Colocar o Evangelho nas mãos dos pobres

Colocar o Evangelho nas mãos dos pobres

Quando se lê as cartas do Padre Antônio Chevrier, fundador da Associação dos Padres Diocesanos do Prado, se vê que ele não se limitava em “fazer estudo do Evangelho ”; incentivava outros a fazerem também: os seminaristas, as irmãs, as pessoas que o acompanhavam. O seu jeito de animar o rosário era também uma maneira de “colocar o Evangelho nas mãos dos pobres”.

1. Como tentei colocar o Evangelho nas mãos dos pobres na França

Seminarista nas “Minguettes”, bairro popular de Lyon, na saída da missa, acolhi Martine, menina de 12 anos, não batizada, absolutamente não catequizada e revoltada porque, no velório de seu pai, falecido por consequência da doença alcoólica, o Padre tinha dito que Deus tinha “chamado o seu Pai”. Ela vinha perguntar: “Onde está o meu pai? Por que Deus provoca tais dores?” Para responder às suas perguntas, perguntei-lhe se tinha amigos e iniciamos uma leitura de todo o Evangelho de Marcos com a pergunta: “Quem é Jesus?” Cada semana, convidavam outros colegas, enquanto a pedagogia utilizada não tinha nada para atrair: leitura integral do Evangelho de Marcos e realização de um esquema com 4 colunas: a referência, o que faz Jesus (ele reza, ensina, etc.), a “palavra de vida”, a atitude dos discípulos quando se falava deles.

A partir daí, não cessei de construir toda a pastoral provocando as pessoas a fazer um “estudo do Evangelho” e adaptando-o aos grupos encontrados. Em Champigny , nos subúrbios de Paris, provoquei os imigrantes portugueses a fundarem equipes de estudo do Evangelho para complementar as equipes existentes (equipes de ação católica, de liturgia, do rosário). Dezoito anos depois, há ainda 10 equipes que se encontram todos os meses, mais de cem pessoas. Leram os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as cartas de São Paulo, e, agora, livros do Antigo Testamento. Cada um lê um ou dois capítulos em casa, no mês anterior, e vêem partilhar as “palavras de vida” que anotam num caderno, fazendo eventualmente a ligação com a própria vida. Encontram-se sem padre para acompanhar. Cada um fala por sua vez, intercalando as “palavras de vida” com um refrão orante, sem nunca polemizar, entrar em discussão . Fiquei maravilhado pelos frutos deste trabalho: pessoas entraram na ação católica, outras se tornaram catequistas. Luisa, faxineira que tinha só 3 anos de escola primária, se tornou “Leiga com Cargo Eclesial” e assumiu a responsabilidade de uma paróquia de 30 000 habitantes onde não havia mais padre (um padre vinha celebrar as missas, os sacramentos, mas a responsabilidade da animação da paróquia era assumida por Luisa que recebia salário para isso).

Benvinda, originária das Ilhas do Cabo Verde, adaptou a proposta a pessoas iletradas: ela gravava o texto. Cada um escutava em casa e vinha partilhar a “palavra de vida”.

No serviço a padres, religiosos, diáconos e leigos, sendo permanente do Prado da França, pregava nos retiros do mesmo jeito: indicava um texto, convidava as pessoas a tomar um tempo de busca pessoal, animava uma partilha e dava alguns elementos a partir daí. Saboreei profundamente as riquezas que brotaram deste método. Vi comunidades de religiosas ou grupos de padres que tinham dificuldades em falar, em escutar, se estimar, receber nesta prática um nova comunhão.

Ajudei também Leigas com Cargos e Eclesiais que acompanhava, a ter a ousadia de propor largamente este trabalho a partir da Palavra de Deus. Quantas resistências encontram: “mas as pessoas não são capazes, não serão atraídas, não entenderão, são jovens demais…

No momento em que escrevo este testemunho, recebo um email de Odile, Leiga com Cargo Eclesial em Lyon, partilhando a sua admiração diante do que as crianças da pré-catequese conseguiram a exprimir na escuta do Evangelho do encontro entre Jesus e Bartimeu. Ela escreve:

“O que me tocou mais é que, quando se coloca a palavra de Deus nas mãos dos mais pequeninos, Cristo fala por eles, pelos pais deles. Um menino de 4 anos disse: “Quando se torna amigo de Jesus, não ficamos mais sentados, se põe de pé no caminho.” Eu repeti esta frase todo ao longo do nosso encontro. Um outro, de 6 anos de idade, disse: “Não compreendo porque a multidão impede aquele que se encontra a beira do caminho de atingir Jesus. Eu acredito que é porque ele grita forte: e, quando se grita, se incomoda. Quando se é diferente, se incomoda. Mas, o que me toca, é que Jesus o acolhe, lhe fala, só a ele.”

No Sínodo sobre a Palavra de Deus, o Cardeal Daneels disse que “o principal obstáculo à proposta da palavra de Deus não estava no mundo, mas no coração dos cristãos que se intimidam em nutrir-se da palavra e propô-la” . Concordo plenamente. Acho que nós, pradosianos, ficamos bem distantes para perceber e viver esta intuição tão forte de Antônio Chevrier.

2. A Escola de Teologia Bíblica na paróquia de Dores do Rio Preto, paróquia rural do Brasil

2.1 O método

Chegando numa paróquia rural pobre com um alto índice de pessoas iletradas, lancei uma “Escola de Teologia Bíblica”. Na realidade uma escola de “estudo do Evangelho” à maneira de Antônio Chevrier.

As pessoas são convidadas a vir, se puderem, tendo lido um capítulo dos Atos dos Apóstolos (texto que vamos ler em 2 anos – 2008 e 2009). A pergunta principal é a seguinte:

– “Se pudesse guardar só uma ou duas ou três frases, que me toca, me ajuda a rezar, quais seriam?”

Os que querem, escrevem também orações a partir de um versículo ou de um trecho.

Comecei no ano 2007 propondo a partilha sobre o Evangelho de Lucas uma vez por mês, às 19h, em Dores e no patrimônio de Pedra Menina, ponto oposto da paróquia de Dores (30km ao norte de Dores) ao pé do Pico da Bandeira. No segundo encontro, 70 pessoas (metade vindo das comunidades rurais) se encontraram em Dores e 30 em Pedra Menina, numa paróquia que tem 6 800 habitantes num território de 80Km por 15Km. Mas as energias derreteram progressivamente e fechamos o ano com 10 pessoas em Dores e 10 em Pedra Menina.

Portanto, com Irmã Maria do Socorro , tínhamos a convicção que era a “urgência do momento”, para retomar as expressões de Antônio Chevrier, que “Deus não podia querer que uma obra tão bela e que deveria dar tão belos frutos, fosse tão imperfeita…”  “As pessoas não vêm, temos de ir buscá-las” .

Na Assembléia da Paróquia de dezembro de 2007, lançamos o projeto de, em cada comunidade de base, ficar 30 a 45 minutos depois da missa mensal com os que estivessem interessados para meditar os Atos dos Apóstolos. Avisamos que prestaríamos este serviço mesmo se houvesse só uma pessoa a ficar. Aconteceu uma vez. O método é o seguinte:

– Tempo de partilha das orações escritas por participantes a partir de tal ou tal versículo (quando alguém preparou)

– Proclamação de um trecho do capítulo (em duas comunidades, tenho de ler porque ninguém é capaz de ler de forma que os outros possam entender.

– Tempo de silêncio para os que não prepararam poderem escolher uma “palavra de vida”

– Partilha das palavras de vida (eventualmente, eu sublinho um aspecto do versículo proclamado numa perspetiva de formação)

– Muitas vezes, pergunto, ou as pessoas exprimem espontaneamente, como isso se vive hoje ou se é luz para hoje na nossa vida do dia a dia, ou na vida da Igreja.

– Assim, se faz pouco a pouco a meditação de todo o capítulo.

– Tempo de oração final onde repetimos algumas das “palavras de vida”, rezamos o Pai Nosso e a Ave Maria.

Há pessoas que gastam quase uma hora a pé à noite para vir à igreja da comunidade de base, na lama ou na poeira, depois de jornadas de trabalho muito cansativas nas plantações de café. No dia seguinte, têm de se levantar às 5h. Portanto, é uma média de 220 pessoas que participam cada mês nesta paróquia de 6 800 habitantes. Em Dores, onde propomos duas vezes este encontro fora da celebração do domingo, na primeira quarta-feira do mês, são só 5 pessoas que participam às 15h e 6 às 19h… Cada mês, animamos 17 vezes um tempo de partilha sobre os Atos: 2 vezes em Dores e 15 vezes nas comunidades de base rurais.

Esta Escola de Teologia Bíblica é um complemento aos Círculos Bíblicos, base da Igreja da nossa diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Ela torna possível, ajudado pelo Padre ou por Irmã Maria do Socorro, de ler a seguir um Texto Bíblico , de aprender a escutar melhor, a polemizar menos, não fazer fofocas, não ficar no nível de uma leitura moralizante, a fazer ligação com a vida e a tirar uma catequese desta leitura, a progredir numa leitura orante. Vários Círculos Bíblicos acabaram por causa de animadores não formados. Aqui, formamos no mesmo movimento, animadores e participantes de Círculos Bíblicos, que poderão assim melhorar o funcionamento e se ajudarem quando se encontram nos Círculos Bíblicos.

Insistimos para que os catequistas, ministros da Palavra e da Eucaristia, coordenadores de Círculos Bíblicos, coordenadores de comunidades, equipes de Batismo, membros dos diversos movimentos etc. participassem desta formação, sem ser obrigatório.

2.2 Algumas luzes descobertas nesta leitura dos Atos dos Apóstolos

Além da partilha orante das “Palavras de vida”, é ocasião de uma verdadeira catequese e de uma formação de discípulos e apóstolos.

– Atos 1 foi ocasião de tomar mais consciência que é Jesus que tomou a iniciativa de fundar a Igreja e que a participação na Igreja não é escolha do homem para resolver as dificuldades ou buscar “o lugar onde se sentem bem”, a seguir de Jesus que não escolheu ir até a morte da cruz “para se sentir bem”, mas para responder ao chamado do Pai, “precaução em relação às motivações dos católicos para sair para as Igrejas evangélicas ou para buscar o mesmo “bem estar” na Igreja católica, na Renovação Católica Carismática. Os participantes fizeram também a ligação entre a eleição dos coordenadores das comunidades de base e a eleição de Matias.

– Atos 2 deu para perceber a fundação missionária da Igreja movida pelo Espírito Santo. Meditamos também a presença de Maria no meio da Igreja, os critérios da comunidade ideal e, em cada comunidade, verificamos que se vivia as mesmas dimensões, percebendo melhor o que é o dízimo, ainda mais, porque em Dores, decidimos partilhar 5 % do nosso dízimo com os Vicentinos para viver concretamente e comunitariamente a caridade, esperando poder aumentar esta proporção quando o dízimo crescer mais.

– Atos 3 e 4 foi ocasião de tomar consciência que a Igreja tem de anunciar a ressurreição por palavras e ações libertadoras, reerguendo a humanidade ferida. Houve toda uma reflexão para identificar as nossas paralisias, os paralíticos das nossas comunidades, fazer a ligação com a fundação da Pastoral da Sobriedade, reler os “prodígios” vividos pelos apóstolos de hoje na nossa paróquia nas últimas semanas, realizar que Cristo fundou sua Igreja com pessoas “simples e sem instrução… e, portanto, tinham autoridade” . Numa comunidade, pessoas iletradas se propuseram em formar de novo a equipe de Batismo que não existia mais desde meses, a partir da descoberta deste versículo. O chamado em “obedecer a Deus e não aos homens” tocou também as pessoas.

– Seria interessante retomar todos os capítulos, fonte de muitas luzes. Destacaria o trabalho a partir de Atos dos Apóstolos 10 e 11 onde fizemos uma pesquisa com a pergunta seguinte: “Quais são os elementos que permitiram Pedro e Cornélio de se deixar conduzir pelo Espírito Santo?” Foi ocasião de alertar contra os desvios do Pentecostismo fora e dentro da Igreja católica, de sublinhar a importância da razão, e que a emoção percebida por Cornélio e as pessoas da sua casa não foi emoção provocada nem manipulação.

2.3 Frutos para o Padre, as pessoas, a comunidade

– Não sou mais o padre que passa uma vez por mês, celebra a missa e vai embora. Este tempo de meditação me aproximou profundamente das pessoas, e não só de maneira afetiva, ligando as pessoas ao padre, mas na escuta da Palavra, ligando as pessoas a Cristo na sua Palavra. Escutando a ligação que elas fazem com a vida da comunidade, quando exprimem onde eles perceberam “prodígios”, paralíticos andando de novo, descubro a vida concreta da comunidade, a ação concreta do Espírito Santo nesta comunidade, os desafios que vivem. Quanto mais caminhamos, menos buscam prodígios em coisas inexplicáveis, curas mágicas, e mais falam da vida ordinária, de reconciliações, de pessoas que tomam confiança em sim e aceitam cargos, tomam a palavra na comunidade.

– Nesta partilha, me aproximo também e partilho a minha própria experiência espiritual: “Eu irei para o meio deles, viverei a sua vida; estes meninos verão de mais perto o que é o padre e eu lhes darei a fé.”

– Para mim mesmo, estou “obrigado”, mesmo sem querer, a me deixar modelar pelos Atos dos Apóstolos. Quando partilho 17 vezes ao mês o mesmo capítulo, acaba morando em mim. Saio nutrido pelos encontros nas comunidades onde me foi dado a escutar, recolher a Palavra de Deus na boca e na vida do povo, e não esgotado. Nós temos tantas dificuldades em encontrar tempo para realmente fazer estudo do Evangelho. Ao inseri-lo em todos os encontros pastorais “me obrigo” para este trabalho de estudo do Evangelho que não se limita na leitura do Evangelho do dia.

– Num momento onde padres e leigos, no Brasil e fora, têm a tentação de se tornar psicólogos, de se fechar no acompanhamento individual de pessoas apoiando-se em primeiro lugar sobre a psicologia, ou sobre a “psicoespiritualidade”, ou têm a tentação de atrair “multidões” pela emoção provocada et a manipulação psicológica (Pentecostismo, shows), é ocasião acompanhar grupos, ajudando as pessoas a se apegar à pessoa de Cristo e à sua Palavra, e não à pessoa do padre, ou ao ambiente do grupo.

– Durante um ano, fiz estudo do Evangelho sobre tudo o que se acha relacionado com a “palavra de Deus” no Evangelho de Lucas, nos Atos dos Apóstolos e nas cartas. Anunciar a Palavra é verdadeiramente a missão de Jesus e daqueles que ele envia a seguir. A Palavra é em si mesmo o ator da evangelização, a espada do Santo Espírito. Verifico-o com força. Ao alimentarmo-nos com os Atos dos Apóstolos temos frutos imediatos: pessoas se reconciliam, outras se tornam realmente dizimistas , outras se propõem para cargos, tomam iniciativas missionárias com criatividade, casais melhoram o relacionamento.

– É um lugar de construção humana. Pessoas deixam a vergonha e tentam ler em público, se descobrem capazes de achar e partilhar “palavras de vida”, de as comentar, de se escutar, de suscitar a palavra do outro, de fazer a ligação com a vida deles e da comunidade. Escolhendo ser menos professor possível, não fazer palestras, mas ajudar as pessoas a descobrirem por si mesmo, lhes dou oportunidade de descobrir as capacidades que eles têm, de depender menos de um “professor”. Regularmente, os ajudo a perceber as contradições que podem existir entre a nossa vida eclesial e a palavra de Deus, trabalhando o despertar do espírito crítico deles num Brasil tão invadido pelos fenômenos sectários, ou irracionais, a corrupção, incluído na Igreja católica.

– É um lugar de construção da comunidade: vi comunidades dinamizadas, reconstruídas, nesta leitura orante dos Atos dos Apóstolos. Vi comunidades com grandes divisões, conseguir a superar estas divisões com a leitura na presença do padre e da irmã. Crianças com 8 anos, ou pessoas que não têm formação religiosa, que são catecúmenos, participam com uma inteligência de coração que assusta aos adultos. Pessoas iletradas ficam, escutam, algumas tomam a palavra. Toda a vida da comunidade, das famílias, se encontra contemplada à luz da palavra de Deus, partilhada.

– É um lugar de discernimento. Estudando os Atos dos Apóstolos, as pessoas compreendem melhor as decisões tomadas no C.P.P., a fundação evangélica dessas decisões, assim como a decisão que tomamos de não mais aceitar doações públicas, leilões, rifas, e outros recursos tão importantes para eles. Assim também como a decisão de partilhar uma parte de tudo o que recebemos, incluído quando uma comunidade recebe uma doação tal como material de construção. Ela partilha 15 % do valor do material recebido com a diocese. Eles entendem melhor também o ministério do padre, olhando a atividade missionária de Pedro e Paulo, dos outros, e nos cobrando se não nos tornarmos missionários. Eles tomam consciência da raiz da vocação deles de “discípulos e apóstolos”, diz Antônio Chevrier, “discípulos e missionários”, diz Aparecida.

– É por excelência um lugar vocacional: colocando-se a escuta da palavra de Deus, contemplando os apóstolos que se deixam levar pelo Espírito Santo, fazendo esta partilha com o padre, a irmã, jovens poderão ouvir o chamado para se tornarem padres, religiosos e religiosas. Estou convencido que Sidney, que participou das missões onde fazia este mesmo trabalho com os jovens, achou ali um elemento para entrar para o seminário. Dez jovens da paróquia participaram dos encontros vocacionais da diocese este ano a partir do trabalho de missões feitas com eles e da Escola de Teologia Bíblica.

– É um lugar de formação para o encontro pessoal com Cristo na sua Palavra, para a oração com o Evangelho. Pessoas não vêm mais à Igreja sem escolher antes uma “palavra de vida”, provocadas também pelo fato que, antes de iniciar a minha meditação, pergunto sempre: “Haverá algumas pessoas que aceitariam partilhar uma palavra de vida?”. Não têm mais medo de tomar a palavra quando os convido a fazer, e mesmo sem eu convidar. Estou trabalhando e provocando todos os que aceitam e podem ter um caderno onde copiar cada dia, na oração, a palavra de vida no Evangelho do dia, de preparar por escrito a partilha sobre os Atos dos Apóstolos, a inventar eventualmente orações a partir do texto meditado, a notar também fatos da vida que são sinais do Espírito Santo para eles. Alguns começaram.

– É um lugar de edificação da família. A cada preparação e celebração de casamento, a cada encontro da pastoral familiar, chamo os casais a tomar um tempo semanal de oração onde eles lêem juntos o Evangelho do domingo, guardam um tempo de silêncio, depois partilham as “palavras de vida”, antes de partilhar o que aconteceu na semana para agradecer, pedir ajuda, pedir perdão a Deus e um ao outro. Vi um casal dizer: iniciamos porque encontramos um casal que atravessou várias crises e que disse que isso transformou a vida deles.

– É um lugar de libertação. É impressionante como eles acham aí a força para falar da dignidade no trabalho e dos desvios nas eleições.

2.4 O retiro dos ministros da Palavra e da Eucaristia

Recebendo pressões e ameaças no início da recente campanha eleitoral municipal, propus o caminho seguinte para o retiro dos ministros da Palavra e da Eucaristia no qual 80 ministros participaram:

Iniciamos com a missa paroquial às 8h. Às 9h30, introduzi o nosso encontro dizendo que era o retiro anual normal dos ministros, mas que correspondia também à abertura oficial da campanha eleitoral, e que íamos fazer deste retiro um retiro de início da campanha, buscando nos Atos dos Apóstolos que estudávamos desde fevereiro, luzes para nos tornar verdadeiros “ministros da comunhão”, verdadeiros “ministros da Palavra”, neste tempo particular, e não só nas celebração, atrás do ambão o do altar, mas também na família, no trabalho, nas nossas coligações políticas.

Formamos 8 grupos, cada um meditando um dos 9 capítulos  que já tínhamos meditado nas comunidades, de mês em mês. Cada grupo foi encarregado de buscar “palavras de vida” e de buscar luzes para exercer o ministério de maneira geral, e de maneira particular no tempo das eleições.

Avisei também que havia “tempestade” no patrimônio  e que guardaríamos um tempo para que eles fossem o meu “conselho” em relação às decisões a tomar.

Em cada grupo, designei um ministro com as indicações e seguimentos: você terá de animar 4 minutos de meditação durante a adoração Eucarística: começará lembrando-nos o conteúdo do capítulo que o seu grupo meditou (e que todos conheciam porque foi estudado em cada comunidade); depois, não tentará dizer tudo o que o grupo refletiu, mas, nutrido por esta partilha, nos ajudará a meditar, partilhando “palavras de vida” e luzes para ser ministro, em particular neste tempo de eleições.

Trabalharam por grupos das 9h45 até às 11h, hora do tempo de adoração Eucarística. Oito ministros pregaram. Escolhi pessoas muito diferentes: Maria-José, professora aposentada, e também a Mãe de Elielton , ministra da Palavra, 4 anos de escola primária, e que me encanta pelo seu dom da palavra de Deus. Escolhi uma ministra da Eucaristia sem formação escolar que nunca pregou pelo dom que descobri nela na Escola de Teologia Bíblica.

Este tempo de adoração, partilhando luzes encontradas nos Atos dos Apóstolos foi um verdadeiro Pentecostes. Lamento só de não ter gravado. Deixei-me ensinar. Fiquei feliz de não ter de pregar num momento onde não tinha a liberdade interior para fazê-lo por causa das ataques e ameaças recebidas, de poder me deixar levar pela fé deles.

Fizemos a experiência que Cristo se revela aos e pelos pequeninos, e que, não são os que têm mais formação que entram melhor ao encontro com Cristo na Palavra, muito pelo contrário.

Colhi os frutos desta insistência recebida do Padre Chevrier de colocar a Palavra de Deus nas mãos dos pequeninos, de uma Igreja que se nutre largamente com a Palavra, prioridade tão forte de Bento XVI e refletida no Sínodo atual, que me parece ser realmente a urgência do momento.

Eis algumas das luzes propostas pelos oito ministros:

– Atos 1: “Temos de testemunhar até aos confins da terra, incluído na realidade difícil da campanha eleitoral”.

– Atos 2: “Temos de rezar e pedir ao Espírito Santo, abandonar as nossas práticas antigas”.

– Atos 3: “Temos de ter a ousadia de falar “em nome de Jesus” e ajudar as pessoas de Dores a se levantar tanto nas eleições, como na fundação da Pastoral da Sobriedade”.

– Atos 4: “Não devemos ter medo porque somos pessoas simples e sem instrução, de ter ousadia de falar em nome de Jesus. Temos de ajudar as pessoas a resistirem à tentação de se deixar comprar e ajudá-las a preferir obedecer a Deus em vez de aos homens. Temos de rezar para pedir a força de anunciar a Palavra de Deus com todo a ousadia, fazer prodígios”.

– Atos 5: Não devemos nos tornar semelhantes a Ananias e Safira, que mentiram e fingiram partilhar tudo. Não devemos ter medo de sofrer por Cristo e achar a nossa alegria ali. Temos de ser como Gamaliel nas nossas coligações, capazes de falar na contramão para chamar as pessoas a não correrem o risco de entrar em guerra contra Deus.”

– Atos 6 e 7: “Devemos ter a mesma ousadia como Estêvão e saber também perdoar”.

– Atos 8: “Não devemos fazer como o mago Simão que queria comprar o poder de dar o Espírito Santo. Não podemos vender ou comprar os nossos votos. Temos de nos aproximar dos que são comprometidos nas eleições, caminhar com eles, como o fez Filipe com o Eunuco Etíope”.

– Atos 9: “Temos de entrar na luz que vem do céu, na luz de Deus, não perseguir Cristo. Temos de acreditar que o outro pode mudar e ver um irmão no adversário político, como Ananias acolhendo Saulo que vinha para perseguir os cristãos”.

Deste tempo de meditação, foi confirmada a proposta que fiz de chegar 15 minutos mais cedo durante os dois meses da campanha eleitoral a todas as celebrações, missas, iniciando com um tempo de adoração Eucarística, cantando a oração de São Francisco de Assis enquanto se coloca o Santíssimo, escutando o Evangelho do dia, partilhar palavras de vida, rezando o Pai Nosso de mãos dadas, cantando a oração de São Francisco de Assis enquanto o Santíssimo está sendo retirado. Esses momentos eram animados pelos ministros e eu ficava calado, maravilhado de ver essas comunidades escutarem a Palavra, capazes de partilhar palavras de vida, entrando nas celebrações e nas missas depois deste momento de preparação à escuta da palavra. Conseguimos assim a transformar o clima em Dores em relação com o que aconteceu 4 anos atrás.

3. Viver a dinâmica de Aparecida que se encaixa tão forte no carisma do Prado

Na nossa contribuição para a Assembléia da nossa diocese, retomando o Documento de Aparecida, concluímos:

Com a graça do Espírito Santo, queremos ajudar uns aos outros a nos tornar “discípulos e missionários que respondam à vocação recebida e comuniquem por toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo. Não temos outro tesouro à não ser este. Não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado adorado, anunciado e comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades e resistências. Este é o melhor serviço, – o seu serviço! – que a Igreja deve oferecer às pessoas e nações” (DDA 14).

“Neste encontro com Cristo, queremos expressar a alegria de sermos discípulos do Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do Evangelho. Ser cristão não é uma carga, mas um dom: Deus Pai nos abençoou em Jesus Cristo seu Filho, Salvador do mundo” (DDA 28).

Padre Bruno Cadart

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