de padres diocesanos do Prado e foi beatificado pelo Papa João Paulo II no 2 de outubro de 1986. Agora (julho de 2017), são 7 os bispos brasileiros escolhidos nos padres membros do Prado.

Livro publicado pelo Editora Fonte Viva – Avenida Apolônio Sales, 1059

48600-000 – Paulo Afonso – Bahia Fone (075) 281-4816; Fax (075) 281-4544

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Introdução

Nesse momento tão importante da vida da nossa Igreja do Brasil, que vê florescer vocações de jovens padres diocesanos, sentimos a necessidade de encontrar figuras de Padres que viveram seu ministério animados pelo amor a Cristo e ao seu povo, enraizados na realidade da Diocese e no Presbitério.

O Padre Chevrier, que viveu no século XIX na França, no início da industrialização da Europa e conseqüente êxodo rural, enfrentou uma situação por muitos aspectos parecida com aquela que encontramos hoje na cidade e no campo no Brasil. O exemplo de sua vida apresenta um referencial rico para o nosso ministério.

Apresentamos aqui uma seleção dos seus escritos, dirigidos a seminaristas, padres diocesanos, leigos e religiosas, que partilharam a sua missão a serviço dos pobres.

Possam essas páginas nos iluminar em nossa missão de pastores da totalidade do Povo de Deus, com uma clara opção evangélica para com os pobres.

A coordenação nacional do Prado do Brasil

Coordenador dos padres do Prado no Brasil:

Padre Aldir Roque Loss

pe.aldir@gmail.com

Contato para o Moçambique: Pe Bruno Cadart

cadartbruno@gmail.com

Aqui acharão a tradução do Livro dos Escritos Espirituais do Pe Chevrier com a paginação da nova edição mas sem os capítulos X e XI da nova edição que não foram traduzidos. A indicação

p. x

indica a paginação da nova edição em francês.


Nota: indicamos a paginação do original em francês:

p. 7

Prefácio

A beatificação do Padre Chevrier, em Lyon, realizada em outubro de 1986 pelo Papa João Paulo II, chamou a atenção dos membros do povo de Deus para um homem pouco conhecido do grande público.

Antônio Chevrier nasceu no centro de Lyon, perto da praça Bellecour, no dia 16 de Abril de 1826. Ordenado Padre no dia 25 de maio de 1850, foi logo nomeado vigário na paróquia Santo André da Guillotière, no subúrbio industrial situado além do Rio Rhône, onde se amontoava, junto às fábricas, uma população operária em deploráveis condições de vida. Foi aí que ele viveu toda a sua existência sacerdotal.

No Natal de 1856, meditando junto ao presépio do Menino Jesus, ele compreendeu que é necessário converter-se a uma vida evangélica em tudo semelhante à que Jesus levou. Decidiu-se a seguir mais de perto a Nosso Senhor para tornar-se “mais capaz de trabalhar eficazmente na salvação das almas”.

De 1857 a 1860, ele residiu numa vila muito pobre onde foram alugados numerosos desabrigados, vítimas das terríveis inundações que em maio de 1856

p. 8

devastaram a margem esquerda do Rhône. Consagra já uma grande parte do seu tempo a evangelização das crianças pobres que não eram nem escolarizadas nem catequizadas pelas paróquias.

Em 10 de dezembro de 1860, o Padre Chevrier toma posse do “Prado”, um grande salão de dança, mau afamado, que alugou e depois, estimulado pelo seu bispo, comprou para aí desenvolver a sua obra. Ajudado por alguns rapazes e algumas moças que ele chama “irmãos” e “irmãs”, toma consigo, durante seis meses crianças originários do proletariado, a fim de tentar fazer “deles homens e cristãos”.

Em 1866, abre também no Prado, uma “escola clerical” para possibilitar a meninos do povo tornarem-se padre e formá-los nesta perspectiva, no contato com os pobres.

Para esses e para aqueles que assumirão depois esta mesma missão junto aos pequenos e aos marginalizados deste mundo, ele escreve, em meio a atividades numerosas, um livro que deixará inacabado: “O Padre segundo o Evangelho” ou “o Verdadeiro Discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Seus primeiros padres são ordenados em Roma, em maio de 1877. Alguns meses mais tarde, o Padre Chevrier cai gravemente doente e deve deixar toda atividade. Ele morre no Prado, com cinqüenta e três anos, a 02 de Outubro de 1879.

Os escritos do Padre Chevrier, publicados no seu essencial, há uns sessenta anos em livros hoje difíceis de serem encontrados, são conhecidos sobretudo por membros da sua família espiritual, os padres e as irmãs do Prado. Assim pareceu útil reunir aqui, visando um público maior, alguns dos seus principais textos.

Esses foram escolhidos de preferência em « Verdadeiro Discípulo »[1],

p. 9

mas foram utilizadas também outras fontes: suas cartas[2], suas notas pessoais, seus regulamentos, suas pregações[3], bem com os testemunhos dados no processo de beatificação por aqueles que tinham sido seus companheiros mais próximos[4].

Reunimos esses textos em torno de alguns temas que lhe eram caros com a finalidade de fazer aparecer, de modo progressivo e ordenado, os elementos fundamentais da sua espiritualidade.

A espiritualidade do Padre Chevrier está solidamente estruturada sobre a base da adesão de fé à “Jesus Cristo, Verbo e Filho de Deus” (VD p 82) mas é impossível dissociá-la da experiência pessoal, tão grande é a união entre as duas: experiência de um homem que estava sempre próximo do povo por suas raízes, seus gostos, seu convívio com os pobres e trabalhadores; experiências de um crente fascinado pela beleza de Jesus Cristo, que procura apaixonadamente conhecê-lo melhor através do estudo do Evangelho afim de se tornar semelhante em toda a sua vida; experiência de um pastor que, entregue ao seu povo, sabe quanto lhe custa, de esforços e sofrimentos, o trabalho de abrir as inteligências e os corações ao Espírito de Deus.

Cada um será, certamente, tocado lendo estas páginas,

p. 10

pela firmeza e pela força das convicções deste padre, assim como pela clareza e simplicidade com que as exprime.

O Evangelho que talhou a vida e o pensamento de Antônio Chevrier, tem o poder de fazer de nós, hoje, ainda, discípulos e apóstolos de Jesus!

Então, se ouvirmos a sua voz, não fechemos nosso coração… Abramos nossa porta… “Jesus Cristo nos chama a tornarmo-nos verdadeiros discípulos…”

Ives Musset
padre do Prado


p. 11

1
O chamada de Deus

Natal, 1856

Foi no Natal de 1856 que o Padre Chevrier ouviu o chamado de Deus. Vigário há seis anos na paróquia Santo André da Guillotière, no subúrbio operário de Lyon, sente o chamado e engaja-se no caminho que o filho de Deus, para se fazer próximo dos homens, tomou no dia da Encarnação:

“Foi em Santo André que o Prado nasceu. Foi meditando na noite de Natal sobre a pobreza de Nosso Senhor e o seu abaixamento entre os homens que resolvi deixar tudo e viver o mais pobremente possível.” (P2, p.7)

“Foi o mistério da Encarnação que me converteu” (P2, p.97) “Foi esse mistério que me levou a pedir a Deus a pobreza e a humildade e que fez com que deixasse o ministério para praticar a santa pobreza de Nosso Senhor.” (Carta n° 52 ao Padre Gourdon, 1865) “Minha vida, dali em diante, foi decidida.” (P1, p.47)

“Eu me dizia: o Filho de Deus desceu à terra para salvar os homens e converter os pecadores. E, no entanto, que vemos?

p. 12

Quantos pecadores há no mundo! Os homens continuam a condenar-se. Então, eu me decidi a seguir mais de perto a nosso Senhor Jesus Cristo para tornar-me mais capaz de trabalhar eficazmente pela salvação das almas e o meu desejo é que vocês também sigam a Jesus mais de perto”. (P2, p.98)

Chamado para trabalhar na obra de Deus

Na vida do Padre Chevrier, como em nossas vidas, a iniciativa pertence sempre a Deus:

“É Deus quem opera… As obras não se fazem segundo as previsões humanas, nem por dinheiro, nem por nossos cálculos e indústrias. Deus se apossa de uma alma. É com as almas que Ele cria as obras. Ele toma uma alma, vira-a,  revira-a, a possui, lança-a, retoma-a coloca-a aqui e depois ali. Escolhe uma e depois outra. Reúne-as e, a seu tempo, faz eclodir a graça…” (Palavras do Padre Chevrier a Mlle Tamisier, iniciadora dos Congressos Eucarísticos).

“A primeira condição é ser chamado por Deus para trabalhar em sua obra.” (V.D. p. 320)

“É em vão que nós procuramos construir se Deus não está conosco, se Ele não é o arquiteto, se não dirige os trabalhos, não dá o plano, nem escolhe seus operários e não determina tudo, Ele mesmo.”

“É pois direito d’Ele fazer tudo, escolher, chamar, construir, rejeitar, chamar a quem Ele quiser…”

“É necessário que seja Jesus Cristo quem escolhe as pedras do seu edifício.

p. 13

Uma pedra de má qualidade ou mal colocada pode abalar e fazer cair o edifício. Quem ousará imiscuir-se na construção do edifício? Quem ousará fazer-se de arquiteto, realizando a obra: o arquiteto de Deus ou o próprio Deus? Deixar Deus fazer.” (V.D. p. 103)

Abrir sua porta

Fazer-se discípulo de Jesus é, pois, abrir totalmente a sua porta Àquele que bate e quer tomar todo o espaço para realizar em nós a obra.

“O Espírito Santo diz em algum lugar que Ele permanece à porta e bate. Diz ainda mais: Ele diz que empurra a porta para entrar, ‘ecce sto ad ostium et pulso’ (Ap 3,20). Nosso coração é, pois, uma porta na qual o Mestre bate e procura entrar.

“Ora, uma porta pode estar em diversas posições. Quando alguém bate a esta porta e alguém vem ver para abrir, pode deixá-la fechada e não permitir, de nenhum modo, que entre aquele que bateu; pode entreabri-la apenas e deixar à porta os que chegam; pode, enfim, abri-la inteiramente e deixar entrar os que batem. É também o que devemos fazer a Jesus Cristo, nosso Mestre, em relação à porta de nosso coração, quando ele procura entrar.

“Aquele que não abre sua porta é o que recusa deixar entrar o Mestre, que nega inteiramente receber sue Mestre para segui-lo, preferindo seguir suas idéias, suas paixões, o mundo.”

p. 14

“Aquele que abre apenas a metade, é o que escuta sem deixar o Mestre inteiramente nele, continuando senhor de sua porta, sem querer receber ninguém, permanecendo dono de sua casa e de seu coração. Ele escuta, mas só atende ao que quer, aceita o que lhe convém e abandona o que não lhe agrada. Recebe o Mestre com reserva e prudência e ouve mais sua própria razão, suas pequenas paixões que são os seus senhores mais do que o verdadeiro Mestre. Ele desconfia, tem medo e só abre a metade de seu coração. O Mestre não pode entrar para governar como deveria fazer.”

“O último abre inteiramente sua porta e deixa entrar em sua casa o Mestre que bate. É feliz em recebê-lo e dar-lhe um lugar de honra, escuta-o com felicidade e não tem senão um desejo: compreender e pôr em prática o que Ele diz. Não discuta e sim procura como poderá praticar o que ouve. Fica em espírito aos pés de seu Mestre, como Maria, e não se deixa levar nem pelo raciocínio, nem pelas paixões. O Mestre fala, ele não tem outro pensamento ou desejo senão compreender, pondo em prática o que ouve, nutrindo, assim, sua alma. É o amor que o guia e nada mais. Quer entrar no reino dos céus, aí está seu ideal. Ele calca aos pés tudo o que a razão e as paixões podem dizer-lhe. Só tem Jesus como Mestre e somente a Ele quer seguir.”

“Alma dócil generosa, ele não diz: isto é difícil, isto é impossível, isto é oposto à prudência, ao modo habitual de agir, nada disso: o Mestre fala, o Mestre disse, isso basta.” (V.D. p. 124-125)

“Não tenhamos medo… Mesmo se for necessário andar sobre as águas, como Pedro, não seria necessário ir a Jesus, se Ele nos dissesse como a Pedro: Vem?” (V.D. p. 127)

“Eis me aqui”

Para aprendermos a dizer “sim” ao apelo de Deus, segundo a sua maneira habitual, o Padre Chevrier nos convida

p. 15

a retomar simplesmente, para fazê-las nossas as palavras da Escritura: elas têm a virtude de moldar, até dentro de nossa pobreza e nossas fraquezas, o que deve ser nossa resposta:

“Eis-me aqui” (1 Sm 3,4) “Eu sou vosso” (Ps. 118,94)

“Falai, Senhor, o vosso servo escuta.” (1 Sm 3,9)

“Senhor, a quem irei? Vós tendes as palavras da vida eterna” (Jo 6,68)

“Vós sois minha Luz, meu Caminho, minha Vida, minha Sabedoria, meu Amor, Eu vos seguirei, Senhor, aonde fordes.” (Lc 9,57)

“Estou pronto a morrer por Vós, darei minha vida para Vós, irei à prisão e à morte.” (Jo 11,16 e 13,37)

“Vós sois meu Rei, meu chefe, meu Mestre.” “Senhor, se precisais de um pobre, eis-me aqui!” “Se precisais de um louco, eis-me aqui!” “Eis-me aqui, ó Jesus, para fazer vossa vontade, eu sou vosso!” (V.D. p. 122)


p. 17

II. Grandeza e beleza de Jesus Cristo

O Verbo se fez carne e habitou entre nós

A fé no mistério da Encarnação é a chave pela qual o Padre Chevrier entra e faz entrar no conhecimento de Cristo. O mistério da Encarnação, com efeito, é Deus que vem, Ele mesmo, no Dom que nos faz daquilo que Ele tem de mais precioso, seu próprio Filho, para que possamos, por nossa vez, tornar-nos filhos e irmãs em Jesus Cristo:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Eis aí a maior, a mais bela, a mais assombrosa e a mais misteriosa palavra do Evangelho, digna de ser meditada para sempre por todos os homens, palavra que encerra, em resumo, todo o Evangelho e toda nossa crença.” (Ms V, p.773)

“Um Deus se faz menino… Deus por amor, torna-se visível. Ele pertence a nós. Ele nos foi dado… Vem para guiar os homens. Guiar de longe, dirigir de longe não basta. Vem ele mesmo, que diferença! Ele vem formar um novo povo de verdadeiros adoradores, de irmãos” (sermão de Natal 1857)

p. 18

“Que meio usa Deus para salvar o homem? Ele escolhe vir Ele mesmo. Ele faz como um pai ou uma mãe que perdeu seu filho: vai procurá-lo. Que seria necessário para isso? Tornar-se visível, vir à terra…” (Ms VIII, p.335)

“Ninguém viu Deus mas é o Filho quem no-Lo faz conhecer.” (Jo 1,18)

“Ele falou a Abraão sob a figura de Anjos, falou a Moisés e aos profetas sob formas mais ou menos sensíveis. Enfim, na seqüência dos séculos, no momento decretado pela Providência, falou a todos os homens, Ele mesmo em pessoa, revestido de forma humana…”

“E o verbo se fez carne e habitou entre nós.” (Jo 1,14)


“Ó inefável mistério! Deus está conosco, Deus veio falar-nos, veio habitar conosco para falar-nos instruir-nos.”

“O que Ele fez outrora, como que passando às pressas, Ele fez nos últimos tempos de uma maneira bem sensível, duradoura. Tomou Ele mesmo a forma de homem a fim de habitar conosco e de ter tempo de falar-nos e dizer-nos tudo o que o Pais nos queria ensinar por Ele.”

“Nós não somos seres abandonados por Deus. Temos um Deus que é verdadeiramente um Pai que ama seus filhos e quer instrui-los e salvá-los.” (V.D. p. 61-63)

“Deus não podia fazer-nos maior dom, dar-nos maior tesouro do que nos dar o seu Verbo, seu adorável Filho, porque Ele é tudo para nós.” (V.D. p. 89)

p. 19

Ele é a nossa Luz e nossa Sabedoria

No Natal de 1856 o encontro de Cristo iluminou e revolucionou a vida de Antônio Chevrier. Jesus, este “sol nascente” que veio nos visitar, foi-nos dado pelo Pai para ser nossa luz e nossa sabedoria. À luz do seu Evangelho, aprendemos a estimar tudo segundo o seu justo valor e a lançar um olhar de fé sobre todas as realidades da vida:

“Jesus Cristo nos foi dado para ensinar-nos a distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal, o justo do injusto e dar a cada coisa seu justo valor, a saber colocar em seu devido lugar, o terrestre, o espiritual, o tempo e a eternidade.”

Para isso, Ele é “a verdadeira luz que ilumina todo homem neste mundo” (Jo 1,9)

“É o Verbo Divino, nele se encontra a vida e a vida é a luz dos homens.”

“Ele vem do alto com toda a beleza, glória, esplendor dos céus.”

Também é chamado “sol nascente vindo do alto” (Lc 1,78), “Sol da justiça” (Ml 3,21), “Reflexo da luz eterna” (Sb 7,26), “Esplendor do Pai” (Hb 1,3)

Ele não é só um raio de luz que nos vem do alto como nos santos e profetas, mas Ele é toda a luz divina que vem nos iluminar com o seu esplendor.”

Também, a Escritura diz que “o povo que caminha nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16) “A luz brilhou nas trevas” (Jo 1,5)

“Nosso Senhor não teme dizer-nos, Ele mesmo, que é a luz do mundo” (Jo 8,12)

p. 20

“Quando Deus criou o mundo, deu o sol para iluminar os olhos do nosso corpo. Mas quando Deus criou nassas almas, nos deu Jesus Cristo, seu Verbo, para iluminar nossas almas e nossas inteligências, porque nEle estava a vida e a vida era a luz dos homens.”

“É por Jesus Cristo que recebemos a vida e a luz, e a verdadeira luz, ‘Luz vera’ (Jo 1,9), para distinguir esta luz do alto, de todas as pequenas luzes humanas e terrestres que vêm iluminar, muitas vezes, com um falso brilho, nossas almas obscurecidas.”

“Jesus Cristo é a luz de nossas almas como o sol é a luz de nossos corpos”.

“O sol alegra nossos olhos, nos ilumina, descobre-nos os objetos, faz-nos apreciar cada coisa, cada objeto, mostra-nos o caminho a tomar, mostra o valor, a cor das coisas, o uso que dele devemos fazer. Que imenso benefício é o sol para nossos corpos!”

“Assim Jesus Cristo é o sol de nossas inteligências e de nossas almas. É à sua luz que devemos aprender a conhecer cada coisa, a conhecer a verdade, o valor espiritual de cada coisa terrena, a distinguir o verdadeiro do falso, o justo do injusto, o bem do mal.”

“Quanto este conhecimento espiritual das coisas, supera o conhecimento normal que nos dá o sol para as coisas visíveis e criadas!”

“Quando, pois, queremos conhecer alguma coisa, apreciá-la, julgá-la, dar-lhe seu valor, nós não temos senão que procurar a luz, Jesus Cristo, e Ele nos esclarecerá e ensinará o que é que vale e como devemos estimar, saber o que Ele nos diz disso e o que disso faz, e nós teremos a verdadeira luz, a verdadeira compreensão das coisas.”

p. 21

“Da mesma sorte que Ele é nossa verdadeira luz, Ele é nossa Sabedoria, porque se agimos segundo esta luz, não nos enganaremos. Se apreciamos as coisas de acordo com esta luz, julgaremos corretamente porque Ele é a verdadeira luz que vem do céu e procedeu do próprio Deus para nos iluminar. Porque a luz do céu é a divina sabedoria…” (V.D. p. 89-91)

“Esta sabedoria está espalhada em toda a sua vida; suas ações, suas palavras, são múltiplos sinais de sabedoria e de luz que nos iluminam e nos mostram como devemos conduzir-nos para sermos verdadeiramente sábios…”

“Nos, grandes homens, encontra-se, às vezes, um pequeno traço de sabedoria, um pequeno raio desta luz que nos ilumina, mas Jesus Cristo é sabedoria toda inteira. Ele a possui toda, porque não recebeu limitadamente o Espírito Santo.”

“Não é necessário ir longe para encontrar a sabedoria: ela está em Jesus Cristo; basta conhecer e estudar Jesus Cristo.”

“Há alguns que a buscam nos grandes livros, na filosofia, nas viagens, no estudo. Ela está em Jesus Cristo. Eu não conheço senão Jesus Cristo, diz São Paulo, e Jesus Cristo crucificado.” (V.D. p. 91)

Ele é o nosso Mestre

“Vocês têm um só mestre: o Cristo” (Mt 23,8-10). Porque Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito Carne e nós o podemos tomar por Mestre porque todas as suas palavras e ações são expressão mesma da sabedoria do Pai.

p. 22

Ele é na realidade o único ser que merece ser chamado assim pelos homens:

“Jesus Cristo o nosso único Mestre”

“Ele é o Verbo de Deus, nEle estão todos os tesouros da ciência e da sabedoria. Como Verbo, Ele é o pensamento de Deus, Ele possui toda a ciência de Deus, todos os conhecimentos do Pai.”

“Ele é a palavra do Pai, revestida de uma forma exterior para falar-nos, é Ele que vem do céu para falar-nos e fazer-nos conhecer as vontades de Deus seu Pai.”

“Ele mesmo é a carta viva que o Pai nos enviou a fim de que nós a leiamos e cumpramo-la.”

“É o próprio Deus que nos ensina – “Eis aqui o meu servidor que eu escolhi, meu bem-amado no qual pus as minhas complacências; farei repousar sobre ele o meu espírito e ele anunciará a justiça às nações.” (Is 42,1)

No dia da transfiguração, é o Pai que o proclama dizendo: “Eis meu Filho muito amado no qual Eu pus as minhas complacências, escutai-O” (Mt 17,5)

“Deus, de tal modo amou o mundo que lhe deu seu Filho único a fim de que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16)

“Sua grande função é instruir o mundo. É o que Ele explica aos habitantes de Nazaré, quando comenta as palavras do profeta Isaías: “O Espírito de Deus está sobre mim. Eis porque Ele me consagrou por sua divina unção e me enviou para evangelizar os pobres.” (Lc 4,18)

Ele dizia a seus apóstolos: “Vamos pregar, Eu vim para isso.” (Lc 4,43)

“Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37)

p. 23

“Eu sou a luz do mundo” (Jo 9,5) “Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida.” (Jo 14,6)

“É o seu título. A seus apóstolos, Ele dizia: “Vocês me chamam Mestre e Senhor. Vocês dizem a verdade, porque eu o sou.’” (Jo 13,13)

“O que Ele ensina é somente o que vem do Pai que o enviou: ‘Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou’” (Jo 7,16) “Aquele que me enviou é verdadeiro e o que Eu ouvi dEle, eu digo ao mundo.” (Jo 8,28)

“Ele é verdadeiramente nosso Mestre. Ele recebeu de Deus a grande missão de ensinar os homens. Ele foi enviado para isso. Somente Ele nos pode instruir porque somente Ele conhece a Deus…”

“Ouvindo-O, ouvimos o próprio Deus e crendo nele nós temos a vida eterna. É o nosso Mestre.” (V.D. p. 95-98)

“Quão belo é Jesus Cristo!”

O estudo, em “O Verdadeiro Discípulo”, “dos títulos de Jesus Cristo” termina em oração. Uma oração de discípulo feita de admiração diante da grandeza e da beleza do Verbo de Deus que se revela em sua humanidade. Uma prece de súplica para que a palavra de Deus possa realizar em nós sua obra de iluminação e de conversão. Uma prece de oblação de todo o seu ser para pertencer integralmente ao Cristo e deixar-se transformar inteiramente por seu Evangelho.

Ó Verbo! Ó Cristo!

Como és belo! Como és grande!

Quem poderá te conhecer? Quem poderá te compreender?

p. 24

Faze, ó Cristo, que eu te conheça e te ame!

Porque és a luz, deixa vir sobre mim um pequeno raio desta luz divina, a fim de que eu possa ver-te e compreender-te.

Dá-me uma grande fé em ti, a fim de que todas as tuas palavra sejam para mim igualmente luzes que me iluminem e me façam ir para junto de ti e seguir-te por todos os caminhos da justiça e da verdade.

Ó Cristo! Ó Verbo!

Tu és o meu Senhor e o meu único Mestre. Fala, eu quero te escutar e pôr em prática a tua palavra porque sei que ela vem do Céu. Quero escutá-la, meditá-la, pô-la em prática, porque, na tua palavra, está a vida, a alegria, a paz e a felicidade. Fala, Senhor, Tu és o meu Senhor e meu Mestre, só a ti quero escutar

“Conhecer Jesus Cristo é tudo…”

Como São Paulo, o Padre Chevrier considera que “tudo é perda em relação ao bem supremo que é o conhecimento de Jesus Cristo” (Fil 3,8):

“São Paulo colocava o conhecer Nosso Senhor Jesus Cristo acima de todos os conhecimentos e se gloriava de não saber nada fora de Jesus Cristo e Jesus Cristo crucificado. Aí está, com efeito, o conhecimento acima de todos os outros e que sozinho pode fazer-nos padres, verdadeiros e dignos dele. Para pregar Jesus Cristo, não é preciso conhecê-lo? Para imitar Jesus Cristo, não é necessário conhecê-lo? E como poderíamos

p. 25

conhecê-lo se não estudamos?” (Carta ao seminarista Cláudio Farissier n° 86, 1872)

“O conhecimento de Jesus Cristo é a chave de tudo. Conhecer Deus e seu Cristo eis aí todo o homem, todo o padre, todo o santo.” (Carta aos seus seminaristas n° 105, 1875)

O nosso primeiro trabalho é, pois, conhecer Jesus Cristo para sermos todo para Ele.” (V.D. p. 46)

“O conhecimento de Jesus Cristo, seu estudo, a oração, eis aí a primeira coisa a fazer para tornar-se uma pedra do edifício espiritual de Deus.” (V.D. p. 103)

Muitas pessoas procuravam o Padre Chevrier para uma ajuda espiritual. Ele se esforçava para orientar, prioritariamente, para Jesus Cristo o criação e a mente daqueles e daquelas que se dirigiam a ele:

“Parece-me que se ocupa demasiado de si mesma, e que não pensa bastante em Nosso Senhor, nosso divino Mestre. Só encontra misérias em ti, e quanto mais pensar nisso, mais infeliz será. Levante um pouco os olhos para o alto, olhe para Nosso Senhor encha-se dele; alimente-se dele, e verá que todos esses fantasmas desaparecem. Que Jesus Cristo seja a sua vida, cara Irmã; que Jesus Cristo seja o seu amor.” (Carta à Irmã Maria de São Rafael n° 459, 1878)

“É preciso pensar mais em Nosso Senhor do que em nós e nas nossas misérias; se um pintor olhasse sempre para si mesmo em vez de olhar para o seu modelo, nunca mais

p. 26

conseguiria copiá-lo; é o que tem a fazer, cara filha, olhe muito mais para Nosso Senhor e não olhe demasiado para si mesma, então terá mais vida; procure imitar Nosso Senhor, e isso sem angústia, sem sofrimento; olhe-o com amor e com o desejo de o imitar, isto é tudo. As suas faltas, as suas misérias, deixe-as no oceano da sua misericórdia; quando amamos Jesus não nos devemos preocupar com o resto.” (Carta à Irmã Gabriela n° 257, 1873)

“Não esqueça a sua meditação, estude Nosso Senhor Jesus Cristo; tudo está aí, e lembre-se todos os dias de uma das suas palavras ou de uma das suas ações para as pôr em prática, ou ao menos saborear a sua doçura e o seu gosto.” (Carta à Menina Grivet n° 374, 1876)

“A vida sobrenatural só se encontra no conhecimento de Jesus, o estudo das suas palavras e das suas ações; uma palavra e Jesus eleva a alma, uma ação de Nosso Senhor faz mais que tudo o resto.” (Carta à Senhora Franchet n° 310, 1869)

“Rezai muito, caros filhos; a oração, o crucifixo, o Presépio instruem mais do que os livros; e a ciência, que aprendemos aos pés do Crucifixo ou do Sacrário, é muito mais sólida e mais verdadeira e melhor em relação conosco mesmos do que aquela que aprendemos nos livros.” (Carta ao seminarista Francisco Duret n° 115, 1876)

O apego a Jesus Cristo e seus frutos na vida do discípulo

Um dinamismo espiritual tem sua própria lógica, arrasta o discípulo a seguir a pessoa de Jesus. A palavra acolhida com fé faz prender-se à pessoa

p. 27

de Cristo e o amor de Jesus suscita um desejo de semelhança e conformidade. São Paulo, porque pertencia inteiramente a Jesus Cristo, é para Antônio Chevrier o modelo do discípulo e do apóstolo:

“Quem encontrou Jesus Cristo, encontrou o maior tesouro. O resto é nada… Encontrou a sabedoria, a luz, a vida, a paz, a alegria, a felicidade na terra e no céu, o fundamento sólido sobre o qual pode edificar; o perdão, a graça, encontrou tudo…”

“Ele não coloca nada acima de Jesus Cristo, porque Jesus Cristo é tudo para ele. São Paulo exprime-o muito bem: “O que, antes da minha conversão, era para mim um ganho, considerei-o, agora, por Jesus Cristo, como uma perda. Digo mais, tudo me parece uma perda ao lado desta alta ciência de Jesus Cristo, meu Senhor, por amor do qual me privei de todas as coisas, considerando-as como lixo “esterco”, a fim de poder ganhar Jesus Cristo, conhecer Jesus Cristo com a força da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, sendo configurado com a sua morte. (Fil 3,7-10).”

“Ele deixa tudo para possuir Jesus Cristo, porque Jesus Cristo é tudo para ele e nada coloca acima de Jesus Cristo. Foi o que os apóstolos fizeram quando encontraram Jesus Cristo: abandonaram as suas redes e os parentes e seguiram-no. (Mc 1,38)”

“Não queira agradar senão a Jesus Cristo, porque ele é a sua alegria, a sua felicidade, o seu Mestre, o seu Deus.” “Desejo agora, – diz São Paulo – ter a aprovação dos homens ou de Deus? Tenho como objetivo agradar? Se eu quisesse ainda agradar aos homens, não seria servidor de Jesus Cristo. (Gál 1,10)”

p. 28

“O conhecimento de Jesus Cristo produz necessariamente o amor e quanto mais conhecemos Jesus Cristo, a sua beleza, a sua grandeza, as suas riquezas, mais o nosso amor cresce por ele e mais lhe procuramos agradar e mais atiramos para longe de nós tudo o que não leva a Jesus Cristo.”

“Por amor a Cristo, ele não teme passar por louco…” “Nós somos loucos por causa de Jesus Cristo; vós sois sábios em Jesus Cristo. Nós somos fracos; mas vós sois fortes. Vós sois honrados; nós somos desprezados. (1 Cor 4,10). Nesta parte, São Paulo distingue as duas espécies de pessoas ou sacerdotes que são de Jesus Cristo: os que agem um pouco segundo o mundo e os que pertencem inteiramente a Jesus Cristo… Que o mundo pense o que quiser, pouco me importa; que me olhe como um louco, pouco me importa, eu sou de Jesus Cristo. Sigo-o. Sigo os seus passos…”

“Nada o poderá separar de Jesus Cristo. São Paulo (…) exclama: quem nos poderá separar do amor de Jesus Cristo? A aflição, as angústias, a fome, a nudez, o perigo, a perseguição, a espada? (…) Porque estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem as coisas presentes nem as futuras, nem o poder dos homens, nem tudo o que há de mais alto ou de mais profundo, nem nenhuma criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor. (Rom 8,35).

“Toda a sua felicidade está em seguir Jesus Cristo. Ouviu e compreendeu esta palavra do Mestre: “segui-me.” (…) Compreendeu estas outras palavras: “Eu vos dei exemplo, a fim de que assim como Eu fiz, vós façais também”. (Jo 13,15) E quer conformar-se à imagem de Jesus, seu Mestre e seu Modelo. (Rom 8,29)”

“Quando se ama alguém sinceramente, se é feliz em segui-lo, em caminhar nos seus passos; gosta-se de o ver, de o ouvir e faz-se tudo para o imitar.”

“Não vive senão para Jesus Cristo. A caridade impulsiona-me, considerando que se um só morreu por todos,

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consequentemente todos morreram, e que Jesus morreu por todos a fim de que os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e que ressuscitou por eles. (2 Cor 5,14)”

“Jesus Cristo é a sua vida. Para mim, viver é, Jesus Cristo”. (Fil 1,21) Já não sou que vivo, é Cristo que vive em mim. (Gál 2,20)”

“Jesus Cristo deve ser a nossa vida, quer dizer que Jesus Cristo deve ser o nosso pensamento habitual e constante, que para ele se dirijam, dia e noite, todos os nossos desejos, os nossos afetos.”

“A mãe vive para o seu filho, a esposa para o seu esposo, o esposo para a sua esposa, o amigo para o seu amigo, o avarento para o seu dinheiro, o egoísta para si mesmo, o negociante para o seu comércio. Esta é a vida de cada um destes seres, põe a sua vida no que procura, no que ama e, quando está separado do seu objeto, chora, lamenta, geme até que se junte aos objetos do seu amor.”

“Para nós, a nossa vida é Jesus Cristo.”

“Num relógio há uma mola que faz mover todas as rodas e dá a hora. É Jesus Cristo que deve ser em nós o recurso invisível, escondido e que deve fazer mover todo o nosso ser e nos fazer mostrar sempre o próprio Jesus Cristo.”

“Onde está o vosso tesouro, aí também está o vosso coração. Se Jesus Cristo é o nosso tesouro, o nosso coração e os nossos pensamentos estarão sempre com ele.” (V.D. p. 114-118)

“Conhecer Jesus Cristo, amar Jesus Cristo, imitar, seguir Jesus Cristo, eis aí todo o nosso desejo, eis toda a nossa vida.” (Fim fundamental da Associação dos Padres do Prado, 1879)

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Vamos a Jesus Cristo

Quando alguém descobre a grandeza e a beleza do Cristo, a questão é tomá-lo por Mestre e entregar-se a Ele.

“Quereis ser de Jesus Cristo? Sentis o desejo de ser de Jesus Cristo? De quem quereis ser, se não sois de Jesus Cristo? Ouvi o apelo de Jesus Cristo, escutai suas promessas.” (V.D. p. 119)

“Sentis nascer em vós esta graça? Quer dizer, sentis uma atração interior que vos empurre para Jesus Cristo? Um sentimento interior que é cheio de admiração por Jesus Cristo, pela sua beleza, sua grandeza, a sua bondade infinita que o leva a vir a nós, sentimento que nos toca e nos leva a dar-nos a Ele? Um pequeno sopro divino que nos impulsiona, que vem de cima, ex alto, uma pequena luz sobrenatural, que nos ilumina e nos faz ver um pouco Jesus Cristo e a sua beleza infinita?”

“Se sentimos em nós este sopro divino, se nós percebemos uma pequenina luz, se nos sentimos atraídos por pouco que seja por Jesus Cristo, ah!, cultivemos esta atração, façamo-la crescer com a súplica, a oração, o estudo, a fim de que cresça e dê frutos…” (V.D. p. 119)

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III Evangelho

Em seu pobre quarto do Prado e nos diversos lugares onde ele gostava de se retirar para “pôr óleo na sua lâmpada”, o Padre Chevrier passava horas inteiras a estudar o Evangelho:

“Estou atualmente em casa dos padres Carmelitas, para rezar um pouco ao bom Deus e estudar a pobreza de Nosso Senhor. Leio o Santo Evangelho. Como tudo o que disse Nosso Senhor foi bem dito, e como devemos procurar pô-lo em prática. (…) Estudemos sempre este belo livro, e não paremos de o ler para praticar o que lá encontramos; isto será a nossa regra, como sabe…” (Carta ao seminarista João-Claúdio Jaricot n° 64, 1868)

“Para chegar a conhecer bem Deus é um estudo tão grande, tão extenso e ao mesmo tempo tão suave que nunca será demais o tempo que lhe dedicamos.” (Carta às Meninas Mercier e Bonnard n° 268)

Por que estudar assim o Evangelho?

Segundo o Padre Chevrier, esse estudo incessante do Evangelho decorria de sua fé em Jesus Cristo, que é “o mediador e a plenitude da Revelação.” (Dei Verbum, 2)

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“De modo que ao ouvir Jesus Cristo, é o Pai que nós ouvimos, ele fala a linguagem de Deus”, diz São João. (Jo 3,34)

“Ao ver agir Jesus, vemos as próprias ações do Pai, pois que o Filho não faz nada de si mesmo, é o próprio Pai que faz as suas obras.”

“Que bela harmonia! Que acordo entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo em Jesus Cristo!”

“Portanto, que temos nós de fazer? Senão estudar Nosso Senhor Jesus Cristo, escutar a sua palavra, examinar as suas ações, a fim de nos conformar com ele e nos encher do Espírito Santo.”

“Temos aí uma regra segura e certa para nos encher do Espírito Santo e agir e pensar segundo ele.”

“O Evangelho contém as palavras e as ações de Jesus Cristo. O Espírito de Deus difundiu-se em toda a sua vida, em todas as suas ações. As suas palavras, as suas ações são como outras tantas lições que o Espírito Santo nos dá desde o presépio até ao calvário. Cada palavra de Jesus Cristo, cada exemplo é como um raio de luz que vem do céu para nos iluminar e nos comunicar a vida.”

“Aquele que quer encher-se do espírito de Deus deve estudar Nosso Senhor cada dia: as suas palavras, os seus exemplos, a sua vida; eis aí a fonte onde encontraremos a vida, o espírito de Deus.” (V.D. p. 225-226)

“É na oração de cada dia que importa fazer este estudo e que há que fazer passar Jesus Cristo à própria vida.” (V.D. p. 227)

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O Evangelho “força de Deus” no exercício do ministério apostólico

No Evangelho, o Padre Chevrier encontrava a autoridade e a força de que tinha necessidade para poder falar e agir como padre, em nome de Jesus Cristo.

“Eu me sinto tão pobre, tão incapaz, tão pequeno que tenho vergonha e se não soubesse que devo encontrar tudo no Santo Evangelho e nas Epístolas de São Paulo, não ousaria começar este trabalho porque sou muito ignorante. Li pouco, não conheço os autores que trataram as grandes questões da vida religiosa e sacerdotal… Mas, com o Santo Evangelho parece-me que eu sou mais forte, que posso confiar porque afinal de contas não sou eu, é Jesus Cristo, e com Ele ninguém se engana, com Ele a gente tem autoridade, com Ele a gente é mais forte e ninguém tem nada a dizer. É pois, nele que eu me apoiarei, nele esperarei.” (Carta n° 309 à Senhora Franchet, 1869)

“Retirei-me para Limonest para trabalhar e rezar a fim de poder falar-lhes com o Evangelho. Sinto toda a importância deste assunto e sinto quanta necessidade tenho da graça de Deus e da sua luz para conseguir qualquer coisa de sólido, de verdadeiro e de durável. Sei que só a autoridade de Nosso Senhor pode dar-lhes força e apoio e que é preciso que eu me alimente da sua vida e das suas palavras para poder falar em seu nome. É muito difícil…” (Carta à Menina de Marguerie n° 446, 1877)

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O Evangelho: uma casa aberta a todos

Coisa rara naquela época, o Padre Chevrier fazia ler e estudar a Escritura aos cristãos que recorriam ao seu ministério, assim como aos que trabalhavam com ele na evangelização dos pobres. Ele os fazia penetrar no Evangelho como em uma casa posta por Deus à sua disposição para que dele se servissem por si mesmos, conforme as suas necessidades:

“O Padre nos dizia muitas vezes: “Quando vocês quiserem saber o que pensar sobre alguma coisa, consultem o Evangelho. Devemos formar nosso critério segundo o Evangelho. O Evangelho é o livro que formou os santos” (testemunho da irmã Maria, primeira irmã do Prado)

“Na vida de Nosso Senhor encontram-se a sabedoria e a luz. É nestes pequenos detalhes que encontramos toda a regra de conduta e que encontramos a perfeição e um ensinamento seguro e segundo Deus, pois que é o próprio Deus que se manifesta a nós.

Para que serve o Evangelho se não se o estuda?

Para bem conhecer o Evangelho, é necessário entrar nos pequenos detalhes de cada fato, de cada ação, é aí que encontramos a sabedoria.

Quando se passa numa rua e se vê uma bela casa, olha-se ao passar e diz-se: ali está uma bela casa; não se vê senão o exterior, não se dá conta de tudo o que há dentro, de tudo o que há de bom arranjo, de beleza, de comodidades, etc… Passa-se, olha-se, diz-se: é belo, é tudo: não se serve dela…

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Mas se se entra dentro e se se visita cada andar, cada quarto, pode-se admirar-lhe a ordem, a beleza interior, o ordenamento perfeito.

“Assim o Evangelho; muitos o olham e dizem: é belo e não entraram dentro para lhe examinar as belezas interiores e não podem servir-se dele, gozar dele e utilizar as coisas que lá se encontram.

Para conhecer uma casa, é necessário entrar nela e pôr ao seu serviço os quartos que a compõem.

Para conhecer o Evangelho, é necessário entrar nele, ver os detalhes e pôr em prática as coisas que lá encontramos; e nós não temos senão que entrar um pouco, estudar os seus pormenores para compreender em seguida quanto esta casa é bela, grande, perfeita. É verdadeiramente a casa da Sabedoria.” (V.D. p. 516)

“Para conhecer Jesus Cristo, vamos pois às fontes da fé que nos foram dadas pelo próprio Deus e que encontramos no Santo Evangelho.” (Ms VIII, p. 156)

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IV. O caminho do discípulo

Seguir Jesus Cristo

“Vem, segue-me” (Mc 10,21). Tomar Jesus por Mestre, tornar-se seu discípulo, é ir a Jesus Cristo para ligar-se a Ele, mas é também seguir Jesus pelo caminho que Ele seguiu primeiro:

“Eu tomo Jesus Cristo por meu Mestre. Eu quero escutá-Lo e segui-Lo como um verdadeiro discípulo, não de longe, porém o mais próximo possível.” (Ms XI, p. 34)

“Seguir Jesus Cristo é ir por todo o lado onde ele vai, fazer tudo o que ele fez, é nunca abandoná-lo.”

“É imitá-lo em tudo o que é possível.”

“É seguir os seus exemplos, é parecer-se com ele o mais perfeitamente possível para se tornar um outro ele-mesmo: O padre é um outro Cristo.”

“É poder dizer como São Paulo: “Sede meus imitadores como eu sou do Cristo.” (1 Co 11,1)

“É o que Nosso Senhor indica quando diz aos seus apóstolos: “Eu dei a vocês o exemplo para que como Eu fiz, vocês também o façam.” (Jo 13,15)

“Seguir Jesus Cristo é ir com ele ao Presépio para ali se fazer pobre.”

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“É ir com ele ao Egito para ali partilhar o seu exílio e a sua pobreza.”

“É permanecer com ele em Nazaré no silêncio para ali levar uma vida obscura e escondida.”

“É ir com ele ao deserto para ali jejuar e orar.”

“É percorrer as cidades e as aldeias para instruir os ignorantes, consolar os aflitos, curar os doentes e anunciar a salvação ao mundo.”

“É combater contra os vícios e lutar contra o mal com coragem, firmeza.”

“É caminhar no meio das perseguições e das injustiças do mundo.”

“É subir ao Calvário para aí morrer.”

“É deixar-se cravar na cruz e morrer nela para obedecer a Deus e salvar o mundo.”

“É ir para o céu com ele, porque disse que os que tivessem seguido na terra estariam ao lado dele no céu.”

“Não é o discípulo mais do que o mestre, nem é o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre para ser perfeito.” (Mt 10,24-25) “Eu sou o caminho”. (Jo 14,6) (V.D. p. 341)

“Segui-me, isto é, fazei como eu, passai pelo mesmo caminho que eu; segui-me no caminho que tomei para realizar a minha missão; fazei como eu fiz, caminhai nas minhas pisadas, não tomeis outro caminho porque poderíeis enganar-vos e não chegar ao fim. É necessário que continueis a minha obra. Vós sois os meus apóstolos, os meus os meus sucessores: é necessário que façais como eu para chegar ao fim. Eu converti o universo: tomei o caminho do presépio, da cruz. Tomai o mesmo caminho para chegar ao mesmo fim, de outro modo não chegareis… Envio-vos como meu Pai me enviou; fazei, pois, como

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eu, se quereis cumprir a missão que vos confio em nome de meu Pai.” (V.D. p. 342)

Tornar-se um outro Cristo

Para bem cumprir sua missão junto aos pobres, o Padre Chevrier pensa que é necessário reviver no meio deles os mesmos mistérios do Cristo desde o Presépio até o Calvário. Ele queria assim dar aos deserdados deste mundo a possibilidade de ver e tocar Jesus, Ele mesmo, através do sacramento de seus discípulos:

“A nossa união a Jesus Cristo deve ser tão íntima, tão visível, tão perfeita que os homens devem dizer ao ver-nos: eis aí um outro Jesus Cristo. Nós devemos reproduzir, no exterior e no interior, as virtudes de Jesus Cristo, a sua pobreza, os seus sofrimentos, a sua oração, a sua caridade. Devemos representar Jesus Cristo pobre no seu presépio, Jesus Cristo sofredor na sua paixão, Jesus Cristo deixando-se comer na Santa Eucaristia. (Ms X 642)” (V.D. p. 101)

“Se não acreditais nas minhas palavras, crede nas minhas obras, dizia Nosso Senhor aos judeus. Pudéssemos nós dizer o mesmo e mostrar aos homens as nossas obras para os levar a crer e a converter-se. Vede como sou pobre, vede como estou pregado na cruz, vede como me deixo comer por vós, sem dizer nada, para vosso bem.” (V.D. p. 137)

“É necessário que se veja Jesus Cristo no nosso exterior… Todo o nosso ser deve revelar Jesus Cristo…” (V.D. p. 197)

“É preciso tornar-se um outro Cristo visível”. (Messias X, p. 38)

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“Imitar Nosso Senhor, seguir Jesus Cristo, chegar a ser um outro Jesus Cristo sobre a terra, eis o fim que me propus desde o princípio.” (Carta ao Padre Dutel n° 75, 1869)

O Presépio, o Calvário, o Tabernáculo

A transformação em Jesus Cristo, finalidade do itinerário do discípulo não se realiza de uma só vez; é necessário passar por etapas para chegar à união total com o Mestre. A contemplação de Jesus Cristo em seus mistérios faz dizer ao Pe. Chevrier que essas etapas são o Presépio, a Cruz e a Eucaristia. Ele escreve, em janeiro de 1866, a um amigo que tinha o desejo de filiar-se ao Prado para partilhar sua vida:

“O assunto das minhas reflexões contínuas é este: Sacerdos alter Christus. Devemos reproduzir em toda a nossa vida a de Jesus Cristo, nosso Modelo, ser pobre como Ele no Presépio, ser crucificado como Ele na cruz para a salvação dos pecadores e ser consumido como Ele no Sacramento da Eucaristia; o padre é como Jesus Cristo um homem despojado, um homem crucificado, um homem consumido, mas para ser consumido pelos fiéis, é preciso ser um bom pão bem cozido pela morte a si mesmo, bem cozido na pobreza, no sofrimento e na morte como o Salvador nosso modelo, e então tudo em nós servirá de alimento aos fiéis, as nossas palavras, os nossos exemplos e nós nos consumiremos como uma mãe se consome para alimentar os seus pequenos filhos.” (Carta ao Padre Gourdon n° 56, 1866)

Este ideal do “padre segundo o Evangelho”, o Padre Chevrier o pintou em letras grandes nas paredes duma casinha

p. 41 e 44

onde ele vinha, para rezar e para onde trazia, de bom grado, seus seminaristas com o fim de formá-los na vida evangélica. Este é o « Quadro de Saint Fons », o nome da localidade vizinha de Lyon, onde ainda agora pode ser visto. Tais são os fundamentos da vida espiritual que o Padre Chevrier procurava colocar praticamente na vida de seus futuros padres:

QUADRO DE SAINT-FONS[5]

SACERDOS ALTER CHRISTUS

(O sacerdote é outro Cristo)

por seus poderes por seus exemplos

modelo.

EXEMPLUM DEDI VOBIS

(menino Jesus)[6]

pobreza

UT QUEMADMODUM

EGO FECI

(Cruz) 2

ITA ET VOS FACIATIS[7]

(hóstia) 2

POBRE E HUMILDE MORTE A SI MESMO CARIDADE
Na casa

no vestuário

na alimentação

nos bens

no trabalho

no ministério

de espírito

de coração

perante

Deus

os homens

si mesmo

imolar-se

na solidão

na oração

na penitência

no trabalho

no sofrimento

na morte

 

morrer para

o seu corpo

o seu espírito

a sua vontade

a sua reputação

a sua família

o mundo

dar

o seu corpo

o seu espírito

os seus bens

o seu tempo

a sua saúde

a sua vida

dar a vida

pela sua fé

pela sua doutrina

pelas suas orações

pelas suas palavras

pelos seus poderes

pelos seus exemplos

O padre é um homem despojado.

 

Quanto mais pobre se é,

mais se glorifica e se ama Deus e mais útil se é ao próximo.

O padre é um homem crucificado.

 

Quanto mais se morre,

mais se dá a vida.

O padre
é um homem dado em alimento.

É preciso
tornar-se bom pão.

 

(tradução que está no Verdadeiro Discípulo

“Aprenda sobretudo a ser pobre, mortificado e caridoso. O Presépio, o Calvário, o Sacrário, eis onde é preciso ir todos os dias para aprender a tornar-se um bom padre, um bom catequista.” (Carta ao João-Claúdio Jaricot (Seminarista) n° 61, 1866)

“O Presépio, o Calvário, o Sacrário, eis as três estações onde desejo deixar-vos sempre. Que os mistérios de Nosso Senhor sejam tão familiares para ti que possa falar deles como de coisa própria, familiar, como as pessoas sabem falar do seu estado, do seu vestuário, dos seus negócios.” (Carta ao João-Claúdio Jaricot (Seminarista) n° 64, 1868)

“Como sereis grandes quando fordes padres, mas é preciso ser pequenos ao mesmo tempo para ser verdadeiramente novos Jesus Cristo sobre a terra; lembrai-vos que deveis representar o Presépio, o Calvário e o Sacrário, que estes três sinais devem ser como estigmas que deveis levar continuamente convosco; os últimos sobre a terra, os servos de todos, os escravos dos outros pela caridade, os últimos de todos pela humildade. Como é belo, mas como é difícil. Só o Espírito Santo no-lo pode fazer compreender.

p. 42

Oxalá o recebam com abundância!” (Carta ao Cláudio Farissier, seminarista, na véspera de sua ordenação, n° 121, 22 de maio de 1877)

Porque tem no meio dos homens o lugar do Cristo em pessoa, o padre deve tender à perfeição daquele que ele representa. Mas é para que todos os membros do Povo de Deus, estimulados por sua palavra e seus exemplos, possam buscar, também eles, de uma maneira apropriada à sua condição, a perfeição da caridade na comunhão ao Cristo e aos seus mistérios. O Padre Chevrier dizia:

“O Padre, é tudo… É Jesus Cristo na terra; é preciso que eu seja um outro Jesus Cristo na terra a fim de que aqueles que vierem aqui possam ser também eles mesmos outros Jesus Cristo vivo; só isto pode converter as almas.” (Carta a Senhora Franchet n° 295, 1865)

Ele não reservava só aos padres o ideal expresso pelo « Quadro de Saint Fons », mas propunha de bom grado este caminho àqueles e àquelas em quem discernia um apelo de Deus à vida evangélica:

No começo, declara uma de suas penitentes, tentando iniciar-me no caminho da perfeição, um dia, ele me explicou longamente tudo o que se continha nas três fases da vida de Nosso Senhor: o Presépio, o Calvário, o Tabernáculo. A manjedoura, preparação para o despojamento e o espírito de pobreza; o Calvário, despojamento do coração, renúncia a tudo no mundo; o Tabernáculo, consumação de santidade ao perfeito amor. Nem todos chegam ao 2° grau, diz ele,

p. 43

e bem poucos alcançam o terceiro.” (Notas de Senhorita Grivet)

Ele escreve a uma outra pessoa, religiosa ou leiga:

“Não deixe de fazer a sua meditação todos os dias, durante meia hora; e, nas suas meditações, agradeça sempre a Nosso Senhor as grandes graças que Ele concedeu aos homens vindo à terra e morrendo por eles e por ti.

Não deixe de fazer passar na memória do coração os grandes mistérios de Nosso Senhor: o Presépio, o Calvário, o Sacrário. No Presépio, aprenda a separar-se de tudo e a viver na pobreza e no esquecimento do mundo e das coisas da terra; no Calvário, aprenda a sofrer, a fazer penitência e a morrer para si mesma, sofrer e morrer com Nosso Senhor; no Sacrário, aprenda a conhecer a grande caridade de Nosso Senhor que nos dá o seu corpo, a sua alma, a sua divindade e aprenda a amar os seus Irmãos e a sacrificar-se por eles com Jesus Cristo.

Procure imitar Nosso Senhor. Se quer ser perfeita não saia desta divina contemplação das virtudes do seu divino Mestre e cada … faça estas três pequenas estações e prometa ao seu Salvador que fará seja o que for pelo seu amor.

Cresça na fé e no amor para com Nosso Senhor pela meditação de todos os dias e faça em seguida o que Nosso Senhor lhe inspirar sobre pobreza, penitência e caridade.” (Carta a Senhora… n° 467)

p. 45

V. Os pobres

Foi no meio de um povo de pobres e para o serviço desse povo que o Padre Chevrier ouviu o chamado para converter-se a Jesus e ao Evangelho:

Os olhos abertos sobre a miséria do tempo

Vigário da paróquia de Santo André, ele foi tocado pelo “espetáculo sempre mais aterrador da miséria humana sempre crescente. Poder-se-ia dizer, à medida que os grandes da terra se enriquecem, à medida que as riquezas se concentram em algumas mãos ávidas que as buscam, cresce a pobreza, diminui o trabalho, os salários não são pagos. Vêem-se pobres operários trabalhar desde a aurora até noite a dentro e ganhar apenas o seu pão e o de seus filhos. No entanto, não é o trabalho o meio de comprar pão?” (Sermões, Ms IV, p. 665)

Em uma pregação em 1852, consagrada à educação cristã, ele constata com sofrimento:

“Ao ver-se as crianças de nossos dias e o cuidado que se tem de torná-las aptas a exercer tal arte, tal ofício, e ao mesmo tempo, o desinteresse para tudo o que diz respeito à sua salvação, à sua moralidade,

p. 46

dir-se-ia que elas não têm outro destino senão das máquinas em torno das quais elas giram, ou pior ainda como disse alguém, elas são máquinas de trabalhar para enriquecer seus patrões.” (Sermões, Ms III, p. 12)

A miséria das crianças pobres

A miséria dos filhos do povo, abandonados a si mesmos perturba o coração de Antônio Chevrier. Durante toda a sua vida, ele será particularmente voltado à desgraça deles.

Ele escreve em uma carta de junho de 1859 a Camilo Rambaud:

“Não é agradável ver essas pobres crianças desajeitadas e de mau aspecto, como infelizmente são. O Senhor Auger também não as podia ouvir e, quando se despediu, deu-me algumas garrafas de vinho para eu recuperar a saúde e adquirir forças, e disse-me: “Cuidado para não dar desse à sua quadrilha”. Pobre gente. Temos de ter dó deles por falarem assim. Mas, que quereis? É a sua mentalidade. Não vêem mais longe; é a mentalidade do grande número. Eles também são repelidos, mal vistos e desprezados. Como quereis que eles venham para o meio de um mundo que os despreza e repudia?” (Carta ao senhor Camilo Rambaud n° 23, 1859)

Uma benfeitora do Prado recorda este episódio no momento do processo de beatificação:

“Uma manhã, depois de ter ouvido a sua missa, eu fui falar-lhe; fazia frio excessivo, atravessávamos um inverno rigoroso; ele se aproximou de mim dizendo: “Há muitas crianças que sofrem neste momento. É preciso acolhê-las, esses pobres pequenos náufragos da sorte

p. 47

que tão jovens são maltratados pela miséria. Acabo de encontrar um, muito inteligente, que chorava. Perguntei-lhe o que tinha. Ele respondeu: “Eu sou muito infeliz”. – “Mas, meu pobre amigo, onde dorme?” – “Eu durmo num tonel.” – “Você dorme num tonel? E para comer, como faz? Ele mostra três casas.” – “Veja: nesta casa, pela manhã, dão-me um pouco; e neste armazém com a porta fechada, há meninos; quando eles almoçam, eu vou olhá-los através das vidraças; quando eles me vêem, me trazem do seu almoço e, com permissão de sua mãe, me deixam entrar para aquecer-me; à noite, ao lado da casa deles, há uma Senhora que me dá um pouco de sopa e eu vou deitar-me neste tonel que mostrei.” – “Pobre criança, você está com muito frio?” – “Oh! Sim. Eu me viro, eu me viro, quando sinto frio de um lado, viro-me para o outro.” – Ora bem! Venha comigo, eu não tenho cama para dar-lhe, estão todas ocupadas. Vou comprar palha, você a porá no chão com a coberta, será melhor que neste tonel. Quando eu tiver uma cama, lhe darei.” Depois, ele continuou: “Essas pobres crianças, eu as procuro por toda parte, de dia e de noite, nas boas no lixo. Estou convencido de que entre elas, haverá alguns que darão bons padres.” (Testemunho de Maria Foulquier, P.3, p. 183)

No seu primeiro Regulamento de dezembro de 1857, um ano depois de sua conversão, o Padre Chevrier escreve:

“Vendo a criança mais suja que seja, eu posso dizer: Jesus se sacrificou e morreu por ela, e eu o que não

p. 48

deveria fazer? Jesus quer dar-se a ela em alimento, e o que devo eu dar-lhe?

Ele funda em 1860 a obra do Prado a fim de “preparar a primeira comunhão as crianças pobres e mais velhas que não podem fazer nas paróquias. São crianças que, em sua maior parte, trabalham desde os oito e nove anos e que os pais não mandaram nem à escola nem ao catecismo, e quando passaram da idade, não têm coragem de ir ao catecismo comum.” (Ms X, p. 256)

“Não se censura que um filho de boa família ou mesmo de simples operário, passe três anos, quatro anos, dez anos na escola ou em internatos sem fazer nada, apenas para a sua instrução ou sua educação e censurar-nos-ão, a nós, por ter durante cinco meses crianças pobres para os formar na vida cristã, ensinar-lhes os seus deveres, sem fazer trabalhar!” (V.D. p. 305)

“Para entrar aqui, dizia ele, são necessárias três condições: nada ter, nada saber, nada valer.” (P2, p. 31)

Amar os pobres

A vida quotidiana com todos esses adolescentes, que era necessário primeiro “amansar”, tornava-se estafante para aqueles e aquelas que deles se ocupavam. O Padre Chevrier escreve a seu respeito:

“As crianças devem ser tratadas com doçura e caridade, e jamais, por qualquer razão que seja, se lhes bater. Se elas têm defeitos, é preciso repreendê-las com paciência e rezar por elas. Elas vêm para converter-se, não podem ser ajuizadas em um dia; é necessário agir devagar, esperar com

p. 49

paciência e contar muito mais com a graça de Deus do que conosco mesmos. Obtém-se mais pela doçura do que por qualquer outro meio. É necessário amá-los como filhos que devem ser conduzidos ao bom Deus. Tudo está contido nestas palavras; devemos ser para eles pais e mães, ter para com eles um coração de um pai e de uma mãe. Junto a eles somos os representantes de Jesus Cristo e como são raros os que compreendem e sabem, na prática, se identificar com isso. Encontram-se entre os que dirigem as crianças, mercenários, mestres e mestras, chefes, comandantes; mas, pais e mães, pastores, pessoas que sabem esperar, rezar e sofrer, poucas, quase nenhuma… Nós lhes servimos de pai e mãe. Um pai e uma mãe fazem tudo por amor, é isso que torna leve sua missão tão pesada. Eles têm cuidado de seus filhos, velam por eles, pensam neles antes de pensar em si-mesmos. Fazem-se servidores, ocupam-se de todas as suas necessidades, de sua alimentação, de sua moradia e de sua roupa. Seu coração se enche de precaução e de previdência. Peçamos a Senhor, corações de pai e de mãe para guiar e amar nossas crianças.” (Regulamento dos primeiros irmãos e das primeiras irmãs do Prado)

Podemos ler no primeiro regulamento dos padres do Prado:

“Nosso Senhor revela sua caridade por uma grande compaixão para com os pobres, os infelizes, os doentes, os pecadores. Ele os chama a Si, dizendo: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos e Eu vos aliviarei.” (Mt 11,28) Ele não rejeita ninguém, aceita todos com ternura e caridade: as crianças, os pobres, os doentes, os pecadores.

p. 50

Ele dá de comer a quem tem fome. Perdoa a todos, mesmo pregado na cruz. Morre, dando a sua vida por suas ovelhas e se entrega como alimento, dizendo: “Tomai e comei” (Mt 26,26) Tais são os exemplos de caridade que nos dá Nosso Senhor.

Pediremos a Deus fazer nascer em nós uma grande compaixão pelos pobres e pecadores, que é o fundamento da caridade. Sem essa compaixão espiritual, nós não faremos nada.

Excitaremos em nós essa divina caridade a fim de que possamos ir ao encontro da miséria do próximo e dizer como Jesus Cristo: “Vinde a mim, e Eu vos aliviarei.”

Imitaremos Nosso Senhor na sua bondade para com as crianças, chamando-as a si e lhes dando testemunhos especiais de ternura e de afeto. Nós lhes serviremos de pai e mãe, ocupando-nos delas com uma sincera afeição a fim de ganhar suas almas para Deus.

Receberemos, quando houver ocasião, os pais de nossas crianças à nossa mesa assim como os pobres, sentindo-nos felizes em servi-los e mostrar-lhes nossa afeição por eles.

Lembrar-nos-emos bem desta palavra do Mestre: “Eu amo mais a misericórdia que o sacrifício.” (Mt 9,13); e que é necessário ganhar os corações pelo amor e não pela rigidez e severidade.

Faremos a caridade a todos que no-la solicitarem, mesmo que seja um santinho ou uma boa palavra, lembrando-nos desta palavra de São Pedro: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, eu te dou” (At 3,6). Não recusaremos jamais prestar serviço a quem quer que seja, com alegria e satisfação, vendo-nos pela caridade como servidores de todos.

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Tomaremos como divisa de nossa caridade esta palavra de Nosso Senhor: “Tomai e comei”, considerando-nos como pão espiritual que deve nutrir todo o mundo, pela palavra, pelo exemplo e pela dedicação.” (Primeiro regulamento dos padres do Prado)

Escolher a companhia dos pobres

Estudando o Evangelho, o Padre Chevrier percebe que Jesus “faz dos pobres e dos pecadores sua companhia predileta” (V.D. p. 395). Por amor de Jesus a quem ele quer imitar na sua caridade e por amor aos pobres, ele se sente chamado a fazer a mesma coisa que Mestre e deseja que os membros de sua família espiritual se engajem também neste mesmo caminho:

“Escolheremos, como Nosso Senhor, o que há de mais humilde e de mais pobre sobre a terra.

Pediremos a Nosso Senhor esta humildade de coração, a fim de não o fazer por constrangimento, mas por atração e por amor.

Escolheremos de preferência a companhia dos pobres e dos pecadores.” (V.D. p. 402)

“É necessário escolher passar a sua vida com os pobres, ocupar-se só dos pobres. Para fazer bem a estas crianças é preciso estar com elas, viver a sua vida.” (Regulamento do Prado)

Aos seus seminaristas presentes em Roma, ele escreve algumas palavras para lhes dizer como ele vê, confirmada pelo próprio Papa, a vocação que deve ser a deles até o fim:

“Estou feliz por saber que tivestes a alegria de ver o nosso St. Padre o Papa Pio IX, e que ele vos

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abençoou, e que em vós abençoou os pobres, os pobres que vocês devem evangelizar, instruir, e que em vós todos nós fomos abençoados por ele: Benedictio pauperibus. Como a palavra do Vigário de Jesus Cristo está de acordo com a do Mestre: “Bem-aventurados os pobres”. Sim, sejamos sempre os pobres do bom Deus, permaneçamos sempre pobres, trabalhemos com os pobres, que a pobreza e a simplicidade sejam sempre o caráter distintivo da nossa vida, e teremos a bênção de Deus e do nosso Pai. Como é bom trabalhar com os pobres, sentimos que eles são os amigos de Deus e que não trabalhamos em vão quando trabalhamos nas suas almas; amai portanto muito os pobres, os pequenos; não trabalheis para vos engrandecer e elevar, mas trabalhai para vos fazerdes pequenos e diminuir de tal modo que sejais iguais aos pobres, para estar com eles, viver com eles, morrer com eles; e não tenhamos medo das censuras que os Judeus faziam a Nosso Senhor: o vosso Mestre anda sempre com os pobres, os publicanos e as pessoas de má vida; é uma censura que nos deve honrar em lugar de nos envergonhar. Nosso Senhor veio procurar os pobres: Ele me enviou a levar a Boa Nova aos pobres. Aprendei portanto a amar muito os pobres e que esta bênção de Pio IX, nosso chefe visível e verdadeiro representante de Jesus Cristo, vos seja de bom augúrio e vos faça amar os pobres e permanecer sempre na santa pobreza.” (Carta ao seminarista João Broche n° 114, 1876)

Servir aos pobres

O Padre Chevrier tinha uma alta idéia sobre o que devia ser o serviço dos pobres, porque ele via neles o próprio Nosso Senhor:

“Amar e servir aos pobres, é uma honra que nos eleva.” (P2, p. 31)

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“Mesmo quando vocês estiverem de batina, dizia ele a seus seminaristas, não temam para prestar serviço, ajudar os operários, dar-lhes uma mãozinha, empurrar, se necessário, a roda duma carroça, mesmo na rua. Não temam que, fazendo isso, faltem a dignidade.” (P4, p. 81)

E a uma irmã:

“Ame muito os pobres, vá visitá-los, coma com eles, não tema que isso a diminui; ao contrário, a engrandece. Pois nós não somos melhores do que eles.” (P2, p. 50)

Mesmo àqueles cuja vocação não os leva a viver permanentemente com os pobres, ele sabia lembrar oportunamente que o contato com os pobres lhes podia ser proveitoso, como o demonstra esta carta escrita a uma Senhora da burguesia lionesa, que tinha escolhido como diretor espiritual:

“Pensava que lhe dava uma grande honra convidando-a a vir pentear os meus pequenos pobres. Nosso Senhor disse que quando servimos um pobre O servimos a Ele mesmo; portanto recusou a Nosso Senhor este pequeno serviço que Ele lhe pedia, e privou-se de uma grande graça; fi-lo no seu lugar e senti-me muito feliz por fazer este pequeno ato de caridade, e de futuro não cederei o meu lugar a mais ninguém, porque o bom Mestre sabe pagar generosamente os pequenos serviços que lhe prestamos; somente, para participar nesta boa obra peço-lhe que me traga um pente um pouco melhor do que o meu, na próxima vez que vier. Peço a

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Deus por ti para que tenha um pouco mais de generosidade ao seu serviço.” (Carta à Senhora Franchet n° 292)

A grandeza dos pobres

O Padre Chevrier descobria no coração dos pobres tesouros de generosidade e de sabedoria. Foram, sobretudo, os pobres que asseguraram durante muito tempo a subsistência do Prado, e em tantos humildes gestos tantas vezes repetidos, o padre via a ação da providência e a expressão do amor de Deus para com seus filhos.

“Eis aí um ano no qual o Prado teve sempre trinta e cinco a quarenta pessoas, contando inteiramente com a Providência. Ela não nos faltou. Deus se serviu dos pobres para nos manter, o mealheiro da capela, as esmolas voluntárias. Em nossas necessidades, temos encontrado generosas doações. Uma bondosa senhora operária nos enviou seu pente de prata. Uma outra operária nos deu seu talher de prata. Uma bondosa trabalhadora se desfez de tudo o que tinha para as pobres crianças e nos deu, em várias vezes, até 600 francos; era toda a sua fortuna. Uma boa operária de tecelã de seda, feliz de participar nesta boa obra, veio dizer-me que cada dia faria meio metro de tecido para nós e não esquecia sua promessa: ela trazia de vez em quando sua oferta em manteiga, pão, vestimenta que ela comprava para nós. Uma outra faz uma coleta, junta a seus conhecidos e nos traz, diariamente, uma pequena doação que recolheu com esse pessoal generoso. Um operário de Thurins[8], por reconhecimento e para participar das obras, nos envia 10 francos. São

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os pobres e os operários que até agora nos têm mantido.” (Ms X, p.257-258)

“Há almas que sentem a verdade naturalmente e a aceitam com alegria e felicidade logo que a vejam; estas almas têm mais espírito de Deus do que os maiores teólogos que não podem lá chegar senão por raciocínios e deduções sem fim.

Deus colocou em certas almas um sentido espiritual e prático que encerra maior bom senso e espírito de Deus do que há na cabeça dos maiores sábios. Testemunhas, alguns bons camponeses, alguns bons operários, algumas boas operárias, mulheres que compreendem de imediato as coisas de Deus e sabem melhor explicá-las do que muitos outros.” (V.D. p. 218)

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VI. A Missão

Ir aos pobres

No Natal de 1856, o Padre Chevrier compreende que lhe é necessário aproximar-se dos pobres como Jesus, tomando resolutamente o mesmo caminho que Ele:

“Eu irei para o meio deles, viverei a sua vida; estes meninos verão de mais perto o que é o padre e eu lhes darei a fé.” (Palavras do Padre Chevrier lembradas pelo Pe. Perrichon)

Ir aos pobres, anunciar-lhes a Boa Nova da salvação, foi a missão do Cristo. Essa será também a sua e a de seus companheiros do Prado.

“É Necessário instruir os ignorantes, evangelizar os pobres. Foi a missão de Nosso Senhor. É a missão de todo padre, a nossa em particular: é o nosso quinhão. Ir aos pobres, falar do Reino de Deus aos operários, aos humildes, aos pequeninos, aos cansados, aos que sofrem. Oh! Que nos seja permitido ir como Nosso Senhor, como os apóstolos, “nos lugares públicos e nas casas” (At 20,20), nas praças e nas fábricas,

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nas famílias, levar a fé, pregar o Evangelho, catequizar, fazer conhecer Nosso Senhor.” (P4, p. 161)

“Todo o meu desejo é preparar bons catequistas para a Igreja e formar uma associação de padres que trabalhem com este objetivo; esta era a grande missão de Nosso Senhor: “Ele me enviou a levar a Boa Nova aos pobres.” (Lc 4,18) Oxalá que possais crescer nestes pensamentos e vir a ser padres zelosos, dispostos a ir por toda a parte evangelizar os pobres.” (Carta ao seminarista Maurício Daspres n° 130, 1877)

“O povo não vem, é preciso ir procurá-lo’ (V.D. p. 450)

Ele dizia às primeiras irmãs do Prado:

“Vocês não são chamadas a viver em comum. Vocês serão separadas porque eu as enviarei a toda a parte onde for necessário trabalhar na obra de Deus. Não quero colocar umas em cima das outras como um montão de pedras. Nosso Senhor enviou seus apóstolos. Eles se dispersaram pelo mundo. É o que farei com vocês.” (P3, p. 107)

“Não se trata hoje de se enclausurar numa casa e não se ocupar senão de nada, de bobagens ou de tagarelice. É necessário hoje homens cristãos de ação que instruam o povo e pratiquem a caridade no mundo.” (Ms X, p. 203)

Fazer conhecer Jesus Cristo e seu Pai, eis a nossa primeira missão

Na Igreja, e às vezes também no próprio Prado, muitas atividades e ofícios diversos tinham preferência no anúncio do Evangelho e o Padre Chevrier sofria com isso:

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“Portanto, quando o Mestre envia os seus operários, [os seus] apóstolos no mundo, não os envia para fazer coleta, pedir, edificar, construir, estabelecer-se no mundo, envia-os para ensinar, instruir e batizar. Eis aí a grande finalidade…”

“Assim, quando vamos a um lugar qualquer, a primeira coisa a fazer é instruir, fazer o catecismo, batizar, curar, prestar serviço a toda a gente; aí está a nossa primeira missão.

Se se começa por edificar, arranjar, alinhar, comprar, pedir, fazer coleta, não se faz a obra de Deus: faz-se obra material.

É necessário começar pela obra espiritual… É, pois, necessário fazer passar a obra espiritual antes de tudo; instruir, catequizar, aí está o primeiro dever a cumprir…

Devemos, pois, começar as obras e as paróquias por evangelizar, catequizar, rezar, difundir a vida espiritual, deixando a Deus o cuidado de nos enviar dinheiro ou casas; para que servem as casas e o dinheiro, se não se faz a obra de Deus?… Começai primeiro pelas almas.

Que pensar dos que não pensam senão em edificar, embelezar a sua casa paroquial, a sua igreja? que, para isso, não fazem senão correr atrás dos presidentes de Câmara, dos prefeitos, dos senhores e das senhoras? Que pena! Deixam as almas para correr atrás de pedras… Não somos enviados para edificar mas para converter.” (V.D. p. 306-307)

“Oh! Por uma alma que ensinasse bem o catecismo, que tivesse bem o espírito de pobreza, de humildade e de caridade, por essa alma, eu daria todo o Prado! Para fazer o trabalho material, eu encontro bastante gente, mas para bem dar o catecismo, infundir a fé, o amor de Nosso Senhor nas almas, há muito poucos, quase nenhum…” (P2, p. 12)

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O Padre Chevrier pedia antes de tudo, para si mesmo e para seus colaboradores, a graça de saber “dar o catecismo”, isto é, saber falar aos pobres com simplicidade e amor sobre Jesus Cristo e seu Evangelho:

“Apenas peço ao bom Deus uma coisa, que Ele me ensine a fazer bem o meu catecismo, a instruir bem os pobres e as crianças. Como é belo, meus amigos, saber falar de Deus.” (Carta ao seminarista João Broche n° 93, 1873)

“Como é triste ver toda esta gente ocupar-se apenas de coisas estranhas àquelas a que nos deveríamos consagrar inteiramente. Não estamos aqui para isto e para isto somente: conhecer Jesus Cristo e seu Pai e dá-lo a conhecer aos outros? Não é isto tão belo e não temos aqui de que nos ocupar toda a vida sem ir procurar noutro lado com que ocupar o nosso espírito? Todo o meu desejo é ter Irmãos e Irmãs catequistas. Eu próprio trabalho nesse sentido com alegria e felicidade; a nossa vida e o nosso amor está em saber falar de Deus e dá-lo a conhecer aos pobres e aos ignorantes.

Trabalhe portanto, cara Irmã, para conseguir este objetivo que deve ser o nosso, o resto não é nada; e se eu puder colocar em ti toda esta atração, eu terei ganho tudo.” (Carta à irmã Verônica n°181, 1873)

“É preciso ter no seu coração o desejo de instruir, de ensinar os outros o que sabemos. Estamos aqui por isso… O catecismo é tudo. Fazer conhecer a Deus, é

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o objetivo da obra. Os que não têm o desejo de instruir e salvar as almas não são dentro da vocação deles” (P 1, p. 107).

“Continue a dar bem o seu pequeno catecismo, à quinta-feira e ao domingo; esta é a nossa missão e eu só ficarei contente quando vir todos os meus Irmãos e Irmãs fazendo esse trabalho em favor das crianças e dos pobres; é esta a nossa missão. Quando tivermos ensinado aos outros a conhecer a Deus e a amá-lo, teremos cumprido o nosso dever. Oh! Como estamos ainda longe desta bela missão que o Senhor nos confiou e como a cumprimos mal. Trabalhemos, pois, por nos aperfeiçoarmos na arte de ensinar aos outros a conhecer e amar a Deus e, para isso, façamos, através da oração e do estudo, por conhecê-lo e amá-lo nós mesmos.” (Carta à irmã Verônica n° 188, 1877)

Formar verdadeiros cristãos

Numa época em que se ensinava decorado as lições do catecismo e se recorria facilmente, nas instituições cristãs, a métodos rígidos e disciplinares, o Padre Chevrier punha em prática uma pedagogia original inspirada no exemplo de Jesus ao formar os seus discípulos:

“Que triste é ver crianças passar duas horas por dia a aprender palavras e aborrecer-se a repetir sempre a mesma coisa, elas e o catequista! Porque é maçante, enquanto que se lhes pode comunicar mais fé e amor e religião num quarto de hora do que tomando-lhes duas horas do seu tempo.

Quando se instrui as pessoas maiores ou ignorantes, não se lhes pode dizer: ide, tomai estes catecismos e lede; é necessário instruir pessoalmente, pôr-se ao nível de cada um e da maioria e instruir pela palavra…”

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“A finalidade de toda a instrução e do catecismo é iluminar a inteligência pelo conhecimento, mover o coração pelo amor e determinar a vontade a agir.

A fé, o amor e a ação são os três efeitos que há que tentar produzir em toda a instrução. Comunicar a fé pelo conhecimento, os raciocínios, a visão das coisas. Fazer nascer o amor pela verdade que se ensina. E levar a fazer ações em relação com a verdade conhecida e amada.

Para chegar a estes três efeitos, é necessário tomar todos os meios possíveis e, como diz São Paulo, importa dar à luz como uma mãe, fazer-se mama e pai e dar a própria vida por caridade.” (V.D. p. 451-452)

“Durante os três anos que Jesus passou com os seus apóstolos para os formar na vida evangélica e apostólica, nunca o vemos aplicar-se a dar-lhes formas exteriores e regulares, disciplinares; viviam segundo o tempo, como podiam.

Porém, vemo-lo ocupar-se constantemente da formação interior dos seus apóstolos. Instruía-os sem cessar, repreendia-os a cada instante, dispunha-os a tudo, formava-os em tudo.

Instruir, repreender e pôr em ação, fazer agir, eis o grande método para formar as pessoas e lhes dar a vida interior.

Na fundação da Igreja, a maior obra do Todo-poderoso, a mais bela obra do mundo, Nosso Senhor não emprega nenhum meio exterior, toma um homem ao qual comunica a sua vida, o seu espírito, escolhe doze aos quais forma na vida evangélica; porém não os forma aquartelando-os nem fazendo-os marchar ao mesmo passo;

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não constrói, nem toca bombo, nem música, nem concerto, nem teatro; pelo contrário, proíbe-os de empregar todo o meio exterior; sem dinheiro nem bela aparência; envio-vos como cordeiros no meio de lobos (Lc 10,3); “Ide, ensinai” (Mt 28,19); pregar, instruir, curar; uma força extraordinária saída dele.” (Lc 6,19); os meios exteriores não conduzem a nada, a cruz, o sofrimento, a graça, a paciência.” (V.D. p. 222)

Ganhar seu pão mostrando Jesus Cristo ao mundo

Para o Padre Chevrier que viveu toda a sua vida no meio dos trabalhadores, o anúncio do Evangelho é um verdadeiro trabalho e os que cumprem esse ofício são, a seus olhos, “os operários do bom Deus”, operários que ganham o seu pão mostrando Jesus Cristo ao mundo.

“O sacerdote, mais do que ninguém, deve trabalhar todo o dia. Os pedreiros trabalham muito todo o dia, os carpinteiros, os marceneiros, os agricultores, os alfaiates, etc… Todas essas pessoas trabalham todo o dia e até algumas vezes de noite, para ganhar a sua vida e a dos seus filhos e o sacerdote há-de ter uma melhor sorte do que os outros, ele que tem um emprego muito mais elevado do que estes.

Não será porque o sacerdote não trabalhou, ou trabalhou mal, que o campo do Pai de família está em tão mau estado? que a ignorância invadiu os nossos pobres operários e que eles se rebelam hoje contra nós?

Se tivéssemos trabalhado bem e tivéssemos feito boa obra, não seríamos tão infelizes, nem tão perseguidos.

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Se o campo está inculto e não produz senão ervas más, é porque não semeamos, nem arroteamos.

Há que trabalhar em pregar, em catequizar, noite e dia. Eis o nosso trabalho!

“Os operários só comem o seu pão depois de tê-lo ganho… Nós que somos os operários de Deus, não devemos comer nosso pão senão após tê-lo ganho, trabalhando nas obras de Deus.” (P4, p. 202)

“O padre ganha seu pão mostrando Jesus Cristo ao mundo.” (P, 1 p 174)

“A casa de Deus está incendiando e a gente se diverte com bobagens. Todo o mundo nos pede pão. Há porque chorar. Como dizia o profeta, os meninos pediram pão e não havia quem lhes desse.” (P3, p. 124)

“Os bons operários são raros e deitamos a perder a obra de Deus; em lugar de fazer muitas vezes desfazemos; a minha preguiça faz-me sofrer; como sou pobre diante de Deus. Reze por este pobre que antes deveria ficar onde está do que retomar a obra para não fazer nada.” (Carta à Senhora Franchet n° 294, 1865)

“Trabalhemos, trabalhemos, meus filhos, e repousaremos lá no céu.” (P4, p. 175)

“Vale mais viver 10 anos a menos trabalhando para Deus do que viver 10 anos mais sem fazer nada.” (Regulamento de vida para os padres do Prado, Ms X, p. 179)

“Eu me matei no trabalho. É preciso que vocês façam o mesmo.” (P2, p. 159)

“Terminar a obra de Deus; isso é o essencial, o resto não é nada.” (Carta ao seminarista Cláudio Farissier n° 158, 1878)

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VII. A pobreza evangélica

A pobreza do Padre Chevrier

O Padre Chevrier lembrou ele mesmo o que foi a inacreditável pobreza do Prado em seus começos:

“O Prado era a mais antiga sala de dança da Guillotière. Existia há mais de vinte anos. Mil pessoas aí dançavam à vontade… Muitas vezes os habitantes tinham pedido às autoridades a proibição desse baile por causa do barulho e da desordem que criava no quarteirão, e não tinham conseguido. Deus queria fazer aí a sua obra…

Havia mais de um ano que eu desejava esse lugar para fazer dele um local de oração e de conversão para os pecadores, mas, que temeridade! Um lugar tão grande, um aluguel tão caro: quatro mil francos! Foi quando Deus tornou fácil e realização de nossos desejos, inspirando ao Pe. Rolland a idéia de pregar nosso aluguel no primeiro ano. Foi no dia de Nossa Senhora de Loreto (10 de dezembro de 1860) que cessou o baile e que tomamos posse desse lugar para estabelecer a obra das primeiras comunhões.

Só tínhamos a pobreza como herança: uma grande sala de cinqüenta metros de comprimento, um assoalho um metro abaixo do solo, papel pintado estendido em

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todo o comprimento da sala para esconder o telhado, nenhum mobiliário.

Era preciso, antes de tudo, alojar o Mestre, o bom Deus, e fazer-lhe uma moradia só esse teto de pecado… Todo o mundo estava tão feliz de ver esta transformação que não houve pessoa que não quisesse cooperar. Também tudo foi dado: os vasos sagrados, os panos do altar, os candelabros, as pias de água benta, campainha, paramentos. Pode-se dizer que a Providência enviou tudo e que em menos de dois meses a capela estava pronta, organizada…

De cada lado tomamos o cômodo que restava. Felizmente os frios haviam passado. Um assoalho cheio de buracos, um forro de papal, um simples ladrilho. Instalamo-nos neste novo estábulo e durante seis meses, não tivemos outro abrigo, nós e nossas crianças.


No mês de julho, fizemos uma novena à Santa Virgem e a são José para pedir alguma melhora em nossa situação que nos permitisse passar um inverno com menos frio, quando, um dia, pela manhã, um senhor nos veio visitar. Vendo nossa miséria, nosso teto todo furado, ele enviou de própria iniciativa operários que restaurassem a casa. Levanta-se o assoalho, arrancar-se o papel, fazem-se novas divisões para morar mais saudavelmente. Tive eu mesmo um quarto; até aqui eu dormia junto às crianças e, em seguida na sacristia…” (Ms X, p. 256-257)

“Se Deus fez o Prado não foi certamente para me dar uma propriedade de cem mil francos: que fazer com ela? Dei tudo a Deus e só lhe pedi a Santa Pobreza por herança.” (Carta à Senhora Franchet n° 295, 1865)

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O interesse do Padre Chevrier para com os pobres e a pobreza se opõe aos gastos e costumes eclesiásticos da época, como mostra a carta escrita em Roma no ano de 1859:

“Apesar da beleza e do esplendor que encontro em Roma, prefiro ainda a nossa pequenina capela e a minha pequenina cela; lá encontramos melhor o Bom Jesus e o coração sente-se mais à vontade. Cada vez me convenço mais que não sou feito para as grandezas, e que nada me convém mais do que os pobres e os pequeninos, e que é aí que se encontra a maior satisfação e a alegria mais autêntica. Assisti ontem, quinta-feira, dia da Epifania, ao ofício na capela Sixtina. Imagina uma grande sala inteiramente pintada com Afrescos magníficos, de cima até baixo, incluindo o teto, representando pessoas do Novo Testamento onde mais de mil personagens figuram em tintas variadas e dando a esta capela um aspecto que não se encontra em nenhuma outra parte. Três bancos decorados nos quais se sentavam 30 cardeais vestidos de túnica e arminho; o Papa chegando com todo o seu acompanhamento de prelados, bispos e arcebispos. Há que admitir que tudo isso é imponente e que em nenhum outro lugar a religião se apresenta com tanta grandiosidade e esplendor. No entanto, eu teria preferido ver o presépio do Bom Jesus e ser pastor para ter a felicidade de estar no estábulo do bom Salvador.” (Carta ao Paulo du Bourg n° 15, 1865)

Foi rezando junto ao presépio do Menino Jesus, no Natal de 1856, que Antônio Chevrier se sentiu chamado a imitar Cristo na pobreza:

“O presépio, eis aí o começo de toda a obra de Deus.” (Carta ao Padre Gourdon n° 52, 1865)

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“A pobreza é o primeiro exemplo que Jesus Cristo nos dá ao entrar no mundo.” (V.D. p. 407)

A pobreza do Mestre

O Padre Chevrier, já disse alguém, tinha continuamente diante dos olhos Nosso Senhor, pobre em seu nascimento, pobre em sua vida e sua morte… Sua contemplação do xt pobre é resumida nesta ladainha da pobreza onde ele faz o próprio Cristo falar:

O que vos peço, eu mesmo o pratiquei.

Eu quis ser pobre,

Escolhi pais pobres,

Nasci como um pobre.

A pobreza foi o meu sinal, caráter distintivo.

Vivi como um pobre,

Trabalhei como um pobre,

Coloquei-me ao nível dos pobres.

Sofri como um pobre,

Agüentei como um pobre,

Não tive casa como um pobre (exílio).

Conduzi-me como um pobre,

Humilhei-me como um pobre.

Tive sede como um pobre,

Estive nu como um pobre,

Morri como um pobre.

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E tudo isso porque eu quis.

Faço como meu Pai me ordenou.

Eu faço sempre o que lhe agrade (João 8,29)” (V.D. p. 412, Ms XII, p. 239)

Deste olhar para o Mestre que quis ser pobre por amor, nasce em Antônio Chevrier, como em Francisco de Assis, o desejo apaixonado de tornar-se em tudo semelhante a Jesus pobre, e esse desejo se faz oração:

“Se tu nasceste assim pobre, ó Jesus, foi para me ensinar que o primeiro passo na vida perfeita é a pobreza. Eu abraço, pois, com alegria e amor, esta bela virtude da pobreza, e quero dela fazer minha virtude favorita e querida; esta será a primeira de minhas virtudes; uma vez que é por ela que Tu vem a mim, é também por ela que eu quero chegar a Ti.” (P3, p. 146)

Ô pobreza, como és bela!

Jesus Cristo, meu Mestre, achou-te tão bela que te desposou ao descer do céu,

Que fez dela a companheira da sua vida e quis morrer contigo na cruz.

Dai-me, meu Mestre, esta bela pobreza.

Que eu a procure com solicitude,

Que eu a siga com alegria,

Que eu a abrace com amor,

Para fazer dela a companheira de toda a minha vida[9] e morrer com ela sobre um pedaço de madeira,

Como o meu Mestre!” (V.D. p. 323)

A pobreza dos pobres

Jesus quis nascer, viver e morrer como os pobres. Tornando-se atento, com simpatia e amor à vida dos pobres aos quais é enviado, o Padre Chevrier descobre as

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formas concretas do que deve ser a pobreza daqueles que são chamados apóstolos dos pobres:

“Muitas vezes os pobres não têm por mesa senão os seus joelhos, por cadeira, um banco ou uma pedra, por instrumento uma colher de barro ou de madeira e uma parede para apoiar as suas costas fatigadas pelo trabalho. E o que se encontra sobre a sua mesa? Uma sopa, batatas da terra, queijo, legumes, por vezes, carne. Se pudéssemos fazer como eles e comer como pobres!

Nosso Senhor não comia muitas vezes e quase sempre como pobre, quando estava sentado à beira do poço de Jacó e os seus discípulos lhe diziam que comesse? Não comia como pobre quando os seus apóstolos, forçados pela fome, esmagavam espigas nas suas mãos para se alimentar? Não comia como pobre quando procurava alguns figos numa figueira para se alimentar, porque tinha fome?

Contentemo-nos com pouco, tomemos realmente o necessário mas evitemos estes aparatos, estas cerimônias em uso em casa dos ricos e dos burgueses, comamos como viajantes e pobres… Se queremos ter ascendência sobre eles, importa fazer-se pobre com eles, fazer-se pequeno. Não há porque separar-se dos pobres, nem sequer no alimento e não expô-los a dizer: está muito melhor tratado do que nós.” (V.D. p. 187-188)

“Os pobres não têm domésticas, eles fazem o seu trabalho. Devemos ser, quando for necessário, pedreiro, gesseiro, carpinteiro, lavradores, remendadores, etc. São Paulo trabalhava com suas próprias mãos para atender a seus gastos e mesmo aos dos outros.” (P1, p. 208)

“Procuraremos que o nosso quarto se aproxime o mais possível do dos pobres.” (V.D. p. 291)

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“Quando não tivermos habitação, mas uma habitação emprestada e nos mandarem para outro lado e formos obrigados a mudar-nos como os pobres, é então que teremos a verdadeira pobreza.” (V.D. p. 520)

“Sejamos verdadeiramente pobres e aproximemo-nos o mais possível dos pobres.” (V.D. p. 522)

“O discípulo não é mais do que o Mestre. Que direito tenho eu de ser melhor tratado, melhor alojado, melhor alimentado do que Jesus Cristo, do que os apóstolos, do que os próprios pobres? O pobre que trabalha não nos envergonha? Qual quê! comemos bons bocados e os outros não terão senão pão negro, que direito tendes? Os outros trabalharão todo o dia penosamente e vós nada fareis, que direito tendes diante de Deus?” (Ms X 721; V.D. p. 296).

“É necessário lembrar-se de que a pobreza voluntária e procurada não vale a pobreza efetiva do mundo dos pobres da terra, das mães de família, dos operários sem trabalho, dos pobres sem alimento e sem habitação… e que nunca um pobre voluntário religioso sofrerá tanto como os pobres do mundo. É por isso que São Francisco, que amava verdadeiramente a pobreza, invejava a sorte dos pobres e trabalhava para se tornar semelhante a eles.” (V.D. p. 524)


Os bens e o dinheiro

No Verdadeiro Discípulo, o Padre Chevrier escreve para os membros de sua família espiritual:

“E Nosso Senhor exprime muito bem em duas palavras como nos devemos conduzir em relação às coisas da

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terra, quando, falando das relações dos bens que tem com seu Pai, desta comunidade que existe entre ele e seu Pai, diz: Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. (Jo 17,10).

Para entrar nesta disposição de espírito, devemos considerar todas as coisas como sendo de Deus e dos pobres; diante de Deus não somos donos de nada, proprietários de nada, somos apenas os administradores de Deus e os distribuidores dos bens dos pobres.

Podemos servir-nos deles segundo a nossa necessidade, mas é necessário estar dispostos a dá-lo a quem quer que tenha necessidade deles.

É esta primeira disposição de alma que destrói em nós este espírito de propriedade que é tão oposto à caridade, à pobreza, à entrega e ao sacrifício.

Que há de mais chocante, com efeito, do que ouvir dizer a cada instante, numa casa de irmãos em Jesus Cristo e de verdadeiros pobres: isto é meu, é o meu quarto, é a minha cama, é o meu relógio, é a minha mesa, é meu, não quero que lhe toqueis.

Aquele, ao contrário, que entrou neste espírito de Jesus Cristo, não se apega a nada, nem aos seus bens, nem à sua habitação, nem aos seus móveis, nem às suas vestes, nem ao seu dinheiro, nem à sua bolsa, nem a nada; nem a nada destas coisas terrestres a que tanto o mundo se apega; o seu lema é este: tudo o que é meu é vosso. Se alguém vem, que seja pobre e que tenha necessidade de alguma coisa, diz-lhe: Ei-lo aí! Eis aí o meu quarto, a minha cama, a minha roupa, a minha bolsa: tudo o que é meu é vosso.

Como é belo este homem que não está apegado a nada e que diz aos pobres de Deus: tudo o que é meu é vosso! e que se despoja assim até tornar-se tão pobre como os mais pobres, como os santos que não podiam

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suportar ver homens mais pobres do que eles e que davam tudo ao ponto de não terem mais nada para dar, davam-se, então, a si mesmos.” (V.D. p. 288)

“A verdadeira pobreza e o espírito de pobreza estão encerrados nesta palavra: Ter o necessário e saber contentar-se com ele.

É porque não se sabe contentar com o necessário que se falta à pobreza.”

“Começa-se bem pela pobreza, mas pouco a pouco acha-se que não é muito cômodo, não suficiente, que não é bastante sólido, bastante limpo… que isto não dura muito e outras mil razões especiosas; e então, ajunta-se, muda-se, embeleza-se, acha-se que é mais conveniente, como isso demora mais e, pouco a pouco chega-se a ter um quarto mais cômodo, a gosto, onde não falta nada; ter uma mesa confortável onde se encontra mais do que o necessário; ter vestes convenientes, que duram mais, que são mais sólidas e mais em relação com os gostos do mundo; de mudança em mudança, chega-se a fazer como o mundo e a perder o espírito de pobreza…”

Aquele que tem o espírito de pobreza, tem sempre demais, tende sempre a cortar; aquele que tem o espírito do mundo nunca tem o bastante, nunca está contente, precisa sempre de mais qualquer coisa.

O verdadeiro pobre de Jesus Cristo vai sempre cortando, diminuindo. Aquele que tem o espírito do mundo vai sempre acrescentando, aumentando.

Aquele que tem o espírito de pobreza diz a si mesmo: tenho ainda muito mais do que é necessário, há tantos pobres que não têm tanto como eu, tantos pobres que sofrem e que carecem do necessário; e eu, que direito tenho de estar melhor alojado, melhor alimentado, melhor vestido que os pobres de Deus?

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Onde não há alguma coisa a ter de se sofrer, aí não há verdadeira pobreza.” (V.D. p. 295)

“Quando Jesus envia os seus apóstolos em missão, diz-lhes: Não vos preocupeis em ter ouro ou prata ou outra moeda no vosso bolso, não prepareis para a vossa viagem, nem saco, nem túnicas, nem calçado, nem bastão. (Mt 10,9). Não leveis nada para o caminho: nem cajado para vos defender, nem saco, nem provisão, nem pão, nem dinheiro e não tenhais mesmo duas túnicas. (Mt 10,10; Lc 9,3; 10,4). Com todas estes discursos, Nosso Senhor quer banir da nossa alma toda a inquietação com o futuro. Somos seus filhos, seus operários, seus servidores: cuidará de nós; o operário é digno do seu salário.” (V.D. p. 318)

“Portanto, se somos verdadeiramente os operários de Deus, teremos o nosso salário, Deus no-lo enviará. A nossa casa não é uma prova desta grande verdade? Onde estão os nossos recursos? Onde estão os nossos rendimentos? E, no entanto, Deus alimenta perto de duzentas pessoas cada dia; não está aí uma prova evidente da Providência de Deus sobre nós? e que se continuamos a viver como começamos, teremos sempre o apoio de Deus e o seu socorro?” (V.D. p. 321; Ms XII 266)

“Quando vos enviei sem bolsa, sem saco, sem calçado, faltou-vos alguma coisa? Nada, responderam os apóstolos. (Lc 22,35). Deus envia os seus apóstolos na pobreza e dá-lhes o necessário, mas eles não se ocupam em construir, em assuntos temporais. Deus promete o cêntuplo neste mundo, quando se trabalha para ele e se faz realmente a obra de Deus.” (V.D. p. 322)

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O Padre Chevrier dizia:

“Nossa vocação é a pobreza e o serviço dos pobres. Nosso Prado durará tanto quanto conservar seu espírito de simplicidade e de pobreza; infeliz dele se vier a afastar-se desse espírito: a caridade não resistirá muito tempo.” (P1, p. 220)

Os frutos da pobreza

“A pobreza mantém-nos na humildade, na mansidão, na confiança, na oração perante Deus e os homens.” (V.D. p. 521)

“Quando a gente tem a pobreza diante dos olhos com o seu sofrimento e as suas privações, pode-se mais facilmente imitar Nosso Senhor e beijar estes muros toscos e este chão destroçado que nos mostra o estábulo de Belém; ali, não se ama mais nada senão Jesus porque só Ele se apresenta diante dos nossos olhos e não há nada que os possa distrair. Oh! Sim, como a pobreza é digna de ser amada, e quanto mais uma casa se parece com o estábulo melhor nos sentimos lá; o amor faz amar tudo. Oh! Se os homens conhecessem este tesouro não se sacrificariam tanto para se mobilar, se instalar e se arranjar.” (Carta à Senhora Franchet n° 310, 1869)

“Mais a gente é pobre dos bens da terra, mais possui Jesus Cristo.” (P3, p. 147)

“É na pobreza que o padre encontra a sua força, o seu poder e a sua liberdade.” (Pensamentos sobre a pobreza, V.D. p. 519)

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“Que liberdade, que poder dá ao padre esta santa e bela pobreza de Jesus Cristo!

Que exemplo é para o mundo, este mundo que não trabalha senão por dinheiro, que não pensa senão em dinheiro, que não vive senão para o dinheiro! Como é belo! Como é grande! Como é admirável este homem!” (V.D. p. 322)

“Oh! Como Deus tem necessidade de bons padres pobres!”

A compreensão da pobreza que o Padre Chevrier adquiriu a partir do seu apego a Jesus pobre, lhe possibilitou páginas de vigoroso realismo sobre certos usos do seu tempo que impediam muita gente do meio popular de reconhecer Jesus Cristo no sacramento de sua Igreja:

“Não é vergonhoso ver padres enriquecer, comprar terras, casas e isso com dinheiro da Igreja e padres que, no mundo, teriam sido pobres operários, que dificilmente teriam o bastante para viver no mundo, padres que devem à Igreja e à esmola ser padres e que se enriquecem? Será que alguém se faz padre para se enriquecer? Que infelicidade para a Igreja!” (V.D. p. 522)

“Evitaremos colocar nas nossas igrejas e sacristias estas listas, estas tarifas que fixam o preço das coisas santas, dos enterros e das cadeiras. Os fiéis que têm fé compreendem este dever para com o padre e dão facilmente aos padres que realizaram uma função santa. Porém, que quereis pedir vós a ímpios, a pessoas que desprezam já o padre, que consideram o padre como um

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avarento e um homem de bom comer, a pessoas que não vêm senão três ou quatro vezes à igreja durante a sua vida: aos casamentos, aos batismos e aos enterros e que todas as vezes que vêm à igreja, ouvem do padre ou do sacristão estas palavras: deveis-me tanto, e isso com autoridade e exigência.

Estas maneiras de agir não fazem senão desviar da Igreja e eles vão-se embora jurando, criticando a religião e tratando a religião como uma religião de dinheiro. É um fato certo que muito poucas pessoas dão de bom coração o seu dinheiro ao padre e, ordinariamente, não se o deixa senão dizendo algumas palavras injuriosas… Não se pensaria num comércio quando se diz: Deveis-me tanto? e quando os fiéis vos perguntam: Quanto é? Quanto é a missa?” (V.D. p. 315-316)

“Quando alguém entra numa casa religiosa e aí vê o luxo, isso faz mal ao coração.” (P2, p. 51)

A visão de Antônio Chevrier sobre as revoluções é admiravelmente positiva:

“Não é muitas vezes para punir a nossa avareza e o nosso apego aos bens da terra que Deus envia as revoluções e nos faz despojar pelos próprios fiéis de tudo o que possuímos? É a primeira coisa que fazem os revolucionários: despojar-nos, tornar-nos pobres. Não se diria que Deus quer punir-nos pelo nosso apego aos bens da terra e forçar-nos, por aí, a praticar a pobreza, dado que não queremos praticá-la voluntariamente?

E, por vezes, é muito bom que tal aconteça porque nós adormeceríamos nas riquezas e no

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bem-estar e não nos ocuparíamos mais das coisas de Deus. Quando Deus diz: Ai dos ricos, o diz ainda mais para os seus ministros do que para os outros, porque se alguém deve praticar a pobreza, são sobretudo os padres, seus servidores.” (V.D. p. 316-317)

“Será pelo desprendimento e pela pobreza que reencontraremos o nosso lugar no coração dos povos. Quanto mais pobres e desinteressados formos, menos exigentes seremos, mais seremos amigos do povo e mais fácil nos será fazer o bem.” (V.D. p. 316)

“Como o bom Deus tem necessidade de bons padres pobres! É isto o que eu sonho e desejo ardentemente há mais de 10 anos, que haja bons padres nas paróquias, está tudo aqui.” (Carta ao Pe Gourdon n° 53, 1865)

“Porque não veremos hoje reviver homens desprendidos como São Paulo, animados do seu zelo pelas almas, ao ponto de ceder o seu direito em favor dos pobres pecadores, para os levar à Igreja e lhes dar a fé e a estima do padre, o amor de Jesus Cristo?” (V.D. p. 316)

“Hoje, mais do que nunca, é necessário ser pobre para lutar contra o mundo, contra os prazeres terrenos, o luxo e o bem-estar que cresce prodigiosamente por todo o lado… Se o padre faz como todo o mundo, como poderá conduzi-lo e instruí-lo?” (V.D. p. 519)

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VIII. Sofrimento e despojamento

A cruz do Salvador

O Padre Chevrier não se cansava de estudar e de pregar, como São Paulo, Jesus Cristo crucificado. Ele dizia que é no calvário que o cristão apreende a ser homem crucificado:

“Vou aproveitar este tempo para estudar um pouco a paixão de Nosso Senhor. Não será um tempo perdido pois há coisas tão belas nesta paixão do salvador.” (Carta à Senhora Franchet n° 326)

“O crucifixo, o calvário é o segundo estado no qual Nosso Senhor se nos mostra como modelo.” (V.D. p. 480)

“É na sua paixão que Nosso Senhor foi mais belo e mais perfeito.” (P2, p. 145)

“Jesus Cristo cumpriu a sua missão de Salvador do modo mais perfeito em relação ao Pai e em relação a nós.

Com que generosidade Ele se oferece a seu Pai!

Com que submissão aceita os rigores de sua justiça!

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Com que paciência Ele fala da sua morte e a anuncia a seus discípulos.

Com que ardor Ele a deseja!

Chegada a hora, com que coragem Ele segue à frente de seus inimigos!

Com que dignidade Ele fala!

Com que bondade os trata!

Com que mansidão Ele se entrega a eles e se deixa conduzir aonde eles querem!

Com que majestade fala a seus juízes!

Com que paciência Ele sofre!

Que silêncio em todas as acusações!

Com que humildade aceita as afronta e as injúrias!

Com que bondade Ele perdoa!

Com que perfeição obedece!”

Com que amor sofre!

Com que poder Ele morre!

Tudo isso, voluntariamente, por amor a Seu Pai e para nós.

É o grande mártir do amor e da obediência.” (Ms VI, p. 437)

“É no sofrimento que se conhece os homens, é principalmente em sua paixão que podemos conhecer a altura, a beleza deste caráter do Cristo. Ninguém nele vê amargor nem medo, nem perturbação, nem vingança, nem desprezo, nem temor, nem fraqueza, nem queixas, nem defesa, nem qualquer outra palavra contra seus acusadores, nem discussões, nem gritos…” (Ms VI, p. 414)

“Há alguns dias que leio a Paixão no Evangelho; procurei expressamente se haveria alguma palavra de repreensão, censura para com

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os perseguidores, os juízes e os carrascos de Jesus: nem uma, nem sequer a mais pequena sombra de murmuração. O evangelista poderia muito bem ter dito o débil Pilatos, os carrascos trataram-no com crueldade; não, nada, nem mesmo a sombra de uma murmuração nem uma palavra de censura, amargura, aflição em face daqueles que o faziam sofrer. Só o Espírito Santo poderia agir assim e se poderia conter ao fazer semelhante relato. Tudo isto nos fala da morte a nós mesmos, morte ao corpo, morte ao espírito, morte ao coração, morte a nós mesmos para sermos instrumentos dóceis e flexíveis nas suas mãos.” (Carta a uma senhora desconhecida n° 466)

A cruz do discípulo

O sofrimento ocupou grande espaço na vida do Padre Chevrier. Ele foi geralmente, a conseqüência, direta ou indireta, de seu apostolado junto aos pobres e do estilo de vida pobre que escolheu. Ele comenta assim a palavra de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, que renuncie a si mesmo e tome cada dia a sua cruz, e que me siga.” (Lc 9,23)

“Quando se é feito padre ou religioso, discípulo de Jesus Cristo, não é para se divertir, viver como burguês; conseguir uma posição, amontoar dinheiro, passar bem, ser mais feliz do que no mundo. Não. É para tomar a cruz, é para sofrer, é para trabalhar, é para seguir Jesus Cristo: Jesus Cristo flagelado, perseguido, pobre, coroado de espinhos…

Tomar a cruz é, pois, tomar a vida evangélica tal como Nosso Senhor no-la dá. É aceitar os sofrimentos que estão unidos a esta vida de pobreza, de

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renúncia, na renúncia às criaturas, na renúncia a si mesmo, de sacrifício, de entrega. Se se não aceita isso, não se pode ser seu discípulo.” (V.D. p. 330-331)

“É necessário levar a sua cruz. Não se trata apenas de a tomar. Pode-se tomar uma coisa e não a levar. Pode-se aceitar uma coisa e não fazer uso dela. Porém, Nosso Senhor põe bem os pontos nos “is”. “Quem não leva a sua cruz, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,27) É necessário não somente aceitá-la, mas levá-la. Muitos aceitam, tomam a cruz mas não [a] levam.

Levar a cruz é realmente suportar os sofrimentos da cruz. Há os que tomam a cruz e a rejeitam, logo que ela doa um pouco. Não é isso. É necessário levá-la.

Quer dizer que é necessário levar os inconvenientes da vida apostólica. É necessário levar os sofrimentos que são as consequências da pobreza, da renúncia às criaturas, a si mesmo, do ódio, do desprezo do mundo, das perseguições que são a consequência da nossa vida oposta ao mundo. Consequência de um regulamento de vida mais sério, duma vida de desprendimento, de renúncia e de sacrifício…

É levando a sua cruz que Jesus Cristo nos salvou e que ele próprio entrou na glória…

É necessário, pois, levar a cruz e levá-la com alegria e amor, pensando que é pela cruz que glorificamos Deus e ganhamos almas…

Nosso Senhor ajunta em último lugar: Que leve a sua cruz cada dia!

Como pensa em tudo; como determina bem os nossos deveres!

É necessário levar a nossa cruz cada dia, todos os dias é necessário recomeçar. Quando se a deixa, à noite, importa retomá-la de manhã e levá-la como na véspera e melhor do que na véspera. Cada dia, sem se cansar, com perseverança, se

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se a deixa cair, é necessário retomá-la até ao fim. Importa não se desencorajar no caminho da cruz.

Há sempre algo a sofrer, até à morte, e será necessário morrer na cruz, deixar-se pregar na cruz como Nosso Senhor; cair algumas vezes, mas levantar-se pela oração e continuar a sua marcha. É necessária a perseverança.


Nosso Senhor diz-nos esta palavra porque a pobre natureza se revolta muitas vezes e que, freqüentemente, ela se cansa e quer deixar a cruz. Mas não. Quando se começou uma vez, é preciso perseverar e levar a sua cruz todos os dias.

Todos os dias fazer o catecismo, todos os dias ser pobre, todos os dias suportar o próximo, o mundo, resistir aos cansaços da natureza com a graça de Deus…

“Por mim, que nunca me glorie, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (Gál 6,14)

Levo impressas sobre o meu corpo as chagas do meu Senhor Jesus. (Gál 6,17).

A cruz é o amor dos santos.” (V.D. p. 331-333)

“Vosso irmão abandonado na cruz…”

Na primavera de 1878, o Padre Chevrier sofre uma grande provação. O Pe. Jaricot, seu companheiro há 9 anos, abandona o Prado a fim de retirar-se para a Trapa de Aiguebelle. Os 4 jovens padres, ordenados em Roma no ano precedente ficam com medo, e, por sua vez, sonham em deixar o Prado. Quanto ao Padre Chevrier, já bem doente, ele sente que seus dias já estão contados. A 5 de abril de 1878, ele escreve ao Pe. Jaricot esta carta:

“O seu exemplo produz efeitos admiráveis!

O P. Duret, desde alguns dias, diz-me que não é capaz de fazer o catecismo, que é preciso tratar da sua salvação

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antes de tudo, que um homem não faz falta a uma obra tão bela, que Deus saberá substituí-lo, que Deus não me abandonará, que sente necessidade de se retirar e de trabalhar, que deve ir para a Grande Cartuxa, que teria feito melhor permanecer como Irmão e dedicar-se à Obra sem assumir a responsabilidade de padre, que esta responsabilidade lhe mete medo e que tem medo do julgamento de Deus, que, depois de passar alguns anos na Grande Cartuxa, voltará mais forte e mais seguro da sua vocação, que todavia a vocação do Prado é muito bela, que não escolheria outra, mas que deve partir. Não sei se depois de tudo isto ele se irá embora.

O P. Farissier continua com o desejo de ser missionário e, de tempos a tempos, insiste no desejo de ir para a China.

O P. Broche prefere Limonest ao Prado e ficará, penso, com o Senhor Jaillet.

O P. Delorme não tem saúde e não poderá trabalhar sozinho, apesar da sua coragem; tem necessidade de passar alguns meses no campo, e a partida dos seus companheiros não o vai animar nada.

Se as cosias forem assim, pedirei aos latinistas que vão para o Seminário e não poderei receber as crianças da Primeira Comunhão. Não tenho saúde, nem coragem para fazer como antes. O bom Deus tinha-me dado ajudantes, bons coadjutores; Ele toma-os de novo, que o seu santo nome seja bendito. O bom Deus provará, de uma forma evidente, que não tem necessidade de ninguém para fazer a sua obra; vocês dizem todos que o bom Deus não tem necessidade de ninguém, que fará tudo bem sem nós, é evidente; penso que depois de nós o bom Deus enviará outros que farão melhor que nós; é a minha única consolação e a minha única esperança, porque experimentarei mesmo assim

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uma certa pena de ver o Prado deserto e sem crianças, enquanto que, durante dezoito anos, foi o lugar de tantos suores, trabalhos e conversões.

Ide todos rezar e fazer penitência nos claustros; lamento não poder ir também, porque tenho mais necessidade do que vocês, sendo mais velho e por conseqüência tendo muitos mais pecados do que vocês; mas, se não vou para aí, irei talvez para Saint-Fons, e terei a consolação de ter feito trapistas e cartuxos e missionários, se não consegui fazer catequistas, embora, parece-me, esta é hoje a necessidade da época e da Igreja.

Adeus, meu caro amigo, reze por nós, e sobretudo por mim que pensava ter feito alguma coisa, uma obra, e vejo que não fiz nada. Oxalá esta humilhação me possa ensinar e espiar todos os meus pecados de orgulho e outros da minha vida.

Seu Irmão em Jesus Cristo abandonado na cruz.” (Carta ao Pe Jaricot n° 153)

“Deixar Deus fazer…”

“Deixar Deus fazer”, é aprender a sofrer com Jesus, é deixar-se esculpir por Ele e morrer com Ele para ter parte em sua vida e ressurreição. Nos momentos de provação sobretudo, o Padre Chevrier sabia conduzir aqueles e aquelas que se confiavam a Ele, ao caminho do despojamento completo para uma entrega total a Jesus Cristo:

“Santa Catarina queixava-se um dia a Jesus pela cruz pesada que a fazia levar e Nosso Senhor respondeu-lhe: Como gosto de te ver sob o peso da cruz; glorificas-me mais num momento de sofrimento comigo do que em muitos anos de alegria e consolação.

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Cara filha, é mil vezes mais agradável a Jesus nestes dias de tribulação e de prova do que o foi antes em todos os seus momentos de alegria e de felicidade; console-se, Jesus realizou os seus desejos; desejou ser toda para Ele; Ele mesmo se encarrega de realizar esses desejos; a pobre natureza revolta-se, é verdade; é tão duro abandonar-se por inteiro, mas é necessário e nunca será d’Ele se Ele não a separar de tudo na terra; sabe quanto o natural a influencia, pois bem, para o destruir, é preciso tempo, são precisos muitos golpes de martelo; deixe que Jesus os dê, Ele encarrega-se de tudo. Veja como Ele começou bem e como é um bom operário; deixe-O fazer, Ele talhará bem e retirará tudo o que há de sobra em ti.

Aceite tudo com submissão; os seus sofrimentos fazem-me pena mas não posso deixar de agradecer ao bom Deus por fazer tão bem o seu trabalho e peço que Ele lhe conceda a graça de O compreender e de não se opor à obra de Deus em ti.” (Carta a Senhora Franchet n° 297, 1866)

“Aproveite sempre os seus sofrimentos, é o tesouro do bom Mestre; Ele põe-na na cruz para a conformar com Ele; Ele fá-la sofrer para fazer de ti uma pedra que deve entrar, como diz São Pedro, na estrutura do seu edifício espiritual e celeste. Portanto, deixe-se talhar bem. Há tanto que tirar dessa pedra e não duvide porque é verdade.

No sofrimento pratica a humildade, a paciência, a caridade, a submissão a Deus e tudo isso purifica, limpa e aperfeiçoa; coragem! Deixe trabalhar o bom operário celeste; ele sabe bem onde é preciso bater e agarra bem a parte que é preciso retirar. Você sabe bem como

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algumas pedras têm necessidade de ser trabalhadas mais que as outras. Você é uma dessas pedras; aceite e deixe fazer.” (Carta a Senhorita de Marguerie n° 432, 1875)

“A purificação da sua alma está na aceitação de todas as penas, aridez ou privações que lhe acontecem. Rezo por ti e peço que a sua alma se liberte cada vez mais a fim de que ela se torne em ouro puro digno de ser oferecido a Deus. Foi Deus que a lançou no fogo para a purificar. Ele percebe disso melhor que nós. Deixemo-lo agir. Tudo conduz à sua glória. Não deixe de corresponder à sua graça e às suas boas inspirações. Elas não vos faltarão.” (Carta a Sra Franchet n° 344)

Sofrimento e perfeição

Os textos que seguem revelam a que admirável perfeição pode levar o itinerário do discípulo tal qual está expresso no « Quadra de Saint Fons », quando esse itinerário é vivido na carne de um apóstolo com Padre Chevrier:

“Quarta-feira… eu tenho uma imensa necessidade de graça e de luz, de expiação…

Para merecer a graça, a luz, o perdão, Jesus Cristo se humilhou, se fez pobre, sofreu. Eu devo fazer o mesmo.

Maior é o despojamento exterior e interior em uma alma, mais a graça é abundante nesta alma, mais a luz e o Espírito de Deus aí afluem. Que farei eu?

A conformidade exterior a Nosso Senhor é um meio de chegar a conformidade interior…

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É pela pobreza, humildade, morte, que Jesus fez nascer sua Igreja; é também por isso que nós seremos fecundos.” (Ms X, p. 29)

“É preciso ser muito humilde, muito desapegado e despojado de tudo como um pobre mendigo. Quando será que me hei de ver bastante desprezível aos meus olhos e aos olhos de todos para que a luz de Deus me esclareça e me conduza?” (Carta à senhora Franchet n° 333)

“As humilhações e os sofrimentos é que fazem homens verdadeiros; um homem que não sofreu nada e que não resistiu nada não sabe nada e não é bom para nada.” (Carta ao seminarista Maurício Daspres n° 130, 1877)

“Saber sofrer bem é toda a perfeição.” (Carta à senhora Franchet n° 379)

O sofrimento é o caráter de um verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo… É o grande sinal do amor verdadeiro… É a marca das grandes almas.” (V.D. p. 486)

“Toda a obra de Deus deve, antes de tudo, levar o selo da pobreza e [do] sofrimento…

Não são nem as terras, nem as casas, nem o ouro, nem o dinheiro que fazem obras de Deus. São os homens, homens generosos, devotados, que sabem sofrer, animados do espírito de Deus.


Aí está o que é necessário para fazer as obras. Dai-me uma alma generosa, devotada, que saiba sofrer, valerá mais que um milhão. E quando, ao lado desta alma, se junta uma outra animada do mesmo desejo e caminhando para

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o mesmo fim e unidas juntamente pelo amor de Deus, está fundada a obra.” (V.D. p. 308)

“As tribulações e as cruzes são os meios mais rápidos, mais seguros para nos fazer chegar à perfeição da caridade.” (Carta a senhora Franchet n° 291, 1863)

“Antes de ser um pão de vida, é necessário passar pelo Presépio e pelo Calvário. Assim, o trigo é necessário batê-lo, tirar a palha e o farelo, depois moê-los; ele perde sua forma agora pode tornar-se o pão útil a nossos corpos… se alguém comesse o trigo com a espiga, ele faria mal; com o farelo não seria comestível. Quando ele é moído, então se torna um alimento. Assim nós: nós não podemos ser úteis ao próximo para a alma e para o corpo, senão quando passamos pela morte.” (Notas de retiro, 1866 – Ms X, p. 24)

“Importa fazer do nosso corpo uma hóstia viva, levar no nosso corpo a morte de Jesus Cristo, a fim de que nele apareça a vida de Jesus Cristo.

Tornamo-nos hóstias vivas consumindo-nos por Deus como uma vítima que se imola cada dia por ele, como um círio que se consome pelo fogo, como o incenso que se consome queimando-se e aniquilando-se ao espalhar um bom odor diante de Deus.

Tudo em nós deve propagar este bom odor de Jesus Cristo… tal como, quando se abre um frasco de perfume, o bom odor se escapa do frasco, assim conosco, quando falamos ou agimos, o bom odor de Jesus Cristo deve sair de nós, isto é, a sua fé, o seu amor, a sua mansidão, a sua humildade, a sua caridade.” (V.D. p. 197-198)

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“Somente almas despojadas podem fazer bem aos outros. Se alguém não é despojado de si mesmo, não pode ter o verdadeiro zelo, a verdadeira caridade, o verdadeiro espírito de sacrifício.” (P3, p. 143)

“A sabedoria está no despojamento de si mesmo, de toda a criatura e de todas as coisas terrestres. Quando adquirimos este despojamento completo, então podemos elevar-nos com Jesus Cristo até às regiões superiores do seu amor; então não temos nada de nós, nada terrestre, nada nos entristece, nada nos abate, nada nos perturba, porque tudo o que é terrestre é aniquilado e vivemos com Jesus Cristo; e então seguimo-lo por todo o lado, em todas as regiões superiores da caridade, do zelo, do sofrimento e da morte. Como é belo um homem, um padre que tomou este caminho, e quando ele o segue com Jesus Cristo, quantas coisas pode fazer…” (Carta a Senhorita de Marguerie n° 440, 1876)

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IX. O Espírito de Deus

O Espírito de Deus é raro

O Padre Chevrier sofria vendo a distância tão grande que existe entre o ideal que Deus propõe àqueles que Ele chama à santidade, e a indigência da resposta, a sua, mas também a de tantos padres e cristãos:

“Vejo o bem que deveria fazer e não o faço. Sinto que seria preciso ser forte para agradar ao Salvador e realizar com mais frutos este grande ministério e não faço nada. Não tenho coragem de ser um insensato para Jesus o nosso bom Salvador. Na oração, diante da Sagrada Eucaristia, quero fazer muitas coisas e, quando estou agindo, falta-me coragem. Tantas misérias! Reze pelo seu pobre capelão.” (Carta ao senhor Camilo Rambaud n° 20, 1859)

“O padre é um outro Jesus Cristo; isto é tão belo. Reze para que eu o venha a ser de verdade. Sinto que estou tão longe deste belo modelo que às vezes perco a coragem; tão longe da sua pobreza, tão longe da sua morte, tão longe da sua caridade…” (Carta ao Pe Gourdon n° 52, 1865)

“É preciso ter a coragem de o confessar: estais bem longe de possuir este espírito de Deus que vos é necessário para serdes verdadeiras filhas de Jesus Cristo; estais muito longe ainda desta renúncia

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completa que nos pede para Lhe pertencer inteiramente e O seguir na sua caridade, na sua humildade, na sua doçura e na sua entrega… Rezai a Deus para que eu possa trabalhar na minha e na vossa santificação, pois eu sofro no mais profundo da minha alma por nos vermos todos num estado tão triste e tão frouxo, nós que deveríamos ser tão humildes, tão fervorosos, tão caridosos, tão dedicados e pobres, de harmonia como espírito de Deus.” (Carta à Irmã Maria n° 170, 1869)

O Padre Chevrier dizia voluntariamente que “o Espírito de Deus é raro”:

“Sim, o espírito de Deus é raro, porque é muito difícil deixar inteiramente a própria razão, a própria ciência, a própria vida natural, os defeitos do próprio espírito, para se encher do espírito de Deus e não agir senão de acordo com o espírito de Deus.

É difícil estar de tal modo unido a Deus ao ponto de não fazer senão um com Ele; é difícil ser bastante humilde, bastante pequeno, bastante dócil, bastante silencioso, de modo que se o possa receber sempre bem e seguir as suas inspirações. As suas inspirações são, por vezes, tão doces, tão finas, tão imperceptíveis, para não dizer sempre, que é difícil apreendê-las, compreendê-las e aceitá-las. A ciência, a razão, o mundo, pelo contrário, fazem tanto ruído à nossa volta tal como os costumes da vida, que é muito difícil entendê-lo e segui-lo perfeitamente.

Para ter o Espírito Santo, é necessário ter deixado esta vida natural que nos envolve e nos conduz. É preciso ter lutado durante muito tempo contra os próprios defeitos, espirituais e carnais, é necessário ter estudado durante muito tempo o Evangelho, ter rezado muito tempo para o pedir. Quão raros são os que preencheram todas estas condições.

Aliás, a vida natural é tão forte em nós e a vida espiritual tão elevada, tão oposta à nossa natureza, que se é tentado

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a ver como impossíveis as inspirações do Espírito Santo que se trata frequentemente como quimeras. Os grandes ensinamentos do Evangelho, os conselhos são vistos como impossíveis e prefere-se mais seguir o caminho habitual, a via ordinária do que abraçar os caminhos elevados e muitas vezes áridos para a natureza, que vêm do Espírito Santo. E, depois, pelo raciocínio, destrói-se todo o Evangelho, encontra-se sempre maneira de arranjar as coisas e de manter a vida natural.

O raciocínio mata o Evangelho e destrói tudo o que há de elevado, de grande, de espiritual, nos preceitos e nos conselhos de Nosso Senhor; assim, no que respeita à pobreza, ao desprendimento, à caridade, à renúncia, à mortificação, à penitência.

Por isso, quando se encontra alguém sobre a terra que tem o espírito de Deus, como se o procura! como se corre a ele! como se vem procurar este espírito, estes conselhos que vêm do alto; parece, então, que se está com Deus e que é o céu na terra; é raro e, no entanto, não dependeria senão de nós tê-lo enchendo-nos do Evangelho e pondo-o em prática.

O espírito de Deus! dá-lo a alguém é o maior tesouro que Deus lhe pudesse dar. É também o maior tesouro que Deus faz à terra, dar o seu espírito a

alguns homens para que os outros possam vê-lo, consultá-lo e segui-lo, aproveitar dele.

Peçamo-lo a Deus e não cessemos de o pedir para nós e para os outros.” (V.D. p. 228-229)

“O Espírito de Deus é tudo!”

“Ó meu Deus, dai-me o vosso espírito, é a oração que devemos fazer continuamente e sempre, em cada momento; o espírito de Deus é tudo! Se somos

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animados por ele, temos tudo, possuímos todas as riquezas do céu e da terra.

Porém é necessário pedí-lo com a intenção real de o receber, com a vontade de fazer todo o possível para o adquirir, com a vontade de fazer todos os sacrifícios possíveis e exigidos para o ter e o receber; de outro modo, não o poderemos receber e Deus não no-lo poderá dar.

O espírito de Deus não está nem numa regra positiva, nem nas formas, nem no exterior, nem nos hábitos, nem nos regulamentos; está em nós, quando nos é dado. Ouve-se este som, mas não se sabe donde vem, nem para onde vai, sopra onde quer. Vem até nós no momento em que menos esperamos. Quando o procuramos, não o encontramos; quando não o procuramos, encontramo-lo; é independente da nossa vontade, do momento, do tempo e da hora; vem quando quer, a nós compete recebê-lo quando vem. Ele tem a liberdade de ação e é independente de nós, mas se comunica a nós quando menos pensamos; não está no raciocínio nem no estudo, nem nas teorias, nem nas regras; é o fogo divino que mexe sempre, que se eleva ao alto de modo irregular, se manifesta e desaparece, como a chama do madeiro; importa apreendê-lo e alegrar-nos com ele quando se manifesta… e conservá-lo todas as vezes que se nos comunica.” (V.D. p. 511)

“Temos ainda que rezar muito, falta-nos muito para receber o espírito de Deus. Oh! não pareis nunca de pedir para mim o espírito de Deus, isso é tudo. Se temos o Espírito de Deus, teremos tudo; se eu próprio o puder adquirir um pouco, para o comunicar a vocês, como serei feliz, porque terei acabado a minha obra. Peçamo-lo uns para os outros; não deixemos de recitar todos os dias em conjunto o Veni

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Creator, para que o possamos receber em abundância e para que eu o possa comunicar a vocês.” (Carta ao seminarista Cláudio Farissier n° 117, 1877)

“É necessário, antes de tudo, colocar a seiva interior”

“Numa época em que se insistia sobretudo na ordem e na disciplina, o Padre Chevrier lembra que, na formação dos cristãos, é o Espírito Santo que deve produzir todo o exterior.

O exterior supõe o espírito de Deus mas não o dá. Eis uma comparação que pode fazer compreender este ponto.

Temos duas árvores, uma artificial e outra natural. São perfeitamente semelhantes.

A árvore artificial foi feita pela mão do homem: o tronco, os ramos, as folhas, as flores, os frutos são belos, de belas cores, de belas formas; assemelha-se perfeitamente à árvore natural, é admirável do ponto de vista da ordem, da organização, da forma, da cor e da semelhança; mas esta árvore não tem raiz, nem seiva; não tem vida, é morta, tem apenas uma vida artificial, uma vida de aparência.

Foi o homem que fez tudo isso, Deus nada pôs ali de si próprio. É bela à vista mas não tem vida interior e não tem frutos verdadeiros, os seus frutos não são bons para comer e as aves do céu não vêm ali para se repousar e alimentar-se.

Na árvore natural, ao contrário, o homem fez poucas coisas, o homem plantou, podou, regou, mas foi Deus que a fez crescer.

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Há uma seiva interior e misteriosa que se não vê mas que vem de Deus e que dá a vida; esta seiva misteriosa é que produziu o tronco, as flores, as folhas, os frutos; e os frutos são bons para comer.

Há, nesta árvore, uma vida interior que vem de Deus e que não existe na outra: qualquer que seja a beleza da árvore artificial, não será nunca senão uma árvore morta e a outra será uma árvore de vida…

Ocupa-se muito mais do exterior do que do interior. Não se põe a seiva vivificante, fazem-se árvores artificiais, fazem-se árvores mortas.

É que é muito mais fácil fazer uma árvore artificial do que uma árvore natural e viva. A árvore artificial não exige senão um pouco de cuidado, de trabalho, de energia, de exatidão, de regularidade enquanto que para fazer uma árvore viva, é preciso dar a seiva vivificante, é necessário comunicar esta seiva às almas a quem se instrui e, para a comunicar, é preciso tê-la, é preciso dar a graça, a vida, a fé, o amor vivificante e isso não se dá se não se tem e não se o adquire sem esforço e sem Deus. É um trabalho espiritual bem mais difícil do que o trabalho material.

Em nós, é o Espírito Santo que deve produzir todo o exterior. É necessário começar a pôr em nós o espírito de Deus e, quando aí está, faz como a seiva da árvore, produz em nós todo o exterior.

Importa ocupar-se muito mais do interior do que do exterior, dar muito mais importância ao interior do que ao exterior; ponde o interior nas almas e o exterior virá sempre; ponde o exterior, nada fizestes.

Dir-se-á que o exterior é o indício do interior; nem sempre, há pessoas que podem conter-se melhor do que outras exteriormente e que são menos agradáveis a Deus do que outras, que têm menos exterior e mais interior,

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que têm melhor boa vontade, fazem mais esforços. Não julgueis segundo as aparências, segundo o rosto, diz Nosso Senhor.

Pôr o exterior sem o espírito de Deus, é um corpo sem alma. Começar pelo exterior é construir no ar, sem fundamento, é fazer máquinas, cata-ventos. Importa, antes de mais, pôr a fé, o amor de Deus, a seiva interior.” (V.D. p. 220-221)

“Não há que dedicar-se demasiado à casca; muitos não pensam senão na casca, não vêem senão a casca, não julgam senão pela casca; é necessária a casca para conduzir a seiva, levar a seiva, mas o que é a casca sem seiva? uma árvore morta; é necessário proteger a casca da árvore, mas é necessário, sobretudo, regar, estrumar a árvore para ter uma boa seiva, forte e vivificante e a árvore será bela e magnífica. Ter o cuidado das raízes.” (V.D. p. 224)

Daí as recomendações do Padre Chevrier aos que ele dirigia nos caminhos da vida espiritual:

“Aprenda sobretudo a fazer bem a oração; nela aprendemos mais do que nos livros; se a souber fazer, o Espírito Santo lhe ensinará muito.” (Carta ao João-Cláudio Jaricot (Seminarista) n° 61, 1866)

“Lembre-se também que o melhor diretor é o Espírito Santo; Nosso Senhor é o maior diretor das nossas almas; se o consultar ele lhe …mais do que eu e muitas outras; aprenda a contentar-se com ele, e ele lhe reprovará mais faltas no silêncio da oração do que eu poderia fazer em todos os discursos que lhe poderia fazer.” (Carta a Senhorita Grivet n° 388, 1878)

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“O Espírito Santo nos dá o amor…”

Despertando e fazendo crescer o amor no coração dos homens, o Espírito Santo leva à perfeição a obra de Deus em cada um de nós e na humanidade.

“O espírito de Jesus está na caridade: é este o princípio de vida que vem do Espírito Santo que é amor por essência… O amor de Deus e do próximo, eis o princípio e a seiva vivificante que deve produzir tudo em nós; quando há isso numa alma, há tudo o que é preciso.

Mais vale a caridade sem exterior do que um exterior sem caridade. Mais vale a desordem com amor do que a ordem sem amor.” (V.D. p. 223)

“O Espírito Santo que é amor, produz as obras de Deus. O Espírito Santo é o grande realizador das coisas de Deus, é o grande operário do Pai e do Filho…

O Espírito Santo põe em movimento os sentidos interiores da alma, abre nossos sentidos espirituais, o olho da alma, o ouvido da alma, o gosto, o olfato, o tato, o amor de nosso coração para as coisas espirituais. De sorte que, quando temos o Espírito Santo, nós vemos, ouvimos, compreendemos, sentimos, tocamos as coisas de Deus…

O Espírito produz obras espirituais e admiráveis de Deus pelo amor. Muitos compreendem só pela inteligência, e nada pelo coração. Os que compreendem só pela inteligência nada produzem, porque só o amor produz alguma coisa. Eles não têm o Espírito Santo e são impotentes para produzir qualquer coisa de celeste o espiritual.

O Espírito Santo é um fogo que põe tudo em movimento em nossas almas quando nelas há os primeiros elementos

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que devem ser postos em movimento; a existência dada pelo Pai, e o conhecimento ou a luz dada pelo Filho, esta forma exterior que se mostra a nós, que vemos, mas não podemos compreender e amar senão pelo Espírito Santo.” (Ms X, p. 123)

Não deixarei passar esta bela semana do Pentecostes sem vos dizer uma pequena palavra. É a semana do Espírito Santo e vós sabeis como temos necessidade deste Espírito para viver da vida de Deus.

O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do espírito é espírito, e Nosso Senhor diz-nos ainda que quem não renascer da água e do Espírito Santo não pode entrar no Reino dos Céus. É preciso portanto receber esta nova vida, tomar esta nova vida e operar em nós este segundo nascimento do espírito, o único que nos aproximará de Deus; o que nasceu da carne é carne, e sim, nós temos este primeiro homem de Adão com todas as suas ambições, os seus defeitos, as suas misérias, as suas fugas funestas; tudo isto existe em nós como conseqüência do pecado; é o Espírito Santo que vem destruir esta primeira natureza, este velho homem, pela sua graça e pelo seu poder, e dar-nos esta vida espiritual e divina que nos faz semelhantes ao nosso Criador; fomos feitos à sua imagem e à sua semelhança. É o Espírito Santo que restabelecerá esta imagem e esta semelhança apagada infelizmente pelo pecado.

Oh! rezemos portanto muito ao Espírito Santo, é necessário. Para nos fazer compreender esta necessidade, Jesus Cristo dizia: É necessário que eu vá para vos enviar o Espírito Santo. As três Pessoas divinas têm uma operação a fazer em nós, para fazer de nós homens perfeitos: o Pai cria-nos, o Filho mostra-nos a verdade, o caminho, é a nossa luz, mas o Espírito Santo

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dá-nos o amor, faz-nos amá-lo; e quem ama compreende, quem ama sente, quem ama pode agir. O Espírito Santo acaba portanto o que Jesus Cristo começou.

O Pai dá a existência, o Filho revela-nos a nós e mostra-nos Deus e o caminho, e o Espírito Santo faz-nos compreendê-lo e amá-lo. Estas três operações da Santíssima Trindade realizam-se em nós e são todas igualmente necessárias tanto umas como as outras; mas a operação do Espírito Santo é por assim dizer a mais necessária, porque, de que serve ver se não se compreende aquilo que se vê? De que serve ouvir, se não se compreende aquilo que se ouve? De que serve ainda compreender se não se ama? Que possais vós compreender bem esta operação do Espírito Santo em nós, a fim de que lhe possais pedir que aja em vós e não pôr nenhum obstáculo à sua ação.

Que o Espírito Santo seja portanto a vossa luz e o vosso amor, que vos faça compreender e amar o Pai e o Filho, e então vós sereis verdadeiramente filhos de Deus que não nasceram da carne nem do sangue, mas que nasceram de Deus pelo Espírito.” Carta ao seminarista João Broche n° 93, 1873)

“É o Espírito Santo que produz em nós Jesus Cristo…”[10]

Em algumas páginas de admirável densidade, o Padre Chevrier explica que a função do Espírito Santo é a de formar Jesus Cristo nas suas criaturas que são os homens, a fim de introduzi-los na comunidade de Deus Trindade:

 “O Santo Espírito procedendo do Pai e do Filho e sendo a união das pessoas divinas, o seu ofício é de unir entre si as duas pessoas divinas, sendo ele mesmo o amor infinito das pessoas formando uma terceira pessoa que procede deste amor. O Santo Espírito, sendo a união das pessoas divinas, tem por ofício as três pessoas juntas, e, por isso mesmo, de unir as pessoas de fora que são criaturas de Deus, a Deus mesmo.

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Ele preparará e formará Jesus Cristo sobre a terra, que é o Verbo Divino e a imagem do Pai, este Verbo que é um só com o Pai. Em seguida, Ele formará Jesus Cristo em todas as criaturas a fim de uni-las ao Pai pelo filho que faz um só com o Pai. Ele nos faz assim entrar na Santíssima Trindade pelo Filho, com quem nos fazemos um só por sua formação em nós pelo Espírito Santo.

O Ofício do Espírito Santo é, pois, primeiramente formar Jesus Cristo sobre a terra, formar seu corpo, preparar sua vinda, preparar a terra, os homens, os acontecimentos e as criaturas para receberem o Verbo Divino.

Observe com isso o trabalho do Santo Espírito: quanto trabalho, quantos obstáculos, que luta, que combate desde o início do mundo até agora, onde veio!

O Verbo não podia vir no começo no mundo, era necessário que o mundo fosse povoado, que o mundo fosse capaz de recebê-lo, que sentisse necessidade dele e que fosse bastante inteligente para recebê-lo.

O mundo para Deus é bastante semelhante à uma criança: ele é pequeno em suas fraldas; tem sua adolescência, sua infância, sua idade madura, sua força, sua decrepitude e sua velhice. Uma criança não pode compreender os preceitos muito elevados e uma moral muito alta; é necessário esperar a idade da razão para dar-lhe as lições adaptadas à sua idade. Assim, o Espírito Santo agiu em relação ao mundo para instrui-lo e prepará-lo para a vinda do Verbo. Houve a lei natural da sua infância; na sua idade da razão, houve a lei escrita: lei de força e de vigor, como um jovem tem necessidade de força e de vigor, de firmeza para cumpri-la; depois, em seguida a lei da graça e do amor que veio em sua idade mais avançada.

É o Espírito Santo que, tal como uma mãe, cuida da educação do mundo e o prepara, o guarda, e lhe dá o que é necessário para o nutrir, o instruir e o guardar, e lhe dá em tempo o que é necessário para sua salvação e a sua perfeição e o cumprimento do objetivo do Criador.

O Espírito Santo cuidou pois da infância do mundo e o guiou em sua fervente juventude e o preparou para receber o Messias, o Salvador, a luz verdadeira e a Salvação. E entre todos os diferentes obstáculos, o Espírito Santo fez, entretanto, o mundo caminhar para seu único fim, para

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o ponto culminante centro de todos os acontecimentos e de todas as coisas terrestres: Jesus Cristo.

Vejamos como o Espírito Santo trabalha neste grande acontecimento e como Ele opera para fazer nascer Jesus Cristo, fazê-lo conhecer e amá-lo, fazê-lo desejar.

O Espírito de Deus é único: Ele é o mesmo em toda a parte, Ele é na terra o que é na Santíssima Trindade, Ele opera da mesma forma e sua ação é sempre unir as almas a Deus, como na Trindade, unir as três pessoas divinas para que sejam um só Deus.

O Espírito Santo está no mundo. Ele age nas almas e as leva para Deus: Ele as anima, as santifica, eleva-as e a todas dá as mesmas aspirações de amor, de fé, de caridade de que elas são capazes para uni-las mais intimamente a Deus, por ele e pelo Filho Divino.

Assim na terra, quando encontrar almas que serão capazes de entrar nesta união com Deus, Ele, delas, tomará posse para elevá-las até ao próprio Deus.

Quando Ele encontrar almas nas quais poderá fazer nascer o Verbo, reproduzi-lo sob qualquer aspecto ou por pensamentos ou por ações, Ele estará contente.

Então Ele agirá, cumprirá esse dever com felicidade e contentamento, glorificará assim o Pai e o Filho.

Daí vem que ele o reproduz nos Patriarcas que o figuram nas santas cerimônias. É Ele que inspira Moisés quando lhe dá a ordem da imolação do cordeiro, os diferentes sacrifícios da lei. É Ele que fala aos profetas e lhes anuncia o que há de ser e que faz o povo ter paciência para esperar que tudo seja pronto sobre a terra para recebê-lo.

Eis o ofício do Espírito Santo na terra: reproduzir Jesus Cristo em toda a parte, fazê-lo conhecer, mostrá-lo, falar dele aos homens, fazê-lo amar e fazê-lo nascer nas almas.

Todas as vezes que Ele encontrar ocasião, que Ele puder falar de Jesus Cristo nos profetas, nos homens santos como Davi, Jeremias, Isaías, Ele o fará, Ele estará feliz em encontrar homens capazes, bastante elevados para escutá-lo e ouvir sua voz.

É o Espírito Santo que conduz Abraão até ao Monte Sião para imolar seu filho e representar as condições da morte do Salvador. É este Espírito que inspira os homens santos e lhes faz dizer orações, coisas que todas têm relação com Cristo que deve vir.

No Antigo Testamento como no Novo, o Espírito Santo busca as almas nas quais Ele pode reproduzir Jesus Cristo no mundo e fazê-lo amar.” (Ms V, p. 401-405)

p. 103

Há dois capítulos da última edição que não foram traduzidos:

  • A vida fraterna
  • XI Maria
p. 121

XII. Tornar-se santo

“O Espírito Santo de Deus está nos santos”

Os santos tiveram um grande lugar na vida do Padre Chevrier: a Virgem Maria, a quem ele dedicou sua capela do Prado, sob o título de Nossa Senhora das Dores; São José, “pai dos pobres”; João Batista e João Evangelista; Pedro e Paulo nos quais ele via o “modelo dos padres”; Antão, o primeiro eremita, seu santo patrono; Francisco de Assis, que imitou Jesus ao pé da letra, por amor, na sua vida humana desde o presépio até a cruz; Gaetano de Thiène, que quis viver a pobreza no exercício do ministério sacerdotal; Francisco Xavier; Francisco de Sales; Vicente de Paulo; Francisco Regis; Bento Labre, João Maria Vianney, o Cura d’Ars, seu compatriota…

Ele admirava particularmente nos santos a simplicidade de sua fé a sua prontidão em responder aos apelos de Deus:

“Maria crê na palavra do anjo, crê na onipotência de Deus, ela crê no que Deus vai realizar nela; e esse ato de fé atrai nela o Filho de Deus. A fé faz milagres. Tudo é possível àquele que crê…” (Comentário dos mistérios do Rosário, Ms V, p. 430)

“Santo Antônio não raciocina quando houve numa Igreja esta palavra do Evangelho: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o ao pobre e terás um grande tesouro no céu. Ele vai, vende o que tem, dá-o aos pobres e retira-se para a solidão.

p. 122

São Francisco de Assis ouve também esta palavra de Jesus Cristo numa igreja: Não tenhais nem ouro, nem prata, nem sandálias, nem duas túnicas. Toma isso para si e deixa tudo para se fazer o verdadeiro pobre de Jesus Cristo no mundo.

Eis a simplicidade de criança que Nosso Senhor pede para os seus verdadeiros discípulos.

Quantos raciocínios teriam podido fazer todos os santos que seguiram o caminho evangélico, para os impedir de entrar num caminho tão elevado, tão perfeito, tão difícil para a natureza e se eles se tivessem deixado apanhar por todos estes raciocínios, nunca se teriam tornado santos…

É o raciocínio que mata o Evangelho e que tira à alma este impulso que nos levaria a seguir Jesus Cristo e a imitá-lo na sua beleza evangélica.

Os santos não raciocinam tanto. E é porque há tantos raciocinadores que há tão poucos santos!” (V.D. p. 126-127)

Só os santos podem renovar o mundo

Os santos têm o poder de abalar o universo em razão de sua união com Deus. Para o Padre Chevrier, “tornar-se santo” pela união do Cristo e ao seu Pai no Espírito Santo é uma graça a pedir cada dia, para si e para seus irmãos, e ao mesmo tempo uma missão, a missão mais importante e mais necessária dos discípulos de Jesus na terra:

“Deus enviou-nos o pão material até este dia, mas isto não é nada; peço-lhe almas dedicadas, almas generosas, pedras vivas, santos. Sede, caros amigos, estas pedras, estes santos, estas almas generosas que

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devem trabalhar por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, para continuar na terra a sua vida de sacrifício, de doação e de caridade; tornai-vos outros Jesus Cristo, estudai-O, é o vosso modelo. Visitai muitas vezes em espírito o Presépio, o Calvário e o Sacrário, para daí retirar o espírito e a vida que vos devem animar para sempre.” (Carta ao seminarista Cláudio Farissier n° 89, 1872)

“Um padre santo, pobre, é toda a riqueza.” (V.D. p. 520)

“Ter um pouquinho de santidade e de pobreza vale mais do que todo o brilho do mundo.” (V.D. p. 521)

“É preciso praticar as ações dos santos. É preciso seguir à letra o Evangelho…” (Palavras do Padre Chevrier a Senhorita Tamisier)

“Meus caros filhos, é preciso que nos tornemos santos.

Hoje mais que nunca, só os santos podem trabalhar utilmente para a conversão dos pecadores, para a glória de Deus…

Oh! Como os santos faziam belas coisas na terra! Como eram agradáveis a Deus e úteis ao próximo! Os santos são a glória de Deus sobre a terra! Eles são a expressão viva da divindade cá em baixo! São a alegria dos anjos e a felicidade dos homens!

Um santo é um homem que está unido a Deus, que faz uma só coisa com Ele! Que pede a Deus! Que fala a Deus! E a quem Deus obedece! É um homem que tem todos os poderes de Deus na sua mão! É um homem que move o universo inteiro quando está bem unido ao Mestre que governa todas as coisas.

Os santos são os homens mais poderosos da terra! Atraem tudo a eles, porque têm a caridade e a luz de Deus, e a fecundidade do Espírito Santo. Eles têm a riqueza de Deus que distribuem a cada criatura! São os ecônomos do bom Deus na terra!

p. 124

E é preciso, meus caros filhos, que vos torneis santos! É preciso que vos torneis luzes para conduzir os homens no bom caminho! Fogo para aquecer os frios e os gelados! Imagens vivas de Deus sobre a terra para servir de modelo a todos os cristãos!

Oh! Caros filhos, trabalhai para vos tornardes santos! Não chaga-se lá de seguida; para isso é preciso trabalhar muito tempo, e desde o princípio da vida; é uma grande tarefa para cumprir, uma mete muito alta para atingir! Mas é preciso chegar lá para virdes a ser bons padres! Um padre que não é santo faz pouca coisa, pouco bem às almas! E é preciso que, sobretudo vós, trabalheis cada vez mais para serdes santos!” (Carta aos quatro seminaristas em Alix, n° 82, 1872)

“Oh! sede santos! É este o vosso trabalho de todos os dias.” (Carta ao seminarista Nicolau Delorme n° 105)

“É à perfeição que Jesus Cristo nos chama, a nos tornarmos verdadeiros discípulos.” (V.D. p. 121)


[1]      As citações do « Verdadeiro Discípulo » (VD) se referem à edição crítica apresentada e notada pelo Pe. Berthelon: “Le prêtre selon l’Evangile ou Le Véritable Disciple de Notre Seigneur Jésus-Christ”, Lyon 1968. Existe também uma edição em língua espanhola, Desclée de Brower, Bilbao. A versão portuguesa saiu no ano 2007 e está disponível no Prado.

[2]      Indicar-se-ão, o mais das vezes, os correspondentes aos quais se dirige o Padre Chevrier, assim com as datas em que foram escritas as cartas. Foram publicadas em francês e espanhol. Vão ser publicadas em Português e já existem na versão numérica.

[3]      A sigla Ms I, II, III, etc. Indica os volumes dos manuscritos do Padre Chevrier donde provém o texto.

[4]      A sigla P. 1, 2, 3 e 4 indica os vários volumes do processo de beatificação nos quais foram consignados os depoimentos das testemunhas.

[5]      Na capela de Saint-Fons a terceira parte do quadro encontra-se ao centro, pintada sobre a parede onde se encontra a porta que dá para a capela. Esta disposição exprime bem a convergência do conjunto para esta terceira parte.

[6]      Dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, também vós façais. (Jo 13,15).

[7]      Nesta parte, no manuscrito, encontram-se esboçados três desenhos: o Menino Jesus no Presépio, uma Cruz e uma Hóstia.

[8]      Pequena localidade próxima de Lyon

[9]      Ms XII 200 – Como São Francisco, meu Pai, o verdadeiro pobre de Jesus Cristo.

[10]    Colocamos o texto completo do manuscrito o que não era o caso nos Escritos Espirituais

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