Revisão de vida – Equipe Prado Internet (Março de 2010)

Introdução para irmãos e irmãs do Brasil:

Como vocês sabem, sou membro de uma “equipe Prado Internet”. Cada mês, nos encontramos por Skype para partilhar as notícias do mês, o Evangelho do dia e um de nós faz revisão de vida. Nós: Lucas em Melo (Uruguay), Tiago em Cochabamba (Bolivia), Henri (era na Argelia mas voltou para Paris) e eu. Somos todos do Prado e saímos da França no mesmo momento. Nesta vez, é a minha volta de preparar. Decidi transmitir este texto há algumas pessoas muito próximas de mim para ter as reações delas, a ajuda delas.

Aqui em Madagascar, sinto muito forte o quanto foi profunda a ligação com vocês, bem além do que pensava, e portanto já pensava que foi, e sinto a necessidade de continuar a partilha com vocês.

Penso que vocês possam me ajudar pela oração, com certeza, mas também pela partilha. Vocês me olharam chegar (e permanecer) no Brasil, conhecem as minhas fraquezas, também a chamada de Cristo que recebi, temos o mesmo chamado no Prado (ou na missão partilhada na diocese de cachoeiro) e conto com vocês para reagir e me ajudar a seguir Cristo com mais proximidade. Este texto não é para uma grande difusão, mas, se vocês sentem que alguém puder ser interessado, deixo vocês transmitirem. Estou mais restritivo com a França que tem muitas ligações com Madagascar e não quero Malagasenses ler as perguntas que posso ter em relação com as limitações que têm e o caos do país.

Não sei se tiverem a paciência de me ler, de responder por escrito, mas é ocasião de lhes dizer com muita força, o quanto recebi de todos vocês, da Igreja do Brasil, do Prado de lá. Estou feliz em ter respondido à chamada de Cristo em Madagascar, mas tenho saudade de vocês e do Brasil.

Esta partilha pode ser também uma maneira de lhes partilhar o que esperava da nossa equipe Prado da diocese de Cachoeiro de Itapemirim (e estadual), se eu ficar: não só partilhar o Evangelho, mas fazer revisão de vida com alguém que prepara um texto a cada vez sobre um aspeto do ministério. É assim que fazíamos na França e que fazemos por Internet. Ajuda muito. E já de ter a “obrigação” de preparar…

Aquele que preparou lê o texto preparado com antecedência. Depois, tomamos 5 ou 10 minutos em silêncio. Cada um anota o que segue:

–     antes de tudo o que ele acolhe do que foi partilhado, onde ele percebe a obra do Espírito Santo,

–     depois as perguntas que ele tem para ajudar o outro em caminhar;

–     em fim cada um diz como isso esclarece a situação diferente onde ele está vivendo o ministério.

Depois de um breve tempo de silêncio, cada um expressa o resultado da sua meditação sem o colega que preparou a revisão de vida reagir imediatamente. Fazemos atenção para não entrar num debate, e deixar o silêncio nos ajudar a ir com mais profundidade.

Uma vez em que todos se expressaram, aquele que está fazendo revisão de vida diz o que ele acolha das palavras dos colegas, se quiser. A seguir, se temos tempo, uma pergunta pode ter surgido desta partilha sobre a qual todos partilham. O Evangelho partilhado antes está também colocado em relação com a partilha sobre a situação. O importante, para uma boa revisão de vida, é um texto (que não precisa de ter 8 paginas) no qual aquele que prepara dá elementos suficientes para os outros perceber a situação, que já é uma releitura de fé onde aquele que prepara apresenta o que ele percebeu da obra do Espírito Santo, as perguntas que tem de maneira um pouco organizada, as conversações para ele, as dúvidas, as convicções e descobertas, faz ligações com o Evangelho. Já meditou e não se limita em desabafar, ainda menos se ele apresenta uma situação de conflito.

Peço desculpa pelos erros de língua portuguesa… Em malagasy, não erro… porque nem falo! É sempre com muita alegria que escrevo, leio, ou rezo em brasileiro. Nesta vez, não houve ninguém para corrigir.

Introdução para os membros da equipe Prado Internet

Para que vocês tenham o tempo de ler, preparar, já envio a convocação para a nossa próxima revisão de vida da terça-feira 11 de maio. Nesta dia, haverá dois meses em ponto que cheguei em Madagascar. Lhes proponho que nós comecemos pela partilha dos acontecimentos desde a última revisão de vida. Depois, poderemos partilhar sobre o Evangelho da terça-feira 11, e também, nesta vez, sobre o Evangelho da quarta-feira 12 que completa.

Depois, farei revisão de vida sobre o que estou me tornando, dois meses depois da minha chegada em Madagascar. Envio o texto no caso eu não conseguir a me conectar pelo Internet tão fraco aqui.

Se puderem o ter lido antes, facilitará a nossa partilha. Pode acontecer que seja preciso uma atualização, porque a situação política aqui está muito complicada. Já tenho de atualizar 10 minutos depois de ter concluído a primeira redação (29/4 às 10h) porque leio que houve um estudante matado pela polícia numa manifestação em Antsiranana (norte de Madagascar). Nesta noite (29/4), enquanto tomou de novo esta revisão de vida, se diz no Internet que mais 6 estudantes foram feridos durante a precisão que seguiu a morte do estudante. Dois estão em estado grave. A conferência que tenta de achar uma solução política à crise atual e que acontece na África do Sul está bloqueada. Todos receiam uma explosão social violente.

Evangelho para a revisão de vida: o da terça-feira e da quarta-feira da 6ª semana (João 16,5-15)

(…) Coloquei em francês.

Quem estou me tornando após dois meses em Madagascar

A carta coletiva enviada no momento da Páscoa fica bem atual e apresenta bem o contexto no qual estou vivendo. Teria poucas coisas para corrigir ou completar. Queria tentar olhar aqui quem estou me tornando interioramente nesta aventura, quais as perguntas que tenho, os desafios com os quais estou vivendo.

Desafio da pobreza das pessoas e o eco no meu coração

Fico surpreendido em me “acostumar” com tanta pressa com a pobreza loca, a miséria para falar de maneira que corresponde melhor à realidade. Não noto mais a desordem total daqui, os “kalesy”, carrinhos construídos com madeira e empurrados por homens (e mulheres e crianças) que servem como “caminhões” locais, as pessoas que se lavam na rua, as crianças com farrapos que mendigam. Não estou mais assustado em saber quantas crianças estão sem família, vivendo na rua, em receber tantas vezes em dois meses a nota de falecimento de pessoas jovens, membros da família dos padres daqui, religiosas, sem nenhum diagnóstico medical, ou depois de uma agressão.

Na mesa, enquanto comemos sem faltar de nada, mesmo que a comida fique simples (e não tem o sabor da comida de Rosa o de Beta), evocamos as populações da parte Leste da diocese que sofreu o pior ciclone dos 50 últimos anos (no dia onde cheguei em Antanarivo, antes eu chegar em Fianarantsoa): eles não têm mais nada e buscam raízes para aclamar a fome.

Acostumar com a miséria, provavelmente, não seja só “pecado” ou “negativo”. É também sinal que vejo em primeiro lugar as pessoas, o acolhimento, a alegria delas em viver, assustadora para mim, e não primeiro tudo o que falta. Mas, não quero que isso se torne numa indiferença e numa incapacidade em me deixar questionar, atingir e colocar em movimento, por esta miséria.

A pobreza que me toca mais, é o desespero dos malagasy em relação a eles mesmo, sobre o futuro e que aparece nas expressões seguintes:

–     Pe. Gervais (responsável do Prado de Madagascar e vigário geral da diocese de Fianarantsoa) no caminho de Antanarivo para Fianarantsoa, quando cheguei: “Como é que nós, os Merena (habitantes da região da capital Antananarivo) e os Betsileo (região de Fianarantsoa, o que significa “numerosos invencíveis”), nós, pessoas da montanha que são inteligentes, conduzimos o nosso país num tal cãos?”

–     Conversa com Dom Fulgence, enquanto estávamos almoçando: “Às vezes, gostaríamos de poder voltar atrás… Que quer dizer?… Fazer tal como os habitantes das Ilhas Comores… Que quer dizer?… Voltar à colonização. Mas não tem ninguém capaz de tirar o país desta situação? Não. Um presidente era inteligente e honesto, mas sem capacidade política. O seguinte, vindo em nome do socialismo, robou e arruinou o país. O seguinte, que era prefeito de Antananarivo (Marc Ravalomanana), que foi destituído pelo atual há um ano atrás num golpe de estado, robou tudo o que ficava. Ele está pressionando os países ocidentais para voltar. Ele pede a libertação de todos os prisioneiros sem distinção entre os prisoneiros políticos e os ladrões. Na realidade, a distinção é impossível, porque muitos roubaram e mataram “em nome da política”, enquanto era pelo interesse pessoal. Com o atual presidente (Andry Rajoelina), é a cada dia pior (nota: criou uma policia especial recentemente, uma milícia, que faz graves agressões e roubos). Os que tinham capacidades, fugiram do país, muitas vezes porque eram ameaçados pelo poder político em Madagascar (assim, um padre do Prado de Madagascar está refugiado na França porque a sua vida foi ameaçada).

A situação política está se tornando a cada dia mais tensa. A volta do 20/4, houve um “falsa tentativa de golpe de estado” organizada pelo poder atual para tentar influençar a conferência atual em Maputo (África do Sul). Não deu certo, porque ninguém acreditou nesta fraco teatro.

No dia 28/4, o bispo e os padres, enquanto estavam almoçando, evocaram o período onde o arcebispado onde estou em Fianarantsoa, foi atacado por tropas armadas, as marcas das balas nas paredes, no ano de 2002, se eu bem compreendi. Diziam o medo que eles tinham que isso recomece. A conversa se fazia com grandes rizadas (não tão grande como as de Juarez…), com humor, um humor que escondia dificilmente a grande preocupação deles com o futuro imediato que fazia voltar à consciência momentos de medo fortes que nem conhecia, os mesmos que surgem quando evocam a eventualidade de uma amnestia geral.

Desde da quarta-feira 28, está ocorrendo uma conferência convocada pela Organização da União Africana, com a participação da África do Sul, da França e dos Estados Unidos da América. Todos os últimos presidentes, aqueles que arruinaram Madagascar estão se encontrando para brigar e ver quem vai poder dirigir o país e poder o pilhar ao seu proveito, sem perspetiva de amelhoração para a gente. Esperamos, pelo menos, eles chegarem com um acordo, portanto improvável, sem o qual o país pode cair na violência.

Como me preparar em viver o ministério de maneira significativa no meio deste mundo?

Não vim para resolver o problema da miséria, mas para apoiar os padres… Mas, como ficar numa tal postura e viver totalmente fora deste questionamento? Porém, mesmo na estreita perspetiva do apoio a o Prado, não é possível ficar fora, insensível às dificuldades da gente. O carisma do Prado é justamente de viver o ministério na partilha forte com os mais pobres.

O que fazer? Investir-me mais no humanitário, apoiar micro realizações aqui? Não faltam as O.N.G. (Organizações humanitárias Não Governementais), em particular católicas, mas, muitas vezes, é fonte de humiliação e isso coloca os padres locais em dificuldade em relação com os “vazaha” (nome dado aos estrangeiros europeus na língua malagasy). Assisti à avaliação de um projeto humanitário por uma associação francesa e passei por vergonha da relação induzida. O padre malagasy expressou depois comigo o quanto ficou humilhado. Portanto, era um projeto interessante. Se um padre “vazaha” fizer alguma coisa, porque ele tem contatos, possibilidades, se torna um obstáculo na colaboração com os padres malagasy que não têm esta possibilidade. Além disso, quando o apoio da associação estrangeira para, tudo está abandonado.

Formar-me de novo na medicina para cuidar algumas pessoas? No domingo 9 de maio, participarei à crisma numa missão rural onde me encontrarei com Valéria, médica e religiosa francesa, que conheci na paróquia onde iniciei o ministério. Acompanhei até a morte pelo câncer a sua tia e madrinha. Não duvido que vou sentir coisas fortes em mim, tal como quando entrei no Centro Diocesano de Saúde em Fianarantsoa. É difícil ser médico de formação e não fazer nada numa tal carência, e não perdi o gosto para este trabalho. Mas, tratar algumas pessoas, pedir medicamentos para alguns, o que isso vai transformar? Valéria, com quem me encontrei há uns dias, tinha o mesmo questionamento. Acredito no valor dessas realizações, mas busco um outro jeito de me situar.

Pelo momento, vejo um caminho possível: dar a conhecer a Pastoral da Criança que descobri no Brasil e que me encantou tanto pela intuição como pelos resultados. Conseguiram o resultado extraordinário de abaixar a mortalidade infantil por diarreia de 95% entre o ano de 1980 e de 2005, quer dizer em 25 anos. E se vive numa forte interação com toda a comunidade. Já evoquei esta realidade com o Pe Gilbert, responsável do Apostolado dos leigos e com Dom Fulgence Rabemahafaly, o bispo, que se interessaram bastante. Mas é preciso deixar o tempo de chegar. Olhei o preço da passagem Antananario – Rio de Janeiro… 4 800,00 € ou seja R$ 11 000,00 (acho que é possível encontrar mais barato a volta de 2 000,00 €). Tenho a convicção que está aí algo muito interessante abrindo uma colaboração entre um país emergente e um país que está adundando, apoiando-se nas potentialidades das pessoas locais, sem necessitar uma infraestrutura pesada e que gasta muito. Gilbert se interessou tanto que me pediu de vir encontrar duas leigas com as quais ele está trabalhando. Iniciou neste ministério há pouco. Se esta perspetiva se confirmar, sonha que a Igreja do Brasil se empanhará em convidar (e assumir o gasto) uma delegação da diocese de Fianarantsoa para eles virem ver o que existe no Brasil, e pessoas do Brasil vir apoiar aqui.

Se há uma pobreza que me atinge e que José Aristeu sublinhava no email que ele me enviou quando me apresentou Madagascar, é a pobreza “cultural”. Não sei qual palavra utilizar, mas é difícil não ver as dificuldades de raciocínio mesmo básico, as dificuldades a sair de um funcionamento onde se faz tudo igual sem se adaptar ao mundo que está evoluindo com tanta pressa. Atrás da riqueza cultural aparente, os cânticos, os discursos, que ritmam todos os encontros, há uma repetição, um ritualismo e um imobilismo impressionante. Victor, padre que nos acolheu no dia onde Dom Marcelin veio celebrar na paróquia onde iniciou o ministério de padre, pouco tempo após a sua ordenação episcopal, estava se perguntando em voz alta sobre esses “kabary”, discursos tradicionais, os qualificando de inúteis e arcaicos; mas, foi ele que fez o discurso mais demorando. O que escrevo aqui se inspira do que já percebi e do que li no livro do Pe Christian Alexandre.

Outra dificuldade: os inumeráveis conflitos ou preconceitos entre eles, que paralisam tanto a vida social como a vida eclesial. Isso tem a ver com a origem social, étnica ou com tal acontecimento pequenininho que eles não consegem em superar. Por exemplo, o bispo gostaria de me nomear ao seminário, mas ele percebeu que não pode neste momento porque a relação não está boa entre Gervais, vigário geral e responsável do Prado, e Gérard, reitor do seminário. Ambos eram na França no mesmo período e Gérard não se sentiu apoiado num momento onde precisava, quando o pároco dele na França deixou o ministério. Ai, ficou totalmente bloqueado ao ponto de deixar o Prado e de não me acolher porque sou do Prado.

Pe Bernard (Padre francês que se ordenou em Madagascar, entrou depois no Prado, tem 73 anos, e com quem partilho bastante) dizia que a corrupção atual e o período do socialismo destroiram o sentido do bem comum, do respeito de alguém. As pessoas têm medo entre elas. 4 empregados do arcebispado estão na prisão porque desviaram bens que eles tinham cargo de proteger. Há muitas mortes ou feridas por agressão, muitas vezes atingindo a cabeça. Há costumos que têm consequências ruins: os fogos nas pastas, as casas queimadas quando alguém falece dentro, etc. Para evitar, se constrói casas provisórias com bambu no pátio onde se colocam as pessoas moribondas para não se encontrarem na necessidade de queimar a casa.

Nesta revisão de vida, falo claramente das pobrezas. Fico portanto sempre maravilhado com a fé e o acolhimento deles, o respeito que têm as crianças, a alegria simples na vida do dia a dia.

A pobreza evangélica… quando se encontra rico no meio dos pobres…

Sinto-me riquíssimo no momento em que nunca vivi tão pobremente: comida que não está extraordinária, meios de transporte precários, cama, roupa, queda de energia (pouca frequente em Fianarantsoa que tem uma das únicas barragens hidroeléctricas do país), ausência de energia quando se vá nas paróquias do interior, Internet muito devagar e com numerosas quedas.

O que sinto mais, é o medo de me encontrar doente ou de ter um problema dentário. Sinto sobretudo a impossibilidade de falar, entender, as dificuldades de memorização que já notava e que verifico, o medo de nunca conseguir. Para não afundar, tento de perseverar no esforço, sem me preocupar demais com os resultados, dopado com os resultados na capacidade de ler em voz alta um texto, fazendo o possível e me entregando ao Espírito Santo pelo resto.

Mesmo se eu reduza tudo, é uma pobreza escolhida e sabendo que tenho em qualquer momento a possibilidade de escapar e que recebo 300,00 € do Prado a cada mês (900 000 Ariary). Faço o possível para gastar o menos do que possível e viver nas condições dos padres daqui, utilizando a bicicleta. Mas trarei uma bicicleta da França porque aquela que utilizo atualmente, uma bicicleta de recuperação, está perigosa, e não consigo em achar o material coreto para colocar freios que funcionam. Seria preciso trocar as rodas, os freios, etc. O que se vende aqui corresponde ao que os chineses têm a ousadia de vender nos países de Terceiro-Mundo: coisas que têm a aparência e o brilho do novo, mas que não têm a função. Por exemplo, uma chava comprada aqui, em vez de mover o parafuso, é ela que vai torcer-se… E tudo está assim.

Dá resultados assustadores: os carros do arcebispado voltam à garagem para ser manutencionados a cada dois dias, e as panas voltam imediatamente. No outro dia, um carro Renault 4l, que já foi colocado várias vezes na garagem para acertar os freios, atropelou uma mulher com a sua criança. Os freios não responderam. Outro Renault 4L teve um desastre incrível: os freios se quebrarm enquanto estava subindo a grande subida que vai ao arcebispado! Foi por trás e o motorista virou para lançar o veículo contre a calçada. O veículo invadiu a calçada e virou. Tinha as rodas contra a parede que está ao lado da estrada.

Fico feliz em me adaptar facilmente nesta precaridade, mesmo que tive problemas intestinais ligados às condições dos sanitários locais nos lugares onde fui no fim de semana, tão sujos ou inexistantes, que incentiva a esperar voltar em Fianarantsoa para ir. Deu diarreia a seguir.

Decidi ter um acesso Internet que me dê a possibilidade de ler o jornal, comunicar com o Brasil e a França. Gasto: 150 000 Ariary por mês (R$ 115,00), enquanto o salário mínimo é de 60 000 Ariary e que o salário do padre, uma vez todas as despesas dele pagas pela paróquia, tal como no Brasil, é de 100 000 Ariary (R$ 76,59; 1 € = R$ 2,30 = 3 000,00 Ariary). Estou pensando em comprar uma bateria solar para poder utilizar o computador numa paróquia rural onde irei provavelmente daqui uns meses e trazer medicamentos para o uso pessoal…

A pobreza forte à qual não posso escapar, é a língua… Trabalho como um louco para conseguir em falar, utilizando meios modernos (computador e smartfono que serve de dictafono) para apreender. Sigo aulas particulares, 6 h por semana (100 000,00 Ariary por mês). Graça a estes meios, consegui a chegar num bom nível para ler e celebrar. Estou o primeiro surpreendido, mesmo que ainda não consigo em entender todo o que estou lendo. Isso ganhou a simpatia dos colegas. Mas estou verificando a inquietuda que já tinha há uns meses: tenho problemas de memória maiores do que o normal, enquanto era o ponto forte quando tinha 20 anos. Estou incapaz de me exprimir, mesmo para frases simples, e ainda menos de entender o que dizem as pessoas que me dirigem a palavra. Apreendo uma palavra dez vezes e me esqueço dela. Já tinha esta dificuldade no Brasil enquanto as palavras se assemelhavam com as palavras franceses, pois aqui… Foi preciso um dia completo de esforço para conseguir a dizer as palavras do sinal da trindade e ainda não consegui em rezar o Pai Nosso sem ler. Estou quase conseguindo.

Podia pensar em conseguir a viver o ministério mesmo que não falasse a língua malagasy, porque foi colonia francesa e que me foi dito que “todos os padres falam francês”. A realidade é bem diferente: eles têm dificuldades em falar francês e, mesmo quando eles falam bem francês aparentemente, tudo se passa em malagasy. É realmente nesta língua que eles pensam, se expressam e dizem o que sintem. Há só na equipe Prado que aceitaram partilhar em francês, mas podia perceber o quanto isso é difícil para eles poderem se expressar realmente.

A pobreza, é ainda a do “vazaha”, numa país que é uma ilha totalmente fechada em si-mesmo, e que mixtura um forte complexo de superioridade e de inferioridade, que vive numa relação de atração e repulsão com a Europa, e numa rejeição forte da África. Cf. Livro de Christian Alexandre: “O malagasy não é uma ilha”. É a partir da leitura deste livro que me permito algumas análises confrontando com o que começo a perceber. Christian Alexandre é um padre filósofo que vive na França mas ensina por períodos regulares em Madagascar.

Mesmo quando falarei um poucadinho, talvez bem, se for possível, o que estou duvidando, ficarei sempre um estrangeiro, chamado em voz alta muitas vezes na rua: “salut vazaha!”

Uma pobreza dobra, a minha do ponto de vista da língua e a do país, que facilitam a minha chegada…

Tenho tanta consciência da ferida local, da ausência de perspetiva a vista humana, estou tão incapaz de falar e sem conhecer nada do jeito deles de fazer Igreja, e, talvez, colho a sabedoria fruto dos erros iniciais no Brasil[1], que ainda não errei demais (tão longo que posso saber com Pe Bernard a quem pedi de me alertar se eu errar, assim como o Pe Gervais), se não for uma pergunta que fiz ao Pe Hilarion, o ecônomo: para me preocupar com ele, lhe perguntei se tinha o diabete porque tinha um regimo alimentário. O bloqueou e Pe Gervais me pediu de nunca mais fazer perguntas “tão diretas”.

Pelo resto, não questiono nada, fico dizendo tudo o que me maravilha, fazendo atenção a não fazer demais para ser credível, neste país em caos, passando a maioria do tempo calado, sem entender nada das conversas a minha volta. Em relação à situação do país, nunca tomou a iniciativa de pedir notícias, esperando eles dizerem o que eles querem dizer e quando quiserem para captar informações. Me informo da situação no Internet.

É experiência de despojamento e entrega ao Espírito Santo no mesmo tempo que estou trabalhando sem parar, para acreditar que a minha presença puder dar frutos, que conseguirei em me expressar, me integrar. Na última revisão de vida, antes de sair do Brasil, lhes perguntei conselhos para a minha chegada em Madagascar. Vocês me convidaram para meditar o texto do dia, a experiência de Zacarias ficando na incapacidade de falar depois da experiência forte com o anjo… mas Zacarias ouvia e podia escrever o que queria dizer: “o seu nome será João!” E o silêncio demorou só 9 meses, o tempo da gravidez…

De todos os modos, este trabalho de louco para conseguir a ler e celebrar mesmo sem entender o que estou vocalizando, já me deu de ser acolhido. Talvez mesmo, seja um sinal que fala de Jesus Cristo aos no meio dos quais estou vivendo? Sei que esta disponibilidade para vir em Madagascar enquanto estava tão feliz em Cachoeiro de Itapemirim e particularmente em Dores, foi sinal para pessoas de lá se acredito várias expressões e uma boa partilha particular com o vigário geral no momento em que avisei da minha saída.

A minha presença já facilitou coisas: foi ocasião, pela primeira vez, um conselho do Prado de Madagascar encontrar-se e houve a publicação do primeiro número do boletim do Prado de Madagascar. O Prado da diocese de Fianarantsoa que não se encontrava mais se reúne todos os meses e decidiu passar de um encontro de 2 horas para um encontro de 3 horas. O caminho entre irmãos talvez vai ajudar Pe Gervais a não continuar em chegar atrasado saindo com antecedência ou cancelando os encontros.

Noto que uma ajuda forte para mim neste período, são os emails que recebo do Brasil, em particular do Pe Wagner e de Irmã Maria do Socorro, e de várias pessoas de Dores ou Guaçuí que têm Internet e que cultivam a fraternidade, dão notícias de lá, rezam em comunhão comigo. Há também o apoio de amigos e familiares da França, assim como a nossa equipe Prado Internet.

Um ponto difícil: a oração

Positivamente, vivo uma experiência monástica: levanto às 4h45, leio sem parar as leituras do dia, celebro às 6h (faço a leitura do Evangelho na catedral e, uma vez por semana, celebro sozinho, enfim, com 200 pessoas presentes, nas quais muitas crianças, a começar por 12 coroinhas), volto copiando o Evangelho do dia seguinte em francês, depois em malagasi, no missal, depois faço a tradução literal para entender como eles se expressam e conhecer o vocabulário. Depois, leio não sei quantas vezes o Evangelho em voz alta, ouvindo a gravação feita por um seminarista a cada dia. Assim, agora, quando proclamo o Evangelho, sei um pouco mais o sentido das palavras que estou vocalizando. Depois continuo trabalhando a língua, preparo uma pequenina homilia para a missa que celebro sozinho. 3 vezes por semana, vou às aulas. Participo do ofício das horas com os padres do arcebispado e os seminaristas aqui presentes. Lavo a minha roupa. Me deito às 21h30. No resto do tempo, quando não estou lendo em voz alta no meu quarto, estou calado, no meio das conversas que não entendo.

Estou nutrido por este “sim” para o envio em missão e para este despojamento, mas todos os momentos de oração transformam-se em esforço para falar, vocalizar, sem entender o que leio… Não tenho mais tempo para me encontrar na intimidade com Cristo. É este combate que constitui a minha oração. Mas vejo que tenho de reservar momentos de oração em francês (também em português, porque é nesta língua que rezo o terço, já desde da paróquia na França) e gratuitos.

Se eu não conseguir bem em rezar, vivo pelo momento a graça da entrega e nunca senti a saudade, a tristeza. Cada dificuldade bem concreta é ocasião de renovar um “sim” consciente à pessoa de Cristo e experimentar a alegria com tudo o que recebi dele até agora e que recebo aqui. Oxalá isso continuar assim!

Não sei se conseguirei em me conectar para o nosso encontro por Skype, nem se vocês terem a possibilidade e o tempo para ler e responder ao que preparei para a revisão de vida da nossa equipe Internet, mas o fato de preparar esta revisão de vida já me ajudou muito em arrumar o meu interior, em pensar e falar (escrever) na presença de Cristo, tentar de me colocar na escuta dele, poder sair um momento deste combate sem cessar de aprentizagem do malagasy que para só no tempo de ler o jornal francês “La Croix” (A Cruz, jornal católico) ou Zenit, ou para responder aos emails que recebo.

Qual for a nominação a seguir?

Nesta semana, tomei a iniciativa de pedir uma Entrevista com Dom Fulgence, porque, mesmo que seja um homem muito simpático, é tímido e reservado. Quando nos encontramos a primeira vez em Antananarivo quase não me comprimentou, e, aqui, até lá, não me propôs um encontro pessoal. Nos encontramos na presença de Pe Gervais.

Pedi de marcar este encontro porque ouvi Pe Gervais evocar diversos projetos em relação ao meu futuro, inclusive de me nomear secretário do arcebispado, para organizar este secretário, estabelecer uma base de dados que não existe pelo momento, corrigir os correios dele em francês, colocar os 2 ou 3 computadores em rede… em fim, nada que tem a ver com um ministério pastoral que me coloca em relação com a população, e um ministério no qual teria de exercer uma parte de controlo sobre outros padres.

Explicou que, anos atrás, pediu que Prado enviasse alguém para o seminário, mas que não foi possível. O seminário está crescendo e vai acolher 160 seminaristas em breve. É o seminário para todo o sul de Madagascar.

Tentei pedir uma nomeação em equipe rural com outro padre que estaria interessado pelo Prado se for possível, e que estaria querendo uma vida de equipe. Espero uma nomenação num “rural que não seja profundo demais”. Gostei tanto do que vivi em Dores e Guaçuí. Acho que é assim que terei a obrigação e a possibilidade de progredir rapidamente na língua, conhecer a vida da Igreja local, não ter um ministério com “autoridade” e poder apoiar o Prado de Madagascar. Um problema do Prado de Madagascar é que muitos dos 40 padres ligados com o Prado têm funções importantes: 2 bispos, 5 ou 6 vigários gerais, outros reitores de seminários. Isso pode deixar outros padres pensar em que o Prado seja para uma elita e ter ciúma. Ter um ministério mais ordinário e ao lado do povo seria um caminho para me tornar menos “vazaha”, estrangeiro. Sendo em equipe com alguém que compreende a minha outra função e a tem em estimo, que aceite associar-se neste serviço e compensar as minhas ausências quando irei dar formação numa outra parte do país, me ajudaria bem. Mesmo se devo ir como formador no seminário de Fianarantsoa depois, isso me ajudará para acompanhar melhor os seminaristas de conhecer de onde eles vêm e onde eles irão quando ordenados.

Chamo “rural que não seja profundo demais”, um rural que pode não ter energia, nem água que corre, nem banheiro (caso habitual no interior aqui), mas onde não nos encontramos com horas de pista impraticável uma parta do ano para chegar, tornando difícil o acesso a Fianarantsoa e ao resto de Madagascar, onde houver uma cobertura telefono mesmo que seja necessário de colocar uma antena (Internet pelo celular tal como tenho em Fianarantsoa…), onde não haja Pernalonga numerosos demais (denga, malaria, e outra doença que esqueci do nome), porque eles gostam muito do meu sangue… e como há possibilidade de ir nas paróquias do interior que são na altitude ou nas paróquias que são no litoral, prefiro as da montanha. Dizendo isso, disse claramente a Dom Fulgence que aceitarei qualquer paróquia que seja, inclusive o que pedi para evitar, com certeza ainda mais facilmente que não acho que ele me enviara nas paróquias mais isoladas. Ele queria mesmo eu me organizar direitamente para me nomear e achar o lugar onde ser acolhido, o que não aceitei.

Lhe entreguei 3 textos para me apresentar: uma releitura ao pedido do Prado no ano de 1998: “Crescer na fé no exercício do ministério”, “Colocar o Evangelho nas mãos dos pobres” e a tradução de um curriculum vitae que me foi pedido em Cachoeiro. Ele reagiu à mensão da J.O.C., juventude operária católica, que acompanhei na França, dizendo que faltava aqui na cidade de Fianarantsoa e que conheceu enquanto ele era vigário na diocese de Créteil e estudava em Paris.

Dom Fulgence parece ter ouvido o que dizia. Parece querer me nomear primeiro no interior, na beira da Estrada Nacional 7, num patrimônio e paróquia onde seja possível formar uma equipe.

Pelo momento, não vejo bem o que vai ser o serviço do Prado. Gostaria de me tornar mais um apoio, mas não aquele que dá direitamente a formação e acompanhar padres de lá para eles darem a formação. O programa que já marquei está assim. Com um outro padre da região, visitar os pradosianos em outras regiões.

Luzes no Evangelho desta dia e de amanhã

“Teria muitas coisas para lhes dizer, mas, no instante, ainda não têm a força para ouvir. Quando virá o Espírito da Verdade, ele guiará vocês para a verdade total.”

Esta frase corresponde bem com a experiência espiritual que estou fazendo agora e no meu percurso até aqui: chamada a acreditar que o Espírito Santo está agindo agora, amanhã, e me deixar guiar por Ele e não só pelas minhas forças, olhar o futuro de Madagascar com esta luz e não só no ponto de vista humano.

Perguntas:

  • Como vocês acolhem estas reflexões?
  • Como discernir em relação à missão a seguir?

O nosso próximo encontro:

Terça-feira 11 de maio, 8h30 (Cochabamba), 9h30 (Melo), 13h30 (Temps universel), 14h30 (Pontoise), 15h30 (Fianarantsoa)

[1] O meu jeito de questionar direitamente e rapidamente no Brasil deu frutos no nível local mas me cortou de vários padres da diocese de Cachoeiro de Itapemirim

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