Faça-se Senhor que estejamos como os pastorinhos e não como os donos das hospedarias de Belém

Dada e Mathilde (ir ver outros fotos)

Pontos da minha reflexão para a homilia do Natal

Neste ano, a festa do Natal tocou particularmente o meu coração. Meditando sobre as leituras do Natal, o que havia dentro do meu coração, o que tinha preparado para a homilia antes dos encontros dos últimos dias, eram as seguintes reflexões:

–     O amor de Deus que não quis ficar distante de nós tocou o meu coração. Ele enviou profetas mas não foram recebidos. Ele deu a sua Lei de amor, mas os homens não a acolheram. Por fim, Ele nos enviou o seu Filho único. As nossas recusas, as nossas traições não foram motivos para Ele nos amar menos, pelo contrário, foi razão para Ele nos amar ainda mais, até dar a sua vida para nós.

–     O jeito dele vir é assustador : em vez de descer de uma maneira mágica, em um grande « show » celeste, chegando adulto, ele se fez bebê, com uma fralda, numa manjedoura, incapaz de falar, dependendo totalmente dos homens, do “sim” de Maria e de Jose, do nosso “sim”, para vir para o meio de nós, passando 30 anos “escondido”, silencioso e partilhando a vida comum dos homens.

–     Fez-se tão semelhante a nós, ou melhor dizendo, tão semelhante aos pobres, que nasceu num país ocupado, numa multidão jogada nas estradas pelos caprichos de César, de tal modo que a as pessoas de Belém, encontrando-se com esses emigrantes sujos e cansados pelo caminho, nem perceberam que estavam na presença da Mãe do Salvador e não deram lugar para eles na pousada.

–     O Menino Jesus nasceu no estrume, fora da cidade. Será que os anjos fizeram uma festa no céu, ou foram os pastorinhos que ao perceberem que havia gritos dentro da gruta onde costumavam abrigar o rebanho, foram ver o que estava acontecendo? Porém, deixaram o Espírito Santo falar aos seus corações, escutaram, puseram-se a caminho, viram, acreditaram e espalharam esta boa nova.

–     Hoje também, Jesus está ainda nascendo, identificando-se com os mais pobres, aquele mais afastado da Igreja, com o risco de estarmos tais como os estalajadeiros de Belém, incapazes de reconhecê-lO, insensíveis com esta mulher grávida perto de dar a luz, sem lugar para acolhê-lo.

–     Ainda hoje, o Menino Jesus vem nos encontrar e nos chamar para ser tal como os pastorinhos de Belém, os que ouvem, levantam-se, vêm ao encontro dele, veem, acreditam, anunciam.

As pessoas presentes na casa paroquial no momento do Natal

Na continuação da homilia, eu partilhei aonde eu tinha percebido a presença de Cristo hoje em Isaka, um dos quatro patrimônios da nossa paróquia, nos encontros dos últimos dias antes do Natal e que tocaram muito o meu coração assim como o coração das pessoas que estavam comigo:

–     Olivier e Mathilde, voluntários chegados em Fianarantsoa no mês de outubro passado. Vieram para trabalhar na diocese durante dois anos;

–     Evarista, segundo ano do seminário, vindo “em missão” em Isaka para o Natal;

–     Stanislas e Aina, dois jovens que estão fazendo um estágio como professores no colégio católico de Isaka entre o ano do Vestibular e o ano de propedêutica do seminário.

Pe Wilson, o nosso pároco, quis que renovássemos a experiência da missão pelo natal como no ano passado. Assim, os cristãos das 33 comunidades de base foram convidados a formar equipes de missionários após as celebrações do domingo e de visitar todos os lugarejos das comunidades de base, encenando o Evangelho da Visitação, convidando as pessoas a iniciarem Círculos Bíblicos aonde ainda não tinha, convidando as pessoas a virem participar das celebrações na tarde do 24 de dezembro em todas as Comunidades de base e a virem participar das missas nos quatro “Centros”, igreja das quatro aldeias principais da paróquia no 25.

Missão na comunidade de base de Ankarimbahoaka no domingo antes do natal

Domingo 22 de dezembro de 2013: A missão na Comunidade de base de Ankarimbahoaka

Assim, no domingo 22, com Olivier e Malthide os cooperantes, com Olivier o seminarista, fomos celebrar a missa na Comunidade de base de Ankarimbahoaka. Na estrada, nós nos encontramos com uma criança que tinha aproximadamente 12 anos, o rosto e as pernas com várias feridas não tratadas que nos chamou e pediram esmolas. Nós não paramos, mas o rosto dele nos tocou.

Quando nós chegávamos em Ankarimbahoaka, a capela estava cheia. Depois da leitura do Evangelho, uma equipe do FET (Movimento Eucarístico dos Jovens) encenou o anúncio feito a José no Evangelho de São Mateus. Esta equipe está animada por Philippine, uma jovem com apenas 14 anos , que parou de estudar e recomeçou no 4° ano, esperando se tornar freira. Durante o almoço, “João-Maria Vianey”, coordenador da comunidade, contou como ele se libertou do álcool e ajudou sete pessoas do lugarejo dele a se libertar também. Depois do almoço, os cristãos formaram cinco equipes e visitaram todos os lugarejos da Comunidade de base.

No primeiro lugarejo que a nossa equipe visitou, as pessoas se diziam católicas, mas ninguém frequentava a Comunidade de base e vários não tinham recebido o batismo. A alegria deles quando nós os visitamos tocou os nossos corações. Disseram que as pessoas dos dois Círculos Bíblicos vizinhos já os haviam visitado e eles gostaram. Algumas pessoas não saíram e se esconderam nas casas quando passamos. Eu consegui dialogar com eles propondo entrar nas casas para abençoá-las. Ficaram surpreendidas e felizes ao mesmo tempo.

No segundo lugarejo, aquele de “João-Maria Vianey” que estava numa outra equipe, duas pessoas testemunharam a libertação delas do álcool quando pediram e receberam o sacramento dos enfermos e celebrei a missa na casa de “João-Maria Vianey” no mês de junho passado.

No terceiro lugarejo, na partilha depois da encenação do Evangelho da Visitação, falei da libertação das oito pessoas no lugarejo de “João-Maria Vianey” no mês de junho e uma senhora que devia ter 50 anos disse: “Padre, eu também me libertei desde agosto quando recebi o sacramento dos enfermos no fim da missa que encerrava a missão no Centro de Tomboarivo.”

Oração numa casa

Depois, fomos convidados a entrar na casa de João-Didier, com 28 anos, paralisado desde os quatro anos, que pediu o sacramento dos enfermos e a eucaristia. Enquanto ele contava o sofrimento dele, exprimia também a sua alegria e testemunhou como Marceline (Encontro com os coordenadores das comunidades do mês de novembro):: “A minha força vem de Jesus”.

No quarto lugarejo, as pessoas pediram-me o sacramento dos enfermos e a eucaristia para uma pessoa idosa, surda e cega. Enquanto eu me esforçava em chamar a atenção dela, ela estava preocupada em buscar o tabaco dela. Apoiando-me no pedido das pessoas, eu lhe dei o sacramento dos enfermos sem ela parecer perceber o que acontecia. Hesitei em lhe dar a comunhão: eu gritei nos ouvidos dela sem ela entender, mostrei-lhe a hóstia, sem ela poder ver, e, por fim, coloquei-lhe a hóstia na boca. Neste momento, respondeu um “Amem” claro e começou em rezar em alta voz enquanto todos se calavam e escutavam. Eu destaquei para a assembleia a fé desta mulher: quando tudo parecia quebrado no seu corpo envelhecido, o que ficava era esta fé tão forte.

Nos cinco lugarejos visitados, já havia três que tinham um Círculo Bíblico, um ano depois da fundação na nossa paróquia e dois lugarejos tinham uma equipa FET (Movimento Eucarístico dos Jovens). Quando nós deixávamos um lugarejo, havia gente que se juntava ao grupo dos missionários. Quando nós chegávamos ao último lugarejo, éramos cem pessoas, adultos, jovens, crianças, bebês, andando em equilíbrio sobre os pequeninos muros de terra que separam os campos de arroz cobertos com água, fila multicolorida que cantava. Espetáculo maravilhoso com as diversas nuances de verde dos campos de arroz no sol radiante.

Uma das pessoas da equipe insistiu para ainda visitar o lugarejo dela e o lugarejo vizinho apesar de já ser tarde. Não é preciso dizer que Mathilde e Olivier os cooperantes franceses, Evarista o seminarista, ficaram muito tocados e a partilha durante o jantar foi bem animada.

Dada fazendo o sinal da cruz

O acolhimento de Dada

Enquanto nós atravessamos Isaka a pé, o patrimônio principal onde nós estávamos baseados, nós nos encontramos de novo mas, desta vez, a pé. Com este rapaz que tinha talvez doze anos, com várias feridas no rosto, nos braços e nas pernas. Assim como eu perguntava ao Coordenador do Centro de Isaka, quem era esta criança, ele começou a rir e disse que não era preciso se preocupar, que ele era louco, que tinha crises de epilepsia e por isso tinha feridas. Eu não sabia o que fazer e limitei-me a cumprimentá-lo.

Depois do jantar, a criança bateu à porta. Ele pedia esmola e, por sorte (porque não temos cozinha e há uma senhora que nos traz a comida quando estamos em Isaka,) havia restos do jantar. Ele jogou-se sobre a comida. O cheiro, a sujeira, a miséria dele, eram assustadores. Além da epilepsia, ele tinha sequelas de hemiplegia esquerda e problemas de equilíbrio. Conseguimos conversar um pouco apesar de ele falar o dialeto local e não o malagasy oficial. Ele nos disse que se chamava “Dada” (papai em malagasy). Por consequência da epilepsia e dos preconceitos com esta doença aqui, estava vivendo na rua, abandonado pelos seus pais, rejeitado pelos moradores inclusive os cristãos apesar de ele receber um pouco para comer de vez em quando.

Na segunda-feira, nós fomos para o Centro de Tomboarivo onde eu me confessei para o Natal. No regresso em Isaka, pensávamos em nos encontrar de novo com Dada e, por isso, tínhamos reservado arroz. E assim foi: vendo que a porta estava entreaberta, ele subiu, entrou pela janela da sala onde nós estávamos e foi embora.

Na terça-feira 24 de dezembro, ele chegou enquanto nós tínhamos uma colação antes da missa da noite do Natal que ele partilhou conosco surpreendendo-nos com suas reflexões. Como ele nos tinha visto rezar antes da colação, ele fez o sinal da cruz com alguns erros, dizendo-nos que cristãos lhe ensinaram. Quando foi embora, nós partilhamos o quanto esta visita nos emocionou. Mathilde disse-nos que pensava em lhe propor de lavá-lo e de lavar a roupa dele mas que hesitou em fazê-lo. Depois foi a vigília com cânticos e encenações do Evangelho e, a seguir, a missa da noite. Olivier viu uma sombra entrar: era Dada que subiu à tribuna para lá assistir à vigília.

Na quarta-feira da manhã, dia do Natal, fui rezar diante do presépio na igreja para me preparar para a missa. Quando eu voltei para a casa, eu me encontrei com Dada, sentado à mesa, esperando para nós. Nós tomamos o café da manhã com Dada. Mathilde o ajudava a comer. Pouco a pouco, o rosto dele que era triste e fechado abriu-se e iluminou-se com um sorriso e olhares extraordinários para Mathilde. Olivier e Mathilde com a ajuda de Evarista pela tradução do diálogo com Dada, ofereceram para lavar Dada e lavar a roupa. Eles descobriram que tinha só uma camisa sujíssima mas nenhuma calça assim como uma pequenina cobertura na qual ele se enrolava. Ele se lamentou de não ter dormido bem na rua e nós tomamos consciência que, numa noite de Natal, nós deixamos uma criança sem fralda e sem presépio mesmo dormir do lado de fora, à nossa porta. No início, ele estava apavorado quando Mathilde quis lavá-lo mas, pouco a pouco, ficou feliz em ser limpo, em ter uma mãe que cuidava dele. Saciado, limpo, ele caia com sono e Mathilde o instalou com dificuldades na cama dela: tinha medo e não costumava dormir em cama, ainda menos porque aqui, a maioria das pessoas dorme no chão sem nada. Ela ficou sentada sobre a cama, vigiando-o , enquanto dormia profundamente. Ela se juntou conosco no momento da consagração.

Dada preparando-se para dormir

A homilia consistiu em partilhar as luzes meditadas nos últimos dias e, depois, em fazer a narração, destacando onde eu percebi que havia pastores que se deslocaram para ver Jesus e anunciar a Boa Nova (os missionários que visitaram os lugarejos, a equipe FET (Movimento Eucarístico dos Jovens), “João-Maria Vianey”, Jean Didier, os que se libertaram da doença do álcool, esta mulher idosa, surda e cega acolhendo Cristo nos sacramentos,…) e como nós somos também como os donos das hospedarias de Belém, incapazes de reconhecer a presença de Cristo no meio de nós, hoje com o rosto de Dada. Enquanto fazia esta narração, incentivava os que ainda não fundaram Círculos Bíblicos ou equipas FET nos lugarejos para fazê-lo, os que ainda estavam presos ao álcool para se libertar e se juntar aos pastores que já começaram a caminhar.

Eu pedia ao seminarista para tentar dialogar com Dada e lhe propor o batismo durante a missa. Mas Dada foi dormir. Eu partilhei com a comunidade este desejo e espero realizá-lo na missa dos batismos no dia cinco de janeiro. Eu queria dar-lhe oportunidade de fazer parte da comunidade, ajudar a comunidade a tomar consciência que ele era filho amado de Deus e não um animal e contando com esta capacidade impressionante dos mais pequeninos para entrar na compreensão do amor de Deus.

No fim da missa Olivier e Mathilde foram despertá-lo e ele almoçou conosco. Ele estava no centro da conversação e nós não podíamos esperar um Natal tão bonito. Precisou ir ao banheiro e foi fora da casa. Mathilde e Olivier descobriram que não sabia acocorar-se e ficou de pé, sujando as pernas, exatamente como os bois. Mathilde o lavou de novo.

Olivier, Mathilde e o seminarista regressaram para a cidade de Fianarantsoa. Dada ficou dormindo durante todo o início da tarde. Depois, saiu para passear no patrimônio. Edmundo, 31 anos, professor no colégio católico da paróquia d’Isaka e que passou uns anos no seminário de onde teve de sair por causa do álcool, veio para partilhar. Ele disse que ficou muito tocado pela homilia e pelo jeito da nossa equipe em viver o ministério. Às 18h, Dada voltou para a casa e quis comer o que havia no prato do gato. Edmond lhe disse para esperar e ele quis ir de novo dormir no quarto. Nós lhe pedimos para esperar o jantar, que não ia demorar e que ele fosse se deitar depois.

Havia crianças que estavam na janela olhando para nós, surpreendidos em ver aquele que estava considerado como “o louco do patrimônio”, sentado à mesa e partilhando conosco. Sr Edmond começou em falar com Dada do batismo e ele disse que o desejava. Sr Edmond tentou lhe ensinar o Pai Nosso.

O ensino das primeiras frases correu bem. Quando Sr Edmond chegou na frase: “Venha a nós o teu reino”, ele disse “venha a nós…” e Dada não lhe deixou tempo para acabar dizendo “…o jantar”. As crianças à janela riram dele e foi ocasião de refletir com eles.

Sr Edmond disse-me o quanto os que têm deficiência não são tratados como seres humanos e como o acolhimento de Dada por nós na casa paroquial, e a homilia tocaram o coração dele. Eu convidei Sr Edmond em convidar os cristãos a refletir sobre o acolhimento de Dada. Em Madagascar, não há a tradição tão bonita como no Brasil das Campanhas da Fraternidade e não esqueço da campanha “Levanta-te, vem para o meio”.

Como Dada não sabia satisfazer as necessidades naturais dele, depois de ter tentado lhe ensinar em se sentar no “banheiro” (um buraco numa madeira acima de um buraco), eu dormi no quarto de Dada para ajudá-lo quando ele precisasse ir para o banheiro. Não deu certo: pela manhã, a cama e a roupa estavam encharcadas e Dada se encontrava de novo com este cheiro nauseabundo. No café da manhã, ele pegava cada grão de arroz que caia no chão ou na mesa e lambeu o prato porque “era preciso que nada se perdesse”.

Sr Edmond voltou para a casa. Eu pensava que vinha para partilhar de novo sobre a vocação dele como tinha prometido na véspera, mas vinha pedir dinheiro porque, apesar de ser professor no colégio, não tinha mais nada para comer. Neste período, isso acontece muitas vezes sem que seja possível, às vezes nem oportuno, poder responder positivamente.

Se Dada dormiu numa cama na casa paroquial nesta noite do dia de Natal, como nos mudamos de lugares muitas vezes, ele teve de voltar para a rua no dia seguinte, quando deixei Isaka para o Centro de Befeta onde ia visitar um Círculo Bíblico.

O que fazer com Dada? Talvez fosse possível buscar um lugar para ele num orfanato. Pelo momento, prefiro incentivar os cristãos em Isaka a refletir juntos sobre o que fazer para acolher Dada, como dar a possibilidade ao mais pobres de se encontrar no centro da vida da comunidade até receber os sacramentos. Já sei que não será simples. Na quinta-feira de manhã, antes de sair para Befeta, Dada quis ir deitar-se na cama mas, eu já tinha limpado o colchão, o lençol, a cobertura e não queria que ele sujasse outra cama. Ele saiu da casa e foi se deitar ao pé da cruz da missão sem roupa, só com a camisa… Por fim, eu achei uma esteira e o instalei na sala de acolhimento na entrada da casa paroquial.

Preparação da encenação do Evangelho antes da missa.

Pessoas desenrolam as esteiras

Quinta-feira 26 de dezembro: Visita ao Círculo Bíblico do lugarejo de Soanitavanana

No domingo 22 de outubro (ver o texto “Encontro dos coordenadores das Comunidades de base no mês de novembro”), visitando o lugarejo de Simonet e Maria que acabavam de encenar o Evangelho do dia, lhes prometi de voltar visita-las, participar da oração do Círculo Bíblico, celebrando uma missa campal no lugarejo e dormindo na casa da gente.

Uns dias antes da minha vinda que afixamos para a quinta-feira 26 de dezembro, Maria disse-me que não será possível celebrar a missa porque ninguém no lugar tinha mesa nem toalha para o altar. Por fim, celebrei a missa após o dia do natal sentado com a gente sobre esteiras que as pessoas desenrolaram fora da casa. A equipa FET (Movimento Eucarístico dos Jovens) encenou o Evangelho e toda a gente do lugarejo estava presente inclusive uma família que brigava com os outros e não participava de mais nada em comum, inclusive os crentes que costumam de rezar no Círculo Bíblico a cada quinta-feira a fim da tarde. Depois da homilia, várias pessoas pediram e receberam o sacramento dos enfermos: um homem com hemiplegia recente, uma criança com doença da pela impressionante e que não pude ver um médico, duas pessoas que quiseram iniciar um combate para libertar-se do álcool assim como algumas outras pessoas.

Jantar na família

 

Eu insisti para a gente me receber como se eu fosse alguém da família e a não me receber como uma autoridade, sem me dar um frango quando ninguém tem dinheiro para comer isso, e sem me separar das crianças e das mulheres como é o costume aqui quando se recebe uma autoridade.

Depois do jantar, chegou a hora de dormir. Tinha pedido também de dormir no meio deles e não separado. Nós éramos umas dez pessoas, a mãe de Maria, viúva doente muito pobre, uma amiga dela, e as crianças dessas duas mulheres. Depois da oração da noite animada pela Simonet e Maria, Maria indicou a cada um o lugar sobre a esteira para dormir sem colchão nem lençol nem nada. Com a chegada da noite numerosos bichinhos invadiram as paredes e o chão da casa: pulgas, percevejos, moscas, formigas, pernilongos, assim como ratos que trabalharam toda a noite. Cada um coçava-se sem cessar, sem poder achar o sono. No fim, pediram para eu mostrar as fotos no computador que tinha na bolsa, contraste espantoso nesta casa muito pobre, sem nenhum móvel, estarmos todos juntos olhando para as fotos tomada na paróquia durante as missões. Quando não houve mais bateria no computador, eles começaram a cantar cânticos para se esquecer dos pequeninos companheiros até que o sono seja mais forte como o sofrimento provocado pelos bichinhos. Já era 2h da manhã quando pararam de cantar. Às 4h, a mãe se levantou para preparar o arroz. Eram eles que comentavam a presença de todos esses insectos dizendo que era assim todas as noites. As crianças que dormiam a direita e esquerda e perto da minha cabeça, durante o sono deles, instintivamente se aproximaram de mim, encolhendo-se conter mim. Apesar da dificuldade em suportar esses diversos bichinhos correndo sobre todo o meu corpo, picando, dando comichões, que grande alegria em dormir aqui no meio dos mais pobres, nem mesmo sobre a palha para utilizar uma expressão do Pe Chevrier, fundador do Prado.

No dia seguinte, Marie e Simonet disseram-me o quanto esta visita foi ocasião de reconciliação no lugarejo. Maria gostaria de ser freira mas não pode porque não pode deixar a mãe dela viúva e doente sozinha e está discernindo para se tornar leiga consagrada do Prado ficando no lugar. Maria prepara-se para entrar nas irmãs de São Paulo de Chartres porque ela “quer dar a vida dela para os pobres”.

Maria (a primeira) e Simonet

Acompanhamento de jovens pobres que têm vocação religiosa

Ao longo destes dias, eu me encontrei com jovens que não estudam ou que estudaram muito pouco e que queriam ser padres ou religiosas. Por isso, convidei uns dez deles para virem para um retiro na casa paroquial de Isaka da quinta-feira, dia dois até o domingo, cinco de janeiro. Para vários deles, não há perspetiva de poder entrar numa congregação ou no seminário do ponto de vista humana, mas eu gostaria pelo menos que eles percebessem que o chamado que eles ouviram foi ouvido e eles podem buscar como responder, seja na formação de uma família, seja como leigo ou leiga consagrada, vivendo no mundo. Eu espero também dar a possibilidade a um ou outro de se tornar religiosa como Florentine que estudou só até a sexta série e está entrando nas irmãs do Prado.

Da esquerda para a direita: Mathilde e Olivier, os cooperantes,

Aina et Stanislas, os futuros seminaristas professores em Isaka, Evarista seminarista no segundo ano de filosofia.

A alegria do almoço do Natal partilhado com Dada que Mathilde esconde na foto.

No momento de partir, os seminaristas disseram o quanto a visita deles em Isaka tocou-lhes os corações, com os Círculos Bíblicos que não existem na nossa diocese e que o bispo quer aumentar, com as encenações do Evangelho, a missão, os testemunhos das pessoas encontradas, e, com certeza, a partilha com Dada.

Eu não imaginava encontrar-me um dia vivendo em condições tão semelhantes às quais viveu o Pe Chevrier, fundador do Prado.

Há também expressões do Papa Francisco que se encontram em muitos dos seus discursos e que se encontram na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho” que ressoam para mim com muita força com o chamado para “sair”, “ir às periferias”, “tocar as feridas de Cristo no corpo dos pobres, levar o cheiro das ovelhas, assim como o jeito dele em fazer ressoar o grito dos excluídos.

Eu peço a Deus para mim e para todos, de fazer-nos de pastorinhos que ouvem, se levantam e se deslocam, veem e acreditam, e espalham a Boa Nova, em vez de nos tornarmos donos das hospedarias de Belém, impedindo o pobre de entrar porque não há lugar para ele e que não percebemos a presença assustadora de Cristo na pessoa dos pobres.

Padre Bruno Cadart, 25 de dezembro de 2013, dia do Natal

Padre Bruno Cadart, 25 de dezembro de 2013, dia do Natal

 

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